Monthly Archives: Novembro 2015

Instórias #6

Encontram-me aqui sentado, a beber água sem efectivamente ter grande sede, enquanto penso e recupero da tentativa de assalto de que fui vítima. Nunca me tinha acontecido. Nunca pensei que pudesse acontecer tão facilmente, em plena cidade, à luz do dia e à vista de toda a gente. O que também nunca pensei foi que um ladrão pudesse fazer perguntas tão difíceis.
Mas antes de chegarmos ao momento crucial deste traumático encontro, deixem que me acalme um pouco mais, que ainda tenho o coração a querer fugir-me do peito. Olho distraidamente para a carteira e reparo agora no cartão de cidadão a que teimosamente insisto em chamar, antes de pensar e de me corrigir, bilhete de identidade. António. Severo, como o meu pai, ainda que eu só de nome. Não quero com isto queixar-me do meu pai, sei perfeitamente o que o levou a ser assim, aquilo por que passou para aguentar o barco instável que é uma família quando o peso das responsabilidades está mal distribuído. Da minha mãe só lembro mesmo o nome. Ana. Tão pouco.
Olho para a fotografia do bilhete que agora é cartão e só me dá vontade de rir. Lembro-me tão bem do martírio que foi tirá-la: a funcionária a dizer que eu não me podia rir (porque isto de ser cidadão deve ser coisa séria) e eu cada vez mais aflito para conter o riso. E depois olhava para a Helena e então é que estava tudo estragado, ela muito vermelha, a mão a esconder boca e nariz e, no entanto, o resto do corpo a rir. Que saudades, Helena. A casa está tão diferente. A mesmíssima casa em que vivemos anos a fio e durante anos a fio sempre igual, por muito que lhe mudássemos a disposição dos móveis ou o papel de parede. A casa está tão diferente. Já não há sorrisos na televisão, nem sequer nas comédias. Já não há bocejos no sofá, por mais tarde que seja. Já não há “ais” debaixo do armário da cozinha, por mais fundo que me esforce por limpar. Tenho a impressão que me levou a casa, embora me custe entender como diabo a enfiou no caixão minúsculo em que se foi embora. O que aqui ficou foi um esqueleto de casa. Uma coisa vazia, que vou enchendo com saudades.
Atrás do cartão de cidadão, encontro alguns bilhetes de cinema antigos. O que ela gostava de ir ao cinema. Estes dois filmes, lembro-me que os vimos de seguida, estava tão feliz à saída do primeiro que eu corri à bilheteira comprar entrada para outro. Lembro-me que a escolha do filme foi tão criteriosa quanto perguntar qual era o próximo. Não me interessava o que fosse projectado, interessava-me, isso sim, prolongar-lhe a felicidade.
Entre esta papelada toda que são recibos e talões de compras, encontro ainda as pontuações de um jogo de Mahjong. Aquela chinesice era ao mesmo tempo divertida e relaxante. Quando calhávamos de ter a companhia do Sérgio e da Elisabete para o serão, era o que jogávamos, normalmente. Nesta partida ganhou a Elisabete, com uma enormidade de pontos. A Helena ficou logo a seguir. E o mais incrível nisso é que aposto que adormeceu durante o jogo, como também era costume. E eu ali, bem acordado, a ver o jogo passar. Os jogos de tabuleiro nunca foram o meu forte.
Mas adiante, agora que já estou mais calmo. Queria eu contar que não imaginava que um ladrão pudesse fazer perguntas tão difíceis.
– A carteira ou a vida?
Caramba. Logo a mim, que trago a vida na carteira.

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A respiração como parte da música

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Da paternidade #20

Nisto de explicar qual é a diferença entre ter o primeiro filho e o segundo, vou tentar falhar por pouco: a primeira experiência é mágica, intensa, muda completamente a forma como vemos o mundo; a segunda é só como se não tivesse acontecido a primeira. É, de novo, tudo novo.

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