Instórias #13

Onde Raúl vivia, todos o conheciam. Aos homens inspirava respeito e às mulheres arrancava suspiros. Vestia sem mácula, invariavelmente fato e chapéu – que levantava sempre que cumprimentava alguém, e cumprimentava toda a gente, diga-se, e retirava sempre que entrava em algum sítio. Sereno e de excelente trato, usava para com todos um registo que a oralidade tem em perigo de extinção. Excelentíssimo senhor, faça o obséquio. Permita-me o atrevimento de lhe elogiar a elegância, senhora. Abundante em cuidados, abria a porta a quem calhasse, estendia a mão às senhoras que desciam um degrau que fosse e conduzia a cadeira a quem quer que com ele se sentasse. Uma coisa unia vizinhos e vizinhas: achavam-no um verdadeiro cavalheiro.
Aos sessenta e seis anos, consciente da impressão que passava, sentiu a necessidade de se confessar. Como nunca foi muito religioso, fê-lo através de um anúncio pago à palavra ao jornal local. Abdicou do poder de síntese que tinha e estendeu a confissão a 192 palavras. Um custo mais do que justo para o alívio que sentiu.

Auto-retrato
Conheci Ernestina num bar, nos idos anos oitenta, e tive todos os pensamentos que possam imaginar. Não havia muito de grave se não ma tivesse apresentado o meu bom amigo Henrique, com notório júbilo, como sua noiva. Pensei em como faríamos tudo sem nada. Pensei nisso nesse dia e, culpo-me tardiamente por não ter conseguido evitá-lo, nos muitos dias que se seguiram. Até que cometi a fatalidade de a abordar com esta irracionalidade. Levantou a mão e virou costas sem chegar a bater-me, negando-me um castigo que, descobri recentemente, seria em todo o caso menor do que o da culpa que carrego. Ignoro se algum dia contou ao Henrique. Se nos afastámos foi porque não fui capaz de o olhar nos olhos. Conto-o agora. Desculpa. Nesse dia perdi a cabeça. Literalmente. Tive essa certeza quando cheguei a casa despido do chapéu. Chorei. Peço que não se condoam, porque muitas das lágrimas foram pelo chapéu.
Não sou quem julgam. Não sou exemplo. Falho e peco. Esta foi só uma dessas ocasiões. Pretendo que guardem de mim a imagem certa, por muito errada que seja. Sem enganos.

Raúl, 20 de Abril de 2016

Anúncios
Com as etiquetas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: