Category Archives: Livros

A maior flor do mundo

A maior flor do mundo A extensa obra de José Saramago também se debruçou, ainda que pontualmente, sobre os mais pequenos. A maior flor do mundo, livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 4º ano, para leitura orientada na sala de aula, é um desses casos. O livro arranca de forma original, com Saramago a contar a história que gostava de escrever se soubesse escrever livros infantis. E lá a vai desvendando, com a simplicidade e a moralidade devidas a esta literatura. O protagonista da história é um menino que encontra, no cimo de uma colina, uma flor murcha. Decide cuidar dela e, para isso, faz um longo caminho até ao rio, enche as mãos de água e regressa à flor para sobre esta depositar a gota que sobrou desse percurso. Repete a tarefa vezes suficientes para salvar a flor. Revelar mais é roubar a magia que o livro tem. Nesta edição, as ilustrações são de João Caetano.
E é já fechado o livro que Saramago levanta outra questão, que citei em entrada anterior, mas que repito:

E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

A maior flor do mundo merece todas as leituras. As dos adultos e as das crianças.

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E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

José Saramago, A maior flor do mundo

Plano Nacional de Leitura

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Arde o musgo cinzento

Arde o musgo cinzentoThor Vilhjálmsson, escritor islandês, tinha na pintura outra das suas paixões. Li-o numa das badanas do livro e confirmei-o durante a narrativa. A história que serve de base a este romance, um crime verídico, tem tudo para prender o leitor, mas há uma abundância de descrições de paisagens, de verdadeiras pinturas feitas por palavras, que acabam por afastar. Apesar de bem escrito, apesar de espelhar a dureza e crueldade da trama na muitas vezes inóspita natureza islandesa, é excessivo. O que podia resultar num livro intenso, para leitura vertiginosa, acaba por ser uma experiência cansativa. Thor Vilhjálmsson tem uma escrita rica e muito visual, mas a economia de palavras é, algumas vezes, um trunfo menosprezado – A morte de Ivan Illitch, poderoso pequeno livro,  é exemplo que uso muitas vezes a este propósito. Dizer menos é, às vezes, dizer mais. A este Arde o musgo cinzento, não faziam falta cerca de uma centena de páginas que, ainda que bem escritas, prejudicam o livro.

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Crítica gráfica

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O luto é a coisa com penas

O luto é a coisa com penasO luto é a coisa com penas é um livro diferente e, também por isso, difícil de comentar. Um pai e dois filhos lidam com a morte da mãe, situação que abala tremendamente o equilíbrio familiar. Compreensivelmente perdidos, recebem a visita do corvo, figura irredutível, até mesmo cruel, na tarefa de protecção do ninho. E é deste triângulo pai, filhos e corvo – as três vozes da narrativa -, do sofrimento e das dúvidas de uns, dos conselhos de outros, que emerge este livro. Assente em algumas metáforas, mas raramente em eufemismos, O luto é a coisa com penas vai directo a um assunto que nos habituámos a tratar com pinças, cheios de cuidados e rodeios, pelo que é muitas vezes uma leitura inquietante e incómoda. O livro de estreia de Max Porter é ambicioso por se lançar a uma temática delicada com uma abordagem original e desafiante; causa estranheza pela falta de lógica que, a espaços, parece apresentar (haverá lógica alguma no luto?), mas a verdade é que atinge repetidas vezes a sensibilidade do leitor. Uma parte do que O luto é a coisa com penas tem de muito bom é consequência de ser diferente, até estranho; o que pode ter como defeito é ser diferente, até estranho.
É um livro difícil de recomendar, mas impossível de ignorar.

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Cemitério de pianos

Cemitério de pianosPonto prévio: este é um livro paciente. Não me perguntem quais as razões, mas adiei-o durante anos. Olhei-o e adiei-0. Uma e outra vez. Olhei-o e adiei-o. Até que aconteceu olhá-lo e abri-lo. E ao abri-lo, abriu-se uma história cheia de sentimentos também eles pacientes. De culpa, de amor, de determinação, de esperança e de falsa esperança, de indignação. De família. Cemitério de pianos narra, a duas vozes distantes em uma geração, todas as dificuldades de uma família, essencialmente. Nenhum podre é deixado de parte e, no entanto, o livro acaba por ser um elogio, ainda que negro, à resistência familiar, a essa estranha estrutura que parece ser feita para tudo aguentar. Até a morte. A escrita de José Luís Peixoto é bastante eficaz a colocar o leitor no centro de cada problema, na angústia de algumas das situações criadas, e consegue chegar às páginas finais em crescendo de interesse e de intensidade. Peca, talvez, por exagerar ligeiramente na quantidade de personagens sofredoras – salvam-se as crianças, quando muito -, mas merece louvor maior por aproveitar e adaptar a interessante, ainda que também trágica, história de Francisco Lázaro, maratonista portugês que morre em prova nos Jogos Olímpicos, em Estocolmo. Cemitério de pianos soube esperar. José Luís Peixoto soube convencer: voltarei à sua escrita, certamente.

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Naquele instante, estávamos felizes. Antes, tivemos gestos que nos levaram àquele instante; depois, tivemos gestos que nos tiraram daquele instante; mas, naquele instante, estávamos felizes.
O castigo que escolhi para mim próprio é saber aquilo que aconteceu a seguir.

José Luís Peixoto, Cemitério de pianos

Aquilo que aconteceu a seguir 

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Essa puta tão distinta

Andar por Barcelona pela mão de Marsé é sempre uma grande experiência. Essa puta tão distinta não foge à regra e leva-nos, com uma escrita eficaz e despretensiosa, sem excessos, aos antigos prostíbulos e aos vetustos cinemas de bairro, ao mesmo tempo que procura desenrolar o novelo de um crime que se deu, alguns anos antes, numa cabine de projecção. Um pouco a exemplo de Rabos de Lagartixa, um dos romances maiores de Marsé,  é na forma, na estrutura, que este livro mais arrisca, com o crime e as possíveis raízes do mesmo a serem explorados por um escritor, a pretexto de uma encomenda para um guião cinematográfico. Em sucessivas entrevistas ao autor do crime, com a sua peculiar condição amnésica, o escritor começa a perceber os caprichos da memória e a facilidade com que esta desvaloriza ou sobrevaloriza factos passados. É essencialmente a essa memória, apesar de toda a história se desenrolar em torno do mundo da prostituição, que se refere o título deste livro, que vale muito a pena, ainda que não chegue à poesia de Caligrafia dos sonhos (livro de que herda um personagem) e ao brilhantismo de Rabos de Lagartixa.

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Homens imprudentemente poéticos

Homens imprudentemente poéticosÉ da terra do sol nascente, das suas tradições e dos seus códigos de ética, que nos chega a narrativa do último romance de Valter Hugo Mãe. As criações manuais do artesão e do oleiro, personagens principais da história, são vistosos leques e peças de olaria muito enfeitadas – em demasia, consideram os vizinhos -, mas é no interior destes dois homens em conflito que se dá a criação maior, um novelo ao mesmo tempo terno e violento do que é viver no Japão ancestral. Aquando da passagem do autor pelo país, uma curiosíssima floresta despertou a sua atenção ao ponto de a fazer mudar de tempo e de localização e a encaixar nestas páginas. Nessa floresta entram homens e mulheres com intenções suicidas, munidos de uma longa corda, que serve de guia para o seu exterior, em caso de arrependimento, ou para se pendurarem de fruto maduro. E é sempre com vista para o tema do suicídio, visto com outros olhos no oriente, que Homens imprudentemente poéticos se desenrola.
A escrita de Valter Hugo Mãe faz jus a este título e a tudo o que lhe venho lendo e volta a ser poética, conseguindo ainda, neste caso, a notável proeza de escrever cerca de duas centenas de páginas sem recurso à palavra não. É um feito considerável em termos linguísticos e é um feito ainda maior quando se percebe que não só não prejudica a prosa como ainda se adequa à cortês tradição nipónica.
Mais um livro interessante e, sem surpresa, muito bem escrito de Valter Hugo Mãe.

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Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo. Sentindo-lhe carinho.

Valter Hugo Mãe, Homens imprudentemente poéticos 

O medo

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O paraíso são os outros

O paraíso são os outrosO paraíso são os outros é simples e terno na forma como aborda a questão do amor e dos casais, e cria oportunidades  para perguntas que poderão transformar-se em interessantes conversas com os mais pequenos. Os breves pensamentos de uma menina, acompanhados pelas ilustrações de Esgar Acelerado (o mr.esgar do velhinho casadeosso), resultam de forma apelativa e acessível.
Não há propriamente coisas muito novas no que o autor transmite, mas neste livro aparecem mais ao alcance das leituras infantis. As mais belas coisas do mundo, outro livro infantil de Valter Hugo Mãe, é bem mais ambicioso e desafiador na exposição dos temas e até na estrutura, mas também por isso menos adequado para os mais novos. Encheu-me as medidas, mas achei que para o meu filho era cedo. Este O paraíso são os outros não conseguiu encher-me as medidas, mas ser-lhe-á, em breve, proposto para leitura conjunta.

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Valter Hugo Mãe, O paraíso são os outros (ilustrações de Esgar Acelerado)

O problema e a solução

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O Pai era diferente. O Pai tinha dureza dentro de si. Os seus olhos olhavam para o mesmo mundo que os da Mãe, e apenas viam desapego. Labuta interminável. O mundo do Pai era regido pelo esforço. Nada do que fosse bom era gratuito. Nem o amor. Pagava-se por todas as coisas e, se se era pobre, o sofrimento era a moeda.

Khaled Hosseini, E as montanhas ecoaram 

Moeda dura

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Os sete loucos

Arrancar para um livro carregado de expectativas é, quase sempre, desaconselhável. Quando entre essas expectativas se encontram comparações com Dostoiévski, ou a paternidade da literatura moderna argentina, o fardo fica pesado. Foi precisamente por essas razões que este Os sete loucos não me conseguiu surpreender. Há, de facto, alguma coisa de Crime e Castigo neste livro, na descrição dos estados de espírito das personagens, na gestão dos seus conflitos interiores. Só que o que Arlt procura fazer, Dostoiévski faz como quem respira, naturalmente e sem excessos. Há, também, alguma coisa de Viagem ao fim da noite, no retrato negro que é feito do homem. Só que Céline não esconde o que quer que seja na loucura, é impiedoso, e o seu livro resulta mais intenso, mais desafiador. Roberto Arlt escreve uma história interessante e que tem a curiosidade de quase prever a revolução argentina, mas que continua a ter o seu mérito maior em ter sido influência de autores que se lhe seguiram, como Borges ou Cortázar. Só por isso, e apesar do que ficou por provar, estava justificada à partida a leitura deste Os sete loucos.

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O Homem, que já inventou tudo, não foi capaz de criar uma forma de governo que supere os princípios de um Cristo, de um Buda. Não. Naturalmente, não discutirei o direito ao cepticismo, mas o cepticismo é um luxo de minoria… aos outros será servida a felicidade bem cozinhada, e a Humanidade engolirá, satisfeita, a divina bazófia.

Roberto Arlt, Os sete loucos

Uma espécie de felicidade

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Arlt e pára o baile!

Resgato um livro há algum tempo esquecido nas prateleiras. Numa daquelas típicas promessas de contracapa, diz-se que o livro é uma “viagem ao fim da noite” em tons sul-americanos, mas vinte e cinco páginas não chegam para  estabelecer um paralelismo com essa grande obra de Céline. Chegam, isso sim, para descortinar um quê de Dostoiévski. Prometer, promete. Resta que se cumpra.

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O barulho das coisas ao cair

O barulho das coisas ao cair Na televisão de um salão de bilhares passa a notícia do abate de um hipopótamo que escapou do jardim zoológico da Hacienda Nápoles, que havia sido propriedade de Pablo Escobar. E é a partir daqui que o livro arranca. Antonio, protagonista deste O barulho das coisas ao cair, conhece Ricardo e a narrativa avança durante um breve período de tempo, até que os acontecimentos se precipitam de forma incompreensível e, na procura de respostas, o livro passa a debruçar-se sobre o passado e as memórias, criando, ao mesmo tempo, a imagem de uma Colômbia a viver os dias mais intensos do narcotráfico. Acompanhamos, portanto, um país em construção – como refere uma das personagens, chegada dos Estados Unidos da América -, acompanhamos a transformação que esse país opera em cada uma das personagens e acompanhamos ainda a evolução de outra figura omnipresente neste livro: o medo.
O barulho das coisas ao cair, Prémio Alfaguara, revela, sem excessos criativos, Juan Gabriel Vásquez como um escritor que valerá a pena acompanhar.

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Ouve a canção do vento | Flíper, 1973

Ouve a canção do vento | Flíper, 1973A minha abordagem a Murakami não foi a melhor, admito. A primeira coisa que lhe li foi Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo, que não é bem um romance. Agora, vem-me parar às mãos este livro, que reúne duas histórias que são o embrião da carreira do escritor japonês. Estiveram por publicar durante muitos e bons anos e só recentemente – por pressão das editoras, consta – chegaram às prateleiras. Deste conjunto de três obras, não consigo descortinar os motivos que levam a que Murakami seja um dos crónicos referidos aquando da atribuição do Nobel da Literatura, e muito menos que encabece a lista de favoritos, como acontece este ano. Provavelmente, há muito mais do que aquilo que eu conheço, na literatura do autor. O facto de ter adiado tantos anos a publicação de Ouve a canção do vento e de Flíper, 1973 é capaz de ser um sinal de que o próprio Murakami considera estas obras pouco condizentes com o que produziu posteriormente, o que é muito natural, se tivermos em conta que foram duas histórias escritas essencialmente à mesa da cozinha, depois do dia de trabalho, e o primeiro contacto de um jovem e ávido leitor com o processo de escrita. Foi com estes livros que Murakami experimentou métodos e se descobriu, no fundo.
Esquecida a história do Nobel da Literatura e toda a responsabilidade que este acarreta (ou devia acarretar, já que ultimamente as distinções parecem distribuir-se por critérios geográficos, raciais, de género, políticos e outros que tais, sem desprimor para todos os premiados, alguns dos quais até desconheço), Ouve a canção do vento e de Flíper, 1973 serão livros que interessarão sobretudo aos mais devotos leitores de Haruki Murakami, que gostarão de acompanhar o nascimento do autor. Para os restantes, serão duas leituras agradáveis e pouco mais.
Para não fazer juízos precipitados, comprometo-me a voltar à sua obra, para uma espécie de tira-teimas, tentando ser mais criterioso na escolha do livro.

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Da Natureza dos Deuses

Quando estamos a dias do lançamento de mais um livro da já longa bibliografia de António Lobo Antunes (Para aquela que está sentada no escuro à minha espera, 10 de Outubro), acabo de ler o seu mais recente romance editado, Da Natureza dos Deuses. Admirador confesso da escrita deste autor, admito que os últimos títulos que lhe li, com uma ou outra excepção, pareciam caminhar para uma espécie de autismo, para um universo cada vez mais fechado. Ia lá cabendo Lobo Antunes e iam-se apertando conforme possível os seus mais devotos leitores, aqueles que já dominam as particularidades da sua escrita, as suas vozes dispersas e sobreposições temporais. É o próprio escritor quem melhor define os seus livros, quando diz que estes não são para ser lidos, que são para se apanhar, como se apanha uma doença. É também ele o primeiro a afirmar que não lhe interessa contar uma história, que quer, isso sim, enfiar a vida entra a capa e a contracapa. E é por estes motivos que eu, mesmo apaixonado por esta escrita (com um ou outro desgosto, como em qualquer paixão), não recomendo livros de Lobo Antunes a quem me pede sugestões de leitura. Simplesmente porque é preciso estar disposto a mais do que ler. Avançando até este Da Natureza dos Deuses, não há surpresa na prosa poética com que este se enche, não há surpresa no rendilhado de frases e pensamentos que o autor cria e interrompe a qualquer momento, para concluir adiante. A técnica narrativa é a que vem evoluindo ao longo de toda a obra do autor, com as palavras escolhidas a dedo e as metáforas a alcançarem, quase sempre, o espanto. A vida volta a caber toda num livro. Da pobreza ao triunfo, da solidão às relações, da infância ao envelhecimento e à doença. Do que parece ser aos olhos dos outros até ao que realmente é, ao mais profundo de cada personagem. O que poderá haver de surpreendente neste Da Natureza dos Deuses é a facilidade com que, apesar das inúmeras vozes que o compõem, dos muitos tempos em que é narrado, se segue com clareza a história (sim, aquela que nem sequer é pedra basilar das ideias do autor), feita das muitas histórias individuais (essas sim, uma preocupação de Lobo Antunes) das personagens.  Este será, ao contrário dos últimos títulos do autor, um livro mais aberto, mais à feição de leitores que não dispensem um fio condutor na narrativa. Lobo Antunes continua a explorar o poder da palavra, mas deixa bem visível o retrato de um país e de um tempo. A admirável galeria de personagens deste Da Natureza dos Deuses é, salvo  raras excepções, desprovida de nomes próprios. Portugal está nas mãos do senhor doutor, que representa o poder económico, e do senhor presidente, que será Salazar sem que em algum momento se diga que é Salazar. É um tempo em que o volfrâmio se negoceia com ingleses e alemães. Também procuram o poder o adjunto do senhor doutor, a secretária do senhor doutor e a secretária do adjunto do senhor doutor. Neste romance quase sem nomes, entre as raras excepções encontra-se Marçal, o empregado do casaco branco, único homem da confiança do senhor doutor. As personagens são muitas, mas todas elas se apresentam de forma única. Sobra uma sobre quem pouco se afirma e tudo se questiona, o enigmático sem abrigo, que eu tomei como a figura do leitor a surgir no livro, mas que pode muito bem ser apenas o sem abrigo, alguém que passa ao lado dos jogos de poder, despojado de haveres, um contraste. Sem revelar mais, por ter já revelado mais do que queria, afirmo que António Lobo Antunes tem, neste livro, um dos melhores livros que lhe li. Um livro Da Natureza dos Deuses. Dos Deuses que só poucos autores conseguem ser.

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Breves notas sobre as ligações 

Depois da leitura de Breves notas sobre ciência, foi sem hesitar que peguei neste Breves notas sobre as ligações. Só que o que no primeiro caso era simples e, ao mesmo tempo, estimulante, no segundo é complexo e cansativo. O livro usa como alavanca do pensamento as obras de María Zambrano, Maria Filomena Molder e Maria Gabriela Llansol, mas não conseguiu, sequer, despertar a minha curiosidade pelas mesmas. As Breves notas sobre ciência são como um passeio ligeiro, sem grande dificuldade, com destino a um lugar agradável; as Breves notas sobre as ligações são como um penoso passeio por terrenos íngremes, com destino a um lugar que pouco tem para se ver ou sentir.
Gonçalo M. Tavares já me habituou a conseguir retirar lições profundas de coisas aparentemente simples, mas desta vez embrenhou-se na complexidade para trazer pouco mais de um punhado de ideias que me interessaram e me foram possíveis de reter. O muito de dispensável que encontrei nestas notas espero encontrar de interessante, um dia destes, quando me decidir aventurar nas Breves notas sobre o medo.

 

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