Um Inverno que não se acaba

Um Inverno que não se acaba

@jagjaguwar

 

Esta coisa de nos vermos trazidos à existência sem a termos pedido é uma bênção, mas nem sempre o parece. Quer o façamos de forma consciente ou inconsciente, é preciso inspirar e expirar repetidamente, e nesta tarefa de inspirar o oxigénio e expirar o dióxido de carbono está envolvida uma complexa reacção feita de perdas e danos a que chamamos vida. Ao homem, agradecido pela oportunidade de vivenciar e experimentar o que há de bom, é-lhe pedido que suporte com a dignidade possível o que lhe surge de menos bom. Está escrito em algum lado que somos direitos e deveres. No mínimo, temos o direito de respirar e o dever de aguentar. Alturas há, no entanto, em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo, em que o lombo do homem fica cansado de tanto açoite e este se vê empurrado contra a parede. Fica difícil respirar, quanto mais aguentar. Estas são alturas muito favoráveis à tomada de decisões erradas.
No dia em que um desgosto de amor e uma doença de nome complicado encurralaram um homem numa cabana do frio Wisconsin, o mundo teve a sorte de esse homem se chamar Justin Vernon. Na vida desse homem, o amor escrevia-se Emma e a doença soletra-se m-o-n-o-n-u-c-l-e-o-s-e. A decisão errada – não vou cair na tentação de dizer que era a fácil – era desistir. Justin preferiu a introspecção, fez-se urso e decidiu hibernar, mas em vez de dormir, pensou. E durante três meses, pensou. Durante esse período de tempo, precisou de deixar a solidão sozinha na cabana algumas vezes. Na companhia da natureza, compreendeu rapidamente a necessidade de dois actos: apanhar e cortar lenha. Quando o vento uivava, os lobos sopravam nuvens de fumo branco e o frio queimava, Justin acendia uma fogueira. E se o amor é cego e é fogo que arde sem se ver, já o homem e a natureza, somados, são uma equipa visivelmente feita para sobreviver. Aos medos e aos precipícios.
Um homem a pensar de cabeça fria, durante três meses, numa cabana do Wisconsin. O mundo teve a sorte de esse homem pensar e respirar música. Ordenar as ideias, no caso de Justin Vernon, resultou numa pilha de nove músicas. Um Inverno intemporal. Um bom Inverno.

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