Monthly Archives: Setembro 2016

Alentejo

Anúncios
Com as etiquetas

Breves notas sobre as ligações 

Depois da leitura de Breves notas sobre ciência, foi sem hesitar que peguei neste Breves notas sobre as ligações. Só que o que no primeiro caso era simples e, ao mesmo tempo, estimulante, no segundo é complexo e cansativo. O livro usa como alavanca do pensamento as obras de María Zambrano, Maria Filomena Molder e Maria Gabriela Llansol, mas não conseguiu, sequer, despertar a minha curiosidade pelas mesmas. As Breves notas sobre ciência são como um passeio ligeiro, sem grande dificuldade, com destino a um lugar agradável; as Breves notas sobre as ligações são como um penoso passeio por terrenos íngremes, com destino a um lugar que pouco tem para se ver ou sentir.
Gonçalo M. Tavares já me habituou a conseguir retirar lições profundas de coisas aparentemente simples, mas desta vez embrenhou-se na complexidade para trazer pouco mais de um punhado de ideias que me interessaram e me foram possíveis de reter. O muito de dispensável que encontrei nestas notas espero encontrar de interessante, um dia destes, quando me decidir aventurar nas Breves notas sobre o medo.

 

Com as etiquetas ,

Os olhos tornam-se terríveis quando nada há para ver. Como a arma guardada na gaveta, perigosamente.
O perigo dos órgãos encostados pela circunstância à inutilidade. Aguardam e afirmam o ódio. Os olhos, no tédio, quando nada há para ver (quando o visível é apenas uma repetição), tornam-se diabólicos.

Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre as ligações

Ensaio sobre outra cegueira

Com as etiquetas ,

Quase divino

[O tempo para filmes não é o que era, mas para Wish i was here, para o qual este tema foi criado, hei-de arranjá-lo. Ou não fosse este um filme do realizador de Garden State.]

Com as etiquetas ,

… quem declarou que se aprende até à morte conhecia os factos da vida, não me recordo do nome desse filósofo, ou antes, nunca o soube, é provável que um grego antigo dado que as verdades mais profundas vieram em enxame de lá, o quadrado da hipotenusa igual à soma do quadrado dos catetos indesmentível depois de um grego a enunciar, da mesma forma que um corpo mergulhado num líquido sofre da parte desse líquido um impulso vertical de baixo para cima idêntico ao volume do líquido deslocado, outra evidência, não conheço analfabeto que não saiba isso de cor, é o tipo de noção que nasce automaticamente com as pessoas e, no entanto, foi um grego quem a divulgou, a cultura é feita de lugares comuns como a história das paralelas que se encontram no infinito…

… só o quadrado da hipotenusa, pelo menos a mim, impressiona-me, a majestade das palavras que esmaga e a harmonia entre hipotenusa e cateto que perfeição, reparem na maneira como as sílabas se sucedem, é por estas e por outras que merece a pena estar vivo e não necessito de recorrer à soma dos quadrados para sublinhar o que afirmo…

… um corpo mergulhado num líquido sofre da parte desse líquido é bem esgalhado e o verbo sofrer excelente, um toque de humanidade no pensamento matemático…

António Lobo Antunes, Da Natureza dos Deuses

A ciência da escrita de Lobo Antunes

Com as etiquetas ,

📖 2

Com as etiquetas ,

A cruzada das crianças

A cruzada das criançasEm mais uma incursão pela literatura infantil de Afonso Cruz, chego a este A cruzada das crianças, livro em formato de guião de teatro. Com o título “roubado” a um episódio da história muito estudado e fabulado, esta breve peça parte do princípio de que só a inocência, a pureza e a pouca acomodação das crianças colocarão, num mundo demasiado formatado pela idade adulta, as perguntas certas para podermos salvar o mundo. Duas crianças, uma de sete e outra de nove anos, lideram um exército infantil, que conduzem seguindo as indicações das suas inquietações. As respostas adultas resultarão muitas vezes em apreensão e espanto por parte dos mais novos. Questiona-se a exagerada distância entre os lugares e a existência de demasiados espelhos, por exemplo. Questiona-se o valor atribuído ao dinheiro. Questiona-se a idade para certa para intervir, para ser voz activa na sociedade. Dizer mais é desvendar em demasia o que pode ser uma agradável experiência de leitura. As ilustrações, condizentes com o registo do livro, são de André Letria. Há ainda uma série de fotografias que merece atenção.
É um livro tão engraçado e interessante que estou tentado a desafiar alguns professores que conheço a adaptarem a peça nas suas festas escolares. Pode ser que, passada a palavra, consigamos resgatar aquele bocado infantil que nunca devíamos ter perdido e que tanta falta faz por estes dias.

Com as etiquetas , ,

… eram dois pratos na mesa, a minha mãe
– Põe aí o do teu pai sempre faz companhia
e, até hoje, o prato do meu pai ali, sem comida mas ali, uma questão de companhia, pode sempre imaginar-se que daqui a momentos chega e, além disso, há hábitos que custam a abandonar…

António Lobo Antunes, Da Natureza dos Deuses

Uma questão de companhia

Com as etiquetas ,

Trio admira

Os amigos são para sempre, a coreografia é para enfrentar o início da semana.

Com as etiquetas , , ,

Instórias #17


Deixa-me que te diga que a amizade é muito bonita, mas não chega. E, se não chega, a culpa é toda tua. Pensando bem, talvez não toda, mas grande parte garanto que é. A amizade é muito bonita e já houve alturas em que me bastava. Só que depois crescemos e os olhos passaram a deter-se em coisas em que antes mal reparavam, os ouvidos a entenderem as coisas que vêm escondidas nas palavras e nos silêncios e o nariz a começar a compreender o que é a saudade, a que cheiram as ausências. Sobre as mãos não te queria falar, porque as mãos ganharam vontades de que me envergonho. Mas é só contigo que isso acontece, portanto a culpa não pode ser minha, a culpa é tua. Talvez não toda, mas grande parte. Porque se as minhas mãos mudaram, eu mudei, mas mudei porque também tu mudaste. As minhas mãos mais vontades porque, ao crescer, o teu corpo mais apelos. E talvez o meu corpo reconheça a amizade que temos e apenas queira ser simpático, talvez só não queira dizer que não. Desculpa se te entendo mal, desculpa se o meu corpo não se entende com o teu, mas se isso acontece também a culpa é tua. Ou do teu corpo, que fala por meias palavras, que não termina os gestos. A amizade é muito bonita e já houve alturas em que me bastava. Só que depois crescemos e a amizade é coisa sem tamanho, não há amizade grande ou amizade pequena, é amizade e ponto, não cresce consoante nós crescemos. Portanto, deixa-me que te diga que a amizade já não chega.
Neste momento, mais do que deixares que te diga o quer que seja, falta-me ganhar coragem para o conseguir fazer. Por enquanto, o frio aperta e o teu corpo segue-lhe o exemplo, junta-se ao meu, e eu sem arriscar perguntar se essa aproximação significa só frio ou mais do que isso. Enquanto não ganho coragem para te dizer que a amizade já não chega, aceito que o teu corpo se aperte contra o meu e espero que o Inverno se demore.

Com as etiquetas

A contradição humana

A contradição humana Mais juvenil do que infantil, A contradição humana é um livro interessante para despertar o pensamento, com questões quotidianas, ligeiras e muito engraçadas. Graficamente muito apelativo, lê-se e vê-se em minutos, mas fica-se a apreciar durante mais algum tempo, num processo semelhante ao que se dá com o café, que, depois de tomado, se vai revelando numa escala de sabores e aromas diferentes até que, quando deixa de se fazer notar, já há muito esquecemos o gesto de o tomar.
Este é mais um dos livros que quererei dar a ler aos meus filhos. Para nos divertirmos e para, como já referi acima, abrirmos os horizontes do pensamento.

Com as etiquetas ,

O diamante mais caro do mundo

É notícia em diversos órgãos de comunicação, a compra do diamante mais caro do mundo num leilão privado da Sothebys. Dizem que foi encontrado no Botswana. Dizem que tem 813 quilates. Dizem que custou 63 milhões de dólares (mais de 50M€), mas sabendo que a empresa compradora pertence, maioritariamente, a Isabel dos Santos, é caso para dizer que custou mais do que isso. Mais do que dinheiro. Tem custado Angola. E, no entanto, tudo parece normal.

Com as etiquetas ,

📖 1

Processed with Snapseed.

Com as etiquetas ,

#capaspossíveis

A ideia nasceu com tempo contado, já que foi pensada para o instagram stories. Só que o exercício acabou por me interessar mais do que era previsível e ficou difícil aceitar a volatilidade das vinte e quatro horas, pelo que as #capaspossíveis passarão a ser publicadas também aqui. O conceito é fotografar o que, por qualquer motivo, possa lembrar um determinado livro e preparar uma possível capa para o mesmo. Acontece tudo no telemóvel, da fotografia à edição do texto. Acontece tudo no espaço máximo de um dia, da captura da fotografia à publicação.

Com as etiquetas ,

Teoria geral do esquecimento


Teoria geral do esquecimentoJosé Eduardo Agualusa aborda, neste romance, a estranha história de Ludovina, uma portuguesa que foi viver para Angola e que, por episódios traumáticos por que havia passado, deixou de sair à rua, vivendo isolada no interior de um apartamento, na companhia da irmã, do cunhado e, posteriormente, de um cão. O país havia de entrar num conhecido e violento processo de independência, responsável pelo regresso de muitos portugueses e por elevado número de mortos, mas Ludovina por lá se manteve, isolada do que se vivia, a sobreviver. Agualusa tomou conhecimento da história dessa mulher e teve acesso a alguns textos seus, mas faz questão de salientar, em nota prévia, que Teroria geral do esquecimento é ficção. Talvez por ter sido inicialmente pensada e estruturada para cinema, a narrativa está muito bem ligada e segue-se com facilidade. Curioso retrato social de uma época – pela perspectiva de Ludovina – e exercício interessante sobre a resistência humana e os limites do medo. Com uma escrita simples e uma história bem contada, é livro para se ler de uma assentada e ficar com vontade de conhecer melhor a obra do autor.

Com as etiquetas ,

(l)ergonomia

#1 – Raquel

Com as etiquetas

Breves notas sobre Ciência

Breves notas sobre CiênciaGonçalo M. Tavares não consegue deixar de inquietar quem o lê, seja no formato de romance ou de umas breves notas. Neste pequeno livro, o autor debruça-se sobre a ciência, a metodologia e as respostas. Debruça-se ainda sobre a verdade e a mentira com particular interesse e pertinência. Por muito que cometa alguns excessos – ou precisamente por cometer esses excessos -, conduz-nos a questões ao mesmo tempo simples e fascinantes. Breves notas sobre Ciência é um livro que se lê num par de horas e que vale a pena. Por estimular o pensamento e a abertura de espírito. Por incentivar a que se questionem as mais unânimes convenções. Por tirar o leitor da posição de mero leitor.

Com as etiquetas ,
%d bloggers like this: