Desde há minutos que Hanna observava atentamente as suas pálpebras. Encontrando-se elevado de mais, o espelho obrigava-a a colocar-se em bicos de pés. Só com muito esforço conseguia ver os próprios lábios. Nesso momento, porém, retocava a cor das pálpebras com um tom roxo.
Os dedos de Hanna dominavam aquele minúsculo aparelho científico, se assim se pode designar; aparelho científico para a beleza, uma utilidade que se mantém de século para século. Com o lápis de cor roxa nos dedos havia em Hanna a concentração do cirurgião no momento-chave de uma operação delicada; na mão direita a tensão tinha no seu centro uma lucidez que nunca perdia de vista o objectivo. A cor introduzida quase microscopicamente na beleza não visava porém o estado de beleza inerte; a cor não queria homenagens, mas sim entusiasmos. Uma beleza que tinha efeitos, não uma beleza para espectadores.

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém

Aparelho científico para a beleza

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