Monthly Archives: Agosto 2016

Rearranjo molecular

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A sétima porta

A sétima porta foi o meu primeiro contacto com a escrita de Richard Zimler, autor de sucessos de vendas como Os anagramas de Varsóvia ou O último cabalista de Lisboa. Sabia, à partida, que ia entrar num registo de ficção histórica com inclinições para algum misticismo. Tardei em entrar verdadeiramente no livro, mas quando isso aconteceu, a leitura acabou por ser agradável. A Zimler interessa a história, a acção propriamente dita, interessa que o leitor fique preso aos desenvolvimentos da trama, daí que não se note um grande trabalho na escolha das palavras, nos artifícios usados – há metáforas, com um intervalo de páginas relativamente pequeno, a fazerem referência a estradas infinitas e a becos sem saída, por exemplo – ou na sonoridade das frases. O importante, no que este A sétima porta  dá para perceber da escrita de Richard Zimler, é que o leitor tenha necessidade de saber o que vem depois. E, nesse aspecto, o autor que se naturalizou português é muito competente. Algumas personagens são exageradamente invulgares, mas até isso acaba por resultar bem numa ficção que se debruça sobre um tema tão duro e difícil de compreender como a Europa dos tempos de Hitler. As questões mais místicas, com raízes no judaísmo, foram as que menos atenção me despertaram, mas admito que possam, para quem por elas se interessar, elevar o livro a outro patamar. Resumindo, uma leitura que demorou a apanhar o ritmo, mas que se revelou interessante.

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Instórias #16

O ballet vem desde onde vêm as minhas mais longínquas lembranças de passado. Comecei a dançar tão cedo que não me recordo de nada que lhe seja anterior. Soube mais tarde que comecei por iniciativa da minha mãe, o que tem lógica, porque nem iniciativa me lembro de ter naquela altura. Na cabeça da minha mãe devia viver aquela imagem que se repete pela cabeça de muitas outras mães: a menina franzina de tutu, o mais próximo que deve haver daquelas pequenas mas vistosas caixinhas de música, dá-se corda rrrrrc, rrrrrc, rrrrc com cuidado e é desse cuidado que ganha vontade e rodopia a pequena bailarina, muito segura, plim, plim, tilim tim, sobre um minúsculo palco pintado a flores. À primeira hesitação da bailarina, anuncia-se o fim da música e do movimento. É preciso dar novamente corda. Como a que me deu a minha mãe com a sua iniciativa. Só que eu, por muito que tenha hesitado, nunca mais parei.
jeté, plié, soutenu, voleé
Ainda não dominava o português e já sonhava em francês. O corpo a exprimir-se numa língua que a cabeça não compreendia.
arrondi, glissé, lié, tendu
E foi por esta facilidade de expressão que me era inata que a paixão cresceu e do passatempo quis fazer todo o tempo, porque era a dançar que eu mais dizia de mim e melhor me conhecia. Só que foi precisamente nesse momento que a minha mãe deixou de achar piada ao ballet. Que não é futuro, que não dá de comer, que não dá estabilidade.
– E filhos?
Como se a minha vida estivesse definida antes mesmo de eu a viver. Vou para o ballet porque ela acha piada, não vivo do ballet porque ela acha que não é vida, porque até já decidiu que devo ter filhos. Que eu tinha notas boas, que podia ser o que quisesse. Ou quase, porque bailarina parece que não podia. Só que a corda que a minha mãe me deu quando achou piada ao ballet não tem como me acabar e lá lhe consigo dizer, muito segura, como a pequena boneca da caixinha de música, que não queria outra coisa.
Passaram-se muitos anos e esgotaram-se as tentativas de explicar à minha mãe que queria ser bailarina, que ia mesmo ser bailarina, que o que começou pela imagem a que ela achava piada, à menina de cabelo apanhado e engraçadas sapatilhas que acabam sem aviso antes de chegar à ponta, é agora a minha vida. Até que um dia percebo que estou a usar as palavras erradas e arranjo bilhetes e quem a arraste para a primeira fila da sala de espectáculos em que ia dançar. Chorou e sorriu-me desde o primeiro quarto de hora. Entendeu-me. No final, tudo o que me disse foi um abraço. Porque o corpo diz melhor aquilo que à boca é difícil dizer.

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A vida simples e feliz de uma mulher é um beco sem saída para a outra.

Richard Zimler, A sétima porta

Código de estrada

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