Com oito anos, estava desconcertada perante aquela imagem da mamã imóvel, surda e muda.
– Elenita – disse-lhe eu enquanto lhe fazia uma festa -, a morte é isso: imobilidade total, surdez total, mudez total. E não pensar. Nem sonhar.
– E sentir dor? – perguntou-me fazendo um beicinho que me comoveu.
– Não, sentir dor também não.
No início, aquilo parecia consolá-la mas logo de seguida olhou para a figueira.
– Estás a ver, Claudio? A figueira não se mexe, não ouve, não fala, não pensa, não sonha, não sente dor, mas está viva. Não é? Se calhar a mamã está como a figueira.

Mario Benedetti, A borra do café

Estar como a figueira

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