Instórias #2

A cidade está a acordar quando Dionísio, taxista invulgarmente calado, está a terminar o seu turno. O cansaço da condução nocturna e das conversas habilmente evitadas acumula-se-lhe nos ombros e pesa-lhe nas pálpebras. Ao virar em direcção à garagem, o sol baixo das primeiras horas matinais incide-lhe directamente nos olhos e obriga-o a abrandar enquanto procura os óculos de sol no porta-luvas, às apalpadelas. Assim que se habitua à claridade da manhã, repara na fachada do número vinte, nas sombras dos cabos do eléctrico que se cruzam ao longo da parede, num padrão que se repete, com sorte e com sol, uma única vez por dia. Pensa nas pessoas que transporta no seu turno, nas histórias por norma complexas que lhes ouve e que o obrigam à devolução dos monossílabos estritamente necessários para fugir à falta de educação. O sol há-de erguer-se e deitar e camuflar as sombras dos cabos do eléctrico no leito cinzento do paralelo. E então será dia, a noite e o descanso de Dionísio. Por enquanto, a fachada da porta vinte lembra-lhe a hora a que se iniciará nova corrida nocturna.

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