Category Archives: Livros

Falar da História
é abandonar momentaneamente o nosso compulsivo silêncio e dizer (sem esquecer as datas) o que então não puderam dizer aqueles a quem foi imposto igual silêncio.
Para denunciar tudo hoje, quando nenhuma diferença faz.

Reinaldo Arenas, O engenho

Da História

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Não há nada a dizer; resta-nos derrear o corpo e fuçar.
Não há nada a dizer da liberdade: aqui, ou nos calamos ou morremos com um tiro.
Não há nada a dizer da humanidade: aqui, ou aplaudimos ou morremos com um tiro.
Não há nada a dizer dos sagrados princípios da justiça: aqui, ou prostramos o nosso corpo de escravos ou morremos naturalmente com um tiro.
Assim se resumem os nossos direitos.
(É tudo muito, muito claro: nem frases grandiosas, nem complexas teses filosóficas, nem poemas herméticos. Ao terror basta a simplicidade deste verbo épico: dizer.)
E é preciso dizer.
É preciso dizer.
Aqui, onde nada se pode dizer, é exactamente onde mais há a dizer.
É preciso dizer.
É preciso dizer tudo.

Reinaldo Arenas, O engenho

Do verbo dizer

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Para onde vamos quando desaparecemos?

A literatura infantil tem conseguido surpreender-me com regularidade e este é só mais um desses casos. Um livro que traz alguma alegria à ideia de fim, a forma possível de explicá-la às crianças. Enquanto pensamos no que consiste o desaparecimento de coisas simples e banais como as meias sem par ou o sol, vamos aceitando de forma menos penosa o desaparecimento de quem realmente  nos faz falta. Como se o cuidadoso texto de Isabel Minhós Martins e as coloridas ilustrações de Madalena Matoso não fossem consolo suficiente, a editora Planeta Tangerina ainda avança com umas interessantes propostas de exploração do tema para pais e professores. Para onde vamos quando desaparecemos? é, por todos estes motivos, uma pequena maravilha sobre a perda!

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Para que alguma coisa desapareça são precisos sempre dois.
(Um que fica e um que desaparece.)

Isabel Minhós Martins, Para onde vamos quando desaparecemos?

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A vida morre onde a violência tenta apagar a sua originalidade, as suas peculiaridades.

Vassili Grossman, Vida e destino

A morte da vida

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O ruído do tempo

Julian Barnes é um nome que há muito me despertava curiosidade, mas a que, por uma razão ou outra, ainda não tinha chegado. Títulos como O papagaio de Flaubert e O sentido do fim entraram para a lista sem fim à vista que são os livros que quero ler. Chegar primeiro a O ruído do tempo foi obra de uma visita relâmpago à biblioteca e, confesso, não foi um acaso proveitoso. Neste livro, que se apresenta como uma biografia ficcionada, a escrita acaba por ser mais documental, mais objectiva, afastando-se ligeiramente daquele que, por norma, é o meu registo de preferência. Foi um livro que me passou sem deixar marca. Uma história que se resumiu a uma sucessão de factos e onde a mão de Barnes, ainda que muito profissional, muito capaz e até muito adequada à biografia que este livro pretende ser, conseguiu pouco para me agarrar. Mal menor, foi não ter beliscado a minha vontade de ler os seus outros livros que já aqui apontei.

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Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói só era preciso ser bravo por um momento – quando puxávamos da pistola, lançávamos a bomba, carregávamos no detonador, eliminávamos o tirano e a nós também. Mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar.

Julian Barnes, O ruído do tempo

Emprego de longa duração

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Todos os nomes

Na hora de largar um livro a meio, não dá para olhar a nomes. Comigo, já aconteceu a Thomas Pynchon, a Saramago, a Don DeLillo e até ao meu tão estimado António Lobo Antunes, por exemplo. Isso não diz mal deles ou dos seus livros. Dirá mais dos meus momentos. A Cuba de Cabrera Infante, em Mapa desenhado por um espião, não estava a alhear-me dos dias verdadeiros, como eu gosto que aconteça com a literatura. Mais tarde ou mais cedo, é possível que lá volte. Por enquanto, confio os próximos dias a Julian Barnes. O ruído do tempo se encarregará de dizer se foi uma escolha acertada.

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Amor natural

Lamento, poesia, ainda não foi desta. Lamento, Drummond. Voltei a esbarrar com estrondo num género que nunca me foi fácil. Há, neste Amor natural, umas quantas linhas de que gosto, mas pouco mais. O erotismo dos poemas aqui reunidos também não ajuda – muito pelo contrário. Não consigo dizer muito mais: por um lado, não entendo o suficiente para dizer que é bom ou mau; por outro lado, não gostei o suficiente para dizer sequer “experimentem”.
A poesia que me desculpe. Carlos Drummond de Andrade que me desculpe. A culpa é só minha. Estranhamente, gosto de uma prosa poética, com preocupações rítmicas e sonoras, mas quase nunca alcanço a satisfação na poesia pura e dura.

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É assim que a perdes

O meu primeiro contacto com Junot Díaz deu-se com A breve e assombrosa vida de Oscar Wao e, na altura, foi uma agradável surpresa. Voltar à sua escrita era uma questão de tempo. Neste É assim que a perdes, o autor dominicano não desilude, apresentando um conjunto de narrativas que não consigo catalogar como contos, porque, mais do que ligadas entre si, me parecem resultar num todo que é maior do que a soma das partes. Os personagens são alguns, mas o essencial volta a ser a exploração da identidade dominicana, das suas ligações à terra natal, dos estereótipos, da inserção numa cultura nova, num país diferente em tudo, como bastam as temperaturas para o provar. É sobre isto e sobre as muitas formas de amor. Tudo narrado de forma simples, muito directa e honesta, sem “embelezamentos” demasiado artificiais. Já não surpreende, porque conhecer Oscar Wao elevou expectativas, mas volta cativar. Vale a pena a leitura e vale a pena continuar atento a Junot Díaz.

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Anatomia de um soldado

Harry Parker esteve no Afeganistão como soldado, pisou o que todos fazem por evitar e trouxe uma história dura de contar. Passar de uma vivência deste calibre, desta intensidade, para a escrita de um romance não é tarefa fácil. Parker pega na sua experiência com pinças e, num exercício de originalidade, faz dos objectos que o rodearam narradores. Talvez seja por essa razão, pela natureza exclusivamente material desses objectos, que o relato sai algo frio e nunca chega ao excesso de sentimentalismo, conseguindo, ainda assim, transportar o leitor para as incertezas do campo de batalha e para as angústias hospitalares. Temos então uma história de guerra, de aceitação e de recuperação contada por uma mochila, um capacete, um saco de soro ou uma prótese, por exemplo. Por esta particularidade, pode demorar-se um pouco a entrar no registo narrativo, mas acaba por ser uma abordagem original e que serve relativamente bem o propósito da obra. Anatomia de um soldado acaba por ser uma leitura interessante e uma boa estreia de Harry Parker no romance.

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A grande guerra mundial

Separo pilhas de roupa com as mãos enluvadas. A roupa suja é trazida por enfermeiras, quase todas negras. Nunca vejo os doentes; só os conheço pelas manchas e marcas que deixam nos lençóis, o alfabeto de doentes e moribundos. Muitas vezes as nódoas são demasiado profundas, e esses lençóis vão para um cesto à parte. Uma das raparigas de Baitoa diz que ouviu dizer que tudo o que está nesse cesto vai para a incineradora. Por causa da sida, sussurra. Às vezes as manchas são velhas e cor de ferrugem, outras vezes o sangue tem um cheiro cortante como a chuva. Quem visse todo o sangue que a gente vê, pensaria que há uma guerra no mundo lá fora. Há uma guerra, mas é apenas dentro dos corpos, diz uma das raparigas.

Junot Díaz, É assim que a perdes

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O Papalagui

O Papalagui reúne discursos de um chefe de uma tribo de Tiavéa, na ilha samoana de Upolu, sobre o europeu ou, de forma mais genérica, a civilização. Com simplicidade indígena, são levantadas questões em que facilmente nos revemos e para as quais nem sempre temos uma resposta que possamos considerar muito boa. É assim e pronto. O chefe Tuiavii estranha os hábitos europeus em relação ao vestuário e ao que do corpo se pode revelar, questiona o tipo de habitação em que o europeu se fecha, o valor que se atribui ao dinheiro e à posse de todo o tipo de bens. Para o chefe da tribo, o meu é uma novidade. Aborda-se ainda, nos breves textos reunidos em O Papalagui, a relação difícil do homem europeu com o tempo, que prendeu em utensílios que o dividem em dias, horas e minutos.
Sem grandes pretensões literárias, até para não ferir a origem dos textos, este é um livro que se lê bem entre outros de maior fôlego, sem deixar de ter o seu interesse.

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Os jornais são maus para o nosso espírito, não só porque relatam o que se passa, mas também porque nos dizem o que devemos pensar disto ou daquilo, dos nossos chefes de tribo ou dos chefes de tribo doutras terras, e de todos os acontecimentos e acções dos homens. Os jornais gostariam que todos os homens pensassem o mesmo. Atacam a cabeça e os pensamentos do indivíduo. Pretendem que toda a gente tenha cabeça e pensamentos iguais aos deles. E sabem como levar isso a cabo. Quem leia, pela manhã, os muitos papéis, saberá o que, ao meio-dia, o Papalagui tem na cabeça e em que pensa.

Erich Scheurmann, O Papalagui

 

Lavagem cerebral

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Yoro

Com ponto de partida na bomba de Hiroxima, Yoro arranca para umas primeiras quarenta ou cinquenta páginas de intensidade assinalável. Por uma boa meia dúzia de vezes, apetece transcrever e guardar parágrafos inteiros. Não é de estranhar, por isso, que por essa altura estivesse deslumrado com o livro, que prometia tudo. Acontece que um romance é uma prova de resistência e dificilmente um autor pode ambicionar começar e acabar a ritmo alucinante. A partir de determinada altura, o romance desdobra-se em acontecimentos pessoais que, ao sobrecarregarem as mesmas personagens, as tornam mais inverosímeis. A busca de Yoro, a personagem, é o fio condutor de uma história que ligará a bomba atómica de Hiroxima às minas de exploração de urânio da República Democrática do Congo, e é precisamente nesses dois extremos que está o melhor de Yoro, o livro. Duas realidades tão iguais e aparentemente tão distintas ao mesmo tempo. É aí que Perezagua deixa interessantes questões e respostas felizmente incompletas, que deixam espaço para os juízos do leitor. Paralelamente, dá-se nestas mesmas páginas outra busca, a da identidade sexual e do apelo maternal. Não é assunto de menor interesse ou pertinência, mas dá-se o tal caso de ser muita coisa para carregar num só livro. Ainda assim, acreditando que esta obra – que é a estreia da autora no registo de romance – tinha mais a ganhar em pretender menos, não deixa de ser um bom livro e um excelente indicador para o que podemos esperar de Marina Perezagua.

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Flâneur

É assim bem embrulhado que um escritor dominicano chega a Matosinhos, pelas mãos do simpático Arnaldo. Tudo uma maravilha. A avivar a vontade antiga de visitar o espaço físico da Flâneur.

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Era uma vez um alfabeto

Depois de Sobe e desce e de O íncrivel rapaz que comia livros, foi a contar com coisas boas que abri este Era uma vez um alfabeto. São, tal como é anunciado no subtítulo, pequenas histórias com todas as letras. O humor está quase sempre presente e as ilustrações são uma maravilha de simplicidade e de inocência que assentam lindamente no teor das histórias. Vencedor do prémio Children’s Books Ireland para o Livro do Ano 2015, este Era uma vez um alfabeto está perfeitamente adequado para idades a partir dos recomendados seis anos – o que nem sempre acontece, neste segmento literário – e é uma excelente oportunidade para desfrutar da leitura em família.

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Menina a caminho

Depois de Um copo de cólera e de Lavoura arcaica, foi com naturalidade que peguei em Menina a caminho, livro de contos escritos maioritariamente nas décadas de sessenta e setenta, e que nesta recente edição conta com um bónus de dois contos e um ensaio. A escrita de Raduan Nassar já ali está, cheia de cuidados e ornamentos, mas a verdade é que a viagem não parece levar a lado algum – volto a colocar a hipótese de esta minha sensação poder estar ligada à minha menor afeição, com as devidas excepções, aos contos. São textos que se afiguram essencialmente descritivos, talvez uma exploração inicial da linguagem nos primeiros anos de ficção do autor. E se os contos não parecem ter um destino, mais deslocado ainda aparece o ensaio que fecha este breve livro. É um ensaio que se debruça sobre temas interessantes, mas que, de tão visados, só mereceriam destaque pela originalidade da abordagem, que não se vislumbra aqui.

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As imagens mais concretas e poderosas, que julgava serem património meu, repetiam-se em testemunhos de pessoas diferentes. Naquele momento, dei a explicação que me pareceu mais lógica. Pensei que a causa de os próprios sobreviventes emprestarem uns aos outros as expressões mais eficazes podia ser o indescritível, criando assim uma língua do horror: a língua mais recente, aquela que se aprende de repente, aquela que não se transmite de pais para filhos, e sim de testemunha para testemunha. Nessa língua, «uma figura com a cabeça tão inchada que triplica o seu tamanho» só pode ser exprimida como «uma figura com a cabeça tão inchada que triplica o seu tamanho». Não existem expressões equivalentes. É uma língua sem sinónimos.

Marina Perezagua, Yoro

Uma língua sem sinónimos

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Ler devagar

Acontece de vez em quando. Umas vezes por causa do estado de espírito, por causa do livro em si ou da leitura anterior, que teima em não se deixar arquivar na memória. Ultimamente, tem acontecido por culpa exclusiva da agenda, dos afazeres. Ler devagar. Mesmo quando as primeiras páginas do livro gritam urgência, como é o caso de Yoro. Que promessa de livro!

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