Monthly Archives: Outubro 2015

Instórias #5

Passei a vida a fazer-me rijo. Rijo porque a escola era outra e a régua a isso levava. Às asneiras de criança seguia-se sempre a reprimenda, palma da mão a ferver de vermelha e olhos morejados de umas lágrimas que não podiam deixar-se cair. Rijo porque a recruta não era opcional e porque, mais do que treinos, havia uma realidade chamada ultramar. Continuar a avançar no capim alto quando um camarada acabava de tombar. O coração apertado na boca e a passada larga de medo. Depois rijo pelo regresso e pelo rótulo que me colavam. Retornado. Como se, por ter experimentado outra vida, eu tivesse abdicado da minha portugalidade. Retornado. Eu, que nem voltei por vontade própria, que por mim ainda lá estava. Retornado, quando empurrado era tão mais adequado. Empurrado e despojado. E rijo. Rijo porque recomeçar a isso obriga. Rijo por mim e por ti, que desde cedo te juntaste a esta árdua tarefa de dar seguimento à vida. Contigo sempre foi mais fácil. E agora, depois de tanto enrijecer, percebo que dura é a tua ausência. O que mais me custa, nestes dias, é não pensar em ti. Foram tantos anos. A cama teima em acordar-me à mesmíssima hora a que costumavas acordar. Desperto ao som de estalidos de uma madeira velha que também te sente a falta. Depois é o vazio. Um vazio que, não sendo nada, me lembra de ti em tudo. Saio com intenção de espairecer, mas depressa dou por mim a percorrer os caminhos que mais vezes percorremos juntos. E sinto-te novamente a falta. Sinto eu e sentem as pombas, que levantam voo ainda antes de eu me aproximar, como que habituadas à tua presença. E eu olho para o lado e sinto-te ainda mais a falta. E volto à infantil forma de segurar lágrimas e ao olhar morejado. Só que hoje as mãos são rijas e o ardor que sinto é no peito.

Anúncios
Com as etiquetas ,

A palavra

O meu pai tinha um bar, mas insistia comigo para que fosse preciso na linguagem, e eu segui o seu exemplo nisso. As palavras têm significados. Até o meu pai sabia isso, apesar de ter estudado apenas até ao sétimo ano. Tinha duas coisas atrás do balcão, para o ajudarem a resolver discussões entre os clientes: um bastão e um dicionário.

Philip Roth, A mancha humana

Com as etiquetas ,
%d bloggers like this: