Instórias #10

Rodrigo trabalha como jornalista, entalado num fato à medida. Tão à medida que lhe é impossível perder a postura, a seriedade e o rigor. Só que Rodrigo cresceu menino irrequieto e essa prisão de tecido só está fechada no horário de expediente. Chega à redacção sem a formalidade do fato, desmonta da bicicleta e prende-a ao poste que fica quase em frente aos escritórios. Às costas, uma mochila. Veste o fato, cumpre o horário e volta a sair em cima da bicicleta, feito Joaquim Agostinho. Aventureiro e livre. Pelo caminho, não resiste a qualquer coisa de esteticamente aprazível e volta a descer da bicicleta. Enquadra-a de forma habilidosa e usa a câmara do telemóvel para fazer de Henri Cartier-Bresson. Original e criativo. Demora o que pode pelas ruas, enquanto há luz para fotografar e condições para pedalar. Chegado a casa, despe novamente essas duas peles, toma um banho e janta abreviadamente em frente às notícias. Arrumada a cozinha, faz-se Jorge Luis Borges e mergulha na biblioteca. Curioso, disciplinado. Gosta dos clássicos russos e de Flaubert, mas é em Pessoa que, em tudo o que faz, mais se revê e melhor se define: heterónimo.

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4 thoughts on “Instórias #10

  1. Helena Carriço diz:

    Gosto das tuas “Instórias” !

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  2. deep diz:

    Tantos de nós gostaríamos de despir o fato e de dar liberdade aos heterónimos que nos habitam.
    Gosto do texto. Parabéns.
    Para quando um livros com estas “Instórias”?

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