Instórias #7

Instórias #6

@___keepdreaming___ – www.instagram.com/___keepdreaming___

 

Alice é uma mulher perfeitamente adaptada aos dias de hoje, independente, segura e ambiciosa. As suas longas pernas parecem estar configuradas para experimentar os caminhos menos experimentados e tentar os percursos menos cómodos. Usa sapatilhas por não suportar o estereótipo da mulher que chega ao sucesso montada em saltos altos. À altura da anca traz a privacidade e o mistério: ninguém sabe da sua vida. A barriga está reservada para a guerra entre os prazeres da boa mesa e os sacrifícios do ginásio. Ao peito carrega a vontade de chegar sempre mais longe e a habilidade que nem todas as mulheres têm de mostrar sem expor. Os braços, a exemplo das pernas, são longos. E incansáveis. No pulso do braço esquerdo mora um pequeno ditador, o único a quem decidiu e aceitou submeter-se para chegar ao sucesso, entregando-lhe a gestão do tempo. Alice não é mulher que se veja muitas vezes de braços caídos. Os ombros têm a robustez de alguém que não se acomoda e o pescoço moreno esconde-se entre o cabelo. Alice não é mulher para aceitar sequer as imposições genéticas. Pinta-o. Está-se nas tintas para as opiniões de terceiros. Não esconde que o pinta. A boca mastiga a mesma independência que as pernas e não se cala. É, quase sempre, mais rápida do que a cabeça. Daí que diga o que quer e o que não quer. O nariz é fino e revela, sozinho, toda a confiança do corpo. Se os olhos são o espelho da alma, da alma de Alice pouco se poderá dizer, uma vez que estão  invariavelmente protegidos por uns óculos escuros.
Tem 39 anos, ganha bem e faz o que quer. Ou assim o julgava, até se deparar com um problema chamado Filipe. Conheceu-o há umas semanas e já há partes do seu corpo a resmungarem do que fazem. Já teve ocasiões em que as pernas lhe pareceram pedir para não ir tão longe, em que a anca desejou menos privacidade, em que os braços se lhe sentiram sem força e esquecidos do relógio, alturas em que o peito protestou com vigorosos batimentos, em que os ombros ficaram tensos e o pescoço se escondeu ainda mais entre os cabelos pintados. Com a boca, chegou a dar-se o caso de ficar muda. Mas foi a barriga a grande dinamizadora deste protesto. Gerou-se nela um vazio tão frio…
(se é que faz sentido caracterizar o vazio, talvez esta confusão seja a estranha forma de protesto da cabeça)
Houve até uma ocasião em que a barriga teve ideias maternas. Foi então que Alice percebeu que não há corpo livre para um coração aprisionado.

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