Category Archives: Instórias

Instórias #19

Nascida das preocupações do membro do parlamento britânico que lhe deu o nome, a linha de Plimsoll permanecia esquecida para Alfredo, que, silenciosamente, pintava as marcações do calado do navio. Samuel Plimsoll, o tal membro do parlamento britânico, preocupava-se com o possível excesso de carga dos navios e com a forma de identificar facilmente essa situação. Alfredo, por sua vez, carregava um excesso de escassez. Ordenado mínimo. Um emprego numa casa de quatro. Um quarto. Uma mesa com avisos de corte de luz e de água. Meia dose feita dose familiar. Os livros escolares a chegarem atrasados à sala de aulas, apesar da pontualidade dos miúdos. Contar o que falta para o final do mês assim que o mês começa. Samuel Plimsoll nunca terá tido as preocupações de Alfredo, que, bem vistas as coisas, tinha que fazer mais do que o navio para se manter acima da linha de água.

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Instórias #18

A dezoito de Dezembro, uma folha resistia na copa daquela aparentemente frágil árvore. E porque a resistência, quando realmente heróica, feita sem a dor dos outros, tem que ser vista, é bom exemplo, fazia-o no ramo mais alto. Por já vir a reparar nessa folha há alguns dias, tirou o telemóvel do bolso e fotografou-a. A dezanove de Dezembro, a copa da árvore estava já completamente despida. A folha caiu, mas o exemplo não é caduco.

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Instórias #17


Deixa-me que te diga que a amizade é muito bonita, mas não chega. E, se não chega, a culpa é toda tua. Pensando bem, talvez não toda, mas grande parte garanto que é. A amizade é muito bonita e já houve alturas em que me bastava. Só que depois crescemos e os olhos passaram a deter-se em coisas em que antes mal reparavam, os ouvidos a entenderem as coisas que vêm escondidas nas palavras e nos silêncios e o nariz a começar a compreender o que é a saudade, a que cheiram as ausências. Sobre as mãos não te queria falar, porque as mãos ganharam vontades de que me envergonho. Mas é só contigo que isso acontece, portanto a culpa não pode ser minha, a culpa é tua. Talvez não toda, mas grande parte. Porque se as minhas mãos mudaram, eu mudei, mas mudei porque também tu mudaste. As minhas mãos mais vontades porque, ao crescer, o teu corpo mais apelos. E talvez o meu corpo reconheça a amizade que temos e apenas queira ser simpático, talvez só não queira dizer que não. Desculpa se te entendo mal, desculpa se o meu corpo não se entende com o teu, mas se isso acontece também a culpa é tua. Ou do teu corpo, que fala por meias palavras, que não termina os gestos. A amizade é muito bonita e já houve alturas em que me bastava. Só que depois crescemos e a amizade é coisa sem tamanho, não há amizade grande ou amizade pequena, é amizade e ponto, não cresce consoante nós crescemos. Portanto, deixa-me que te diga que a amizade já não chega.
Neste momento, mais do que deixares que te diga o quer que seja, falta-me ganhar coragem para o conseguir fazer. Por enquanto, o frio aperta e o teu corpo segue-lhe o exemplo, junta-se ao meu, e eu sem arriscar perguntar se essa aproximação significa só frio ou mais do que isso. Enquanto não ganho coragem para te dizer que a amizade já não chega, aceito que o teu corpo se aperte contra o meu e espero que o Inverno se demore.

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Instórias #16

O ballet vem desde onde vêm as minhas mais longínquas lembranças de passado. Comecei a dançar tão cedo que não me recordo de nada que lhe seja anterior. Soube mais tarde que comecei por iniciativa da minha mãe, o que tem lógica, porque nem iniciativa me lembro de ter naquela altura. Na cabeça da minha mãe devia viver aquela imagem que se repete pela cabeça de muitas outras mães: a menina franzina de tutu, o mais próximo que deve haver daquelas pequenas mas vistosas caixinhas de música, dá-se corda rrrrrc, rrrrrc, rrrrc com cuidado e é desse cuidado que ganha vontade e rodopia a pequena bailarina, muito segura, plim, plim, tilim tim, sobre um minúsculo palco pintado a flores. À primeira hesitação da bailarina, anuncia-se o fim da música e do movimento. É preciso dar novamente corda. Como a que me deu a minha mãe com a sua iniciativa. Só que eu, por muito que tenha hesitado, nunca mais parei.
jeté, plié, soutenu, voleé
Ainda não dominava o português e já sonhava em francês. O corpo a exprimir-se numa língua que a cabeça não compreendia.
arrondi, glissé, lié, tendu
E foi por esta facilidade de expressão que me era inata que a paixão cresceu e do passatempo quis fazer todo o tempo, porque era a dançar que eu mais dizia de mim e melhor me conhecia. Só que foi precisamente nesse momento que a minha mãe deixou de achar piada ao ballet. Que não é futuro, que não dá de comer, que não dá estabilidade.
– E filhos?
Como se a minha vida estivesse definida antes mesmo de eu a viver. Vou para o ballet porque ela acha piada, não vivo do ballet porque ela acha que não é vida, porque até já decidiu que devo ter filhos. Que eu tinha notas boas, que podia ser o que quisesse. Ou quase, porque bailarina parece que não podia. Só que a corda que a minha mãe me deu quando achou piada ao ballet não tem como me acabar e lá lhe consigo dizer, muito segura, como a pequena boneca da caixinha de música, que não queria outra coisa.
Passaram-se muitos anos e esgotaram-se as tentativas de explicar à minha mãe que queria ser bailarina, que ia mesmo ser bailarina, que o que começou pela imagem a que ela achava piada, à menina de cabelo apanhado e engraçadas sapatilhas que acabam sem aviso antes de chegar à ponta, é agora a minha vida. Até que um dia percebo que estou a usar as palavras erradas e arranjo bilhetes e quem a arraste para a primeira fila da sala de espectáculos em que ia dançar. Chorou e sorriu-me desde o primeiro quarto de hora. Entendeu-me. No final, tudo o que me disse foi um abraço. Porque o corpo diz melhor aquilo que à boca é difícil dizer.

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Instórias #15

Encosto o dedo à tua fotografia e repito o passeio domingueiro pela marginal do teu corpo. Devagar, assim obriga o trânsito de sentimentos que me provocas. Contorno a faixa costeira a respirar a maresia tranquilizante do teu cabelo sem ondulação. A areia molhada que é a pele dos teus ombros devolve-me o brilho que reconheço como sendo o do teu olhar. Curvo à esquerda, o dedo a derrapar para o teu pescoço, e entro no percurso acidentado que é a fina cordilheira das tuas vértebras. Ainda mais devagar, assim obriga a topografia, uma subida a custo, o dedo a vencer a oposição da gravidade, uma descida cuidadosa, o dedo a fazer o que pode para demorar. Continuar a descida significa entrar no vale abrigado das tuas omoplatas e, na ausência dos sulcos vertebrais, embalado pela paisagem que se vai revelando, ganhar velocidade até perder o fio à meada das palavras. Perder-me. Mas perder-me nunca foi uma preocupação. Essa foi sempre e toda perder-te.

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Instórias #14


O olhar de David para a máquina fotográfica não expressava bem desconfiança, mas antes uma espécie de surpresa. Uma surpresa de alguém que não está habituado a ser o centro das atenções. Nem sequer a dividi-las. Em casa, pouca sobrava, gastava-se praticamente toda nas palavras invariavelmente gritadas, nas sobrancelhas franzidas e no fogo que tomava conta do rosto dos pais. Quando calhavam de reparar em David, já só tinham energia para instruções básicas como anda para a mesa, vai tomar banho ou vai-te deitar. Naquela casa, nunca se abriu a porta ao carinho, três bocas já eram muitas para alimentar e, para gritar, duas bastavam. Na rua, a atenção era um bocadinho mais democrática, verdade seja dita, mas também era solicitada em maior escala. Mais do que dividida, tinha que ser esquartejada. Havia ainda a escola, mas David não carregou essa ilusão durante muito tempo. A escola estava reduzida a mecanismo para repetir informações e avaliar se essas informações eram apreendidas. A professora não chegava para trinta e seis crianças que, antes de aprenderem português e matemática, precisavam de aprender a saber estar. À professora, restava manter-se no seu canto, defender esse espaço mínimo com o ilusório chicote de uma cada vez menos reconhecida autoridade, não fazer grandes investidas e, dali, em aparente segurança, ditar o programa a que alguém resolveu chamar de educativo. E David, como em casa e como na rua, passava pela sala de aula como um número associado a um nome.
Habituado, portanto, a uma invisibilidade que os outros meninos fantasiam como super-poder, mas que David sabia ser mais motivo de fraqueza do que de força, apeteceu-lhe ir ter com a rapariga que apontava a lente fotográfica na sua direcção e perguntar, munido do tal olhar de surpresa que não convém confundir com desconfiança:
– ‘tou mesmo na foto?

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Instórias #13

Onde Raúl vivia, todos o conheciam. Aos homens inspirava respeito e às mulheres arrancava suspiros. Vestia sem mácula, invariavelmente fato e chapéu – que levantava sempre que cumprimentava alguém, e cumprimentava toda a gente, diga-se, e retirava sempre que entrava em algum sítio. Sereno e de excelente trato, usava para com todos um registo que a oralidade tem em perigo de extinção. Excelentíssimo senhor, faça o obséquio. Permita-me o atrevimento de lhe elogiar a elegância, senhora. Abundante em cuidados, abria a porta a quem calhasse, estendia a mão às senhoras que desciam um degrau que fosse e conduzia a cadeira a quem quer que com ele se sentasse. Uma coisa unia vizinhos e vizinhas: achavam-no um verdadeiro cavalheiro.
Aos sessenta e seis anos, consciente da impressão que passava, sentiu a necessidade de se confessar. Como nunca foi muito religioso, fê-lo através de um anúncio pago à palavra ao jornal local. Abdicou do poder de síntese que tinha e estendeu a confissão a 192 palavras. Um custo mais do que justo para o alívio que sentiu.

Auto-retrato
Conheci Ernestina num bar, nos idos anos oitenta, e tive todos os pensamentos que possam imaginar. Não havia muito de grave se não ma tivesse apresentado o meu bom amigo Henrique, com notório júbilo, como sua noiva. Pensei em como faríamos tudo sem nada. Pensei nisso nesse dia e, culpo-me tardiamente por não ter conseguido evitá-lo, nos muitos dias que se seguiram. Até que cometi a fatalidade de a abordar com esta irracionalidade. Levantou a mão e virou costas sem chegar a bater-me, negando-me um castigo que, descobri recentemente, seria em todo o caso menor do que o da culpa que carrego. Ignoro se algum dia contou ao Henrique. Se nos afastámos foi porque não fui capaz de o olhar nos olhos. Conto-o agora. Desculpa. Nesse dia perdi a cabeça. Literalmente. Tive essa certeza quando cheguei a casa despido do chapéu. Chorei. Peço que não se condoam, porque muitas das lágrimas foram pelo chapéu.
Não sou quem julgam. Não sou exemplo. Falho e peco. Esta foi só uma dessas ocasiões. Pretendo que guardem de mim a imagem certa, por muito errada que seja. Sem enganos.

Raúl, 20 de Abril de 2016

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Instórias #12

Enquanto tomava atenção às pressões que o manómetro indicava e ao comportamento de linhas e mangueiras, não deixou de reparar no labor repetido a toda a hora pelas gaivotas que faziam do terminal de descargas sua casa: levantavam voo com um mexilhão preso no bico e demonstravam, em breves segundos, a compreensão de conceitos físicos e matemáticos que o homem leva trimestres a estudar. A altura a que elevam o mexilhão tem que ser suficiente para que o bivalve abra ou parta aquando do embate no solo, mas esta é a mais básica das noções que as gaivotas evidenciam ter. Num dia ventoso como o que se fazia sentir, tendo uma estreita língua de betão a estender-se sobre o mar, aquelas aves resolviam equações de várias incógnitas e sabiam perfeitamente onde deviam largar o mexilhão para que este, considerada a altura, a força da gravidade, a massa e, pelo menos, a velocidade do vento, caísse na ponte e não na água. A operação repetiu-se vezes sem conta, durante aquela manhã, sem lembrança de casos de insucesso.
E no fundo, prova de que há muita escola fora da escola, naquele terminal tínhamos um homem que passou largos anos a estudar e que olhava para um manómetro, umas linhas e mangueiras, enquanto que as gaivotas, nascidas e criadas num ninho arquitectado a fio de nylon, restos de conchas e pedaços de plástico recolhidos na praia, aplicavam conhecimentos que nunca perderam tempo a estudar.

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Instórias #11

A espera não é uma ciência exacta. A exactidão das coisas é uma ilusão. Uma ilusão como a que vivemos, cheia de sonhos e objectivos que inicialmente pareciam os mesmos e que afinal não eram. Uma ilusão como o amor que julgávamos sentir e que, aparentemente, foi um entusiasmo de descobrimentos, de terra nova por explorar, por conhecer. Traçado o mapa das nossas personalidades e particularidades, veio a acomodação. Apesar de tudo, com isso podia eu bem. Com o que eu não me sentia capaz de aguentar era com aquele filme clássico a várias cenas: o chegares tarde e a más horas e o cheiro do álcool e de perfumes demasiado adocicados para um homem. Eu até a indiferença estava capaz de aguentar. A sombra de outras é que me afogueava e me roubava o sono. E entretanto veio a gota de água. Sentir a tua mão em mim de outra forma que não para me acarinhares, de outra forma que não para me cobrires de desejo. Aconteceu a primeira vez e eu nem soube reagir. Assim que pude pensar – e demorei a conseguir fazê-lo -, tratei de o justificar como sendo um excesso que não se repetiria. Só que repetiu, uma e outra vez. Não há ilusão que resista ao peso da mão. E ao medo. Não podia fingir-me eternamente adormecida quando chegavas a casa. E foi então que saí.
Só que a espera não é uma ciência exacta e resiste a coisas que a razão não consegue explicar. Demora o tempo que precisares, desculpa-te pelo que fizeste e promete que vai ser diferente. Até ver que é mentira poderei sempre ser feliz.

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Instórias #10

Rodrigo trabalha como jornalista, entalado num fato à medida. Tão à medida que lhe é impossível perder a postura, a seriedade e o rigor. Só que Rodrigo cresceu menino irrequieto e essa prisão de tecido só está fechada no horário de expediente. Chega à redacção sem a formalidade do fato, desmonta da bicicleta e prende-a ao poste que fica quase em frente aos escritórios. Às costas, uma mochila. Veste o fato, cumpre o horário e volta a sair em cima da bicicleta, feito Joaquim Agostinho. Aventureiro e livre. Pelo caminho, não resiste a qualquer coisa de esteticamente aprazível e volta a descer da bicicleta. Enquadra-a de forma habilidosa e usa a câmara do telemóvel para fazer de Henri Cartier-Bresson. Original e criativo. Demora o que pode pelas ruas, enquanto há luz para fotografar e condições para pedalar. Chegado a casa, despe novamente essas duas peles, toma um banho e janta abreviadamente em frente às notícias. Arrumada a cozinha, faz-se Jorge Luis Borges e mergulha na biblioteca. Curioso, disciplinado. Gosta dos clássicos russos e de Flaubert, mas é em Pessoa que, em tudo o que faz, mais se revê e melhor se define: heterónimo.

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Instórias #9

Para esta história vamos convocar a cena uma personagem chamada Joana.
(Chamemos-lhe Joana pelo simples facto de esta ser uma história real e esse ser precisamente o nome dela.)
Num consultório pediátrico arrumado como tantos outros, uma recepção, uns sofás, umas revistas com mais de dois anos sobre uma pequena mesa, e uma televisão, as consultas da tarde estavam atrasadas. Joana estava lá à espera e, como todos, ia fazendo contas a quem estaria para entrar à sua frente. Só que, como poucos, Joana não se fica pelas contas anónimas a fulano deve ir primeiro, sicrano deve ser depois e trata de sorrir ao menino que está mais próximo. Em seguida, enceta conversa com a mãe. E se a conversa é de circunstância, o sorriso não é. Depois, lança ao miúdo duas palavras que parecem iguais a tantas outras mas que se virá a saber brevemente terem ido directas a um coração pequenino. Mais umas palavras de circunstância para a mãe, mais um sorriso transparente para o miúdo. Isto aconteceu em breves minutos. Logo depois, a criança, que devia ter uns três anos, pouco mais, avança até ela, perfeita desconhecida até há instantes, e estende-lhe um abraço que foi como um obrigado dito com o corpo todo. Quando uma criança desta idade, representante da sinceridade, se entrega assim a alguém que nunca viu antes, é prova de que há gente maior. Gente melhor.

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Instórias #8

O que sou hoje tem muito a ver com os meus sonhos de criança. Na minha pequena mas infinita cabeça, as pedras que colocava no chão à distância de meia dúzia de passos formavam uma baliza tão autêntica quanto as dos estádios que admirava pela televisão. Os postes eram de uma geometria incerta e a barra estava muitas vezes à altura das conveniências.
(- Foi por cima!!)
As linhas que delimitavam o campo eram normalmente menos flexíveis, uma vez que o terreno de jogo se estendia até onde fosse possível jogar. Todos os campos eram diferentes e o que havia de mais regular entre eles era a irregularidade do piso. Nesses estádios improvisados dava para tentar imitar quase tudo o que os ídolos faziam. Quase tudo, porque arriscar entradas de carrinho ou defesas mais vistosas era coisa para os mais corajosos ou, como dizíamos na altura, malucos. O futebol era tudo. Durante o dia, tudo o resto era um relógio em contagem decrescente. Ao final do dia, chegar a casa era o que de mais parecido havia com ter bancadas e público, um público de duas pessoas que eram os meus pais, fiéis depositários dos relatos das fintas e dos golos. Um dia com futebol era um dia ganho, por muito que tivesse perdido todos os jogos. A noite era uma sucessão de repetições mentais. Na minha pequena mas infinita cabeça, as jogadas aconteciam como na televisão, tudo muito devagar, eu a relembrar cada detalhe, o balanço da mão para trás, o olhar do David na baliza, o Sardinha a vir na minha direcção, a bola a sair do meu pé e a dar tempo para toda esta descrição até atravessar a baliza imaginária e abanar as redes que eram o arbusto atrás desta.
– Bom dia, senhor Alcino, desculpe interromper os seus pensamentos, parece bem longe daqui.
– Bom dia, eu é que peço desculpa, andava pela infância. Enfim, memórias. A verdade é que se têm tornado as minhas melhores clientes. Ou as mais frequentes, pelo menos.
O que sou hoje tem muito a ver com os meus sonhos de criança. As horas que dedicava à bola eram as mesmas horas que dedicava a maltratar os sapatos, o que deixava o meu público de duas pessoas um tanto irritado. Como sabia que não eram tempos de abundância, passei muito tempo a remediar costuras e colagens do meu calçado, a adiar-lhes o fim, pela sobrevivência do futebol.
Crescer roubou infinitude à minha cabeça: menos sonhos e mais realidade. E a realidade encarregou-se de me mostrar que o meu futebol era pouco, não chegava para fazer face às necessidades, e que o meu jeito para consertar calçado era capaz de trazer alguma coisa para a mesa.
– Cá estão os seus sapatos, tem aqui solas para mais uma época.

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Instórias #7

Instórias #6

@___keepdreaming___ – www.instagram.com/___keepdreaming___

 

Alice é uma mulher perfeitamente adaptada aos dias de hoje, independente, segura e ambiciosa. As suas longas pernas parecem estar configuradas para experimentar os caminhos menos experimentados e tentar os percursos menos cómodos. Usa sapatilhas por não suportar o estereótipo da mulher que chega ao sucesso montada em saltos altos. À altura da anca traz a privacidade e o mistério: ninguém sabe da sua vida. A barriga está reservada para a guerra entre os prazeres da boa mesa e os sacrifícios do ginásio. Ao peito carrega a vontade de chegar sempre mais longe e a habilidade que nem todas as mulheres têm de mostrar sem expor. Os braços, a exemplo das pernas, são longos. E incansáveis. No pulso do braço esquerdo mora um pequeno ditador, o único a quem decidiu e aceitou submeter-se para chegar ao sucesso, entregando-lhe a gestão do tempo. Alice não é mulher que se veja muitas vezes de braços caídos. Os ombros têm a robustez de alguém que não se acomoda e o pescoço moreno esconde-se entre o cabelo. Alice não é mulher para aceitar sequer as imposições genéticas. Pinta-o. Está-se nas tintas para as opiniões de terceiros. Não esconde que o pinta. A boca mastiga a mesma independência que as pernas e não se cala. É, quase sempre, mais rápida do que a cabeça. Daí que diga o que quer e o que não quer. O nariz é fino e revela, sozinho, toda a confiança do corpo. Se os olhos são o espelho da alma, da alma de Alice pouco se poderá dizer, uma vez que estão  invariavelmente protegidos por uns óculos escuros.
Tem 39 anos, ganha bem e faz o que quer. Ou assim o julgava, até se deparar com um problema chamado Filipe. Conheceu-o há umas semanas e já há partes do seu corpo a resmungarem do que fazem. Já teve ocasiões em que as pernas lhe pareceram pedir para não ir tão longe, em que a anca desejou menos privacidade, em que os braços se lhe sentiram sem força e esquecidos do relógio, alturas em que o peito protestou com vigorosos batimentos, em que os ombros ficaram tensos e o pescoço se escondeu ainda mais entre os cabelos pintados. Com a boca, chegou a dar-se o caso de ficar muda. Mas foi a barriga a grande dinamizadora deste protesto. Gerou-se nela um vazio tão frio…
(se é que faz sentido caracterizar o vazio, talvez esta confusão seja a estranha forma de protesto da cabeça)
Houve até uma ocasião em que a barriga teve ideias maternas. Foi então que Alice percebeu que não há corpo livre para um coração aprisionado.

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Instórias #6

Encontram-me aqui sentado, a beber água sem efectivamente ter grande sede, enquanto penso e recupero da tentativa de assalto de que fui vítima. Nunca me tinha acontecido. Nunca pensei que pudesse acontecer tão facilmente, em plena cidade, à luz do dia e à vista de toda a gente. O que também nunca pensei foi que um ladrão pudesse fazer perguntas tão difíceis.
Mas antes de chegarmos ao momento crucial deste traumático encontro, deixem que me acalme um pouco mais, que ainda tenho o coração a querer fugir-me do peito. Olho distraidamente para a carteira e reparo agora no cartão de cidadão a que teimosamente insisto em chamar, antes de pensar e de me corrigir, bilhete de identidade. António. Severo, como o meu pai, ainda que eu só de nome. Não quero com isto queixar-me do meu pai, sei perfeitamente o que o levou a ser assim, aquilo por que passou para aguentar o barco instável que é uma família quando o peso das responsabilidades está mal distribuído. Da minha mãe só lembro mesmo o nome. Ana. Tão pouco.
Olho para a fotografia do bilhete que agora é cartão e só me dá vontade de rir. Lembro-me tão bem do martírio que foi tirá-la: a funcionária a dizer que eu não me podia rir (porque isto de ser cidadão deve ser coisa séria) e eu cada vez mais aflito para conter o riso. E depois olhava para a Helena e então é que estava tudo estragado, ela muito vermelha, a mão a esconder boca e nariz e, no entanto, o resto do corpo a rir. Que saudades, Helena. A casa está tão diferente. A mesmíssima casa em que vivemos anos a fio e durante anos a fio sempre igual, por muito que lhe mudássemos a disposição dos móveis ou o papel de parede. A casa está tão diferente. Já não há sorrisos na televisão, nem sequer nas comédias. Já não há bocejos no sofá, por mais tarde que seja. Já não há “ais” debaixo do armário da cozinha, por mais fundo que me esforce por limpar. Tenho a impressão que me levou a casa, embora me custe entender como diabo a enfiou no caixão minúsculo em que se foi embora. O que aqui ficou foi um esqueleto de casa. Uma coisa vazia, que vou enchendo com saudades.
Atrás do cartão de cidadão, encontro alguns bilhetes de cinema antigos. O que ela gostava de ir ao cinema. Estes dois filmes, lembro-me que os vimos de seguida, estava tão feliz à saída do primeiro que eu corri à bilheteira comprar entrada para outro. Lembro-me que a escolha do filme foi tão criteriosa quanto perguntar qual era o próximo. Não me interessava o que fosse projectado, interessava-me, isso sim, prolongar-lhe a felicidade.
Entre esta papelada toda que são recibos e talões de compras, encontro ainda as pontuações de um jogo de Mahjong. Aquela chinesice era ao mesmo tempo divertida e relaxante. Quando calhávamos de ter a companhia do Sérgio e da Elisabete para o serão, era o que jogávamos, normalmente. Nesta partida ganhou a Elisabete, com uma enormidade de pontos. A Helena ficou logo a seguir. E o mais incrível nisso é que aposto que adormeceu durante o jogo, como também era costume. E eu ali, bem acordado, a ver o jogo passar. Os jogos de tabuleiro nunca foram o meu forte.
Mas adiante, agora que já estou mais calmo. Queria eu contar que não imaginava que um ladrão pudesse fazer perguntas tão difíceis.
– A carteira ou a vida?
Caramba. Logo a mim, que trago a vida na carteira.

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Instórias #5

Passei a vida a fazer-me rijo. Rijo porque a escola era outra e a régua a isso levava. Às asneiras de criança seguia-se sempre a reprimenda, palma da mão a ferver de vermelha e olhos morejados de umas lágrimas que não podiam deixar-se cair. Rijo porque a recruta não era opcional e porque, mais do que treinos, havia uma realidade chamada ultramar. Continuar a avançar no capim alto quando um camarada acabava de tombar. O coração apertado na boca e a passada larga de medo. Depois rijo pelo regresso e pelo rótulo que me colavam. Retornado. Como se, por ter experimentado outra vida, eu tivesse abdicado da minha portugalidade. Retornado. Eu, que nem voltei por vontade própria, que por mim ainda lá estava. Retornado, quando empurrado era tão mais adequado. Empurrado e despojado. E rijo. Rijo porque recomeçar a isso obriga. Rijo por mim e por ti, que desde cedo te juntaste a esta árdua tarefa de dar seguimento à vida. Contigo sempre foi mais fácil. E agora, depois de tanto enrijecer, percebo que dura é a tua ausência. O que mais me custa, nestes dias, é não pensar em ti. Foram tantos anos. A cama teima em acordar-me à mesmíssima hora a que costumavas acordar. Desperto ao som de estalidos de uma madeira velha que também te sente a falta. Depois é o vazio. Um vazio que, não sendo nada, me lembra de ti em tudo. Saio com intenção de espairecer, mas depressa dou por mim a percorrer os caminhos que mais vezes percorremos juntos. E sinto-te novamente a falta. Sinto eu e sentem as pombas, que levantam voo ainda antes de eu me aproximar, como que habituadas à tua presença. E eu olho para o lado e sinto-te ainda mais a falta. E volto à infantil forma de segurar lágrimas e ao olhar morejado. Só que hoje as mãos são rijas e o ardor que sinto é no peito.

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Instórias #4

A vida passou à nossa frente e quase não demos conta disso. As decisões foram quase todas nossas. A de nos juntarmos, a de ficarmos pelos dois filhos quando pensávamos ter três, a de mudarmos de casa quando julgámos necessário. Estas e as mais triviais, as que tivemos que tomar todos os dias. Só que o tempo nunca foi nosso. Nem será. O tempo é uma espécie de empréstimo a juros elevados, quanto mais temos, de mais vamos precisar. Só assim se explica que, chegados a este ponto da vida em que os nossos filhos herdaram as decisões, percebamos que soube a pouco, que nos apetecia mais. Agora o tempo passa devagar, a custo. Acordamos cedo sem razão, só porque habituamos o corpo a isso durante umas dezenas de anos, e passeamos lentamente por ruas que já conhecemos de olhos fechados, só para não ficarmos reféns de um qualquer canal de televisão todo o dia, que para isso já bastam a tarde e a noite. Os dias dão um ar da sua graça quando o telefone toca a anunciar um almoço de família ou um passeio de fim-de-semana. Aí sim, o tempo volta a fugir-nos das mãos enquanto revemos sorrisos e recordamos histórias. Valham-nos os filhos, os netos e as memórias, para continuarmos a assistir a este espectáculo maior que é a vida.

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Instórias #3

José sai da sua vivenda de 220.000€, entra no seu clássico comprado em terceira mão por 20.000€ e dirige-se ao local de trabalho. Pelo caminho, tem de parar para abastecer gasolina sem chumbo a 1,39€/litro e, no momento em que se prepara para pagar, pede uma garrafa de água de 60 cêntimos. Estaciona, sem excepção, no Silo Auto, por cerca de 25€. Nos curtos metros que o separam do destino, aproveita para tomar um café, por 80 cêntimos. Chega ao seu escritório de renda de 400€ e ali passa as cinco horas seguintes.
Abandona o trabalho a tempo de passar pelo seu ginásio de 80€. Ao chegar ao carro, repara que se esqueceu das luzes acesas. Deu à ignição e confirmou a sua suspeita. A bateria. Chamou o reboque, sem custos, uma vez que esse serviço está incluído no seguro de 600€. Ao custo da bateria não terá como fugir e a “brincadeira” não deve ficar por menos de 100€. Com o tempo ali perdido, perde a ideia da ida ao ginásio, chama um táxi e vai directo a casa por 11,40€. Não está com cabeça para mais do que encomendar o jantar. A campainha toca menos de uma hora depois. Senta-se à mesa depois de entregar uma nota de 20€ ao estafeta e de lhe dizer para ficar com o troco. O dia termina em frente ao seu ecrã de 2300€, na cama. Sem preocupações.
José não é, obviamente, um daqueles seres heróicos  – e são muitos – que vivem com um ordenado de 500€, uma casa de 230€ e um infantário de 150€ para pagar e a quem o que sobra é para dividir como se pode entre vestir e alimentar o filho. Para esses, a vida está pela hora da morte.

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Instórias #2

A cidade está a acordar quando Dionísio, taxista invulgarmente calado, está a terminar o seu turno. O cansaço da condução nocturna e das conversas habilmente evitadas acumula-se-lhe nos ombros e pesa-lhe nas pálpebras. Ao virar em direcção à garagem, o sol baixo das primeiras horas matinais incide-lhe directamente nos olhos e obriga-o a abrandar enquanto procura os óculos de sol no porta-luvas, às apalpadelas. Assim que se habitua à claridade da manhã, repara na fachada do número vinte, nas sombras dos cabos do eléctrico que se cruzam ao longo da parede, num padrão que se repete, com sorte e com sol, uma única vez por dia. Pensa nas pessoas que transporta no seu turno, nas histórias por norma complexas que lhes ouve e que o obrigam à devolução dos monossílabos estritamente necessários para fugir à falta de educação. O sol há-de erguer-se e deitar e camuflar as sombras dos cabos do eléctrico no leito cinzento do paralelo. E então será dia, a noite e o descanso de Dionísio. Por enquanto, a fachada da porta vinte lembra-lhe a hora a que se iniciará nova corrida nocturna.

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Instórias #1

O azar está à espreita e a coisa pode ficar preta de um momento para o outro. Sabes disso e avanças sem olhar para o lado. Queres passar despercebido e fazes uso do teu caminhar mais ligeiro. Só que o azar, que está à espreita, é predador e é felino, não tira os olhos de ti e ainda lhe sobram outros sentidos.
Sobes as escadas em espiral e foges à natural tentação de acender as luzes. Sentes o odor da madeira envelhecida dos degraus e sabes que estás próximo. Chegas à porta do terceiro esquerdo e bates. Sentes no teu peito algo que bate mais alto e insistentemente. Esperas. A Matilde não deverá tardar muito a abrir a porta, têm os minutos contados até chegar o marido dela.
Não consegues acalmar o que te bate no peito, é algo que não controlas. Com a respiração passa-se o mesmo. Tem sido isto desde que a Matilde te confessou que o casamento dela não ia bem. E sabendo tu que amigas não lhe faltam, começaste logo a magicar na razão de seres tu o confidente. Logo a Matilde.
Tentaste pensar na situação do marido, pensaste nas pernas dela. Tentaste pensar nas confusões que dali podiam vir, pensaste-lhe no pescoço, desvendado pelo cabelo.
A porta abre-se e surge um homem. Não estás preparado para isso, nunca foste homem de manter o sangue frio em situações adversas, o coração começa a bater descompassado, como que a anunciar algo pior, e desmaias, embatendo com estrondo na madeira gasta do patamar. O barulho desperta o prédio.
O azar, que está sempre à espreita, é felino, predador e traiçoeiro. Vários vizinhos assomam à porta. A Matilde também. No terceiro direito.

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