Category Archives: Livros

Um dia o amigo disse-lhe: Gostava de ser como tu, de ter as mesmas oportunidades. E Gould esforçou-se a vida toda por ser o melhor, para que o amigo pudesse ser como ele. Não adiantaria nada ser como ele se ele fosse medíocre, só valeria a pena se ele fosse o melhor.

Afonso Cruz, Nem todas as baleias voam

Da amizade

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Bartleby

Ler Bartleby foi perceber o quão estupidamente tarde cheguei a Herman Melville. Basta um livro breve como este para perceber a escrita transparente do autor, que revela uma capacidade singular de contar uma história, de descrever todos os acontecimentos com clareza. Lê-se como se se estivesse a ver e a sentir. E à história perfeitamente contada junta-se a incrível personagem que lhe dá o nome, Bartleby, personificação da inércia, da inacção. Podia alongar-me mais em considerações sobre este livro, mas podia resultar em qualquer coisa mais extensa do que a própria obra e, mesmo assim, não lhe fazer justiça: i would prefer not to.
Herman, Herman, ver-nos-emos em breve, te garanto.

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Talco de vidro

A leitura não foge ao exemplo dos dias e, por vezes, toma caminhos imprevisíveis. Desta vez, levou-me até uma novela gráfica de Marcello Quintanilha, Talco de vidro. O ilustrador brasileiro também se mostra hábil na construção da história, cheia de questões quotidianas, mundanas, fácil de acompanhar e com uma natureza narrativa adequada ao grafismo, intensa e veloz ao mesmo tempo.
Não sendo o meu género de eleição, Talco de vidro foi uma leitura agradável. Voltarei a Marcello Quintanilha, curioso com Tungstênio, entre um ou outro romance mais pesado.

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Lavoura arcaica

De volta a Raduan Nassar, confirmo o cuidado na escolha das palavras apontado aquando da leitura de Um copo de cólera. É novamente sobre a escrita que teimam em recair as atenções, mesmo que a história não mereça ser desvalorizada. Em Lavoura arcaica, que explora a parábola do filho pródigo, André decide abandonar a família, regida a uma voz, a do pai, com regras bem definidas, bem tradicionais e cristãs. Foge às regras e procura mergulhar em tudo o que lhes é contrário. Foge às regras e a um amor que não tem como sobreviver. Tal como na já referida parábola, o pai manda outro dos seus filhos procurar André e trazê-lo de volta a casa, onde se preparará uma festa em honra do seu regresso. E é precisamente a partir do regresso de André que o livro, que é muito bem escrito desde a primeira página, ganha outra intensidade e alcança o brilhantismo. Raduan Nassar consegue prender pela mestria da sua escrita, mas é na alteração do ritmo das narrativas que mais cativa – já assim tinha acontecido com Um copo de cólera. O que é contemplação linguística até ao capítulo final, passa a ser leitura desenfreada daí até  à última frase.
A adaptação cinematográfica de Lavoura arcaica pode ser facilmente encontrada, na íntegra, no YouTube, mas é no papel, na ordem das palavras, no que é apenas sugerido, que a história mais tem a ganhar.

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A vegetariana

A vegetariana é um livro que não respeita o leitor: rouba-lhe horas de sono, muda-lhe as rotinas e ocupa-lhe o pensamento. Pelo menos, foi assim que aconteceu comigo. Como se não lhe bastasse o defeito, também engana: A vegetariana tem muito de carnal, nas três partes em que se divide. No centro desta vertigem escrita estão duas irmãs, Yeong-hye e In-hye, e os seus maridos, essencialmente. É na primeira parte do livro, quando Yeong-hye decide deixar de comer carne, que as vísceras de uma família espartilhada por regras rígidas se expõem. A partir daí tudo se questiona, tudo se estranha e tudo se entranha. Directa ao assunto, dura, sem eufemismos, a escrita de Han Kang consegue, ainda assim, criar imagens fortíssimas, principalmente na segunda parte do livro, Mancha mongólica, que já havia sido publicada e premiada antes de ter sido incluída neste romance. A terceira parte do livro, voltada para a sobrevivência e para a consciência, chega quando o leitor já não tem como abrandar. E é em desassossego que se alcança o final do livro, que até na extensão soube ter acerto. Ao terceiro mês de 2017, foi a melhor leitura que o ano me trouxe.

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Um copo de cólera

Conduzido a Raduan Nassar pelo muito recomendável Mário Rufino, só posso considerar que a viagem pecou por tardia. Com este Um copo de cólera, o autor brasileiro apresenta-se como uma daquelas vozes de que gosto, que olham para a palavra, para a frase, como mais intenção do que buscar significados. É sempre uma escolha a cuidar da musicalidade da prosa, de uma certa harmonia, mais do que escrita, oral. O ritmo é lento quando tem que ser lento e vertiginoso quando manda que assim seja. A narrativa é quase um pretexto contemplativo, trata de um casal que vai de uma elegantemente escrita e tórrida cena de sexo a uma discussão desenfreada. O motivo aparente é minúsculo, mas esconde um sem fim de inseguranças. Um livro de linguagem adequadamente crua.
Já adaptado a cinema, numa curta-metragem facilmente acessível no Youtube, Um copo de cólera pede o papel. A edição da Companhia das Letras percebeu bem a importância da palavra, deu-lhe corpo, protagonismo, e não resumiu o livro às cinquenta páginas em que cabia perfeitamente. Leitura que eleva expectativas para Lavoura arcaica, a ler muito em breve.

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Arranha-céus

Arranha-céus Pegar neste livro de J.G. Ballard foi, confesso, quase um acaso. Numa das minhas habituais incursões à biblioteca, em busca de uns livros que levava em mente, deu-se a coincidência de estes não estarem disponíveis. Tratada a reserva dos mesmos para uns dias depois, sobrava esse intervalo de tempo para ocupar – mesmo que durante uns dias não seja possível ler, é sempre um descanso saber que há um livro à disposição. Na primeira estante lá estava este Arranha-céus, que só não foi um acaso completo porque a chancela Elsinore despertava interesse há já algum tempo.
Não sendo o meu género literário de eleição, esta foi uma leitura interessante, um exercício que comparo, no propósito, aos ensaios de Saramago. Com uma escrita directa, sem excessos, Ballard alicerça-se na ideia distópica de fechar uma comunidade num arranha-céus em que estivessem encerrados todos os serviços essenciais. Tal como nos ensaios do Nobel português, à introdução da primeira anomalia (como um inexplicável surto de cegueira, ou a interrupção da morte), os acontecimentos precipitam-se da forma que todos conhecemos, sempre a piorar e a expor, gradualmente, o que o homem tem de mais animal.
Arranha-céus, que conheceu adaptação cinematográfica relativamente recente, não é o mais original e brilhante exercício deste tipo – na minha opinião, fica a perder para Saramago, por exemplo -, mas vale bem o tempo que se lhe dispensa.

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A vida secreta das palavras

Eis-me debruçado no parapeito de um livro, a espreitar com estranheza inicial as palavras que nele vivem. São palavras nascidas no outro lado do Atlântico, mais abertas, mais próximas da oralidade: palavras mais à mão de semear pela boca. Entre elas, reencontro cumbuca, palavra que o meu pai traz ao convívio frequentes vezes. Eis-me, portanto, debruçado no parapeito de um livro voltado para o Brasil, janela para um sotaque diferente, a encontrar o meu pai numa palavra escrita por Raduan Nassar.

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Noturno chileno

Noturno chileno Não, Bolaño, desta vez não. A culpa até pode ser minha, do momento que escolhi para te ler, mas desta vez não. Já te li coisas maravilhosas, como Os detectives selvagens, e coisas menos conseguidas, como Estrela distante, mas só desta vez me faltou por completo o entusiasmo.
O sôfrego exercício de memória feito pelo protagonista desta história – num parágrafo, ou pouco mais do que isso – é entediante na forma e errante no objectivo. Nunca se sabe bem a que nos conduzem as recordações do padre, crítico literário e poeta que, febril, julga estar prestes a morrer. Salvam-se umas poucas páginas em torno da figura de Pinochet e a curiosidade pelo que se passa na cave de uma mansão em que se reúnem importantes figuras da cultura chilena. Foi pouco livro até para se fazer uma apreciação. Noturno chileno foi uma leitura inócua, deixou poucas marcas. O que Bolaño nunca tinha sido, para mim.

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A maior flor do mundo

A maior flor do mundo A extensa obra de José Saramago também se debruçou, ainda que pontualmente, sobre os mais pequenos. A maior flor do mundo, livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 4º ano, para leitura orientada na sala de aula, é um desses casos. O livro arranca de forma original, com Saramago a contar a história que gostava de escrever se soubesse escrever livros infantis. E lá a vai desvendando, com a simplicidade e a moralidade devidas a esta literatura. O protagonista da história é um menino que encontra, no cimo de uma colina, uma flor murcha. Decide cuidar dela e, para isso, faz um longo caminho até ao rio, enche as mãos de água e regressa à flor para sobre esta depositar a gota que sobrou desse percurso. Repete a tarefa vezes suficientes para salvar a flor. Revelar mais é roubar a magia que o livro tem. Nesta edição, as ilustrações são de João Caetano.
E é já fechado o livro que Saramago levanta outra questão, que citei em entrada anterior, mas que repito:

E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

A maior flor do mundo merece todas as leituras. As dos adultos e as das crianças.

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E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

José Saramago, A maior flor do mundo

Plano Nacional de Leitura

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Arde o musgo cinzento

Arde o musgo cinzentoThor Vilhjálmsson, escritor islandês, tinha na pintura outra das suas paixões. Li-o numa das badanas do livro e confirmei-o durante a narrativa. A história que serve de base a este romance, um crime verídico, tem tudo para prender o leitor, mas há uma abundância de descrições de paisagens, de verdadeiras pinturas feitas por palavras, que acabam por afastar. Apesar de bem escrito, apesar de espelhar a dureza e crueldade da trama na muitas vezes inóspita natureza islandesa, é excessivo. O que podia resultar num livro intenso, para leitura vertiginosa, acaba por ser uma experiência cansativa. Thor Vilhjálmsson tem uma escrita rica e muito visual, mas a economia de palavras é, algumas vezes, um trunfo menosprezado – A morte de Ivan Illitch, poderoso pequeno livro,  é exemplo que uso muitas vezes a este propósito. Dizer menos é, às vezes, dizer mais. A este Arde o musgo cinzento, não faziam falta cerca de uma centena de páginas que, ainda que bem escritas, prejudicam o livro.

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Crítica gráfica

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O luto é a coisa com penas

O luto é a coisa com penasO luto é a coisa com penas é um livro diferente e, também por isso, difícil de comentar. Um pai e dois filhos lidam com a morte da mãe, situação que abala tremendamente o equilíbrio familiar. Compreensivelmente perdidos, recebem a visita do corvo, figura irredutível, até mesmo cruel, na tarefa de protecção do ninho. E é deste triângulo pai, filhos e corvo – as três vozes da narrativa -, do sofrimento e das dúvidas de uns, dos conselhos de outros, que emerge este livro. Assente em algumas metáforas, mas raramente em eufemismos, O luto é a coisa com penas vai directo a um assunto que nos habituámos a tratar com pinças, cheios de cuidados e rodeios, pelo que é muitas vezes uma leitura inquietante e incómoda. O livro de estreia de Max Porter é ambicioso por se lançar a uma temática delicada com uma abordagem original e desafiante; causa estranheza pela falta de lógica que, a espaços, parece apresentar (haverá lógica alguma no luto?), mas a verdade é que atinge repetidas vezes a sensibilidade do leitor. Uma parte do que O luto é a coisa com penas tem de muito bom é consequência de ser diferente, até estranho; o que pode ter como defeito é ser diferente, até estranho.
É um livro difícil de recomendar, mas impossível de ignorar.

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Cemitério de pianos

Cemitério de pianosPonto prévio: este é um livro paciente. Não me perguntem quais as razões, mas adiei-o durante anos. Olhei-o e adiei-0. Uma e outra vez. Olhei-o e adiei-o. Até que aconteceu olhá-lo e abri-lo. E ao abri-lo, abriu-se uma história cheia de sentimentos também eles pacientes. De culpa, de amor, de determinação, de esperança e de falsa esperança, de indignação. De família. Cemitério de pianos narra, a duas vozes distantes em uma geração, todas as dificuldades de uma família, essencialmente. Nenhum podre é deixado de parte e, no entanto, o livro acaba por ser um elogio, ainda que negro, à resistência familiar, a essa estranha estrutura que parece ser feita para tudo aguentar. Até a morte. A escrita de José Luís Peixoto é bastante eficaz a colocar o leitor no centro de cada problema, na angústia de algumas das situações criadas, e consegue chegar às páginas finais em crescendo de interesse e de intensidade. Peca, talvez, por exagerar ligeiramente na quantidade de personagens sofredoras – salvam-se as crianças, quando muito -, mas merece louvor maior por aproveitar e adaptar a interessante, ainda que também trágica, história de Francisco Lázaro, maratonista portugês que morre em prova nos Jogos Olímpicos, em Estocolmo. Cemitério de pianos soube esperar. José Luís Peixoto soube convencer: voltarei à sua escrita, certamente.

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Naquele instante, estávamos felizes. Antes, tivemos gestos que nos levaram àquele instante; depois, tivemos gestos que nos tiraram daquele instante; mas, naquele instante, estávamos felizes.
O castigo que escolhi para mim próprio é saber aquilo que aconteceu a seguir.

José Luís Peixoto, Cemitério de pianos

Aquilo que aconteceu a seguir 

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Essa puta tão distinta

Andar por Barcelona pela mão de Marsé é sempre uma grande experiência. Essa puta tão distinta não foge à regra e leva-nos, com uma escrita eficaz e despretensiosa, sem excessos, aos antigos prostíbulos e aos vetustos cinemas de bairro, ao mesmo tempo que procura desenrolar o novelo de um crime que se deu, alguns anos antes, numa cabine de projecção. Um pouco a exemplo de Rabos de Lagartixa, um dos romances maiores de Marsé,  é na forma, na estrutura, que este livro mais arrisca, com o crime e as possíveis raízes do mesmo a serem explorados por um escritor, a pretexto de uma encomenda para um guião cinematográfico. Em sucessivas entrevistas ao autor do crime, com a sua peculiar condição amnésica, o escritor começa a perceber os caprichos da memória e a facilidade com que esta desvaloriza ou sobrevaloriza factos passados. É essencialmente a essa memória, apesar de toda a história se desenrolar em torno do mundo da prostituição, que se refere o título deste livro, que vale muito a pena, ainda que não chegue à poesia de Caligrafia dos sonhos (livro de que herda um personagem) e ao brilhantismo de Rabos de Lagartixa.

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Homens imprudentemente poéticos

Homens imprudentemente poéticosÉ da terra do sol nascente, das suas tradições e dos seus códigos de ética, que nos chega a narrativa do último romance de Valter Hugo Mãe. As criações manuais do artesão e do oleiro, personagens principais da história, são vistosos leques e peças de olaria muito enfeitadas – em demasia, consideram os vizinhos -, mas é no interior destes dois homens em conflito que se dá a criação maior, um novelo ao mesmo tempo terno e violento do que é viver no Japão ancestral. Aquando da passagem do autor pelo país, uma curiosíssima floresta despertou a sua atenção ao ponto de a fazer mudar de tempo e de localização e a encaixar nestas páginas. Nessa floresta entram homens e mulheres com intenções suicidas, munidos de uma longa corda, que serve de guia para o seu exterior, em caso de arrependimento, ou para se pendurarem de fruto maduro. E é sempre com vista para o tema do suicídio, visto com outros olhos no oriente, que Homens imprudentemente poéticos se desenrola.
A escrita de Valter Hugo Mãe faz jus a este título e a tudo o que lhe venho lendo e volta a ser poética, conseguindo ainda, neste caso, a notável proeza de escrever cerca de duas centenas de páginas sem recurso à palavra não. É um feito considerável em termos linguísticos e é um feito ainda maior quando se percebe que não só não prejudica a prosa como ainda se adequa à cortês tradição nipónica.
Mais um livro interessante e, sem surpresa, muito bem escrito de Valter Hugo Mãe.

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Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo. Sentindo-lhe carinho.

Valter Hugo Mãe, Homens imprudentemente poéticos 

O medo

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O paraíso são os outros

O paraíso são os outrosO paraíso são os outros é simples e terno na forma como aborda a questão do amor e dos casais, e cria oportunidades  para perguntas que poderão transformar-se em interessantes conversas com os mais pequenos. Os breves pensamentos de uma menina, acompanhados pelas ilustrações de Esgar Acelerado (o mr.esgar do velhinho casadeosso), resultam de forma apelativa e acessível.
Não há propriamente coisas muito novas no que o autor transmite, mas neste livro aparecem mais ao alcance das leituras infantis. As mais belas coisas do mundo, outro livro infantil de Valter Hugo Mãe, é bem mais ambicioso e desafiador na exposição dos temas e até na estrutura, mas também por isso menos adequado para os mais novos. Encheu-me as medidas, mas achei que para o meu filho era cedo. Este O paraíso são os outros não conseguiu encher-me as medidas, mas ser-lhe-á, em breve, proposto para leitura conjunta.

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