Category Archives: Escritas

Alta infidelidade 

Tenho que te confessar uma coisa. Esta semana conheci duas mulheres e temo-nos encontrado em segredo. Desculpa. Antes de me pedires nomes, deixa-me explicar. Aconteceu. Espera, deixa-me explicar. Conheci-as e fiquei com curiosidade, quis conhecer melhor. Desculpa. Desculpa. Tinha que te contar isto. Não ficava bem se não o fizesse. Temo-nos encontrado em segredo. Têm-me dito coisas bonitas e tu sabes como isso funciona. Desculpa. Temo-nos encontrado em segredo: telemóvel no bolso e auricular no ouvido. Chamam-se Aldous Harding e Molly Burch. Precisava de te contar isto. Desculpa não o ter feito mais cedo.

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O propósito da palavra

Resumir a palavra à semântica é tarefa de documentos, de contratos, de notícias. A literatura tem de ir mais além. Tem que carregar o seu significado, naturalmente, mas tem que ter mais qualquer coisa. Por mais qualquer coisa, podemos estar a falar de outros significados, do que pode estar para lá do óbvio, do literal, podemos estar a falar de estética, ou de sonoridade, por exemplo (e abro um parêntesis para sublinhar aqui a importância da tradução, também). Se os meios de comunicação devem reproduzir, a literatura tem que produzir. Tem que se fazer sentir, inquietar, ou aquietar. A informação deve esquivar-se de tudo o que é corpo para tocar apenas a razão, enquanto que o propósito da palavra literária é chegar à razão por abalroamento. Afonso Cruz sabe disso tudo. Sabe de muito mais. Daí que os seus livros transbordem literatura. Numa voz muito própria, uma mescla de sabedoria com inocência, o autor usa todos os artifícios sem espalhafato. Está lá tudo e parece sempre coisa pouca. Debruço-me sobre um parágrafo específico, entre intermináveis possibilidades, pelo que podia ter de exclusivamente informativo. Surge em Nem todas as baleias voam:

Acordaram Gould a meio da noite, quando se aperceberam do fogo, disseram-lhe que era na casa do seu melhor amigo. Erik correu para ajudar a apagar o incêncio, mas debalde, era tarde demais. Quando regressou a casa, sentou-se ao piano e tocou as notas do fogo a crepitar. Uma por uma.

Simples: acordaram Gould para lhe dizerem que a casa do seu melhor amigo ardia. Depois vem a literatura! Erik (Gould) correu para ajudar a apagar o incêndio e a palavra debalde, que nos indica que esse esforço foi inútil, chega carregada de segundas intenções, com a missão quase visual de levar à cabeça do leitor (à minha levou!) um personagem aflito a apagar o fogo de balde. Isto agiganta a sensação de angústia de Erik e dá ênfase à referida amizade. Uma única palavra. Debalde só ali aparece para isso. Com o propósito de informar, a frase podia muito bem ser […] Erik correu para ajudar a apagar o incêndio, mas era tarde demais. Para Afonso Cruz, para a literatura, ficava a faltar o essencial.
O que resta do parágrafo é a prosa a chegar-se à poesia, o sofrimento interior do personagem a arrastar-se na melodia vagarosa do crepitar do incêndio, estalido a estalido, nota a nota, muitas dores a comporem uma dor maior.
É esta a força da palavra. É este tipo de coisas que me faz andar de livro em livro. É este o propósito da palavra, na literatura.

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A vida secreta das palavras

Eis-me debruçado no parapeito de um livro, a espreitar com estranheza inicial as palavras que nele vivem. São palavras nascidas no outro lado do Atlântico, mais abertas, mais próximas da oralidade: palavras mais à mão de semear pela boca. Entre elas, reencontro cumbuca, palavra que o meu pai traz ao convívio frequentes vezes. Eis-me, portanto, debruçado no parapeito de um livro voltado para o Brasil, janela para um sotaque diferente, a encontrar o meu pai numa palavra escrita por Raduan Nassar.

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Escrever um clássico

Acordou cedo, com a ideia antiga de escrever um livro, como acontecera tantas outras manhãs. Era, portanto, uma ideia repetida. Que um dia este se tornasse num clássico já não era bem uma ideia, mas um sonho que às vezes não ficava na almofada. Não sei se fruto da vontade com que acordou, dormiu já com um pé fora da cama. Assim que arrancou o outro pé à noite subterrânea dos lençóis, dirigiu-se à secretária para apontar meia dúzia de tópicos. A primeira forma de um rascunho. Durante esse dia, acabou por passar algumas horas sentado à janela branca que era cada folha em que escrevia. O livro já era mais do que apenas uma ideia, era um começo. No dia seguinte, esteve meia hora à secretária e achou que melhores dias viriam. Durante essa semana, voltou a pegar na esferográfica duas vezes, nunca por mais de dez minutos. Daí ao esquecimento passou aproximadamente outra semana. Um clássico.

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Um Inverno que não se acaba

Um Inverno que não se acaba

@jagjaguwar

 

Esta coisa de nos vermos trazidos à existência sem a termos pedido é uma bênção, mas nem sempre o parece. Quer o façamos de forma consciente ou inconsciente, é preciso inspirar e expirar repetidamente, e nesta tarefa de inspirar o oxigénio e expirar o dióxido de carbono está envolvida uma complexa reacção feita de perdas e danos a que chamamos vida. Ao homem, agradecido pela oportunidade de vivenciar e experimentar o que há de bom, é-lhe pedido que suporte com a dignidade possível o que lhe surge de menos bom. Está escrito em algum lado que somos direitos e deveres. No mínimo, temos o direito de respirar e o dever de aguentar. Alturas há, no entanto, em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo, em que o lombo do homem fica cansado de tanto açoite e este se vê empurrado contra a parede. Fica difícil respirar, quanto mais aguentar. Estas são alturas muito favoráveis à tomada de decisões erradas.
No dia em que um desgosto de amor e uma doença de nome complicado encurralaram um homem numa cabana do frio Wisconsin, o mundo teve a sorte de esse homem se chamar Justin Vernon. Na vida desse homem, o amor escrevia-se Emma e a doença soletra-se m-o-n-o-n-u-c-l-e-o-s-e. A decisão errada – não vou cair na tentação de dizer que era a fácil – era desistir. Justin preferiu a introspecção, fez-se urso e decidiu hibernar, mas em vez de dormir, pensou. E durante três meses, pensou. Durante esse período de tempo, precisou de deixar a solidão sozinha na cabana algumas vezes. Na companhia da natureza, compreendeu rapidamente a necessidade de dois actos: apanhar e cortar lenha. Quando o vento uivava, os lobos sopravam nuvens de fumo branco e o frio queimava, Justin acendia uma fogueira. E se o amor é cego e é fogo que arde sem se ver, já o homem e a natureza, somados, são uma equipa visivelmente feita para sobreviver. Aos medos e aos precipícios.
Um homem a pensar de cabeça fria, durante três meses, numa cabana do Wisconsin. O mundo teve a sorte de esse homem pensar e respirar música. Ordenar as ideias, no caso de Justin Vernon, resultou numa pilha de nove músicas. Um Inverno intemporal. Um bom Inverno.

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O avançado que lia Lobo Antunes

Num clube de futebol das divisões distritais do interior do país jogava um avançado difícil de compreender. Quando chegou à aldeia apresentou-se como Álvaro e pouco mais. Veio a saber-se depois que veio da cidade e que deixou o emprego no ramo imobiliário que, nos melhores anos de mercado, lhe permitira acumular rendimentos consideráveis para a sua idade. Chegado à aldeia sem mulher ou filhos, cedo se percebeu que Álvaro tinha uma espécie de casamento com os livros, uma vez que dificilmente era visto sem a companhia destes. Assim que a hospitalidade do interior conseguiu puxar alguma conversa ao novo habitante da aldeia, descobriram que o futebol era outro dos seus interesses e rapidamente o conduziram ao campo onde aos domingos, entre as cervejas e as conversas de uma semana inteira, se puxava pelo esférico orgulho da terra. Bastaram alguns treinos para tirar duas conclusões: que era difícil compreender Álvaro e que os golos confirmavam que era ele o avançado de que a equipa precisava. Foi então sem espanto que, ao fim de algumas semanas, ao domingo, passou a carregar às costas o número nove. O que os colegas estranharam no avançado nos primeiros tempos de treino, passaram a estranhar os adeptos. Durante largos períodos de jogo, Álvaro parecia não estar em campo e movimentava-se de forma quase aleatória. Sucediam-se as jogadas em que se olhava para a área, se procurava a referência atacante da equipa e este parecia andar nos cus de judas, não se percebe bem a fazer o quê. Quando o questionavam, a resposta não só não ajudava a esclarecer como ainda reforçava a dificuldade em entendê-lo.
– Que estavas a fazer ali ao fundo naquela jogada em que o Batista sentou o lateral e queria cruzar?
– Parecia uma buganvília.
No entanto, Álvaro aparecia a espaços e fazia toda a diferença. Na ficha do jogo, no espaço reservado para os marcadores, o seu nome era uma constante, o que impossibilitava críticas e obrigava a que se habituassem a tão estranho comportamento. E então lá se acostumaram a olhar para um camisola nove de características que nem a memória de elefante do senhor Maximiano, adepto de futebol há quase oitenta anos, conseguia lembrar. Um jogador aparentemente desorientado que só as balizas e as estatísticas confirmavam como craque.
– Preferes que cruze ao primeiro poste, Álvaro?
– Cruza mal, que eles estão preparados para que cruzes bem. Jogador ao contrário de tudo o que vinha nos manuais de futebol, a verdade é que a ordem natural das coisas era o jogo terminar com golos seus. Também natural foi a vontade das pessoas da aldeia quererem saber o que tinha levado aquele homem bem sucedido da cidade a mudar-se para aquele canto esquecido por quase todos. O declínio do mercado imobiliário era notícia que passava a toda a hora na televisão do café do senhor José, mas não chegava como explicação. Álvaro lá ia respondendo como podia, afirmando que encontrara ali, longe das pressões da sociedade moderna, entre a quietude da paisagem e o tempo para a leitura, o esplendor de Portugal.
– O que é que tu tanto lês? – perguntou o senhor Dionísio.
– Romances, sobretudo. Lobo Antunes, de preferência.
– Que tem esse Lobo Antunes de especial?
– Tenho a sensação que me percebe. Escreve coisas que sinto e para as quais nunca tive palavras que chegassem. Seguiu-se um silêncio que Álvaro entendeu como incómodo pela sub-reptícia acusação de não o entenderem. Apressou-se a desfazê-lo:
– E enche os livros de palavras lindas como buganvílias.

[Texto originalmente publicado em http://www.grama.pt e resgatado a um iminente desaparecimento.]

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A(s)simetria

A(s)simetria
O que parece simetria para quem olha é, na realidade, pura ilusão. Não importa a que distância se encontrem os elementos, é praticamente impossível que todas as persianas se abram na mesma medida e que as janelas se decorem da mesma forma. O filho da Dona Alice, do rés-do-chão direito, molhou os dois pares de chuteiras, que enfeitam a fachada, nos treinos da semana, que foi chuvosa. A Dona Etelvina, do segundo esquerdo, não teve que se preocupar com a rega dos vasos exteriores e pôde concentrar-se na outra janela, a mágica, mais abrigada e cómoda, ainda que nem sempre benéfica. Gasta em chamadas de valor acrescentado a diferença entre o que ganha de reforma e o que precisa para alimentação.
Para lá do que está à vista de quem passa, a simetria deixa de existir por completo. Num andar estão sorrisos pendurados sobre um berço de madeira e no outro estão cabeças vazias de pensamentos, que não conseguiram acompanhar o corpo e deixar o quarto de um hospital. A simetria, como qualquer conceito de ordem ou lógica é, pois, um engano do olhar.

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Escrever como quem respira

O rapaz gostava de escrever. Escrevia por tudo e por nada. Qualquer coisa lhe servia para começar a fazer combinações mentais de palavras, a testar-lhes a sonoridade. O papel vinha depois. É argumento muito repetido dizer que gostava de ver a folha em branco começar a ganhar cor. É argumento repetido dizer que escrevia como quem respirava, naturalmente, de forma inconsciente. Um dia pediram-lhe para escrever sobre determinado assunto, com uma finalidade específica. Escrever por obrigação. E foi como quando o médico pede para respirar normalmente. Estranho. – O que é isso de respirar normalmente? Dava voltas à cabeça a pensar se não era isso que sempre fizera. Forçava-se a respirar como lhe parecia ser normal. Estaria a fazê-lo bem? Estaria a fazê-lo de forma artificial? Respirara toda a vida e, naquele momento, quando lhe pediam Respire normalmente, parecia não o saber fazer.

Está na cara

Hoje à hora de almoço, no preciso momento em que a senhora que se encontrava na mesa à minha frente decidiu levantar-se, a televisão noticia que uma jovem brasileira de 20 anos está a leiloar a virgindade. A senhora, já de pé, ali se manteve até ao final da peça. Vestia saia preta e casaco de malha preto. Do cabelo, apanhado em novelo, não se pode dizer o mesmo. Esteve sempre de costas para mim, mas está na cara a expressão que fez.

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A ordem natural das coisas

Uma rapariga pode andar à chuva. Defende-se com uma passada rápida, ou até mesmo uma pequena corrida, protege-se com o carapuço de um casaco, ou alternando entre os toldos e varandas por que passa, e evita as poças. Cerra os olhos e encolhe o pescoço entre os ombros. Uma rapariga pode andar à chuva. Uma mulher também. Uma mãe usa guarda-chuva.

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Viver é escrever sem corrigir

Sentado à janela, olhava a chuva, que adivinhava fria como a superfície do vidro que tocava. Isto é cena para se repetir numa data de romances, mas aqui a história era bem real e as personagens eram de carne e osso. A chuva também era bem real e só não molhava porque estava do outro lado. Era uma chuva tão miúda que, ao invés de cair, parecia correr lateralmente, como se de um cortinado se tratasse. O vento tocava-a e revelava nela uma leveza que à partida não se pensaria associar à chuva. Sentado à janela, olhava a chuva, que já não tinha a certeza de ser fria. Uma chuva que não molhava, que era leve e que já nem sequer parecia fria. Olhava para a chuva e já não a sabia real ou ficcionada. Já não sabia se era de carne e osso ou se era o resultado de um conjunto de descrições. Já não sabia se tinha uma vida ou um enredo. Ocorreu-lhe uma frase de António Lobo Antunes, que diz que “viver é escrever sem corrigir”, e concluiu que talvez não houvesse desvantagem na segunda hipótese. Sentado à janela, continuou a olhar a chuva. Alguém haveria de virar a página.

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A culinária na literatura III

Sopa de cominhos

3 colheres de sopa de banha ou manteiga
4 colheres de sopa de farinha
1 colher de chá de sementes de cominho
1,5 litros de água
Sal a gosto
Pão cortado em quadrados pequenos e frito em banha

Aquecer a banha adicionar a farinha e cozinhar até alourar.
Adicionar as sementes de cominho, cozinhar alguns instantes e adicionar a água, mexendo constantemente. Adicionar sal e continuar a cozinhar durante 15 minutos. Na mesa, colocar um pedaço de pão frito em cada tigela e servir a sopa.

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A aritmética da partilha

Mudou a hora. As noites passaram a anoitecer mais tarde e os dias quase que chegam a sentar-se à mesa para jantar. A temperatura subiu e a chuva só não parou porque há muito deixou de se mostrar. As nuvens mais cinzentas desaprenderam temporariamente a arte de fazer chover e, envergonhadas, resolveram desaparecer. E então veio o sol. Veio o sol e, com o sol, vieram as roupas mais leves, mais curtas. E da maior leveza da roupa e da maior exposição do corpo veio a maior facilidade – a necessidade creio que já lá estava – em expor a alma. Veio o sol e, com o sol, vieram as escadas mornas e o convite para sentar. E do conforto de um lugar destes é certo e sabido que vem a descontracção suficiente para ir estendendo nos degraus, como se de roupa a corar se tratasse, que o marido isto, que os filhos aquilo, que não sobra tempo para nada, que a novela anda a engonhar, que o dinheiro não estica e que à máquina de lavar, imagine-se que logo agora, lhe deu para avariar. Veio o sol e, com o sol, vieram as escadas mornas , a possibilidade de nelas se sentarem depois de almoço e a possibilidade de lá darem corpo à estranha aritmética da partilha, multiplicando as alegrias e dividindo as preocupações.

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A história de um homem comum com uma sorte fora do comum

Esta é a história de um homem comum e, como toda a história de homens, começa pelo seu nascimento. A 8 de Julho de 1979, um homem nasceu pela primeira vez.
(Não me interrompam para dizer que os homens só nascem uma vez, por favor.)
Esse homem nasceu grande, mas ainda menino, como manda a natureza. O menino viveu e cresceu com toda a naturalidade: brincou, aprendeu, errou e aprendeu. Deixou de ser menino para ser rapaz e deixou de ser rapaz para ser homenzinho. Já não era rapaz e ainda não era homem.
Sem se dar conta de nada de anormal, começava a aprender o que era a vida. Só muitos anos depois da data do seu nascimento descobriu que um bocado de si tinha nascido noutra altura. Tinha então vinte e seis anos quando percebeu que também tinha nascido a 17 de Janeiro – como esta não é apenas a história de um homem, omita-se o ano.
(Peço-vos que não me interrompam para voltar a dizer que os homens só nascem uma vez.)
O homem de quem se conta a história não se lembra de ter sentido nada de diferente a um 17 de Janeiro, mas reconhece que a memória não é o seu forte. Esta é a história de um homem com uma sorte pouco comum. Foi também por essa altura que se foi libertando do homenzinho que era para se mostrar como homem. Não tardou muito até sentir, talvez por já estar mais alerta para situações dessas, que tinha nascido uma terceira vez. Foi na manhã de 24 de Setembro de 2010. Achou estranho ter nascido uma terceira vez e, ao mesmo tempo, ter sentido uma inquietação naquele seu bocado nascido a 17 de Janeiro, como se esse nascimento se tivesse renovado.
(Se insistem em dizer-me que os homens só nascem uma vez ou que três vezes é exagero, eu adianto já que não está colocada de parte a hipótese de nascer uma quarta vez.)
Esta é a história de um homem comum com uma sorte fora do comum.

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Decálogo más uno, para escritores principiantes

I. No busquen ser originales. El ser distinto es inevitable cuando uno no se preocupa de serlo.

II. No intenten deslumbrar al burgués. Ya no resulta. Éste sólo se asusta cuando le amenazan el bolsillo.

III. No traten de complicar al lector, ni buscar ni reclamar su ayuda.

IV. No escriban jamás pensando en la crítica, en los amigos o parientes, en la dulce novia o esposa. Ni siquiera en el lector hipotético.

V. No sacrifiquen la sinceridad literaria a nada. Ni a la política ni al triunfo. Escriban siempre para ese otro, silencioso e implacable, que llevamos dentro y no es posible engañar.

VI. No sigan modas, abjuren del maestro sagrado antes del tercer canto del gallo.

VII. No se limiten a leer los libros ya consagrados. Proust y Joyce fueron despreciados cuando asomaron la nariz, hoy son genios.

VIII. No olviden la frase, justamente famosa: 2 más dos son cuatro; pero ¿y si fueran 5?

IX. No desdeñen temas con extraña narrativa, cualquiera sea su origen. Roben si es necesario.

X. Mientan siempre.

XI. No olviden que Hemingway escribió: “Incluso di lecturas de los trozos ya listos de mi novela, que viene a ser lo más bajo en que un escritor puede caer.”

[Retirado daqui, enquanto se vai avançando na leitura de O Estaleiro. Uma tradução possível (pt-br), aqui.]
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Quarto Chambre Zimmer Room

Começo o dia com uma excelente manhã de praia, dou-lhe seguimento com uma tranquila tarde de piscina e, para provar que não são necessários mais de três actos para borrar uma pintura, arranco em direcção à confusão e ao trânsito compacto ao início da noite. Passo directamente a essa última fase, que é a que motiva estas linhas. Encontro-me então entre matrículas dos mais variados países
Espanha, Luxemburgo, França, Alemanha, Itália e Suiça
e sobra-me tempo para ir lendo os anúncios que prometem negócios da China
Procura-se parceiro para projecto de restaurante/bar,
os mais discretos
Quarto Chambre Zimmer Room
e os destaques da vida nocturna.
Todos parecem dirigir-se ao mesmo local. Lá chegado, a suspeita ganha peso. Todos se dirigiram para o mesmo local.
De repente, vejo-me caído num espaço cheio de gente que, ao invés de caminhar, desfila. Gente que, ao invés de estar sentada, está exposta. À mesa de um desses restaurantes frequentados por futebolistas nas férias, um homem orgulhoso faz peito da mulher que, sem precisar de o imitar, exibe a quase totalidade do seu. Não menos orgulhosos, passam por entre quem desfila a pé, com cuidados intermináveis, condutores ao volante dos últimos e mais potentes modelos automóveis. Os mais sonhadores debruçam-se para espreitar os iates e acabam por se transportar para uma qualquer tranquila ilha dos trópicos, alheados do ambiente em redor. Entretanto, passa um outro homem
(também orgulhoso)
a passear uma mulher que, pesem todos os esforços com a aparência, não disfarça a idade que tem. Inglória luta contra a passagem do tempo. Não há calção justo que a trave. Não há salto alto que a supere. Está na cara que a mulher pode ter netos. Do outro lado da barricada não há menos candidatas. O mundo anda ao contrário e, se há mulheres a fazerem de tudo para parecerem meninas, também há meninas a quererem passar por mulheres. Pintam a idade nos olhos e teatralizam a idade nos gestos. São meninas da idade daquelas que, no meu tempo, faziam risinhos tímidos
(e mandavam bilhetes, repare-se só na idade deste que aqui escreve).
No meio deste cenário, guardo um apreço especial por dois homens que, separados por poucos metros, pintam turistas. Um deles dedica-se ao retrato, o outro à caricatura. São homens que tiveram a arte de se dedicar a uma coisa menor
(quantos são os artistas que podem ganhar a vida a fazer o que realmente gostam?)
para conseguirem garantir a sobrevivência. O que falta a cada uma das suas telas em genialidade, sobra-lhes em humildade e em espírito de sacrifício. Em cada traço há um sonho adiado e um dever a cumprir. Não assinam
Picasso, Rembrandt ou Dalí,
mas assinam
Pai trabalhador e esforçado, marido responsável,
coisa com que os primeiros não precisaram de se preocupar.
Passam mais mulheres
(ou as tais meninas)
em vestidos tão curtos que parecem prestes a cair deles, passam mais homens orgulhosos, passam crianças despreocupadas e continuam debruçados para os iates os mais sonhadores. Todos se dirigiram para o mesmo local e, no entanto, dava tudo para estar no quarto
(ou no chambre, ou no zimmer, ou no room, é-me indiferente).

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Correr às voltas

Sentiu-se realizado enquanto maratonista até ao dia em que se cruzou com aquela mulher numa prova. Desde então, sonha em ser corredor de pista e, descobrindo-a na bancada, passar por ela repetidas vezes.

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Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Uma coisa é estar habituado ao horário de trabalho, entrar de manhã e chegar ao final do dia. Outra coisa  é passar um mês a olhar por ti, a olhar para ti. Uma coisa é estar habituado a deixar-te um abraço de manhã e a só voltar a fazê-lo ao final do dia. Outra coisa é ter-te a toda a hora. Abraços, beijos, sorrisos, gargalhadas e as pequenas conquistas de quem ainda tem tudo para aprender. Uma coisa é a saudade de um dia que se passa fora. Outra coisa é a saudade de um mês que passou rápido demais.

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Para não deixar passar em branco o dia mundial da poesia [III]

Poema de Cesárea Tinajero, personagem de Os detectives selvagens, de Roberto Bolaño
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Para não deixar passar em branco o dia mundial da poesia [II]

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, Os meus livros
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