Monthly Archives: Março 2016

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Sai a 1 de Abril, não é mentira. E, entretanto, já pode ser ouvido na íntegra aqui.

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Educar com mindfulness

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Os desafios e as dificuldades da paternidade obrigaram-me a largar por uns instantes a literatura e a agarrar-me, a conselho de um amigo, a este Educar com mindfulness. Educar é tarefa complexa e, tendo a felicidade de conviver com quem o faz de forma muito natural e consciente, percebi que precisava de fazer mais. E melhor. Mikaela Övén deixa neste livro interessantes reflexões sobre a parentalidade – a tal consciente! – e algumas ferramentas que podem ajudar a alcançá-la. Pelo meio, há a meditação e o mindfulness. Não se julgue que é acabar de ler o livro e tudo corre às mil maravilhas, como a autora faz questão de sublinhar várias vezes. É preciso tentar, tentar e tentar. E, entretanto, falhar. Creio que não será possível a todos os pais implementarem todos os ensinamentos e sugestões de Makaela Övén, mas acredito que o que for conseguido fará alguma diferença.Este livro não é para avaliar de forma literária, mas sim prática. E essa prática, recente, gradualmente apreendida e ainda muito incompleta, leva-me a aconselhá-lo a quem, como eu, sinta que tem que mudar alguma coisa na relação com os filhos.

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Das manias

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A raposa azul

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Normalmente, as epopeias enchem uma quantidade de páginas capaz de impor respeito só pelo volume. Sabemos ao que vamos, sabemos que vai ser como a vida, com direito a tudo, das conquistas à tristeza profunda. E depois há pequenas maravilhas como este livrinho de Sjón, que se lê de uma assentada, mas que quase alcança a vida. A raposa azul é um mini-Gente independente. É um retrato feroz, mas apaixonado, de uma Islândia que é o《limite do habitável》. Divide-se em três intervalos cronológicos e todos eles, apesar de diferentes em intensidade, são acutilantes.
Pequeno grande livro, que impõe respeito pelo que vale.

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Da sobrevivência

O animal tem de tentar não se esquecer que o homem é um caçador.

Sjón, A raposa azul

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Instórias #11

A espera não é uma ciência exacta. A exactidão das coisas é uma ilusão. Uma ilusão como a que vivemos, cheia de sonhos e objectivos que inicialmente pareciam os mesmos e que afinal não eram. Uma ilusão como o amor que julgávamos sentir e que, aparentemente, foi um entusiasmo de descobrimentos, de terra nova por explorar, por conhecer. Traçado o mapa das nossas personalidades e particularidades, veio a acomodação. Apesar de tudo, com isso podia eu bem. Com o que eu não me sentia capaz de aguentar era com aquele filme clássico a várias cenas: o chegares tarde e a más horas e o cheiro do álcool e de perfumes demasiado adocicados para um homem. Eu até a indiferença estava capaz de aguentar. A sombra de outras é que me afogueava e me roubava o sono. E entretanto veio a gota de água. Sentir a tua mão em mim de outra forma que não para me acarinhares, de outra forma que não para me cobrires de desejo. Aconteceu a primeira vez e eu nem soube reagir. Assim que pude pensar – e demorei a conseguir fazê-lo -, tratei de o justificar como sendo um excesso que não se repetiria. Só que repetiu, uma e outra vez. Não há ilusão que resista ao peso da mão. E ao medo. Não podia fingir-me eternamente adormecida quando chegavas a casa. E foi então que saí.
Só que a espera não é uma ciência exacta e resiste a coisas que a razão não consegue explicar. Demora o tempo que precisares, desculpa-te pelo que fizeste e promete que vai ser diferente. Até ver que é mentira poderei sempre ser feliz.

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Biblioteca pessoal

Biblioteca pessoal

Haverá pouca gente com a autoridade de Borges para falar acerca de literatura. Escritor de méritos reconhecidos e leitor a quem nem a falta de vista conseguiu trair, o autor de Ficções compila neste breve volume algumas das leituras que considera obrigatórias, pelos mais diversos motivos. Da poesia à prosa, dos ensaios às epopeias. Dos autores clássicos aos contemporâneos, dos mais inventivos aos conservadores. Refere Eça, Kafka, Conrad e outros tantos. Biblioteca pessoal não será uma obra literária de referência, mas pode ser uma preciosa bússola para quem anda.perdido entre escolhas literárias.

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Qual é o livro da tua vida?

As respostas possíveis a esta dificílima pergunta, aqui. Ou aqui. Ou até mesmo aqui.

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Instórias #10

Rodrigo trabalha como jornalista, entalado num fato à medida. Tão à medida que lhe é impossível perder a postura, a seriedade e o rigor. Só que Rodrigo cresceu menino irrequieto e essa prisão de tecido só está fechada no horário de expediente. Chega à redacção sem a formalidade do fato, desmonta da bicicleta e prende-a ao poste que fica quase em frente aos escritórios. Às costas, uma mochila. Veste o fato, cumpre o horário e volta a sair em cima da bicicleta, feito Joaquim Agostinho. Aventureiro e livre. Pelo caminho, não resiste a qualquer coisa de esteticamente aprazível e volta a descer da bicicleta. Enquadra-a de forma habilidosa e usa a câmara do telemóvel para fazer de Henri Cartier-Bresson. Original e criativo. Demora o que pode pelas ruas, enquanto há luz para fotografar e condições para pedalar. Chegado a casa, despe novamente essas duas peles, toma um banho e janta abreviadamente em frente às notícias. Arrumada a cozinha, faz-se Jorge Luis Borges e mergulha na biblioteca. Curioso, disciplinado. Gosta dos clássicos russos e de Flaubert, mas é em Pessoa que, em tudo o que faz, mais se revê e melhor se define: heterónimo.

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A submissa e outras histórias

A submissa e outras histórias
Bastavam duas novelas para este livro valer a pena: Uma história dos diabos e A submissa. É nelas que Dostoiévski aparece em todo o seu esplendor, a explorar de forma exímia os conflitos e as inquietações morais, a fazer com que o leitor se questione e se examine. No mínimo, consegue que o leitor se impaciente e sinta as histórias como suas, sofra com elas e as queira resolver. A indiferença a este registo de Dostoiévski é tarefa árdua, se não impossível. O problema destas recolhas de textos é que depois, entre estes, aparecem obrigatoriamente uns mais inócuos, que não resistem a eclipsar-se na presença destes corpos maiores do universo do autor. Acontece com A centenária, com O crocodilo, Sonho de um homem ridículo – interessante por explorar os vícios da condição humana -, Menino numa festa de Natal e outros. Mas pior do que ser inócuo é ser enfadonho, como acontece com Notas de inverno sobre impressões de Verão, um relato um tanto pretensioso e intelectualmente forçado. Aqui, as páginas avançam a custo e temos dificuldade em reconhecer Dostoiévski. Estas notas não faziam falta a um livro que, de forma geral, se lê bastante bem.

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