Category Archives: Livros

Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam o olhar da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro de uma prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora.

Afonso Cruz, A boneca de Kokoschka

Gaiolas interiores

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Afonso Cruz. Outra vez.

Regresso a Afonso Cruz e confirmo que não o consigo fazer a um ritmo lento. E a questão nem tem tanto a ver com rapidez, mas sim com avidez. Custa parar. Custa aproveitar o que se acabou de ler sem estar a pensar no que vem a seguir. Afonso Cruz é uma espécie de água salgada, que sacia por um brevíssimo momento e dá sede imediatamente a seguir. É tudo para quem procura repetida satisfação. Deve ser evitado por quem não quer ter sede.

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Estou cansada, diz.
São só três quilómetros, diz Elisabeth.
Não me refiro a isso, diz a mãe. Estou cansada do noticiário. Estou cansada do modo como torna espetacularss coisas que não o são e da maneira simplista como aborda o que é verdadeiramente aterrador. Estou cansada do azedume. Estou cansada da raiva. Estou cansada da mesquinhez. Estou cansada do egoísmo. Estou cansada de nada fazermos para lhe pôr fim. Estou cansada do modo cono o encorajamos. Estou cansada da violência que existe e estou cansada da violência que está a caminho, que aí vem, que ainda não aconteceu. Estou cansada de mentirosos. Estou cansada de mentirosos santificados. Estou cansada de como esses mentirosos permitiram que isso acontecesse. Estou cansada de ter de me perguntar se o fizeram por estupidez ou se o fizeram de propósito. Estou cansada de governos mentirosos. Estou cansada de as pessoas não quererem saber se lhes continuam a mentir. Estou cansada de me ver obrigada a sentir-me tão apavorada. Estou cansada da animosidade. Estou cansada da pusilanimosidade.
Não creio que essa palavra exista, diz Elisabeth.
Estou cansada de não saber as palavras certas, diz a mãe.

Ali Smith, Outono

As palavras certas 

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Nada disso, garanto, é pessoal
Não tem uma pitada de má-fé,
Mas ninguém faz amor em Portugal
Sem antes passar horas num café.

Se quiseres transar em terra lusa,
Jamais alcançarás algum sucesso
Em levantar, de um português, a blusa
Se não tomarem baldes de expresso.

Bebe-se mais café que se ouve o fado.
Nesse país viciado em cafeína
Jamais sequer beijei uma menina

Que não tivesse, antes, se dopado.
Não importa o trabalho que dedicas,
Não farás (nem terás) bicos sem bicas.

Gregorio Duvivier, Sonetos
(Via Comunidade Cultura e Arte)

Sai um café 

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Bolaño sem espírito

Em O espírito da ficção científica encontram-se, efectivamente, algumas passagens à Bolaño. Só fica a faltar o resto, o que agiganta Os detectives selvagens e 2666. É um livro que se recomenda, essencialmente, a fãs e curiosos do escritor chileno: podem-se encontrar, nesta obra, os embriões de algumas personagens e acontecimentos de outros livros seus e podem-se encontrar, na parte final, imagens de rascunhos do autor, onde se vislumbram métodos e abordagens. Essencialmente por isto. Enquanto história, enquanto livro por si próprio, é pouco. Bolaño é muito mais.

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É assim que a natureza funciona. Pensa nos amantes. Se os amantes estivessem todo o tempo agarradinhos um ao outro já não precisariam de se amar. Seriam um só. Já não haveria nada para desejarem. É por isso que a natureza tem intervalos.

J. M. Coetzee, A infância de Jesus

Dos intervalos

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Uma vontade quase secreta

A evidenciar o ritmo da leitura do Coetzee a que agora me lancei, trazido da biblioteca, está um marcador que aponta para o Diário Volúvel, do muito estimado Enrique Vila-Matas. Porque, ainda na biblioteca, não consegui resistir a um Bolaño mais recente que por lá repousava, reparei que também entre as suas páginas trouxe um marcador que nada tinha a ver com a obra do escritor chileno. Desta feita, evidenciava um meu desconhecido – e agora alvo de curiosidade – Alessandro Baricco. Estas duas situações lá acabaram por plantar na minha cabeça uma muito romântica ideia, responsável por algumas dúvidas: 1) haverá, entre a comunidade de leitores da biblioteca, alguém a querer traçar o rumo das leituras dos outros? 2) que tal aceitar estas indicações e verificar se têm seguimento? 3) na muito provável eventualidade de isto ter sido apenas uma coincidência, como fugir à vontade de vestir esta secreta personagem?

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Falar da História
é abandonar momentaneamente o nosso compulsivo silêncio e dizer (sem esquecer as datas) o que então não puderam dizer aqueles a quem foi imposto igual silêncio.
Para denunciar tudo hoje, quando nenhuma diferença faz.

Reinaldo Arenas, O engenho

Da História

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Não há nada a dizer; resta-nos derrear o corpo e fuçar.
Não há nada a dizer da liberdade: aqui, ou nos calamos ou morremos com um tiro.
Não há nada a dizer da humanidade: aqui, ou aplaudimos ou morremos com um tiro.
Não há nada a dizer dos sagrados princípios da justiça: aqui, ou prostramos o nosso corpo de escravos ou morremos naturalmente com um tiro.
Assim se resumem os nossos direitos.
(É tudo muito, muito claro: nem frases grandiosas, nem complexas teses filosóficas, nem poemas herméticos. Ao terror basta a simplicidade deste verbo épico: dizer.)
E é preciso dizer.
É preciso dizer.
Aqui, onde nada se pode dizer, é exactamente onde mais há a dizer.
É preciso dizer.
É preciso dizer tudo.

Reinaldo Arenas, O engenho

Do verbo dizer

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Para onde vamos quando desaparecemos?

A literatura infantil tem conseguido surpreender-me com regularidade e este é só mais um desses casos. Um livro que traz alguma alegria à ideia de fim, a forma possível de explicá-la às crianças. Enquanto pensamos no que consiste o desaparecimento de coisas simples e banais como as meias sem par ou o sol, vamos aceitando de forma menos penosa o desaparecimento de quem realmente  nos faz falta. Como se o cuidadoso texto de Isabel Minhós Martins e as coloridas ilustrações de Madalena Matoso não fossem consolo suficiente, a editora Planeta Tangerina ainda avança com umas interessantes propostas de exploração do tema para pais e professores. Para onde vamos quando desaparecemos? é, por todos estes motivos, uma pequena maravilha sobre a perda!

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Para que alguma coisa desapareça são precisos sempre dois.
(Um que fica e um que desaparece.)

Isabel Minhós Martins, Para onde vamos quando desaparecemos?

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A vida morre onde a violência tenta apagar a sua originalidade, as suas peculiaridades.

Vassili Grossman, Vida e destino

A morte da vida

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O ruído do tempo

Julian Barnes é um nome que há muito me despertava curiosidade, mas a que, por uma razão ou outra, ainda não tinha chegado. Títulos como O papagaio de Flaubert e O sentido do fim entraram para a lista sem fim à vista que são os livros que quero ler. Chegar primeiro a O ruído do tempo foi obra de uma visita relâmpago à biblioteca e, confesso, não foi um acaso proveitoso. Neste livro, que se apresenta como uma biografia ficcionada, a escrita acaba por ser mais documental, mais objectiva, afastando-se ligeiramente daquele que, por norma, é o meu registo de preferência. Foi um livro que me passou sem deixar marca. Uma história que se resumiu a uma sucessão de factos e onde a mão de Barnes, ainda que muito profissional, muito capaz e até muito adequada à biografia que este livro pretende ser, conseguiu pouco para me agarrar. Mal menor, foi não ter beliscado a minha vontade de ler os seus outros livros que já aqui apontei.

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Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói só era preciso ser bravo por um momento – quando puxávamos da pistola, lançávamos a bomba, carregávamos no detonador, eliminávamos o tirano e a nós também. Mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar.

Julian Barnes, O ruído do tempo

Emprego de longa duração

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Todos os nomes

Na hora de largar um livro a meio, não dá para olhar a nomes. Comigo, já aconteceu a Thomas Pynchon, a Saramago, a Don DeLillo e até ao meu tão estimado António Lobo Antunes, por exemplo. Isso não diz mal deles ou dos seus livros. Dirá mais dos meus momentos. A Cuba de Cabrera Infante, em Mapa desenhado por um espião, não estava a alhear-me dos dias verdadeiros, como eu gosto que aconteça com a literatura. Mais tarde ou mais cedo, é possível que lá volte. Por enquanto, confio os próximos dias a Julian Barnes. O ruído do tempo se encarregará de dizer se foi uma escolha acertada.

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Amor natural

Lamento, poesia, ainda não foi desta. Lamento, Drummond. Voltei a esbarrar com estrondo num género que nunca me foi fácil. Há, neste Amor natural, umas quantas linhas de que gosto, mas pouco mais. O erotismo dos poemas aqui reunidos também não ajuda – muito pelo contrário. Não consigo dizer muito mais: por um lado, não entendo o suficiente para dizer que é bom ou mau; por outro lado, não gostei o suficiente para dizer sequer “experimentem”.
A poesia que me desculpe. Carlos Drummond de Andrade que me desculpe. A culpa é só minha. Estranhamente, gosto de uma prosa poética, com preocupações rítmicas e sonoras, mas quase nunca alcanço a satisfação na poesia pura e dura.

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É assim que a perdes

O meu primeiro contacto com Junot Díaz deu-se com A breve e assombrosa vida de Oscar Wao e, na altura, foi uma agradável surpresa. Voltar à sua escrita era uma questão de tempo. Neste É assim que a perdes, o autor dominicano não desilude, apresentando um conjunto de narrativas que não consigo catalogar como contos, porque, mais do que ligadas entre si, me parecem resultar num todo que é maior do que a soma das partes. Os personagens são alguns, mas o essencial volta a ser a exploração da identidade dominicana, das suas ligações à terra natal, dos estereótipos, da inserção numa cultura nova, num país diferente em tudo, como bastam as temperaturas para o provar. É sobre isto e sobre as muitas formas de amor. Tudo narrado de forma simples, muito directa e honesta, sem “embelezamentos” demasiado artificiais. Já não surpreende, porque conhecer Oscar Wao elevou expectativas, mas volta cativar. Vale a pena a leitura e vale a pena continuar atento a Junot Díaz.

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Anatomia de um soldado

Harry Parker esteve no Afeganistão como soldado, pisou o que todos fazem por evitar e trouxe uma história dura de contar. Passar de uma vivência deste calibre, desta intensidade, para a escrita de um romance não é tarefa fácil. Parker pega na sua experiência com pinças e, num exercício de originalidade, faz dos objectos que o rodearam narradores. Talvez seja por essa razão, pela natureza exclusivamente material desses objectos, que o relato sai algo frio e nunca chega ao excesso de sentimentalismo, conseguindo, ainda assim, transportar o leitor para as incertezas do campo de batalha e para as angústias hospitalares. Temos então uma história de guerra, de aceitação e de recuperação contada por uma mochila, um capacete, um saco de soro ou uma prótese, por exemplo. Por esta particularidade, pode demorar-se um pouco a entrar no registo narrativo, mas acaba por ser uma abordagem original e que serve relativamente bem o propósito da obra. Anatomia de um soldado acaba por ser uma leitura interessante e uma boa estreia de Harry Parker no romance.

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A grande guerra mundial

Separo pilhas de roupa com as mãos enluvadas. A roupa suja é trazida por enfermeiras, quase todas negras. Nunca vejo os doentes; só os conheço pelas manchas e marcas que deixam nos lençóis, o alfabeto de doentes e moribundos. Muitas vezes as nódoas são demasiado profundas, e esses lençóis vão para um cesto à parte. Uma das raparigas de Baitoa diz que ouviu dizer que tudo o que está nesse cesto vai para a incineradora. Por causa da sida, sussurra. Às vezes as manchas são velhas e cor de ferrugem, outras vezes o sangue tem um cheiro cortante como a chuva. Quem visse todo o sangue que a gente vê, pensaria que há uma guerra no mundo lá fora. Há uma guerra, mas é apenas dentro dos corpos, diz uma das raparigas.

Junot Díaz, É assim que a perdes

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O Papalagui

O Papalagui reúne discursos de um chefe de uma tribo de Tiavéa, na ilha samoana de Upolu, sobre o europeu ou, de forma mais genérica, a civilização. Com simplicidade indígena, são levantadas questões em que facilmente nos revemos e para as quais nem sempre temos uma resposta que possamos considerar muito boa. É assim e pronto. O chefe Tuiavii estranha os hábitos europeus em relação ao vestuário e ao que do corpo se pode revelar, questiona o tipo de habitação em que o europeu se fecha, o valor que se atribui ao dinheiro e à posse de todo o tipo de bens. Para o chefe da tribo, o meu é uma novidade. Aborda-se ainda, nos breves textos reunidos em O Papalagui, a relação difícil do homem europeu com o tempo, que prendeu em utensílios que o dividem em dias, horas e minutos.
Sem grandes pretensões literárias, até para não ferir a origem dos textos, este é um livro que se lê bem entre outros de maior fôlego, sem deixar de ter o seu interesse.

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