Category Archives: Dos dias

Os mesmos problemas, problemas tão diferentes

Final do dia de trabalho. Tiro o calçado de segurança que usei e volto a calçar as sapatilhas, as mesmas que calcei de manhã, distraidamente, e que agora sinto quase como recompensa. Tenho vontade de pedir-lhes desculpa e de lhes dizer o quanto as estimo. No dia  seguinte, acordo e calço as sapatilhas com os mesmos gestos mecânicos e a mesma abstração.
Tenho consciência de que isto já me aconteceu com as pessoas que me fazem sentir bem.
Os problemas de calçado são tão simples.

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Literadura

Ouvir, num documentário que passa na RTP3, um velho pescador dizer que as marés são o mar a respirar e outro a descrever a tundra ártica como um branco imaculado sob um céu que é um abismo. Vidas duras. Literaturas.

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Leituras de praia

Sem ter lido mais do que cinco páginas do tijolo a que me tinha proposto para as férias, resta-me a satisfação de já ter visto pela praia, entre as Nora Roberts e os Sparks, um Gonçalo M Tavares, dois Orwell, um Eduardo Mendoza e um Roberto Bolaño. 

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Acredite quem quiser

Já me comprometi: só levarei um livro para as férias!

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Revista de imprensa

No sábado, ao fazer a revista de imprensa, espreito mas evito megulhar, o lago está demasiado poluído. Entre várias indecências noticiosas, encontro Gentil Martins a nadar contra a sua própria inteligência, um homem incapaz de compreender o seu molde, a afundar-se pela tardinha na intolerância.

António Reis, em portográfico.

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Um absurdo cheio de graça

A primeira vez que ouvi falar de Grace VanderWaal (obrigado, Mariana), já ela tinha vencido o America’s Got Talent. Até aqui, tudo bem. O que realmente me surpreendeu foi perceber que essa vencedora era uma menina de doze anos… a cantar originais seus. Aquilo que ouvi deu-me a certeza de estar perante um daqueles raros casos de genialidade. Tudo me impressionou: as letras, as composições, a postura e o domínio de uma voz imperfeita. De ukulele, todas as actuações que lhe vi – e vi-as todas de seguida – foram dignas de espanto. Nessa altura, percebi que havia uma menina que, aos doze anos, podia fazer daqueles álbuns que eu era capaz de querer comprar. Recentemente, dei com a pequena Grace numa adorável sessão da Paste Magazine e, desde então, as palavras dela não me têm saído da cabeça. É, realmente, uma menina que não joga pelas regras do jogo, como nos canta numa viciante e já tornada viral I don’t know my name. É um talento de uma precocidade absurda. Que o futuro não a molde a ideias que não são dela, como nos parece garantir em Clay. Grace VanderWaal tem um canal de Youtube com vídeos muito adequados à sua sonoridade e já tem o seu primeiro EP, Perfectly Imperfect, à venda, mas vou deixar que procurem tudo isso depois. Por agora, recuemos um ano, à raíz do que aqui me trouxe:

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Todos os nomes

Na hora de largar um livro a meio, não dá para olhar a nomes. Comigo, já aconteceu a Thomas Pynchon, a Saramago, a Don DeLillo e até ao meu tão estimado António Lobo Antunes, por exemplo. Isso não diz mal deles ou dos seus livros. Dirá mais dos meus momentos. A Cuba de Cabrera Infante, em Mapa desenhado por um espião, não estava a alhear-me dos dias verdadeiros, como eu gosto que aconteça com a literatura. Mais tarde ou mais cedo, é possível que lá volte. Por enquanto, confio os próximos dias a Julian Barnes. O ruído do tempo se encarregará de dizer se foi uma escolha acertada.

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Meios de exploração social

Não sacudamos a água do capote: a culpa é muito – se não toda – nossa.

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SG Gigante

A história do Sr. José mistura-se um bocadinho com a história de muita gente da minha geração. Gente que cresceu à volta de um bar de praia que quase nunca precisou de nome próprio. Emprestava-o o Sr. José. Entre a praia, a esplanada e as redes de vólei, vivia-se por ali – a minha mãe não devia ser a única a dizer que só lá me faltava dormir. Era assim no Verão, essencialmente, mas também era assim quando as outras estações do ano faziam uma graça. O Sr. José fazia tanta falta que, no Inverno, mesmo em dias pouco convidativos, alguns de nós aproveitávamos o dia de receber fornecedores para irmos matar um vício que não era de cafeína. Nesses dias, só a porta se abria. Fazíamos por caber no interior do bar, encostados à arca de gelados, a ler o jornal desportivo e a conversar sobre tudo, quando sobrava tempo entre os assuntos da bola. O Sr. José sabia receber. Sabia ouvir. Sabia aconselhar. Sabia brincar. Sabia cativar. O Sr. José desviou-nos de coisas que andavam ali ao lado. O Sr. José foi um bom amigo dos nossos pais. Ninguém pense que não pintámos a manta, que nunca nos excedemos, mas foram daqueles excessos da idade, daqueles que qualquer pai está pronto para aceitar, com maior ou menor rispidez, como experiência de crescimento. Crescemos ali. E o Sr. José puxava de um SG e fazia-nos sentir gigantes. Não vamos saber agradecer o suficiente. “Obrigados”.

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Venezuela

Sou português, nascido no Porto, crescido na Aguda e a envelhecer em Matosinhos. Sou quase tudo daqui, deste rectângulo com varanda para o Atlântico, mas moram em mim mais dois países, um que nunca pisei, nas quentes terras africanas, e outro por onde gatinhei, num canto latino voltado para as Caraíbas. Do primeiro, Angola, enchi-me de memórias e paixões familiares. Histórias maravilhosas de um território tão próspero que parecia nascido do verbo dar. Do segundo, a Venezuela, trouxe na bagagem palavras que acabei por transformar e que só mais tarde percebi de onde vinham. Também daí me enchi de boas histórias familiares. Algumas que, por muito que me incluam, não consigo ter como minhas, tão cedo de lá regressei. Em todas, no entanto, mesmo nas melhores, nas mais felizes, arrastam-se palavras que não foram ditas ou escritas. Cuidado. Cautela. Atenção. Essas palavras que, no fundo, me fizeram voar para fora da asa materna. Cuidado. Cautela. Atenção. Vim ter com a abuelita e o abuelito que, deste lado, passaram a ser só balita e balito. Aportuguesei as palavras e fiz do meu fado seguinte olhar para o céu. De fralda, sentado no degrau cimeiro da casa dos meus avós, à procura do avião que traria os meus pais. Cuidado. Cautela. Atenção. Nessa altura, a Venezuela não era só um conto de misses. Nem hoje.
A atravessar uma crise política que já está marcada a sangue, o país mostra que não está maduro. O que lá se vive – e que me toca de forma algo especial – deve ser visto nas fotografias reunidas no sempre brilhante The Big Picture, do The Boston Globe. Não há melhor forma de contar as coisas. Cuidado. Cautela. Atenção. A Venezuela tem que largar estas palavras.

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Tantas mães numa mãe 

Esta era a Lena de Carmona e do Negage. Uma Lena que era menina, era Maria e era rapaz. A Lena das bicicletas e da motas, dos joelhos esfolados e das pernas cheias de nódoas negras. A Lena que subia às árvores e, sem saber, tomava banho junto aos crocodilos. A Lena que, na sala de aula, ficava na carteira em frente à do professor e que, mesmo assim, ainda arranjava tempo para orquestrar todos os outros colegas. A Lena que ia ter motorista, cozinheira e empregados, que não precisava de aprender as lides domésticas. A Lena de hoje é outra. Já foi mãe à distância, à força de lágrimas e resistência. Aproximou-se para ser mãe presente. De dois filhos. Dispensa cozinheira, dispensa motorista. Ironia do destino, a Lena de hoje é a Professora Helena, mãe de muitos filhos que não são seus. E de filhos desses filhos. A Lena também é avó, que todos sabemos que corresponde a ser mãe duas vezes. A Lena de hoje resiste como resistiu sempre e é, por estes dias, mãe da mãe.

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Flâneur

É assim bem embrulhado que um escritor dominicano chega a Matosinhos, pelas mãos do simpático Arnaldo. Tudo uma maravilha. A avivar a vontade antiga de visitar o espaço físico da Flâneur.

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Saber de experiência feito

A 30 de Abril de 2011, há precisamente seis anos, portanto, partilhei aqui uma publicação com o título Se chover, fico bem em casa. Hoje, passado esse período de amadurecimento de seis anos, com  o acréscimo de sabedoria que a vida se encarrega de ir ministrando, ao acordar para uma manhã com tanto de chuvosa como de ventosa… decidi fazer-me aos montes e percorrer quinze quilómetros. Por sorte, o tempo acabou por melhorar e a lama não foi em excesso, mas este episódio deixou-me com dúvidas quanto ao saber de experiência feito.

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O bibliotecário

O bibliotecário é a centelha que transforma um arquivo bibliográfico numa biblioteca. Matosinhos tem uma biblioteca.

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Défice de atenção

O futebol em Portugal são duas equipas a jogar para ganhar e mil olhos numa terceira equipa.

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#instazulejo

Faz hoje quatro anos, a ideia do #instazulejo. Este é o número um. Entretanto, o conceito juntou adeptos e amigos que gostam de contribuir para a colecção. Vai, tranquilamente, com a paciência que a idade lhe deu, a caminho dos seiscentos registos. Já me parece um bocadinho de Portugal.

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O propósito da palavra

Resumir a palavra à semântica é tarefa de documentos, de contratos, de notícias. A literatura tem de ir mais além. Tem que carregar o seu significado, naturalmente, mas tem que ter mais qualquer coisa. Por mais qualquer coisa, podemos estar a falar de outros significados, do que pode estar para lá do óbvio, do literal, podemos estar a falar de estética, ou de sonoridade, por exemplo (e abro um parêntesis para sublinhar aqui a importância da tradução, também). Se os meios de comunicação devem reproduzir, a literatura tem que produzir. Tem que se fazer sentir, inquietar, ou aquietar. A informação deve esquivar-se de tudo o que é corpo para tocar apenas a razão, enquanto que o propósito da palavra literária é chegar à razão por abalroamento. Afonso Cruz sabe disso tudo. Sabe de muito mais. Daí que os seus livros transbordem literatura. Numa voz muito própria, uma mescla de sabedoria com inocência, o autor usa todos os artifícios sem espalhafato. Está lá tudo e parece sempre coisa pouca. Debruço-me sobre um parágrafo específico, entre intermináveis possibilidades, pelo que podia ter de exclusivamente informativo. Surge em Nem todas as baleias voam:

Acordaram Gould a meio da noite, quando se aperceberam do fogo, disseram-lhe que era na casa do seu melhor amigo. Erik correu para ajudar a apagar o incêncio, mas debalde, era tarde demais. Quando regressou a casa, sentou-se ao piano e tocou as notas do fogo a crepitar. Uma por uma.

Simples: acordaram Gould para lhe dizerem que a casa do seu melhor amigo ardia. Depois vem a literatura! Erik (Gould) correu para ajudar a apagar o incêndio e a palavra debalde, que nos indica que esse esforço foi inútil, chega carregada de segundas intenções, com a missão quase visual de levar à cabeça do leitor (à minha levou!) um personagem aflito a apagar o fogo de balde. Isto agiganta a sensação de angústia de Erik e dá ênfase à referida amizade. Uma única palavra. Debalde só ali aparece para isso. Com o propósito de informar, a frase podia muito bem ser […] Erik correu para ajudar a apagar o incêndio, mas era tarde demais. Para Afonso Cruz, para a literatura, ficava a faltar o essencial.
O que resta do parágrafo é a prosa a chegar-se à poesia, o sofrimento interior do personagem a arrastar-se na melodia vagarosa do crepitar do incêndio, estalido a estalido, nota a nota, muitas dores a comporem uma dor maior.
É esta a força da palavra. É este tipo de coisas que me faz andar de livro em livro. É este o propósito da palavra, na literatura.

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Ai Portugal, Portugal…

Sem querer exagerar, a polémica em torno do vencedor da mais recente edição do Festival da Canção fez-me dedicar mais tempo ao concurso do que dediquei às últimas dez edições. Todas juntas. Isto porque ando à procura de uma explicação para tanta controvérsia. Qual é, então, o problema? A interpretação? O intérprete em si? A Lady Gaga e a Sia são excêntricas. O Prince era excêntrico. Oh, o Ney Matogrosso, que figura genial. Saudoso Variações. O Salvador, esse, é só estranho, pelos vistos. Nem parece que já fomos representados pelos Homens da Luta. Nem parece que uma Conchita de barba já venceu a Eurovisão. O problema, afinal, é a música não ser “festivaleira”? Realmente, não se percebe a ideia peregrina: as anteriores escolhas tinham tido tanto sucesso. Ai Portugal, Portugal…

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Instameet

O @igersporto convida-nos para um dia diferente, a 25 de Fevereiro, em Santo Tirso. A ideia é explorar o Museu Internacional de Escultura Contemporânea (MIEC) e a sua coleção ao ar livre – “(…) um labirinto de formas, cores, volumes imponentes ou passagens discretas, figuras desconcertantes ou frestas luminosas fazendo com que as necessidades da nossa imaginação ultrapassem o alcance dos nossos braços.” 

Conhecendo aquela equipa e tendo participado em actividades por eles desenvolvidas/programadas, só posso aconselhar. A inscrição é gratuita e ainda contempla o almoço. Não é coisa que careça de ponderação, sequer!

Regulamento disponível em https://tinyurl.com/st-regulamento

Mais detalhes no perfil do @igersporto.

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Curso de cultura geral

Curso de Cultura Geral é um programa da RTP2, apresentado por Anabela Mota Ribeiro, em que os convidados – normalmente, três por episódio – elaboram uma lista de dez coisas que que lhes foram culturalmente marcantes. Confesso que sinto que a apresentadora conduz o programa de uma forma que o torna algo pretensioso – o próprio nome não ajuda -, mas acho o conceito bem interessante.
Há dias, vi que o meu amigo Menphis tinha listado os seus dez itens, e fiquei tentado a repetir aqui o exercício. Foi só tempo de arranjar tempo para isso:

  • António Lobo Antunes, sem mencionar um livro específico ou referir as crónicas, mas pela importância que a  sua voz teve em mim, estranha no início, viciante pouco depois. Por essa altura, chegou a dar-se o caso de ler vários livros do autor de seguida. Ninguém faz uso tão perfeito das metáforas e ninguém escreve tão bem Portugal. Ler Lobo Antunes é ir à identidade do país através das personagens e dos detalhes que as constroem.

    … fotografia nenhuma e os buracos dos preguinhos emoldurando os rectângulos mais claros da nossa ausência.

  • In the mood for love, porque é um autêntico poema visual. Dos ritmos, à banda sonora, à fotografia, tudo se encaixa harmoniosamente. É um filme para contemplação, não é um filme para quem tem pressa que aconteça. Há quem se entretenha a enumerar três razões que fazem deste filme a maravilha que é, eu prefiro aceitá-las todas.
  • Crime e Castigo, por ser um livro em que cada página pede com urgência a página seguinte, difícil de interromper, mas essencialmente pela forma brilhante como Dostoiévski explora os estados de espírito das personagens, como as analisa. Tive que me questionar e examinar algumas vezes. Ensinou-me que é possível, pelo menos em papel, que me apiede de um assassino. Que me preocupe, até.

    Todo o mistério da vida cabe em duas folhas de papel.

  • Andrew Bird, é difícil de explicar porque é uma questão de identificação pessoal. Desde que o descobri que sinto que muito do que faz é para mim. Mesmo quando tenho de andar às aranhas para perceber determinadas letras, como já aconteceu. É o processo de criação em camadas, é o preenchimento de todos os silêncios, tudo me faz aproximar mais da música. O primeiro contacto deu-se com Weather Systems e a conversão total aconteceu com The Mysterious Production of Eggs. Armchair Apocrypha, não sendo o melhor que Bird já fez, foi a sonoridade certa, no momento certo da minha vida. Naturalmente, já teve trabalhos que me entusiasmaram menos, mas há sempre qualquer coisa que os eleva. Assobiemos o último Are You Serious?
  • A vida secreta das palavras, foi um filme especial pela ocasião e pela intensidade. Um filme passado numa plataforma petrolífera tem que ser um filme voltado para dentro, para as personagens. Não há muitas alternativas. E é precisamente ao aprofundar as personagens, ao romper as suas defesas naturais e ao tirar-lhes o que de mais íntimo têm, que o filme se revela poderoso. A acentuar-lhe essa força, há ainda na banda sonora do filme o incrível Hope There’s Someone, de Antony and The Johnsons.

    – I thought um, you and I, maybe we could go away somewhere. Together. One of these days. Today. Right now. Come with me.
    – No, I don’t think that’s going to be possible.
    – Why not?
    – Um, because I think that if we go away to someplace together, I’m afraid that, ah, one day, maybe not today, maybe, maybe not tomorrow either, but one day suddenly, I may begin to cry and cry so very much that nothing or nobody can stop me and the tears will fill the room and I won’t be able to breath and I will pull you down with me and we’ll both drown.
    – I’ll learn how to swim, Hanna. I swear, I’ll learn how to swim.

  • Grace, a minha resposta à famosa questão de que álbum levaria para uma ilha deserta. É maravilhoso quando anda no registo em que mais habitualmente se encaixam as minhas preferências musicais, como em Lilac Wine, em Lover, You Should’ve Come Over, ou em Hallelujah, mas é também maravilhoso quando sobe de tom em Last Goodbye e volta a subir em Dream Brother, ou Eternal Life. Depois há Mojo Pin, que tem só no nome o suficiente para me ser especialmente próxima. Perdeu-se tanto coma despedida prematura de Jeff Buckley. Tanto.
  • A minha primeira (e actual) máquina fotográfica digna desse nome. Embora hoje dispare incomparavelmente mais com recurso ao telemóvel, foi essa máquina que mudou a minha forma de olhar para tudo. Passei a ver a mesma coisa de várias formas – a mesma coisa tantas coisas diferentes -, o detalhe no que há de mais banal. O mundo passou a ser mais mundo.

    A mesma coisa tantas coisas diferentes

  • O fabuloso destino de Amélie Poulain, um filme que é a apologia das pequenas coisas que fazem grande diferença. A jovem Amélie é uma maravilha de uma personagem que procura a felicidade para todos, enquanto faz tímidos avanços na busca da sua própria felicidade. Um filme para transpor para a vida.
  • Antony and The Johnsons (antes de ser Anohni) no Theatro Circo, em Braga. Tendo-o visto novamente no Coliseu do Porto, uns anos depois, e tendo sido muito bom, a verdade é que a atmosfera do Theatro Circo, a menor divulgação do músico nessa altura, a minha própria expectativa por nunca o ter visto ao vivo, todos esses factores contribuíram para uma experiência invulgar. O concerto incluiu uma apresentação de Charles Atlas, TURNING, muito condizente com as questões de género levantadas pelo álbum, que vestiu na perfeição a sonoridade daquela noite. Foi arrebatador. Do início ao fim, com o já referido Hope There’s Someone, Fistful of Love e todos os temas que fizeram de  I Am a Bird Now um álbum tão aclamado, responsável pela condução de Antony ao Mercury Prize. A sala parecia suspensa e confirmou-se isso mesmo em I Fell in Love With a Dead Boy, quando o tema se interrompe por uns largos segundos (no vídeo abaixo, acontece por volta de 1:45) e nem as respirações se conseguiam ouvir.
  • Os blogs, que trouxeram uma forma de partilha acessível a todos, páginas fáceis de gerir e actualizar. Já lá vão uns bons anos, já lá vão os melhores anos, mas a influência que os blogs tiveram em mim perdurará. Foi  nessa rede a que se chamou de blogosfera que descobri muitos músicos, livros e autores que, por limitação de escolhas, não consegui listar aqui. Foram tantos os que me abriram horizontes.
    • O Código de Barras tem referência obrigatória. Muita partilha e descoberta musical, essencialmente, mas não só. Depois a descoberta de interesses comuns. E depois a descoberta da vida em comum;
    • O Scotch Gin and Soda, outro dos que começou por partilha de interesses e se estendeu à esfera pessoal, à vida. O responsável por este exercício, por exemplo;
    • Os muitos blogs do meu amigo António Reis, alguns já extintos, que escreve a reclamar (e a merecer!!) ser publicado em papel. Ainda se pode encontrar em Solicitações, em 1974, em bookspotting, em Caderno Preto, em Animais Domésticos, em a pequena história do grande mundo… Pode parecer muito, mas sabe sempre a pouco;
    • O mais maravilhoso de sempre, As Ruínas Circulares, do João Pedro da Costa. Tudo era de uma originalidade e brilhantismo singulares, neste blog. Recordo que conheci através dele, pelo menos, M. Ward e os Coelhos Suicidas de Andy Riley. Pelo menos. Recordo até posts específicos, como o de uma simples ida ao café, onde passa a transmissão de um jogo de futebol que vai sendo “sabotada” por um estafeta que acompanha o jogo pelo rádio e vai antecipando os acontecimentos. Era genial e chegou a dar livro;
    •  Os que me foram guiando as leituras, como o Bibliotecário de Babel, do crítico José Mário Silva, o Horas Extraordinárias, da editora Maria do Rosário Pedreira e, mais recentemente, O Planeta Livro, do cativante Mário Rufino, que é crítico, mas que é, acima disso, muito boa gente (recomendou-me mais vezes do que mereci, fez-me o favor de conseguir um autógrafo de Juan Marsé para o meu exemplar do delicioso Rabos de Lagartixa…). Não foram os únicos, mas terão sido os que mais contribuíram para a direcção que as minhas leituras foram seguindo. Na impossibilidade de, numa lista dez itens, fazer justiça à literatura que mais me marcou, ficam aqui muito bem alguns dos meus guias literários;
    • Os vários blogs do crítico, poeta, cinéfilo e mil e uma outras coisas Pedro Mexia. Recordo o Estado Civil, O Malparado e o Lei Seca. Todos ao serviço da cultura.

Este tipo de listas deixa sempre um amargo de boca pelo que não se consegue referir. A mim, custam-me especialmente alguns livros e escritores, que não refiro para não desvirtuar a ideia inicial. Custa-me muito um músico, que não aponto pelos mesmos motivos. No que diz respeito a filmes, sinto-me satisfeito com as escolhas.
Isto não sou exactamente eu, mas já diz qualquer coisa sobre mim.

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