O retorno

O retornoNasci no Porto, tripeiro como manda a lei, mas cresci a ouvir mil e uma histórias de Angola. Dos meus avós, dos meus pais e dos meus tios. Histórias de uma terra que, ou parecia feita para dar, ou toldava as memórias de todos os que por ela passaram apenas com o que havia de bom para recordar. Cresci a comer funge, moamba e jindungo. Ainda hoje são pretexto para juntar a família à mesa. Não cresci a ouvir Waldemar Bastos, mas a primeira vez que o ouvi foi como se o ouvisse desde sempre. Cresci em Luanda, no Negage, em Carmona e em Malanje sem alguma vez lhes ter pisado a terra. As raízes de um homem têm pouco a ver com os pés e tudo a ver com a cabeça. E, na cabeça, Angola esteve quase sempre presente. Daí que o que este livro significou para mim pode não ter o que quer que seja a ver como o que significará para quem Angola é só o nome de um país africano.
Não se procure, neste O retorno, rigor histórico e enquadramento político-social – ainda que os tenha, aqui e ali. A Dulce Maria Cardoso interessou mais o relato pessoal e sentimental, a memória. Narrada por um adolescente, a história surge-nos muito crua, por vezes até dura, mas a realidade foi mesmo assim, não há como fugir-lhe. A escrita despida de floreados e acelerada – a ausência de parágrafos para os diálogos é um dos factores que contribuem para essa velocidade narrativa – assenta bem na idade do narrador, uma idade tendencialmente ávida. E Rui, o adolescente que nos vai revelando, com a história da sua família, a história de muitas famílias, manifesta bem essa avidez quando percebemos que todas as esperas lhe são penosas. Há em Rui a avidez por perceber o passado, por resolver o presente e por preparar o futuro.
A terra não tem dono, as coisas mudam facilmente de dono e o passado, prova-nos muita literatura, tem mais do que um dono. O retorno será sempre um belíssimo livro, mas acredito que se transcenda para quem tem na história histórias semelhantes. Aconselhável para todos, obrigatório para muitos.

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3 thoughts on “O retorno

  1. deep diz:

    Li-o quando saiu. Gostei bastante. 🙂

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  2. deep diz:

    Vale muito a pena. Conheci a autora com Campo de Sangue, que me prendeu.

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