Monthly Archives: Janeiro 2016

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Flores

FloresA leitura de Para onde vão os guarda-chuvas, concluída há já algum tempo, foi uma experiência eucalíptica: espalhou raízes e secou tudo à minha volta. Estive muito tempo sem vontade de ler o que quer que fosse, a pegar e a abandonar rapidamente leituras que deviam, em qualquer outra altura, prender a minha atenção. Tardei a recuperar e, avisado por essa experiência, quando peguei neste Flores, fi-lo com naturais precauções. Ainda assim, por muitos cuidados que possamos ter, é impossível ler Afonso Cruz de forma superficial.
(Entremos mais dentro na espessura.)
Poucas páginas depois de se ter iniciado o romance torna-se difícil não estar mergulhado naquele universo tão típico do autor, de seres curiosos na forma de ser – e de pensar – e de aforismos raras vezes mal conseguidos.
(Entremos mais dentro na espessura.)
Por muito que estejamos a ler histórias de alguém a quem é atribuído um nome próprio, a quem é dada uma personalidade cativante, as personagens principais de Flores são o amor e a memória. O que resta de um sem o outro. O que pode um pelo outro. Não é um livro resplandecente como Para onde vão os guarda-chuvas, mas é, uma vez mais, um livro bem plantado no crescente canteiro de gente que olha para Afonso Cruz como uma das vozes maiores da actual literatura portuguesa.

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Instórias #8

O que sou hoje tem muito a ver com os meus sonhos de criança. Na minha pequena mas infinita cabeça, as pedras que colocava no chão à distância de meia dúzia de passos formavam uma baliza tão autêntica quanto as dos estádios que admirava pela televisão. Os postes eram de uma geometria incerta e a barra estava muitas vezes à altura das conveniências.
(- Foi por cima!!)
As linhas que delimitavam o campo eram normalmente menos flexíveis, uma vez que o terreno de jogo se estendia até onde fosse possível jogar. Todos os campos eram diferentes e o que havia de mais regular entre eles era a irregularidade do piso. Nesses estádios improvisados dava para tentar imitar quase tudo o que os ídolos faziam. Quase tudo, porque arriscar entradas de carrinho ou defesas mais vistosas era coisa para os mais corajosos ou, como dizíamos na altura, malucos. O futebol era tudo. Durante o dia, tudo o resto era um relógio em contagem decrescente. Ao final do dia, chegar a casa era o que de mais parecido havia com ter bancadas e público, um público de duas pessoas que eram os meus pais, fiéis depositários dos relatos das fintas e dos golos. Um dia com futebol era um dia ganho, por muito que tivesse perdido todos os jogos. A noite era uma sucessão de repetições mentais. Na minha pequena mas infinita cabeça, as jogadas aconteciam como na televisão, tudo muito devagar, eu a relembrar cada detalhe, o balanço da mão para trás, o olhar do David na baliza, o Sardinha a vir na minha direcção, a bola a sair do meu pé e a dar tempo para toda esta descrição até atravessar a baliza imaginária e abanar as redes que eram o arbusto atrás desta.
– Bom dia, senhor Alcino, desculpe interromper os seus pensamentos, parece bem longe daqui.
– Bom dia, eu é que peço desculpa, andava pela infância. Enfim, memórias. A verdade é que se têm tornado as minhas melhores clientes. Ou as mais frequentes, pelo menos.
O que sou hoje tem muito a ver com os meus sonhos de criança. As horas que dedicava à bola eram as mesmas horas que dedicava a maltratar os sapatos, o que deixava o meu público de duas pessoas um tanto irritado. Como sabia que não eram tempos de abundância, passei muito tempo a remediar costuras e colagens do meu calçado, a adiar-lhes o fim, pela sobrevivência do futebol.
Crescer roubou infinitude à minha cabeça: menos sonhos e mais realidade. E a realidade encarregou-se de me mostrar que o meu futebol era pouco, não chegava para fazer face às necessidades, e que o meu jeito para consertar calçado era capaz de trazer alguma coisa para a mesa.
– Cá estão os seus sapatos, tem aqui solas para mais uma época.

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Look up here, I’m in heaven

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