Category Archives: Livros

O século XX livrou-nos de Deus e pôs-nos a mãe no lugar dele.

Laurent Binet, A sétima função da linguagem

Hierarquias divinas

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Prefácio breve e não autorizado

Belmiro Poente nasceu em 1974. O autor destas páginas também. A história de Belmiro Poente é contada aos avanços e recuos, de memórias em memórias. A do autor deste monólogo é escrita a direito, sobre as linhas de um qualquer caderno pautado. Belmiro Poente nasceu para estar entre as mulheres e para afastar a bola em direcção à baliza. O criador de Belmiro Poente nasceu para escrever histórias muito verdadeiras com personagens um tanto fictícias. Em 2042, Belmiro Poente encontra-se no Hospital do Esquecimento, a braços com um diagnóstico de demência. Em 2042, o autor deste livro tem que ter conseguido escapar ao esquecimento. A prosa que aqui se encontra tem muitos sonhos e pouco sono. Acorde também quem puder trazer este autor à luz do dia.

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Contei-lhe sobre o pai de uma amiga, que regressou da guerra e morreu poucos dias depois. Morreu de doença do coração. Eu não conseguia perceber como era possível morrer depois da guerra, quando toda a gente estava feliz.

Svetlana Alexievich, As últimas testemunhas

Da ironia da guerra

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Disseram-te que as árvores sobrevivem respirando apenas uma vez por dia. Quando o sol nasce, sorvem os seus raios numa golada longa e luxuriante e, quando se põe, expiram uma enxurrada de dióxido de carbono.

Han Kang, Atos humanos

Respirar fundo

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O caso Morel

O caso MorelHá uns anos, depois de ler O seminarista, de Rubem Fonseca, avaliei aquela leitura como nada mais do que agradável, mas não deixei de considerar um regresso à obra do autor brasileiro. Hoje, terminada a leitura de O caso Morel, consigo ter Rubem Fonseca em melhor conta. Com uma escrita muito directa, sem grandes figuras de estilo, consegue fazer deste livro, pela estrutura, pela composição das personagens e pelo ritmo imposto, mais do que um simples policial. Além do crime que se vai revelando, entre histórias quase todas muito sexuais, vai-se percebendo – e também confundindo – uma outra camada narrativa, paralela, que corresponde à escrita de um livro que relata a vida de Paul Morel, a interessante personagem central do romance. Rubem Fonseca aproveita ainda para, a espaços, satirizar alguma arte contemporânea. Em resumo, se O seminarista foi só uma leitura agradável, O caso Morel já foi uma leitura interessante. Porta aberta para Rubem Fonseca, portanto.

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“O meu advogado é uma besta”, diz Morel. “Você também foi advogado, não foi?”
“Fui.”
“Foi polícia, também?”
“Fui.”
“Que vida sórdida a sua. Polícia, advogado, escritor. As mãos sempre sujas.

Rubem Fonseca, O caso Morel

Trabalho sujo

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Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam o olhar da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro de uma prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora.

Afonso Cruz, A boneca de Kokoschka

Gaiolas interiores

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Afonso Cruz. Outra vez.

Regresso a Afonso Cruz e confirmo que não o consigo fazer a um ritmo lento. E a questão nem tem tanto a ver com rapidez, mas sim com avidez. Custa parar. Custa aproveitar o que se acabou de ler sem estar a pensar no que vem a seguir. Afonso Cruz é uma espécie de água salgada, que sacia por um brevíssimo momento e dá sede imediatamente a seguir. É tudo para quem procura repetida satisfação. Deve ser evitado por quem não quer ter sede.

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Estou cansada, diz.
São só três quilómetros, diz Elisabeth.
Não me refiro a isso, diz a mãe. Estou cansada do noticiário. Estou cansada do modo como torna espetacularss coisas que não o são e da maneira simplista como aborda o que é verdadeiramente aterrador. Estou cansada do azedume. Estou cansada da raiva. Estou cansada da mesquinhez. Estou cansada do egoísmo. Estou cansada de nada fazermos para lhe pôr fim. Estou cansada do modo cono o encorajamos. Estou cansada da violência que existe e estou cansada da violência que está a caminho, que aí vem, que ainda não aconteceu. Estou cansada de mentirosos. Estou cansada de mentirosos santificados. Estou cansada de como esses mentirosos permitiram que isso acontecesse. Estou cansada de ter de me perguntar se o fizeram por estupidez ou se o fizeram de propósito. Estou cansada de governos mentirosos. Estou cansada de as pessoas não quererem saber se lhes continuam a mentir. Estou cansada de me ver obrigada a sentir-me tão apavorada. Estou cansada da animosidade. Estou cansada da pusilanimosidade.
Não creio que essa palavra exista, diz Elisabeth.
Estou cansada de não saber as palavras certas, diz a mãe.

Ali Smith, Outono

As palavras certas 

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Nada disso, garanto, é pessoal
Não tem uma pitada de má-fé,
Mas ninguém faz amor em Portugal
Sem antes passar horas num café.

Se quiseres transar em terra lusa,
Jamais alcançarás algum sucesso
Em levantar, de um português, a blusa
Se não tomarem baldes de expresso.

Bebe-se mais café que se ouve o fado.
Nesse país viciado em cafeína
Jamais sequer beijei uma menina

Que não tivesse, antes, se dopado.
Não importa o trabalho que dedicas,
Não farás (nem terás) bicos sem bicas.

Gregorio Duvivier, Sonetos
(Via Comunidade Cultura e Arte)

Sai um café 

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Bolaño sem espírito

Em O espírito da ficção científica encontram-se, efectivamente, algumas passagens à Bolaño. Só fica a faltar o resto, o que agiganta Os detectives selvagens e 2666. É um livro que se recomenda, essencialmente, a fãs e curiosos do escritor chileno: podem-se encontrar, nesta obra, os embriões de algumas personagens e acontecimentos de outros livros seus e podem-se encontrar, na parte final, imagens de rascunhos do autor, onde se vislumbram métodos e abordagens. Essencialmente por isto. Enquanto história, enquanto livro por si próprio, é pouco. Bolaño é muito mais.

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É assim que a natureza funciona. Pensa nos amantes. Se os amantes estivessem todo o tempo agarradinhos um ao outro já não precisariam de se amar. Seriam um só. Já não haveria nada para desejarem. É por isso que a natureza tem intervalos.

J. M. Coetzee, A infância de Jesus

Dos intervalos

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Uma vontade quase secreta

A evidenciar o ritmo da leitura do Coetzee a que agora me lancei, trazido da biblioteca, está um marcador que aponta para o Diário Volúvel, do muito estimado Enrique Vila-Matas. Porque, ainda na biblioteca, não consegui resistir a um Bolaño mais recente que por lá repousava, reparei que também entre as suas páginas trouxe um marcador que nada tinha a ver com a obra do escritor chileno. Desta feita, evidenciava um meu desconhecido – e agora alvo de curiosidade – Alessandro Baricco. Estas duas situações lá acabaram por plantar na minha cabeça uma muito romântica ideia, responsável por algumas dúvidas: 1) haverá, entre a comunidade de leitores da biblioteca, alguém a querer traçar o rumo das leituras dos outros? 2) que tal aceitar estas indicações e verificar se têm seguimento? 3) na muito provável eventualidade de isto ter sido apenas uma coincidência, como fugir à vontade de vestir esta secreta personagem?

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Falar da História
é abandonar momentaneamente o nosso compulsivo silêncio e dizer (sem esquecer as datas) o que então não puderam dizer aqueles a quem foi imposto igual silêncio.
Para denunciar tudo hoje, quando nenhuma diferença faz.

Reinaldo Arenas, O engenho

Da História

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Não há nada a dizer; resta-nos derrear o corpo e fuçar.
Não há nada a dizer da liberdade: aqui, ou nos calamos ou morremos com um tiro.
Não há nada a dizer da humanidade: aqui, ou aplaudimos ou morremos com um tiro.
Não há nada a dizer dos sagrados princípios da justiça: aqui, ou prostramos o nosso corpo de escravos ou morremos naturalmente com um tiro.
Assim se resumem os nossos direitos.
(É tudo muito, muito claro: nem frases grandiosas, nem complexas teses filosóficas, nem poemas herméticos. Ao terror basta a simplicidade deste verbo épico: dizer.)
E é preciso dizer.
É preciso dizer.
Aqui, onde nada se pode dizer, é exactamente onde mais há a dizer.
É preciso dizer.
É preciso dizer tudo.

Reinaldo Arenas, O engenho

Do verbo dizer

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Para onde vamos quando desaparecemos?

A literatura infantil tem conseguido surpreender-me com regularidade e este é só mais um desses casos. Um livro que traz alguma alegria à ideia de fim, a forma possível de explicá-la às crianças. Enquanto pensamos no que consiste o desaparecimento de coisas simples e banais como as meias sem par ou o sol, vamos aceitando de forma menos penosa o desaparecimento de quem realmente  nos faz falta. Como se o cuidadoso texto de Isabel Minhós Martins e as coloridas ilustrações de Madalena Matoso não fossem consolo suficiente, a editora Planeta Tangerina ainda avança com umas interessantes propostas de exploração do tema para pais e professores. Para onde vamos quando desaparecemos? é, por todos estes motivos, uma pequena maravilha sobre a perda!

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Para que alguma coisa desapareça são precisos sempre dois.
(Um que fica e um que desaparece.)

Isabel Minhós Martins, Para onde vamos quando desaparecemos?

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A vida morre onde a violência tenta apagar a sua originalidade, as suas peculiaridades.

Vassili Grossman, Vida e destino

A morte da vida

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O ruído do tempo

Julian Barnes é um nome que há muito me despertava curiosidade, mas a que, por uma razão ou outra, ainda não tinha chegado. Títulos como O papagaio de Flaubert e O sentido do fim entraram para a lista sem fim à vista que são os livros que quero ler. Chegar primeiro a O ruído do tempo foi obra de uma visita relâmpago à biblioteca e, confesso, não foi um acaso proveitoso. Neste livro, que se apresenta como uma biografia ficcionada, a escrita acaba por ser mais documental, mais objectiva, afastando-se ligeiramente daquele que, por norma, é o meu registo de preferência. Foi um livro que me passou sem deixar marca. Uma história que se resumiu a uma sucessão de factos e onde a mão de Barnes, ainda que muito profissional, muito capaz e até muito adequada à biografia que este livro pretende ser, conseguiu pouco para me agarrar. Mal menor, foi não ter beliscado a minha vontade de ler os seus outros livros que já aqui apontei.

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Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói só era preciso ser bravo por um momento – quando puxávamos da pistola, lançávamos a bomba, carregávamos no detonador, eliminávamos o tirano e a nós também. Mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar.

Julian Barnes, O ruído do tempo

Emprego de longa duração

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