Monthly Archives: Outubro 2016

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Arlt e pára o baile!

Resgato um livro há algum tempo esquecido nas prateleiras. Numa daquelas típicas promessas de contracapa, diz-se que o livro é uma “viagem ao fim da noite” em tons sul-americanos, mas vinte e cinco páginas não chegam para  estabelecer um paralelismo com essa grande obra de Céline. Chegam, isso sim, para descortinar um quê de Dostoiévski. Prometer, promete. Resta que se cumpra.

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O barulho das coisas ao cair

O barulho das coisas ao cair Na televisão de um salão de bilhares passa a notícia do abate de um hipopótamo que escapou do jardim zoológico da Hacienda Nápoles, que havia sido propriedade de Pablo Escobar. E é a partir daqui que o livro arranca. Antonio, protagonista deste O barulho das coisas ao cair, conhece Ricardo e a narrativa avança durante um breve período de tempo, até que os acontecimentos se precipitam de forma incompreensível e, na procura de respostas, o livro passa a debruçar-se sobre o passado e as memórias, criando, ao mesmo tempo, a imagem de uma Colômbia a viver os dias mais intensos do narcotráfico. Acompanhamos, portanto, um país em construção – como refere uma das personagens, chegada dos Estados Unidos da América -, acompanhamos a transformação que esse país opera em cada uma das personagens e acompanhamos ainda a evolução de outra figura omnipresente neste livro: o medo.
O barulho das coisas ao cair, Prémio Alfaguara, revela, sem excessos criativos, Juan Gabriel Vásquez como um escritor que valerá a pena acompanhar.

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Debaixo de algum céu

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Em equipa que perde não se mexe

Em equipa que perde não se mexe

O jogo tem periodicidade anual e acontece na Suécia. Há alguns anos que alinho com estes dois homens, mais por desejo do que por crença, mas enquanto eles viverem, viverá também a esperança. À justiça não ficaria a dever qualquer deles. Amanhã voltam a ser as minhas escolhas.

[Apesar de Kundera não escrever há muito coisas da dimensão do que já escreveu em tempos.]

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Música para dias de chuva

A bebida quente ainda não dá para oferecer.

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Ouve a canção do vento | Flíper, 1973

Ouve a canção do vento | Flíper, 1973A minha abordagem a Murakami não foi a melhor, admito. A primeira coisa que lhe li foi Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo, que não é bem um romance. Agora, vem-me parar às mãos este livro, que reúne duas histórias que são o embrião da carreira do escritor japonês. Estiveram por publicar durante muitos e bons anos e só recentemente – por pressão das editoras, consta – chegaram às prateleiras. Deste conjunto de três obras, não consigo descortinar os motivos que levam a que Murakami seja um dos crónicos referidos aquando da atribuição do Nobel da Literatura, e muito menos que encabece a lista de favoritos, como acontece este ano. Provavelmente, há muito mais do que aquilo que eu conheço, na literatura do autor. O facto de ter adiado tantos anos a publicação de Ouve a canção do vento e de Flíper, 1973 é capaz de ser um sinal de que o próprio Murakami considera estas obras pouco condizentes com o que produziu posteriormente, o que é muito natural, se tivermos em conta que foram duas histórias escritas essencialmente à mesa da cozinha, depois do dia de trabalho, e o primeiro contacto de um jovem e ávido leitor com o processo de escrita. Foi com estes livros que Murakami experimentou métodos e se descobriu, no fundo.
Esquecida a história do Nobel da Literatura e toda a responsabilidade que este acarreta (ou devia acarretar, já que ultimamente as distinções parecem distribuir-se por critérios geográficos, raciais, de género, políticos e outros que tais, sem desprimor para todos os premiados, alguns dos quais até desconheço), Ouve a canção do vento e de Flíper, 1973 serão livros que interessarão sobretudo aos mais devotos leitores de Haruki Murakami, que gostarão de acompanhar o nascimento do autor. Para os restantes, serão duas leituras agradáveis e pouco mais.
Para não fazer juízos precipitados, comprometo-me a voltar à sua obra, para uma espécie de tira-teimas, tentando ser mais criterioso na escolha do livro.

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Da Natureza dos Deuses

Quando estamos a dias do lançamento de mais um livro da já longa bibliografia de António Lobo Antunes (Para aquela que está sentada no escuro à minha espera, 10 de Outubro), acabo de ler o seu mais recente romance editado, Da Natureza dos Deuses. Admirador confesso da escrita deste autor, admito que os últimos títulos que lhe li, com uma ou outra excepção, pareciam caminhar para uma espécie de autismo, para um universo cada vez mais fechado. Ia lá cabendo Lobo Antunes e iam-se apertando conforme possível os seus mais devotos leitores, aqueles que já dominam as particularidades da sua escrita, as suas vozes dispersas e sobreposições temporais. É o próprio escritor quem melhor define os seus livros, quando diz que estes não são para ser lidos, que são para se apanhar, como se apanha uma doença. É também ele o primeiro a afirmar que não lhe interessa contar uma história, que quer, isso sim, enfiar a vida entra a capa e a contracapa. E é por estes motivos que eu, mesmo apaixonado por esta escrita (com um ou outro desgosto, como em qualquer paixão), não recomendo livros de Lobo Antunes a quem me pede sugestões de leitura. Simplesmente porque é preciso estar disposto a mais do que ler. Avançando até este Da Natureza dos Deuses, não há surpresa na prosa poética com que este se enche, não há surpresa no rendilhado de frases e pensamentos que o autor cria e interrompe a qualquer momento, para concluir adiante. A técnica narrativa é a que vem evoluindo ao longo de toda a obra do autor, com as palavras escolhidas a dedo e as metáforas a alcançarem, quase sempre, o espanto. A vida volta a caber toda num livro. Da pobreza ao triunfo, da solidão às relações, da infância ao envelhecimento e à doença. Do que parece ser aos olhos dos outros até ao que realmente é, ao mais profundo de cada personagem. O que poderá haver de surpreendente neste Da Natureza dos Deuses é a facilidade com que, apesar das inúmeras vozes que o compõem, dos muitos tempos em que é narrado, se segue com clareza a história (sim, aquela que nem sequer é pedra basilar das ideias do autor), feita das muitas histórias individuais (essas sim, uma preocupação de Lobo Antunes) das personagens.  Este será, ao contrário dos últimos títulos do autor, um livro mais aberto, mais à feição de leitores que não dispensem um fio condutor na narrativa. Lobo Antunes continua a explorar o poder da palavra, mas deixa bem visível o retrato de um país e de um tempo. A admirável galeria de personagens deste Da Natureza dos Deuses é, salvo  raras excepções, desprovida de nomes próprios. Portugal está nas mãos do senhor doutor, que representa o poder económico, e do senhor presidente, que será Salazar sem que em algum momento se diga que é Salazar. É um tempo em que o volfrâmio se negoceia com ingleses e alemães. Também procuram o poder o adjunto do senhor doutor, a secretária do senhor doutor e a secretária do adjunto do senhor doutor. Neste romance quase sem nomes, entre as raras excepções encontra-se Marçal, o empregado do casaco branco, único homem da confiança do senhor doutor. As personagens são muitas, mas todas elas se apresentam de forma única. Sobra uma sobre quem pouco se afirma e tudo se questiona, o enigmático sem abrigo, que eu tomei como a figura do leitor a surgir no livro, mas que pode muito bem ser apenas o sem abrigo, alguém que passa ao lado dos jogos de poder, despojado de haveres, um contraste. Sem revelar mais, por ter já revelado mais do que queria, afirmo que António Lobo Antunes tem, neste livro, um dos melhores livros que lhe li. Um livro Da Natureza dos Deuses. Dos Deuses que só poucos autores conseguem ser.

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