Monthly Archives: Abril 2016

Instórias #14


O olhar de David para a máquina fotográfica não expressava bem desconfiança, mas antes uma espécie de surpresa. Uma surpresa de alguém que não está habituado a ser o centro das atenções. Nem sequer a dividi-las. Em casa, pouca sobrava, gastava-se praticamente toda nas palavras invariavelmente gritadas, nas sobrancelhas franzidas e no fogo que tomava conta do rosto dos pais. Quando calhavam de reparar em David, já só tinham energia para instruções básicas como anda para a mesa, vai tomar banho ou vai-te deitar. Naquela casa, nunca se abriu a porta ao carinho, três bocas já eram muitas para alimentar e, para gritar, duas bastavam. Na rua, a atenção era um bocadinho mais democrática, verdade seja dita, mas também era solicitada em maior escala. Mais do que dividida, tinha que ser esquartejada. Havia ainda a escola, mas David não carregou essa ilusão durante muito tempo. A escola estava reduzida a mecanismo para repetir informações e avaliar se essas informações eram apreendidas. A professora não chegava para trinta e seis crianças que, antes de aprenderem português e matemática, precisavam de aprender a saber estar. À professora, restava manter-se no seu canto, defender esse espaço mínimo com o ilusório chicote de uma cada vez menos reconhecida autoridade, não fazer grandes investidas e, dali, em aparente segurança, ditar o programa a que alguém resolveu chamar de educativo. E David, como em casa e como na rua, passava pela sala de aula como um número associado a um nome.
Habituado, portanto, a uma invisibilidade que os outros meninos fantasiam como super-poder, mas que David sabia ser mais motivo de fraqueza do que de força, apeteceu-lhe ir ter com a rapariga que apontava a lente fotográfica na sua direcção e perguntar, munido do tal olhar de surpresa que não convém confundir com desconfiança:
– ‘tou mesmo na foto?

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A Ilha de Sukkwan

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O romance de estreia de David Vann desenrola-se numa ilha do Alasca em que os únicos contactos com o exterior são um rádio e as muito esporádicas passagens de um hidroavião. É lá que Jim tenciona passar um ano, na companhia de Roy, seu filho, sob o pretexto de se conhecerem melhor e de se aproximarem. Desvenda-se logo nesta intenção o motor de toda a narrativa: a culpa. A culpa por não ter sido um pai presente e por tudo o que, entre diálogos e monólogos, vamos percebendo que não funcionou na vida de Jim. O isolamento a que se entregam quase que os obriga a descobrirem mais um do outro e de si próprios. O problema desse conhecimento é que, muitas vezes, arrasta com ele coisas com as quais não queremos lidar, com as quais não sabemos lidar. E é então que o livro se transforma num daqueles casos de leitura em que uma página puxa a outra.Não se espere de A Ilha de Sukkwan algo de literariamente muito inesperado ou trabalhado. A história é, como a escrita de Vann, simples e directa ao essencial. O livro é, como uma isolada ilha do Alasca deve ser, fria e dura.

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O Tiny Desk Concert que faltava

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Instórias #13

Onde Raúl vivia, todos o conheciam. Aos homens inspirava respeito e às mulheres arrancava suspiros. Vestia sem mácula, invariavelmente fato e chapéu – que levantava sempre que cumprimentava alguém, e cumprimentava toda a gente, diga-se, e retirava sempre que entrava em algum sítio. Sereno e de excelente trato, usava para com todos um registo que a oralidade tem em perigo de extinção. Excelentíssimo senhor, faça o obséquio. Permita-me o atrevimento de lhe elogiar a elegância, senhora. Abundante em cuidados, abria a porta a quem calhasse, estendia a mão às senhoras que desciam um degrau que fosse e conduzia a cadeira a quem quer que com ele se sentasse. Uma coisa unia vizinhos e vizinhas: achavam-no um verdadeiro cavalheiro.
Aos sessenta e seis anos, consciente da impressão que passava, sentiu a necessidade de se confessar. Como nunca foi muito religioso, fê-lo através de um anúncio pago à palavra ao jornal local. Abdicou do poder de síntese que tinha e estendeu a confissão a 192 palavras. Um custo mais do que justo para o alívio que sentiu.

Auto-retrato
Conheci Ernestina num bar, nos idos anos oitenta, e tive todos os pensamentos que possam imaginar. Não havia muito de grave se não ma tivesse apresentado o meu bom amigo Henrique, com notório júbilo, como sua noiva. Pensei em como faríamos tudo sem nada. Pensei nisso nesse dia e, culpo-me tardiamente por não ter conseguido evitá-lo, nos muitos dias que se seguiram. Até que cometi a fatalidade de a abordar com esta irracionalidade. Levantou a mão e virou costas sem chegar a bater-me, negando-me um castigo que, descobri recentemente, seria em todo o caso menor do que o da culpa que carrego. Ignoro se algum dia contou ao Henrique. Se nos afastámos foi porque não fui capaz de o olhar nos olhos. Conto-o agora. Desculpa. Nesse dia perdi a cabeça. Literalmente. Tive essa certeza quando cheguei a casa despido do chapéu. Chorei. Peço que não se condoam, porque muitas das lágrimas foram pelo chapéu.
Não sou quem julgam. Não sou exemplo. Falho e peco. Esta foi só uma dessas ocasiões. Pretendo que guardem de mim a imagem certa, por muito errada que seja. Sem enganos.

Raúl, 20 de Abril de 2016

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Plano de evasão

Plano de evasão

Henrique Nevers chega a um pequeno e curioso arquipélago-prisão com a missão de ajudar o governador na sua administração. Longe da sua terra e de Irene, por quem sofre de amores, começa por se revelar disposto a passar despercebido ao máximo e regressar o quanto antes a França. No entanto, as actividades que vai observando despertam-lhe curiosidade e não consegue colocar-se à margem dos dias. Castel, o misterioso governador do arquipélago, guiará Nevers por uma trama que vive, essencialmente, da forma brilhante como Bioy Casares – não são à toa os elogios do muito respeitado Jorge Luis Borges – a narra. Os relatos dos acontecimentos chegam-nos pela voz do tio de Nevers, apoiados por alguma correspondência deste, num exercício muito cuidado e rigoroso. A história é interessante, mas é a mão de Bioy Casares que a eleva à condição de excelente livro.

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Linhas

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Trazer a Primavera nos ouvidos

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Ar de Dylan

Ar de Dylan

Regressar a Vila-Matas faz-se com relativa segurança e expectativa, depois de O mal de Montano e Viagem vertical. É um autor que vive e respira literatura e que, por isso, enche os seus livros de boas referências – Ar de Dylan não é excepção. Termina-se este livro com a sensação de se terem lido várias histórias dentro de uma mesma história. A de Lencastre, escritor que é apresentado nas primeiras páginas, logo no seu funeral, a de Vilnius, seu filho e, no mínimo, a do próprio Vila-Matas. Esta última não é evidente, não há sequer pistas que o indiquem, mas sabendo que há sempre qualquer coisa de autobiográfico nos romances e tendo já alguma familiaridade com a obra do autor catalão, é uma impressão que não parece descabida.
Aventure-se portanto neste livro quem por gosto tiver emaranhados de histórias bem escritas. Não é um livro que faça esquecer o já aqui referido O mal de Montano, mas é uma boa companhia para a chuva que está prometida.

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Viagens interiores

As viagens decorrem sempre por dentro de nós mesmos, costuma dizer Eduardo Lago, um amigo. Atravessa-se o universo, diz ele, efectuando um percurso em que coincidem o ponto de partida e o de chegada; quando se fecha o anel, já mudámos de maneira tão intensa que nos é difícil reconhecermo-nos, mas no antigo Odisseu continua vivo o adolescente.

Enrique Vila-Matas, Ar de Dylan

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Caminhada

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Caminhada, palestra muitas vezes proferida por Henry David Thoreau, é, ao mesmo tempo, um elogio à natureza virgem, a mais pura e inexplorada, e uma reflexão sobre o caminho tomado pelo homem. Entre reflexões interessantes, algumas um tanto extremadas e um ou outro paralelismo bem conseguido, este breve livro deixa algumas pegadas no leitor, mas, talvez pelo seu cariz mais oral, não chega a marcar profundamente. Dirá muito enquanto discurso, diz relativamente menos enquanto obra literária.

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Instórias #12

Enquanto tomava atenção às pressões que o manómetro indicava e ao comportamento de linhas e mangueiras, não deixou de reparar no labor repetido a toda a hora pelas gaivotas que faziam do terminal de descargas sua casa: levantavam voo com um mexilhão preso no bico e demonstravam, em breves segundos, a compreensão de conceitos físicos e matemáticos que o homem leva trimestres a estudar. A altura a que elevam o mexilhão tem que ser suficiente para que o bivalve abra ou parta aquando do embate no solo, mas esta é a mais básica das noções que as gaivotas evidenciam ter. Num dia ventoso como o que se fazia sentir, tendo uma estreita língua de betão a estender-se sobre o mar, aquelas aves resolviam equações de várias incógnitas e sabiam perfeitamente onde deviam largar o mexilhão para que este, considerada a altura, a força da gravidade, a massa e, pelo menos, a velocidade do vento, caísse na ponte e não na água. A operação repetiu-se vezes sem conta, durante aquela manhã, sem lembrança de casos de insucesso.
E no fundo, prova de que há muita escola fora da escola, naquele terminal tínhamos um homem que passou largos anos a estudar e que olhava para um manómetro, umas linhas e mangueiras, enquanto que as gaivotas, nascidas e criadas num ninho arquitectado a fio de nylon, restos de conchas e pedaços de plástico recolhidos na praia, aplicavam conhecimentos que nunca perderam tempo a estudar.

Com as etiquetas

Diz-se na Nova Inglaterra que cada vez menos pombos nos visitam todos os anos. As nossas florestas não têm poisos para eles. Assim, ao que parece, também cada vez menos pensamentos visitam cada adolescente todos os anos, pois os arvoredos das nossas mentes jazem devastados – destruídos para alimentar as inúteis fogueiras da ambição, ou vendidos como lenha -, e já quase não há um ramo onde possam poisar. Já não constroem ninhos nem se multiplicam entre nós. Numa estação mais suave, talvez uma débil sombra paire sobre a paisagem do pensamento, nas asas de algum pensamento na sua migração primaveril ou outonal, mas, olhando para os céus, somos incapazes de detectar a própria substância do pensamento. Os nossos alados pensamentos convertem-se em aves domésticas.

Henry David Thoreau, Caminhada

Desflorestação mental

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