Monthly Archives: Março 2017

Nem todas as baleias voam

Nem todas as baleias voam é Afonso Cruz. Está dito o essencial.
A história tem como ponto de partida uma iniciativa tida em tempos pela CIA, o programa Jazz Ambassadors, que pretendia melhorar a imagem dos Estados Unidos da América na Europa e assim influenciar o decorrer da guerra fria. É o ponto de partida e o ponto final. Tudo o resto nasce do génio do escritor português. Um pianista capaz de expressar tudo em notas musicais, que sofre pelo desaparecimento repentino da mulher, um filho que vê sentimentos e que procura chegar ao pai, e um escritor que tortura mulheres numa cave para lhes extrair literatura, são apenas alguns exemplos de personagens singulares e tocantes que este livro encerra.
Nem todas as baleias voam volta a apresentar uma escrita, que já conhecemos do maravilhoso Para onde vão os guarda-chuvas, cheia de bons paradoxos: sábia e infantil, inocente; acutilante e terna; crua e fantasiosa. Afonso Cruz tem um cuidado estético de ilustrador nas metáforas que elabora e nas personagens que cria, sempre tão bonitas, mesmo que cruéis. Tem cuidado de poeta na escolha das palavras, que procuram mais do que um significado. Tem cuidado de músico na construção de frases, feitas para decorar e repetir. Não se deve adiar Afonso Cruz!

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Microcosmos [a pontuação]

Atrapalhado por um desejo desmedido de se afirmar, comportava-se de uma maneira que só colhia pontos de interrogação.

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#instazulejo

Faz hoje quatro anos, a ideia do #instazulejo. Este é o número um. Entretanto, o conceito juntou adeptos e amigos que gostam de contribuir para a colecção. Vai, tranquilamente, com a paciência que a idade lhe deu, a caminho dos seiscentos registos. Já me parece um bocadinho de Portugal.

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O propósito da palavra

Resumir a palavra à semântica é tarefa de documentos, de contratos, de notícias. A literatura tem de ir mais além. Tem que carregar o seu significado, naturalmente, mas tem que ter mais qualquer coisa. Por mais qualquer coisa, podemos estar a falar de outros significados, do que pode estar para lá do óbvio, do literal, podemos estar a falar de estética, ou de sonoridade, por exemplo (e abro um parêntesis para sublinhar aqui a importância da tradução, também). Se os meios de comunicação devem reproduzir, a literatura tem que produzir. Tem que se fazer sentir, inquietar, ou aquietar. A informação deve esquivar-se de tudo o que é corpo para tocar apenas a razão, enquanto que o propósito da palavra literária é chegar à razão por abalroamento. Afonso Cruz sabe disso tudo. Sabe de muito mais. Daí que os seus livros transbordem literatura. Numa voz muito própria, uma mescla de sabedoria com inocência, o autor usa todos os artifícios sem espalhafato. Está lá tudo e parece sempre coisa pouca. Debruço-me sobre um parágrafo específico, entre intermináveis possibilidades, pelo que podia ter de exclusivamente informativo. Surge em Nem todas as baleias voam:

Acordaram Gould a meio da noite, quando se aperceberam do fogo, disseram-lhe que era na casa do seu melhor amigo. Erik correu para ajudar a apagar o incêncio, mas debalde, era tarde demais. Quando regressou a casa, sentou-se ao piano e tocou as notas do fogo a crepitar. Uma por uma.

Simples: acordaram Gould para lhe dizerem que a casa do seu melhor amigo ardia. Depois vem a literatura! Erik (Gould) correu para ajudar a apagar o incêndio e a palavra debalde, que nos indica que esse esforço foi inútil, chega carregada de segundas intenções, com a missão quase visual de levar à cabeça do leitor (à minha levou!) um personagem aflito a apagar o fogo de balde. Isto agiganta a sensação de angústia de Erik e dá ênfase à referida amizade. Uma única palavra. Debalde só ali aparece para isso. Com o propósito de informar, a frase podia muito bem ser […] Erik correu para ajudar a apagar o incêndio, mas era tarde demais. Para Afonso Cruz, para a literatura, ficava a faltar o essencial.
O que resta do parágrafo é a prosa a chegar-se à poesia, o sofrimento interior do personagem a arrastar-se na melodia vagarosa do crepitar do incêndio, estalido a estalido, nota a nota, muitas dores a comporem uma dor maior.
É esta a força da palavra. É este tipo de coisas que me faz andar de livro em livro. É este o propósito da palavra, na literatura.

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Um dia o amigo disse-lhe: Gostava de ser como tu, de ter as mesmas oportunidades. E Gould esforçou-se a vida toda por ser o melhor, para que o amigo pudesse ser como ele. Não adiantaria nada ser como ele se ele fosse medíocre, só valeria a pena se ele fosse o melhor.

Afonso Cruz, Nem todas as baleias voam

Da amizade

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Bom dia. Boa semana.

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Bartleby

Ler Bartleby foi perceber o quão estupidamente tarde cheguei a Herman Melville. Basta um livro breve como este para perceber a escrita transparente do autor, que revela uma capacidade singular de contar uma história, de descrever todos os acontecimentos com clareza. Lê-se como se se estivesse a ver e a sentir. E à história perfeitamente contada junta-se a incrível personagem que lhe dá o nome, Bartleby, personificação da inércia, da inacção. Podia alongar-me mais em considerações sobre este livro, mas podia resultar em qualquer coisa mais extensa do que a própria obra e, mesmo assim, não lhe fazer justiça: i would prefer not to.
Herman, Herman, ver-nos-emos em breve, te garanto.

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Crítica gráfica

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Heterónimos

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Talco de vidro

A leitura não foge ao exemplo dos dias e, por vezes, toma caminhos imprevisíveis. Desta vez, levou-me até uma novela gráfica de Marcello Quintanilha, Talco de vidro. O ilustrador brasileiro também se mostra hábil na construção da história, cheia de questões quotidianas, mundanas, fácil de acompanhar e com uma natureza narrativa adequada ao grafismo, intensa e veloz ao mesmo tempo.
Não sendo o meu género de eleição, Talco de vidro foi uma leitura agradável. Voltarei a Marcello Quintanilha, curioso com Tungstênio, entre um ou outro romance mais pesado.

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Lavoura arcaica

De volta a Raduan Nassar, confirmo o cuidado na escolha das palavras apontado aquando da leitura de Um copo de cólera. É novamente sobre a escrita que teimam em recair as atenções, mesmo que a história não mereça ser desvalorizada. Em Lavoura arcaica, que explora a parábola do filho pródigo, André decide abandonar a família, regida a uma voz, a do pai, com regras bem definidas, bem tradicionais e cristãs. Foge às regras e procura mergulhar em tudo o que lhes é contrário. Foge às regras e a um amor que não tem como sobreviver. Tal como na já referida parábola, o pai manda outro dos seus filhos procurar André e trazê-lo de volta a casa, onde se preparará uma festa em honra do seu regresso. E é precisamente a partir do regresso de André que o livro, que é muito bem escrito desde a primeira página, ganha outra intensidade e alcança o brilhantismo. Raduan Nassar consegue prender pela mestria da sua escrita, mas é na alteração do ritmo das narrativas que mais cativa – já assim tinha acontecido com Um copo de cólera. O que é contemplação linguística até ao capítulo final, passa a ser leitura desenfreada daí até  à última frase.
A adaptação cinematográfica de Lavoura arcaica pode ser facilmente encontrada, na íntegra, no YouTube, mas é no papel, na ordem das palavras, no que é apenas sugerido, que a história mais tem a ganhar.

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Bom dia. Boa semana.

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Microcosmos [o cemitério]

Estranho o espanto provocado pela minha recusa em ir ao cemitério, onde mora o teu corpo, esse traidor. Se ainda lá estivesses tu…

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A vegetariana

A vegetariana é um livro que não respeita o leitor: rouba-lhe horas de sono, muda-lhe as rotinas e ocupa-lhe o pensamento. Pelo menos, foi assim que aconteceu comigo. Como se não lhe bastasse o defeito, também engana: A vegetariana tem muito de carnal, nas três partes em que se divide. No centro desta vertigem escrita estão duas irmãs, Yeong-hye e In-hye, e os seus maridos, essencialmente. É na primeira parte do livro, quando Yeong-hye decide deixar de comer carne, que as vísceras de uma família espartilhada por regras rígidas se expõem. A partir daí tudo se questiona, tudo se estranha e tudo se entranha. Directa ao assunto, dura, sem eufemismos, a escrita de Han Kang consegue, ainda assim, criar imagens fortíssimas, principalmente na segunda parte do livro, Mancha mongólica, que já havia sido publicada e premiada antes de ter sido incluída neste romance. A terceira parte do livro, voltada para a sobrevivência e para a consciência, chega quando o leitor já não tem como abrandar. E é em desassossego que se alcança o final do livro, que até na extensão soube ter acerto. Ao terceiro mês de 2017, foi a melhor leitura que o ano me trouxe.

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Escura era a noite

Escura era a noite

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Um copo de cólera

Conduzido a Raduan Nassar pelo muito recomendável Mário Rufino, só posso considerar que a viagem pecou por tardia. Com este Um copo de cólera, o autor brasileiro apresenta-se como uma daquelas vozes de que gosto, que olham para a palavra, para a frase, como mais intenção do que buscar significados. É sempre uma escolha a cuidar da musicalidade da prosa, de uma certa harmonia, mais do que escrita, oral. O ritmo é lento quando tem que ser lento e vertiginoso quando manda que assim seja. A narrativa é quase um pretexto contemplativo, trata de um casal que vai de uma elegantemente escrita e tórrida cena de sexo a uma discussão desenfreada. O motivo aparente é minúsculo, mas esconde um sem fim de inseguranças. Um livro de linguagem adequadamente crua.
Já adaptado a cinema, numa curta-metragem facilmente acessível no Youtube, Um copo de cólera pede o papel. A edição da Companhia das Letras percebeu bem a importância da palavra, deu-lhe corpo, protagonismo, e não resumiu o livro às cinquenta páginas em que cabia perfeitamente. Leitura que eleva expectativas para Lavoura arcaica, a ler muito em breve.

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Bom dia. Boa semana.

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Arranha-céus

Arranha-céus Pegar neste livro de J.G. Ballard foi, confesso, quase um acaso. Numa das minhas habituais incursões à biblioteca, em busca de uns livros que levava em mente, deu-se a coincidência de estes não estarem disponíveis. Tratada a reserva dos mesmos para uns dias depois, sobrava esse intervalo de tempo para ocupar – mesmo que durante uns dias não seja possível ler, é sempre um descanso saber que há um livro à disposição. Na primeira estante lá estava este Arranha-céus, que só não foi um acaso completo porque a chancela Elsinore despertava interesse há já algum tempo.
Não sendo o meu género literário de eleição, esta foi uma leitura interessante, um exercício que comparo, no propósito, aos ensaios de Saramago. Com uma escrita directa, sem excessos, Ballard alicerça-se na ideia distópica de fechar uma comunidade num arranha-céus em que estivessem encerrados todos os serviços essenciais. Tal como nos ensaios do Nobel português, à introdução da primeira anomalia (como um inexplicável surto de cegueira, ou a interrupção da morte), os acontecimentos precipitam-se da forma que todos conhecemos, sempre a piorar e a expor, gradualmente, o que o homem tem de mais animal.
Arranha-céus, que conheceu adaptação cinematográfica relativamente recente, não é o mais original e brilhante exercício deste tipo – na minha opinião, fica a perder para Saramago, por exemplo -, mas vale bem o tempo que se lhe dispensa.

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Little waves our bodies break

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A vida secreta das palavras

Eis-me debruçado no parapeito de um livro, a espreitar com estranheza inicial as palavras que nele vivem. São palavras nascidas no outro lado do Atlântico, mais abertas, mais próximas da oralidade: palavras mais à mão de semear pela boca. Entre elas, reencontro cumbuca, palavra que o meu pai traz ao convívio frequentes vezes. Eis-me, portanto, debruçado no parapeito de um livro voltado para o Brasil, janela para um sotaque diferente, a encontrar o meu pai numa palavra escrita por Raduan Nassar.

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