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Instórias #3

José sai da sua vivenda de 220.000€, entra no seu clássico comprado em terceira mão por 20.000€ e dirige-se ao local de trabalho. Pelo caminho, tem de parar para abastecer gasolina sem chumbo a 1,39€/litro e, no momento em que se prepara para pagar, pede uma garrafa de água de 60 cêntimos. Estaciona, sem excepção, no Silo Auto, por cerca de 25€. Nos curtos metros que o separam do destino, aproveita para tomar um café, por 80 cêntimos. Chega ao seu escritório de renda de 400€ e ali passa as cinco horas seguintes.
Abandona o trabalho a tempo de passar pelo seu ginásio de 80€. Ao chegar ao carro, repara que se esqueceu das luzes acesas. Deu à ignição e confirmou a sua suspeita. A bateria. Chamou o reboque, sem custos, uma vez que esse serviço está incluído no seguro de 600€. Ao custo da bateria não terá como fugir e a “brincadeira” não deve ficar por menos de 100€. Com o tempo ali perdido, perde a ideia da ida ao ginásio, chama um táxi e vai directo a casa por 11,40€. Não está com cabeça para mais do que encomendar o jantar. A campainha toca menos de uma hora depois. Senta-se à mesa depois de entregar uma nota de 20€ ao estafeta e de lhe dizer para ficar com o troco. O dia termina em frente ao seu ecrã de 2300€, na cama. Sem preocupações.
José não é, obviamente, um daqueles seres heróicos  – e são muitos – que vivem com um ordenado de 500€, uma casa de 230€ e um infantário de 150€ para pagar e a quem o que sobra é para dividir como se pode entre vestir e alimentar o filho. Para esses, a vida está pela hora da morte.

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