Monthly Archives: Julho 2016

A minha preguiça não é de hoje

Preguiça Magazine

Perdi a conta às vezes em que a minha mãe, a determinada idade, me chamou preguiçoso. Não é de hoje, portanto, a minha preguiça. Só que se nessa altura o epíteto em causa era coisa para fazer ter vergonha, hoje é com orgulho que apareço no Instagram da Preguiça, magazine nascida em Leiria e que aposta na divulgação cultural de uma forma muito original e independente. Muito obrigado à Preguiça Maganize e um obrigado especial à Carla de Sousa pelo convite, pela edição e por toda a atenção!

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Gente para quem haverá sempre tempo

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Arquitectura do voo

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Conta-me como foi…

Em banda desenhada, como merecem os heróis, numa história que também pareceu saída de um almanaque. Eis a vitória de Portugal no Euro 2016: união, esforço, crença e, é preciso dizê-lo, competência. Um colectivo em que as individualidades surgiram apenas quando foi necessário – até os mais improváveis! Tudo isto e sorte, que não é fácil lembrar de um campeão sem sorte.

Se podíamos ter jogado um futebol mais bonito? Podíamos, mas não conseguimos. E para esse peditório já demos muitas vezes. Faltava ganhar!

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Bonsai

No final ela morre e ele fica sozinho, embora na realidade tivesse ficado sozinho vários anos antes da morte dela, de Emília. Digamos que ela chama-se ou chamava-se Emília e que ele chama-se, chamava-se e continua a chamar-se Júlio. Júlio e Emília. No final Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura:

Este é o primeiro e muito promissor parágrafo de Bonsai, do chileno Alejandro Zambra. Já não me recordo bem como dei com este autor, mas lembro-me de ter ficado preso a dois outros títulos seus, A vida privada das árvores e Formas de voltar para casa. Entre a infrutífera pesquisa destes livros na biblioteca e a descoberta deste pequeno livro numa conhecida plataforma de vendas, passou um par de meses. E se o livro não tardou muito em chegar, menos tardou em ficar lido. Embalado pelo já elogiado primeiro parágrafo, mergulhei numa história que mistura literatura, relacionamentos e, naturalmente, sexo. O livro, que tende mais para o conto do que para o romance, apresenta-se um tanto disperso e pouco aprofundado. Chega a parecer um esboço de livro, uma série de ideias  a desenvolver, uma estrutura a preparar-se e a tomar forma. Por conhecer os outros títulos de Zambra e acometido por uma curiosidade fácil de entender, fui consultar a ordem de publicação das obras do autor e verifiquei que A vida privada das árvores foi publicado uma ano após este Bonsai. Este é motivo mais do que suficiente para manter viva a minha ideia de que este pequeno livro foi só um esquisso de coisa maior e para continuar  busca de mais prosa de Alejandro Zambra.

De Bonsai, resta-me apenas o elogio à ideia e a parágrafos soltos – tudo o resto é demasiado superficial.

Se tem Justin Vernon, tem que aqui estar

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O retorno

O retornoNasci no Porto, tripeiro como manda a lei, mas cresci a ouvir mil e uma histórias de Angola. Dos meus avós, dos meus pais e dos meus tios. Histórias de uma terra que, ou parecia feita para dar, ou toldava as memórias de todos os que por ela passaram apenas com o que havia de bom para recordar. Cresci a comer funge, moamba e jindungo. Ainda hoje são pretexto para juntar a família à mesa. Não cresci a ouvir Waldemar Bastos, mas a primeira vez que o ouvi foi como se o ouvisse desde sempre. Cresci em Luanda, no Negage, em Carmona e em Malanje sem alguma vez lhes ter pisado a terra. As raízes de um homem têm pouco a ver com os pés e tudo a ver com a cabeça. E, na cabeça, Angola esteve quase sempre presente. Daí que o que este livro significou para mim pode não ter o que quer que seja a ver como o que significará para quem Angola é só o nome de um país africano.
Não se procure, neste O retorno, rigor histórico e enquadramento político-social – ainda que os tenha, aqui e ali. A Dulce Maria Cardoso interessou mais o relato pessoal e sentimental, a memória. Narrada por um adolescente, a história surge-nos muito crua, por vezes até dura, mas a realidade foi mesmo assim, não há como fugir-lhe. A escrita despida de floreados e acelerada – a ausência de parágrafos para os diálogos é um dos factores que contribuem para essa velocidade narrativa – assenta bem na idade do narrador, uma idade tendencialmente ávida. E Rui, o adolescente que nos vai revelando, com a história da sua família, a história de muitas famílias, manifesta bem essa avidez quando percebemos que todas as esperas lhe são penosas. Há em Rui a avidez por perceber o passado, por resolver o presente e por preparar o futuro.
A terra não tem dono, as coisas mudam facilmente de dono e o passado, prova-nos muita literatura, tem mais do que um dono. O retorno será sempre um belíssimo livro, mas acredito que se transcenda para quem tem na história histórias semelhantes. Aconselhável para todos, obrigatório para muitos.

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