Monthly Archives: Junho 2017

#nuncamaiséversão

Ainda o Verão estava a alguma distância, iniciei uma brincadeira que consistia em ir partilhando, sem qualquer tipo de agenda, uma versão de uma música. Aconteceu no facebook e juntou abordagens muito variadas – das mais fiéis ao original às mais inventivas. O registo fazia-se com a hashtag #nuncamaiséversão e foi interrompido precisamente com o início do Verão. Ficou nas trinta e seis entradas, mas o feedback foi tão engraçado e surpreendente que me deixou com vontade de retomar a brincadeira lá por altura da próxima Primavera.
Enquanto tal não acontece, fica o resumo da primeira temporada:
.1 Chet Faker – I want someone badly (Jeff Buckley)
.2 Devendra Banhart – Don’t look back in anger (Oasis)
.3 Sampha – Nothing compares (Sinéad O’Connor)
.4 Lianne La Havas – Say a little prayer (Aretha Franklin)
.5 Daughter – Perth/Ready for the floor (Bon Iver/Hot Chip)
.6 Aloe Blacc – Billie Jean (Michael Jackson)
.7 Ben Harper – Purple Rain (Prince)
.8 Slow J – Menina estás à janela (Vitorino)
.9 Cat Power – Remember me (Otis Redding)
.10 Prince – Creep (Radiohead)
.11 Father John Misty – Heart shaped box (Nirvana)
.12 Lizbet Sempa – Seasons (Future Islands)
.13 Minta & The Brook Trout – Walk like an Egyptian (The Bangles)
.14 Antony and The Johnsons – Crazy in love (Beyoncé)
.15 James Vincent McMorrow – West coast (Lana Del Rey)
.16 Andrew Bird – Stand by me (Otis Redding)
.17 Birdy – Bird Gehrl (Antony and The Johnsons)
.18 Samuel Úria – Setembro (José Alberto Reis)
.19 Piers Faccini – Who by fire (Leonard Cohen)
.20 Nina Simone – Ne me quitte pas (Jacques Brel)
.21 Marcus Mumford & Justin Hayward – Like a Hurricane (Neil Young)
.22 Slow J – Não me mintas (Rui Veloso)
.23 Gregory Alan Isakov – The trapeze swinger (Iron & Wine)
.24 José González – This is how we walk on the moon (Arthur Russel)
.25 Idyl – Lost on you (LP)
.26 Glenn Hansard (Eddie Vedder/Jake Clemons) – Drive all night (Bruce Springsteen)
.27 The Staves & Justin Vernon – Jolene (Ray LaMontagne)
.28 Paolo Nutini – Don’t let me down (The Beatles)
.29 Johnny Cash – Rusty Cage (Soundgarden)
.30 M. Ward – Let’s dance (David Bowie)
.31 Ray LaMontagne – Crazy (Gnarls Barkley)
.32 Mac Demarco – It’s gonna be lonely (Prince)
.33 Devendra Banhart – Fistful of love (Antony and The Johnsons)
.34 St. Paul & The Broken Bones – I’ve been loving you too long (Otis Redding)
.35 Tiago Bettencourt – Canção de engate (António Variações)
.36 Willie Nelson – Summertime (Ella Fitzgerald)
Para o ano, queira a memória e a disponibilidade, terei este resumo para saber onde retomar o exercício. Novamente sem agenda definida e novamente até ao Verão.

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Bom dia. Boa semana.

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Uma espera sem propósito 

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Amor natural

Lamento, poesia, ainda não foi desta. Lamento, Drummond. Voltei a esbarrar com estrondo num género que nunca me foi fácil. Há, neste Amor natural, umas quantas linhas de que gosto, mas pouco mais. O erotismo dos poemas aqui reunidos também não ajuda – muito pelo contrário. Não consigo dizer muito mais: por um lado, não entendo o suficiente para dizer que é bom ou mau; por outro lado, não gostei o suficiente para dizer sequer “experimentem”.
A poesia que me desculpe. Carlos Drummond de Andrade que me desculpe. A culpa é só minha. Estranhamente, gosto de uma prosa poética, com preocupações rítmicas e sonoras, mas quase nunca alcanço a satisfação na poesia pura e dura.

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Meios de exploração social

Não sacudamos a água do capote: a culpa é muito – se não toda – nossa.

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Bom dia. Boa semana.

Tem que ser. Os portugueses sabem ajudar quem precisa e sabem respeitar a memória dos que motivam este luto. Sempre solidários. Hoje, é isto que importa. Depois, quando alguma calma puder pousar sobre o país, sejamos determinados e realmente interessados em preparar o futuro para situações como a que agora vivemos e que, com maior ou menor gravidade, se vão repetindo anualmente. A floresta precisa de ser repensada e ordenada. Os meios de combate aos incêndios têm que ser reforçados e, mais do que isso, devidamente valorizados e incentivados. Não podemos viver de heróis pontuais.

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É assim que a perdes

O meu primeiro contacto com Junot Díaz deu-se com A breve e assombrosa vida de Oscar Wao e, na altura, foi uma agradável surpresa. Voltar à sua escrita era uma questão de tempo. Neste É assim que a perdes, o autor dominicano não desilude, apresentando um conjunto de narrativas que não consigo catalogar como contos, porque, mais do que ligadas entre si, me parecem resultar num todo que é maior do que a soma das partes. Os personagens são alguns, mas o essencial volta a ser a exploração da identidade dominicana, das suas ligações à terra natal, dos estereótipos, da inserção numa cultura nova, num país diferente em tudo, como bastam as temperaturas para o provar. É sobre isto e sobre as muitas formas de amor. Tudo narrado de forma simples, muito directa e honesta, sem “embelezamentos” demasiado artificiais. Já não surpreende, porque conhecer Oscar Wao elevou expectativas, mas volta cativar. Vale a pena a leitura e vale a pena continuar atento a Junot Díaz.

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Bom dia. Boa semana.

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Anatomia de um soldado

Harry Parker esteve no Afeganistão como soldado, pisou o que todos fazem por evitar e trouxe uma história dura de contar. Passar de uma vivência deste calibre, desta intensidade, para a escrita de um romance não é tarefa fácil. Parker pega na sua experiência com pinças e, num exercício de originalidade, faz dos objectos que o rodearam narradores. Talvez seja por essa razão, pela natureza exclusivamente material desses objectos, que o relato sai algo frio e nunca chega ao excesso de sentimentalismo, conseguindo, ainda assim, transportar o leitor para as incertezas do campo de batalha e para as angústias hospitalares. Temos então uma história de guerra, de aceitação e de recuperação contada por uma mochila, um capacete, um saco de soro ou uma prótese, por exemplo. Por esta particularidade, pode demorar-se um pouco a entrar no registo narrativo, mas acaba por ser uma abordagem original e que serve relativamente bem o propósito da obra. Anatomia de um soldado acaba por ser uma leitura interessante e uma boa estreia de Harry Parker no romance.

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Bom dia. Boa semana.

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A grande guerra mundial

Separo pilhas de roupa com as mãos enluvadas. A roupa suja é trazida por enfermeiras, quase todas negras. Nunca vejo os doentes; só os conheço pelas manchas e marcas que deixam nos lençóis, o alfabeto de doentes e moribundos. Muitas vezes as nódoas são demasiado profundas, e esses lençóis vão para um cesto à parte. Uma das raparigas de Baitoa diz que ouviu dizer que tudo o que está nesse cesto vai para a incineradora. Por causa da sida, sussurra. Às vezes as manchas são velhas e cor de ferrugem, outras vezes o sangue tem um cheiro cortante como a chuva. Quem visse todo o sangue que a gente vê, pensaria que há uma guerra no mundo lá fora. Há uma guerra, mas é apenas dentro dos corpos, diz uma das raparigas.

Junot Díaz, É assim que a perdes

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