Instórias #12

Enquanto tomava atenção às pressões que o manómetro indicava e ao comportamento de linhas e mangueiras, não deixou de reparar no labor repetido a toda a hora pelas gaivotas que faziam do terminal de descargas sua casa: levantavam voo com um mexilhão preso no bico e demonstravam, em breves segundos, a compreensão de conceitos físicos e matemáticos que o homem leva trimestres a estudar. A altura a que elevam o mexilhão tem que ser suficiente para que o bivalve abra ou parta aquando do embate no solo, mas esta é a mais básica das noções que as gaivotas evidenciam ter. Num dia ventoso como o que se fazia sentir, tendo uma estreita língua de betão a estender-se sobre o mar, aquelas aves resolviam equações de várias incógnitas e sabiam perfeitamente onde deviam largar o mexilhão para que este, considerada a altura, a força da gravidade, a massa e, pelo menos, a velocidade do vento, caísse na ponte e não na água. A operação repetiu-se vezes sem conta, durante aquela manhã, sem lembrança de casos de insucesso.
E no fundo, prova de que há muita escola fora da escola, naquele terminal tínhamos um homem que passou largos anos a estudar e que olhava para um manómetro, umas linhas e mangueiras, enquanto que as gaivotas, nascidas e criadas num ninho arquitectado a fio de nylon, restos de conchas e pedaços de plástico recolhidos na praia, aplicavam conhecimentos que nunca perderam tempo a estudar.

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