Monthly Archives: Novembro 2016

Microcosmos [a biblioteca]

Vi, de cá de fora, as luzes da biblioteca a apagarem-se – os segundos que antecederam esse momento pareceram-me de espera. Senti que lá dentro, nesse instante, a biblioteca se abria e as personagens de todas as histórias  conviviam entre si. Talvez isso explique que o mesmo livro, lido em diferentes alturas, possa parecer outro livro.

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Microcosmos [a barba]

Nunca soube justificar o porquê da barba, até o filho de um ano ter adormecido a puxá-la.

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Microcosmos [o fim-de-semana]

O fim-de-semana chega como o jovem jogador que se estreia na equipa principal aos oitenta minutos, uma perna a tropeçar na outra de ansiedade, vontade de fazer tudo naqueles escassos minutos. O jogo acaba e pode até ter feito dois golos, ficará sempre com a sensação de que podia ter feito mais.

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🏐

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Microcosmos [o vocabulário]

Foi ao consultar o dicionário, para procurar o significado de uma palavra, que percebeu a maravilha infantil da procura das palavras para o que há de mais insignificante.

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O Homem, que já inventou tudo, não foi capaz de criar uma forma de governo que supere os princípios de um Cristo, de um Buda. Não. Naturalmente, não discutirei o direito ao cepticismo, mas o cepticismo é um luxo de minoria… aos outros será servida a felicidade bem cozinhada, e a Humanidade engolirá, satisfeita, a divina bazófia.

Roberto Arlt, Os sete loucos

Uma espécie de felicidade

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Jeff Buckley

Dos que precisaram de pouco tempo para alcançarem o para sempre.

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Microcosmos [a madrugada]

As gaivotas acordam cedo, mas permitem às asas um sono maior, enquanto, no chão, se alimentam do descanso dos homens.

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Microcosmos [a fé]

À força de tantas vezes erguer os braços ao céu para nada colher, lançou-os à terra para semear.

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Têm nome de homem, são três irmãs, duas delas gémeas e uma delas gira

No título, faltou acrescentar que são melhores do que os Hanson.

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Escrever um clássico

Acordou cedo, com a ideia antiga de escrever um livro, como acontecera tantas outras manhãs. Era, portanto, uma ideia repetida. Que um dia este se tornasse num clássico já não era bem uma ideia, mas um sonho que às vezes não ficava na almofada. Não sei se fruto da vontade com que acordou, dormiu já com um pé fora da cama. Assim que arrancou o outro pé à noite subterrânea dos lençóis, dirigiu-se à secretária para apontar meia dúzia de tópicos. A primeira forma de um rascunho. Durante esse dia, acabou por passar algumas horas sentado à janela branca que era cada folha em que escrevia. O livro já era mais do que apenas uma ideia, era um começo. No dia seguinte, esteve meia hora à secretária e achou que melhores dias viriam. Durante essa semana, voltou a pegar na esferográfica duas vezes, nunca por mais de dez minutos. Daí ao esquecimento passou aproximadamente outra semana. Um clássico.

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