Category Archives: Cinema

Obrigado a recuar

É isso mesmo, obrigado a recuar à entrada anterior. A uma música a que, num álbum de gravações ao vivo com alguns anos, Fingerlings 4, Andrew Bird havia dado o nome de The Sifters. Obrigado a recuar a essa música que, por fazer parte da banda sonora de Norman (quando é que isto chega a Portugal, já agora?), foi gravada em estúdio e teve direito a novo baptismo, passando a chamar-se Night Sky. Obrigado a recuar porque, se a música é fantástica (vai crescendo, crescendo), a letra arrisca méritos que falham a muitos livros. Andrew Bird começa por explicar a influência da lua nas marés dando a esta o papel de violinista, que puxa e empurra as ondas de costa a costa, para depois perguntar se haverá melodia maior e imaginar-se o céu nocturno (e talvez a lua, de violino junto ao ombro). O músico de Chicago avança para as questões do amor e do tempo e para o papel que este último desempenha no primeiro (se um tivesse 75 e o outro 9, se não tivessem vivido o mesmo tempo), sem esquecer as perguntas certas (estarias sozinho?, contavas-me as tuas histórias?). E termina uma vez mais a imaginar-se o céu nocturno (e talvez as estrelas que – diz a astrologia – regem o rumo dos acontecimentos).

[Este blog podia existir sem Andrew Bird. Eu é que não ia viver bem com isso.]
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Aprender a nadar

– I thought um, you and I, maybe we could go away somewhere. Together. One of these days. Today. Right now. Come with me.
– No, I don’t think that’s going to be possible.
– Why not?
– Um, because I think that if we go away to someplace together, I’m afraid that, ah, one day, maybe not today, maybe, maybe not tomorrow either, but one day suddenly, I may begin to cry and cry so very much that nothing or nobody can stop me and the tears will fill the room and I won’t be able to breath and I will pull you down with me and we’ll both drown.
– I’ll learn how to swim, Hanna. I swear, I’ll learn how to swim.

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A fabulosa personagem de Amélie Poulain


Conheci-a por te ter conhecido. Conheci-te melhor por conhecê-la.

[Para ambas, ainda que para uma personagem fictícia seja naturalmente mais fácil, a palavra-chave é dar.]
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Sessão dupla

O primeiro mais ligeiro e linear. O segundo mais sombrio e ziguezagueante. Quase nos antípodas da forma e da apresentação, ambos se debruçam sobre a condição humana. Reitman atira-se ao isolamento, à solidão e ao egocentrismo. Scorsese lança-se à loucura. Up in the air é uma comédia dos dramas actuais, Shutter Island é um thriller mental.
Não desgostando do segundo, agradou mais o primeiro – coisa de estado de espírito, talvez.

[Nota: Reitman não sabe escolher más bandas sonoras.]
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23 de Abril

No mesmo dia, dois tão esperados lançamentos: Escrever, escrever, viver e Submundo. O primeiro, um documentário sobre António Lobo Antunes e a sua escrita; o segundo, um premiado livro de Don DeLillo. 23 de Abril foi dia feito para gastar dinheiro.

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We don’t live here anymore

A partir de dois contos de Andre Dubus, John Curran avança para um filme sobre as relações amorosas e a ténue fronteira entre a estabilidade e o desmoronamento das mesmas. É das pequenas coisas que as relações mais se ressentem. Umas vão-se esboroando com elas, a exemplo do efeito de erosão nas grandes rochas, sendo visível o desgaste a que estão sujeitas; outras chegam a um ponto em que se dá uma inesperada implosão, fruto da invisível acumulação destas pequenas coisas nos seus alicerces. Neste seu despretensioso filme, Curran filma dois casais infiéis com a maior honestidade possível. Não há só um culpado e não há um herói ou vítima. Falham todos e sofrem todos – uns mais que outros. Tão cru como isto. Justiça feita a essa honestidade, a verdade é que se chega ao final do filme com a sensação de ter ficado muito por explorar.
Num filme deste tipo, ao elenco pede-se, essencialmente, credibilidade. Não é por aí que We don’t live here anymore falha. Mark Ruffalo, Peter Krause e Naomi Watts convencem e Laura Dern leva a sua personagem a um patamar superior.

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Da descoberta pessoal

Dois filmes que aparentemente seriam diferentes em tudo, são afinal semelhantes no essencial. Em ambos há um homem que, depois de mais de meia vida vivida, se começa a descobrir verdadeiramente. No primeiro, Jack Nicholson interpreta o papel de Warren Schmidt, recém-reformado e recém-viúvo que se vai descobrir graças ao apadrinhamento de uma criança africana e às cartas que lhe vai enviando, num exercício introspectivo; em The Visitor, Richard Jenkins assume o papel de um professor e autor de vários livros, também viúvo, que se vai encontrar através do conhecimento de outra cultura e dos problemas dos outros. Em registos completamente diferentes e de formas diferentes, tanto um como outro percebem que a diferença se faz nos pequenos gestos e a satisfação se tira dos pequenos prazeres. Não custa assim tanto deixar uma marca no mundo em que vivemos, não custa assim tanto fazer a diferença e, em grande parte dos casos, não é assim tão difícil encontrar motivos para se ser feliz.

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Where the wild things are

Fizeram-me chegar às mãos a adaptação cinematográfica do clássico infantil de Maurice Sendak, Where the wild things are. Do filme, poderia dizer que aborda muitos dos problemas da infância, como os medos e a procura pela atenção. Podia dizer que é um ensaio sobre a forma de as crianças contornarem as disfuncionalidades e contrariedades familiares e podia dizer que, no final, e apesar de tudo isso, acaba por ser um elogio à família.
Estas palavras chegam com atraso em relação à data em que vi o filme, uma vez que só agora consegui tempo para dar a devida atenção à sua banda sonora – recebida na mesma altura em que recebi o filme -, que só por si as justificaria. É, a par da fotografia, o que mais se destaca, nesta adaptação de Spike Jonze. A cargo de Karen O and the Kids, onde se incluem membros dos Liars, dos Yeah Yeah Yeahs e dos Deerhunter, a banda sonora acaba por ser a grande força  do mundo imaginário criado pelo jovem protagonista. Como pequena amostra, deixo Worried shoes, que fala de erros e passos mal dados. Quem não cresceu assim?

[Obrigado, Gomez]
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Inglorious basterds

Se mais provas fossem necessárias, este Inglorious basterds vem acentuar ainda mais a excelência de Tarantino enquanto realizador. Os planos são brilhantes, os enquadramentos idem. A música continua a ter honras de papel principal e a levar as cenas – com os já referidos excelentes planos e enquadramentos – a um patamar superior. Junte-se a estas imagens de marca uma história interessante, com contornos históricos e ficção à mistura, diálogos escritos de forma cuidadosa e um elenco a contar com um Brad Pitt no seu melhor, um convincente Eli Roth e um Cristoph Waltz num papelão e pouco ficará por dizer. Filmaço.

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Away we go

Em Away we go, não se pode dizer que Sam Mendes traga algo de novo. A história é a de um casal que se prepara para o primeiro filho sem aquilo a que chamam uma vida estável. Como uma gravidez traz mudanças, este é obrigatoriamente um filme de mudanças. Com o propósito de decidirem onde se vão estabelecer, onde vão formar família, Burt e Verona iniciam uma viagem com passagem por cidades onde têm família ou amigos. Do contacto com os seus anfitriões de cada local, vão-se apercebendo de que as dificuldades estão por todo o lado e que, afinal, talvez tenham mais do que é preciso para a tal estabilidade. Por ser, mais do que um filme de acção, um filme de reacção, não se espere de Away we go um filme empolgante. Ainda assim, na lenta evolução do filme e por entre uma série de lugares comuns, Sam Mendes consegue bons momentos. Ser-me-ia impossível não referir a excelente banda sonora, quase toda da responsabilidade de Alexi Murdoch.
Enquanto a barriga de Verona vai aumentando, vão-se definindo as fundações do que será a futura casa da família. O resto é uma questão de espera – And if I can’t be all that I could be, will you, will you wait for me?

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É uma série e é fora de série

Digo-o em relação à Série Ípsilon II. É uma série porque é distribuída à razão de um filme por semana. É fora de série porque tem Juno, que vi e achei excelente. É então uma série porque tem periodicidade. É fora de série porque tem Climas, que tanto queria ter visto. Basicamente, é uma série sempre pela mesma razão. Já as justificações para que se possa considerar fora de série são, no mínimo, vinte.

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In the mood for love

aqui tinha escrito que achava o supramencionado filme de Wong Kar-Wai um autêntico poema. Daí que o tenha visto com grande satisfação entre as escolhas de três de quatro críticos do Público para os filmes da década.

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Era pedir muito?

Que este pequeno filme chegasse às salas do Porto?

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Por estrear

Depois de muita procura, cheguei a pensar que Synedoche, New York não teria lugar nas salas de cinema nacionais. Feliz engano: dia 20 de Agosto chega até nós o filme de estreia de Charlie Kaufman na realização. O brilhantismo de alguns dos seus argumentos – como Eternal Sunshine of the Spotless Mind – fazem aumentar a expectativa em relação a Synedoche, New York. Como se não bastasse, o filme traz-nos um Philip Seymour Hoffman que não sabe representar mal. Depois de ver o trailer, marquei-o como obrigatório.

Numa dessas habituais visitas ao Pitchfork, dei de caras com o trailer de Paper Heart. Se o filme anteriormente referido é obrigatório, não sei como classificar este. Em linhas gerais, Charlyne Yi é uma rapariga que não acredita no amor e decide partir pela América para realizar um documentário sobre essa sua descrença. Amigos, cientistas, escritores e crianças são convidados a dar a sua opinião acerca do verdadeiro amor. Esse é o ponto de partida para uma história que promete, no mínimo, originalidade. A realização e o argumento são de Nick Jasenovec e ao lado de Charlyne Yi há lugar para Michael Cera – quem viu Juno não terá esquecido deste nome. Da banda sonora sei dizer pouco, mas com muito significado: Zach Condon aparece por lá.
Assim que alguém souber quando é que este filme estreia em Portugal, é favor deixar aviso por estas bandas. Ficava agradecido.

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Dias de cinema

Dois filmes, duas pequenas desilusões. Se de um esperava mais, o outro desperdiçou a hipótese de surpreender. Acabam por ser as interpretações de um enorme Rourke e de Phoenix – naquele que é tido como o seu último papel, antes de se dedicar por completo à música – as notas de maior destaque em cada uma das histórias. The Wrestler é, basicamente, uma história de envelhecimento; Two Lovers fica-se por uma história de amor. Ambos podiam dar mais.

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In the mood for love

Por razões insondáveis da minha mente, nos últimos dias tenho lembrado In the mood for love, de Wong Kar-Wai. O filme está carregado de imagens que funcionam como autênticos poemas e a música sublinha-lhes essa dimensão. Recordo algumas cenas com facilidade, mas nem todas encontro como queria. Ainda assim, consegue-se encontrar a enigmática cena final, em Angkor Wat.

Antigamente, quando alguém tinha um segredo que não queria partilhar, fazia um buraco no tronco de uma árvore, murmurava o segredo para esse buraco e cobria-o com lama. Wong Kar-Wai reinventa esta fórmula e dá um final brilhante a uma história de amor proibido.

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Jeff Buckley numa improvável versão de Elton John

Jodi Picoult escreveu o livro e Nick Cassavetes adaptou-o para cinema. Refiro-me a My Sister´s Keeper, que não li e não vi. O título ter-me-ia passado ao lado – quer em livro, quer em filme – não fosse a tal improvável versão de We all fall in love sometimes, interpretada por Jeff Buckley. O tema é parte integrante da banda sonora do último trabalho de Cassavetes, onde também surgem os nomes de Regina Spektor, Priscilla Ahn, Edwina Hayes e Pete Yorn, entre outros.
Encontrado o filme, diria que para além da voz de Jeff Buckley, só descubro nele mais uma coisa capaz de me despertar a atenção: Abigail Breslin, a simpática menina de Little Miss Sunshine.

[A quem interessar, a estreia do filme em território nacional está prevista para Setembro.]
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Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb

Não se devem conhecer muitos filmes que façam uma sátira humorística à guerra nuclear. Nesta obra, Kubrick fá-lo de forma perfeita. O filme arranca para uma crítica à política e às guerras, mas vai ainda mais longe, expondo a mediocridade humana. Só na cabeça do homem, que parece desconhecer a sua própria natureza, poderia caber uma doomsday machine. Só na cabeça do homem poderia caber a hipótese de reunir em bunkers milhares de pessoas escolhidas de acordo com características julgadas importantes, na relação de um homem para dez mulheres, a fim de repovoar um país. Pior: só na cabeça do homem um cenário destes ainda deixaria espaço para discussão patriótica, para um momento de espionagem, ou para um milagre pessoal – Mein Führer! I can walk!

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Quiz [VIII]

De regresso aos desafios e ao cinema, pergunto: a que filme pertence a imagem que abaixo se apresenta?

Quiz  [VIII]

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Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Eternal Sunshine of the Spotless MindOntem, a RTP1 transmitiu um filme que vi com cinco anos de atraso. Um filme acerca das pequenas coisas do amor, das marcas que nos deixam, da força com que se vão revestindo. Recordações do primeiro encontro, das situações mais embaraçosas, das mais banais, até. A imperfeição humana, a facilidade com que nos sentimos perdidos; a identidade e aquilo com que nos identificamos; as diferenças e a dificuldade que, muitas vezes, temos em aceitá-las. Um grande filme quotidiano.
O título vem de um poema de Alexander Pope (How happy is the blameless vestal’s lot!/ The world forgetting, by the world forgot./ Eternal sunshine of the spotless mind!), o argumento é de Charlie Kauffman e a direcção de Michel Gondry. O elenco conta com o melhor Jim Carrey que vi, com Kate Winslet, Mark Ruffalo, Elijah Wood e Kirsten Dunst. Quem ainda não viu, não deve esperar muito tempo para o fazer.

[Há algumas referências a este filme como sendo uma comédia. Custa-me entender.]
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