Instórias #16

O ballet vem desde onde vêm as minhas mais longínquas lembranças de passado. Comecei a dançar tão cedo que não me recordo de nada que lhe seja anterior. Soube mais tarde que comecei por iniciativa da minha mãe, o que tem lógica, porque nem iniciativa me lembro de ter naquela altura. Na cabeça da minha mãe devia viver aquela imagem que se repete pela cabeça de muitas outras mães: a menina franzina de tutu, o mais próximo que deve haver daquelas pequenas mas vistosas caixinhas de música, dá-se corda rrrrrc, rrrrrc, rrrrc com cuidado e é desse cuidado que ganha vontade e rodopia a pequena bailarina, muito segura, plim, plim, tilim tim, sobre um minúsculo palco pintado a flores. À primeira hesitação da bailarina, anuncia-se o fim da música e do movimento. É preciso dar novamente corda. Como a que me deu a minha mãe com a sua iniciativa. Só que eu, por muito que tenha hesitado, nunca mais parei.
jeté, plié, soutenu, voleé
Ainda não dominava o português e já sonhava em francês. O corpo a exprimir-se numa língua que a cabeça não compreendia.
arrondi, glissé, lié, tendu
E foi por esta facilidade de expressão que me era inata que a paixão cresceu e do passatempo quis fazer todo o tempo, porque era a dançar que eu mais dizia de mim e melhor me conhecia. Só que foi precisamente nesse momento que a minha mãe deixou de achar piada ao ballet. Que não é futuro, que não dá de comer, que não dá estabilidade.
– E filhos?
Como se a minha vida estivesse definida antes mesmo de eu a viver. Vou para o ballet porque ela acha piada, não vivo do ballet porque ela acha que não é vida, porque até já decidiu que devo ter filhos. Que eu tinha notas boas, que podia ser o que quisesse. Ou quase, porque bailarina parece que não podia. Só que a corda que a minha mãe me deu quando achou piada ao ballet não tem como me acabar e lá lhe consigo dizer, muito segura, como a pequena boneca da caixinha de música, que não queria outra coisa.
Passaram-se muitos anos e esgotaram-se as tentativas de explicar à minha mãe que queria ser bailarina, que ia mesmo ser bailarina, que o que começou pela imagem a que ela achava piada, à menina de cabelo apanhado e engraçadas sapatilhas que acabam sem aviso antes de chegar à ponta, é agora a minha vida. Até que um dia percebo que estou a usar as palavras erradas e arranjo bilhetes e quem a arraste para a primeira fila da sala de espectáculos em que ia dançar. Chorou e sorriu-me desde o primeiro quarto de hora. Entendeu-me. No final, tudo o que me disse foi um abraço. Porque o corpo diz melhor aquilo que à boca é difícil dizer.

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