Monthly Archives: Maio 2016

O Torcicologologista, Excelência

O Torcicologologista ExcelênciaPorque as estantes das bibliotecas não são, apesar de tudo, iguais às de casa, não foi desta que me foi possível trazer para casa o livro que falta para fechar a tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares. Veio, em vez desse, o mais recente O Torcicologologista, Excelência. Se os livros de O Reino são livros negros no conteúdo e na apresentação, este está quase no extremo oposto, com um registo algo cómico e a sua capa amarela. O que nele se mantém, é a tendência do autor para a filosofia, para as questões da existência e para a experimentação. O livro divide-se em duas partes desiguais em tamanho, forma e conteúdo: Diálogos e Cidade. A primeira parte reúne conversas entre duas personagens não identificadas que se tratam por excelência, conversas que atravessam muitas vezes a fronteira da lógica e tocam o absurdo, mas que não deixam de cativar e inquietar. Coisas mundanas como a questão do sair para dentro, ou ideias como a de explorar cidades com o mapa de outras cidades, para assim descobrir sítios que dificilmente visitaríamos de outra forma, fazem desta leitura um passeio interessante e, pela sua estrutura, nada cansativo. A segunda parte do livro, Cidade, mantém o anonimato das personagens, aqui identificadas de forma numérica, e funciona como uma descrição catártica do que é o viver urbano. Nesta metade – que, em rigor, é mais um terço do que uma metade – final de O Torcicologologista, Excelência, Gonçalo M. Tavares despe momentaneamente a filosofia que o caracteriza, deixa de procurar respostas, abandona experiências e relata cruamente.

O número 37 está a pensar casar.
O número 38 está a pensar divorciar-se.
O número 39 está a pensar em enganar a mulher.
O número 40 está a pensar que está a ser enganado pela mulher.
O número 41 está a pensar que o marido o engana.
O número 42 está a dormir com a amante.
O número 43 partiu outra vez um copo.
O número 44 foi ao hospital visitar o pai e quando voltou disse à mulher: mais um mês.

E é deste contraste entre o pensamento filosófico – de Diálogos – e o acto mecânico de viver – de Cidade -que O Torcicologologista, Excelência retira o seu melhor trunfo. Uma leitura que se faz bem. E que faz bem.

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Geometria

Geometria

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– Portanto, por um lado uma ginástica política – uma ginástica de pernas, pés, braços e mãos -, mas que, em vez de ajudar na saúde individual, ajuda na saúde política.
– Exactamente.
– Em parte, é uma ginástica política porque são muitos a fazer esse gesto. É isso?
– Sim.
– Mas também há ginástica de grandes grupos. Na praia, por exemplo, juntam-se multidões para fazer exercícios. Qual é a diferença?
– A diferença é que os gestos que fazemos no centro da praça não são musculares, são gestos sociais.
– Gestos sociais? Como se fazem gestos sociais? Qual é a diferença entre um gesto social e um gesto que fazemos em casa, na nossa mesa da cozinha? Há músculos diferentes envolvidos?
– Não. São os mesmos músculos. Mas uma coisa é um músculo mexer-se só porque não quer ficar parado. Outra coisa é mexer-se porque quer que as coisas não estejam paradas.
– Ou seja: uma coisa é movimentares o teu corpo; outra, bem diferente, é movimentares o mundo.
– É isso. Ginástica altruísta ou ginástica egoísta.

Gonçalo M. Tavares, O Torcicologologista, Excelência

A ginástica da revolução

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A afinação das cordas

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Jerusalém

JerusalémDepois de um muito bom Aprender a rezar na Era da Técnica e de um bom A máquina de Joseph Walser, chega um excelente Jerusalém. Há, neste terceiro livro negro da série O Reino, tudo o que de bom já se havia registado nas anteriores leituras – a forma dura e crua de narrar, a filosofia e o modo de a ligar à história – e mais ainda. Em Jerusalém, o que há de bom divide-se e multiplica-se, à medida das necessidades, entre os muitos protagonistas da narrativa. A maldade é, neste volume, abordada enquanto percorre a ténue linha que separa as mentes sãs das mentes perturbadas. É um novelo maravilhoso, que tem que ser desenrolado por muita gente. Porque merece.
Gonçalo M. Tavares revela uma consistência notável. A minha incursão pelo O Reino terminará, com uma urgência provocada, com o livro que inicia a tetralogia.

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Desde há minutos que Hanna observava atentamente as suas pálpebras. Encontrando-se elevado de mais, o espelho obrigava-a a colocar-se em bicos de pés. Só com muito esforço conseguia ver os próprios lábios. Nesso momento, porém, retocava a cor das pálpebras com um tom roxo.
Os dedos de Hanna dominavam aquele minúsculo aparelho científico, se assim se pode designar; aparelho científico para a beleza, uma utilidade que se mantém de século para século. Com o lápis de cor roxa nos dedos havia em Hanna a concentração do cirurgião no momento-chave de uma operação delicada; na mão direita a tensão tinha no seu centro uma lucidez que nunca perdia de vista o objectivo. A cor introduzida quase microscopicamente na beleza não visava porém o estado de beleza inerte; a cor não queria homenagens, mas sim entusiasmos. Uma beleza que tinha efeitos, não uma beleza para espectadores.

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém

Aparelho científico para a beleza

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Das festas populares

Senhor de Matosinhos

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A máquina de Joseph Walser

A máquina de Joseph WalserVoltando aos livros negros de Gonçalo M. Tavares, chegou a hora de seguir os passos a Joseph Walser. Se Lenz Buchmann, o médico que se tornou político em Aprender a rezar na Era da Técnica, era todo acção, Walser é passividade e apatia, vive à margem dos acontecimentos, existe apenas para ele e para a sua invulgar colecção. Nem a infidelidade da mulher ou a guerra o distrairão. Há praticamente um único ponto de contacto entre este personagem e o mundo que o rodeia: a máquina que opera com atenção exacta. E esta é precisamente a outra guerra destas páginas, a guerra entre o homem e a máquina, essa que lhe dá trabalho e garante a sua subsistência e que, ao mesmo tempo, qual inimigo sempre à espreita, aguarda um descuido para atacar.
A máquina de Joseph Walser tem a mesma capacidade inquietante e desafiadora de Aprender a rezar na Era da Técnica. Conduz-nos a perguntas e tenta uma ou outra resposta.  No que o primeiro deixa a desejar, em relação ao segundo, é na forma menos conseguida de entrelaçar a filosofia, que já vimos ser essencial e traço característico da escrita de Gonçalo M. Tavares, e a narrativa, propriamente dita. Ainda assim, é um bom livro e não rouba minimamente o interesse ao que resta da tetralogia O Reino. Caso contrárionão estaria já a caminho de Jerusalém.

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Os índios da Afurada

Os índios da Afurada

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Não tinha sequer uma pistola, mas eliminara a grande fraqueza da existência, fizera desaparecer a primária fragilidade da espécie: não possuía qualquer inclinação para o amor ou para a amizade!

Gonçalo M. Tavares, A máquina de Joseph Walser

A primária fragilidade da espécie

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As mais belas coisas do mundo

As mais belas coisas do mundoTer um filho a iniciar-se na leitura tem sido uma fonte de coisas boas. Desde peripécias com escritos encontrados em locais públicos – daqueles que um pai agradece não ter que explicar – a lições de literatura:
– Então, já acabaram A Floresta?
– Estamos quase. E depois vamos fazer um intervalo e não vamos ler Sophia de Mello Breyner. Sabes, é que o filho dela também escreve e vamos ler um livro dele.
As minhas visitas à biblioteca também têm sido, por isso, menos umbiguistas. Em vez de livros para um, passei a entrar com o intuito de encontrar livros para dois. E a impressão que tinha sobre os livros infantis tem-se confirmado: há muita e original oferta.
Das escolhas recentes, destacaria O meu avô, pela premiada ilustração de Catarina Sobral, e Os sapatos – Histórias do Senhor Valéry, do livro de Gonçalo M. Tavares, com ilustrações de Rachel Caiano, pela simplicidade com que convida as cabeças mais jovens ao confronto de ideias.
Escolha nem por isso acertada para o filho, pela tenra idade, mas que muito agradou ao pai foi As mais belas coisas do mundo, de Valter Hugo Mãe, com ilustrações de Paulo Sérgio BEJu. Centrado num menino e no seu avô, o livro é uma pequena maravilha de cerca de trinta páginas. As ilustrações são tão bonitas quanto enigmáticas e as palavras de Valter Hugo Mãe carregam uma sensibilidade notável. São palavras escolhidas a dedo para tirarem o proveito máximo de publicações que não se querem extensas, ao contrário de outros terrenos em que o autor tão bem se move, como o romance, e são palavras que aliam à sensibilidade a sonoridade, colhendo também os frutos da experiência do escritor na poesia. Nessa economia de palavras, ainda assim, abundam significados que devem fazer parte do crescimento de qualquer criança, como família, valores e natureza, só como exemplo. É por isso que, um dia, quando a idade do meu filho mais se adequar, este livro voltará a ser convidado a entrar lá em casa.

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EL VY

Em português diz-se de forma semelhante a ele vai, mas na verdade aqui eles vão. Vão esmagar as palavras e as teclas do piano contra o peito de quem os ouve. É ouvir com ouvidos demorados, não vá acabar depressa.

(O homem habitua-se a beber de uma boa fonte e depois é tramado deixá-la. Obrigado, npr!)

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E então vai entender

E então vai entender Trazer para casa E então vai entender tem uma história tão breve quanto a própria história do livro. Já depois de ter escolhido a leitura que havia de seguir Aprender a rezar na Era da Técnica, à saída da biblioteca, lá estava exposto este título de Claudio Magris. Atendendo a que é um dos nomes do cartaz do LEV e que não tinha lido nada do autor, achei que era o momento certo para o descobrir. Saltemos então de uma pequena história para a outra, a trazida pelas palavras de Magris. E então vai entender apresenta-se quase como um desabafo, uma catarse, de uma mulher já depois da morte (não há disso uma indicação clara, mas o leitor, quando livre de escolher caminhos, lá tem que tomar as suas decisões). Do outro lado, o lado dos vivos, ficou um autor que tinha nesta mulher a sua musa inspiradora. Era dela que sorvia as histórias e as experiências, era por estar com ela que as vivia e escrevia. Talvez haja, como se diz que há em toda a escrita ficcionada, algo de autobiográfico neste personagem, algo de Claudio Magris.
É dessa forma, então, que regressamos a uma história de amor e a muitas confissões deste mesmo amor. Sem grandes artifícios de escrita para além do fazer do narrador um personagem para lá da vida, o desabafo lê-se e entende-se bem, mas não veio para perdurar na memória. Talvez encontremos mais de Magris numa próxima leitura.

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Aprender a rezar na Era da Técnica

Aprender a rezar na Era da Técnica Depois de muito adiar a vontade e os conselhos de um par de amigos, lá cheguei à escrita de Gonçalo M. Tavares. E cheguei tarde, como se chega sempre a uma coisa que merece ser descoberta assim que desponta, como a flor que deve ser vista no exacto momento em que desabrocha. A escrita, bem trabalhada mas a sentir-se de forma muito natural, apresenta-se viciante e desafiante, uma espécie de palavra puxa palavra, pensamento que suscita pensamento. Com este Aprender a rezar na Era da Técnica, pelo menos, ficou a ideia de que ler Gonçalo M. Tavares é não parar, é pensar e procurar.
Este é o quarto título da tetralogia O Reino, uma série de livros que não são negros por acaso, mas porque neles se retrata o que de pior há na natureza humana. Neste volume, a narrativa conduz-nos pela vida de um talentoso médico que decide estender o seu toque mágico à sociedade e, assim, abraça a política. Como médico, apesar de não deixar de ser desprezível, Lenz conseguia ser profissionalmente rigoroso e conduzia o bisturi pelo lado que deve ser, pela salvação de um corpo. Já na política, o seu bisturi deixava de ter esse sentido objectivo da salvação. A narrativa avança e o retrato de uma humanidade desfigurada vai sendo traçado, mas o essencial do livro é o que Gonçalo M. Tavares, escritor também ele capaz de operar, vai deixando no corpo aberto do leitor. Muitas perguntas e reflexões. Muitas respostas, também.
Aprender a rezar na Era da Técnica foi a primeira e única incursão no universo literário do autor português, mas manterá esse estatuto por breves momentos. Dorme já na mesa de cabeceira o próximo paciente, um tal Joseph Walser.

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Quando se matava alguém do próprio exército, por uma razão puramente individual, tornava-se visível que se odiava muito menos o inimigo do país ou das suas ideias sobre o mundo do que o seu inimigo pessoal. O ódio pessoal tinha uma potência não igualável.

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica

Do ódio

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À descoberta do Haiti…


… ou, melhor dizendo, de um bocado de Haiti que se mudou para Nova Orleães.

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