Monthly Archives: Outubro 2017

Bom dia. Boa semana.

Atrasado e rebobinado.

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Estou cansada, diz.
São só três quilómetros, diz Elisabeth.
Não me refiro a isso, diz a mãe. Estou cansada do noticiário. Estou cansada do modo como torna espetacularss coisas que não o são e da maneira simplista como aborda o que é verdadeiramente aterrador. Estou cansada do azedume. Estou cansada da raiva. Estou cansada da mesquinhez. Estou cansada do egoísmo. Estou cansada de nada fazermos para lhe pôr fim. Estou cansada do modo cono o encorajamos. Estou cansada da violência que existe e estou cansada da violência que está a caminho, que aí vem, que ainda não aconteceu. Estou cansada de mentirosos. Estou cansada de mentirosos santificados. Estou cansada de como esses mentirosos permitiram que isso acontecesse. Estou cansada de ter de me perguntar se o fizeram por estupidez ou se o fizeram de propósito. Estou cansada de governos mentirosos. Estou cansada de as pessoas não quererem saber se lhes continuam a mentir. Estou cansada de me ver obrigada a sentir-me tão apavorada. Estou cansada da animosidade. Estou cansada da pusilanimosidade.
Não creio que essa palavra exista, diz Elisabeth.
Estou cansada de não saber as palavras certas, diz a mãe.

Ali Smith, Outono

As palavras certas 

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Bom dia. Boa semana.

Uma pitada de Patrick Watson nunca fez mal…

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Partidarismo

Enquanto olharmos para a política como quem vê futebol, como adepto de um clube, estaremos a perder tempo. Só que no futebol perder tempo é só anti-jogo, na política é anti-futuro.

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Big Brother

Um bocado assustador perceber o que, sem qualquer referência, o Facebook sabe.

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Fia-te nessa…

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Nada disso, garanto, é pessoal
Não tem uma pitada de má-fé,
Mas ninguém faz amor em Portugal
Sem antes passar horas num café.

Se quiseres transar em terra lusa,
Jamais alcançarás algum sucesso
Em levantar, de um português, a blusa
Se não tomarem baldes de expresso.

Bebe-se mais café que se ouve o fado.
Nesse país viciado em cafeína
Jamais sequer beijei uma menina

Que não tivesse, antes, se dopado.
Não importa o trabalho que dedicas,
Não farás (nem terás) bicos sem bicas.

Gregorio Duvivier, Sonetos
(Via Comunidade Cultura e Arte)

Sai um café 

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Bolaño sem espírito

Em O espírito da ficção científica encontram-se, efectivamente, algumas passagens à Bolaño. Só fica a faltar o resto, o que agiganta Os detectives selvagens e 2666. É um livro que se recomenda, essencialmente, a fãs e curiosos do escritor chileno: podem-se encontrar, nesta obra, os embriões de algumas personagens e acontecimentos de outros livros seus e podem-se encontrar, na parte final, imagens de rascunhos do autor, onde se vislumbram métodos e abordagens. Essencialmente por isto. Enquanto história, enquanto livro por si próprio, é pouco. Bolaño é muito mais.

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Bom dia. Boa semana.


A chuva é um bom início. Que apague o que há para apagar e que acelere o crescimento do muito que há a refazer, seja na terra ou no peito.

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📖 5

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Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal
comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas. Traje de passeio».
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos
todos assistir à despedida.
Apertos de mão quentes. Ternura de calafrio.
«Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes… (primeiro, os olhos…
em seguida, os lábios… depois, os cabelos…) a carne,
em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além (vêem?) – nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…

José Gomes Ferreira 
(via Cristina Padrão)

Devia morrer-se de outra maneira

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E trazer isto até ao Porto?

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Bom dia. Boa semana.

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É assim que a natureza funciona. Pensa nos amantes. Se os amantes estivessem todo o tempo agarradinhos um ao outro já não precisariam de se amar. Seriam um só. Já não haveria nada para desejarem. É por isso que a natureza tem intervalos.

J. M. Coetzee, A infância de Jesus

Dos intervalos

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📖 4

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Bom dia. Boa semana.

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