Monthly Archives: Janeiro 2017

Bom dia. Boa semana.

Com as etiquetas ,

Com as etiquetas

Cemitério de pianos

Cemitério de pianosPonto prévio: este é um livro paciente. Não me perguntem quais as razões, mas adiei-o durante anos. Olhei-o e adiei-0. Uma e outra vez. Olhei-o e adiei-o. Até que aconteceu olhá-lo e abri-lo. E ao abri-lo, abriu-se uma história cheia de sentimentos também eles pacientes. De culpa, de amor, de determinação, de esperança e de falsa esperança, de indignação. De família. Cemitério de pianos narra, a duas vozes distantes em uma geração, todas as dificuldades de uma família, essencialmente. Nenhum podre é deixado de parte e, no entanto, o livro acaba por ser um elogio, ainda que negro, à resistência familiar, a essa estranha estrutura que parece ser feita para tudo aguentar. Até a morte. A escrita de José Luís Peixoto é bastante eficaz a colocar o leitor no centro de cada problema, na angústia de algumas das situações criadas, e consegue chegar às páginas finais em crescendo de interesse e de intensidade. Peca, talvez, por exagerar ligeiramente na quantidade de personagens sofredoras – salvam-se as crianças, quando muito -, mas merece louvor maior por aproveitar e adaptar a interessante, ainda que também trágica, história de Francisco Lázaro, maratonista portugês que morre em prova nos Jogos Olímpicos, em Estocolmo. Cemitério de pianos soube esperar. José Luís Peixoto soube convencer: voltarei à sua escrita, certamente.

Com as etiquetas ,

Bom dia. Boa semana.

Com as etiquetas ,

Boa vizinhança

Regressa ao activo um blogue que conheci há uns bons anos e que trouxe para o círculo das amizades. E depois para a família. Volta a estar-se melhor na blogosfera. 

Com as etiquetas

Naquele instante, estávamos felizes. Antes, tivemos gestos que nos levaram àquele instante; depois, tivemos gestos que nos tiraram daquele instante; mas, naquele instante, estávamos felizes.
O castigo que escolhi para mim próprio é saber aquilo que aconteceu a seguir.

José Luís Peixoto, Cemitério de pianos

Aquilo que aconteceu a seguir 

Com as etiquetas ,

Essa puta tão distinta

Andar por Barcelona pela mão de Marsé é sempre uma grande experiência. Essa puta tão distinta não foge à regra e leva-nos, com uma escrita eficaz e despretensiosa, sem excessos, aos antigos prostíbulos e aos vetustos cinemas de bairro, ao mesmo tempo que procura desenrolar o novelo de um crime que se deu, alguns anos antes, numa cabine de projecção. Um pouco a exemplo de Rabos de Lagartixa, um dos romances maiores de Marsé,  é na forma, na estrutura, que este livro mais arrisca, com o crime e as possíveis raízes do mesmo a serem explorados por um escritor, a pretexto de uma encomenda para um guião cinematográfico. Em sucessivas entrevistas ao autor do crime, com a sua peculiar condição amnésica, o escritor começa a perceber os caprichos da memória e a facilidade com que esta desvaloriza ou sobrevaloriza factos passados. É essencialmente a essa memória, apesar de toda a história se desenrolar em torno do mundo da prostituição, que se refere o título deste livro, que vale muito a pena, ainda que não chegue à poesia de Caligrafia dos sonhos (livro de que herda um personagem) e ao brilhantismo de Rabos de Lagartixa.

Com as etiquetas ,

Porto

Com as etiquetas

Homens imprudentemente poéticos

Homens imprudentemente poéticosÉ da terra do sol nascente, das suas tradições e dos seus códigos de ética, que nos chega a narrativa do último romance de Valter Hugo Mãe. As criações manuais do artesão e do oleiro, personagens principais da história, são vistosos leques e peças de olaria muito enfeitadas – em demasia, consideram os vizinhos -, mas é no interior destes dois homens em conflito que se dá a criação maior, um novelo ao mesmo tempo terno e violento do que é viver no Japão ancestral. Aquando da passagem do autor pelo país, uma curiosíssima floresta despertou a sua atenção ao ponto de a fazer mudar de tempo e de localização e a encaixar nestas páginas. Nessa floresta entram homens e mulheres com intenções suicidas, munidos de uma longa corda, que serve de guia para o seu exterior, em caso de arrependimento, ou para se pendurarem de fruto maduro. E é sempre com vista para o tema do suicídio, visto com outros olhos no oriente, que Homens imprudentemente poéticos se desenrola.
A escrita de Valter Hugo Mãe faz jus a este título e a tudo o que lhe venho lendo e volta a ser poética, conseguindo ainda, neste caso, a notável proeza de escrever cerca de duas centenas de páginas sem recurso à palavra não. É um feito considerável em termos linguísticos e é um feito ainda maior quando se percebe que não só não prejudica a prosa como ainda se adequa à cortês tradição nipónica.
Mais um livro interessante e, sem surpresa, muito bem escrito de Valter Hugo Mãe.

Com as etiquetas ,

Dois mil e dezasseis

Com as etiquetas ,

Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo. Sentindo-lhe carinho.

Valter Hugo Mãe, Homens imprudentemente poéticos 

O medo

Com as etiquetas ,

É paracetamol e não afecta o estômago 

Vou escrever por extenso: este menino tem dezoito anos!

Com as etiquetas ,

Da paternidade #21

Enquanto pais, há temas que tentamos adiar ao máximo do conhecimento dos filhos. É uma espécie de instinto protector, que funciona inconscientemente, por mais que saibamos que chegará o dia em que teremos que os abordar.

 

Esse dia foi ontem. Ao final da tarde, hora do banho, surgiu a incómoda pergunta.
– Papá, quem é a Maria Leal?

Ninguém está preparado para isto.

Com as etiquetas
%d bloggers like this: