Category Archives: Livros

Lembro-me, o meu avô tinha-me levado à beira de um rio, se tínhamos apanhado algum peixe, já não sei, mas lembro-me, tinha um avô, tive uma infância.

Gao Xingjian, Uma cana de pesca para o meu avô

Velha infância

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Para un padre, el calendario más veraz es su proprio hijo. En él, más que en espejos o almanaques, tomamos conciencia de nuestro transcurrir y registramos los síntomas de nuestro deterioro. El diente que le sale es el que perdemos; el centímetro que aumenta, el que nos empequeñecemos; las luces que adquiere, las que en nosotros se extinguen; lo que aprende, lo que olvidamos; y el año que suma, el que se nos sustrae. Su desarollo es la imagen simétrica e invertida de nuestro consumo, pues él se alimenta de nuestro tiempo y se construye con las amputaciones sucesivas de nuestro ser.

Julio Ramón Ribeyro, Prosas apátridas

Um filho enquanto calendário

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Viver de frente

Viver de frente

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Philip Roth

Philip Roth

Pode dizer-se que já lhe li alguma coisa. Umas vezes assoberbado, como em Pastoral Americana, outras vezes menos entusiasmado, como num mais inicial O Complexo de Portnoy, mas sempre capaz de reconhecer nas suas palavras uma prosa intensa e de muita qualidade. Deixa-nos hoje. Sem Prémio Nobel, mas com a mais difícil promessa de se vir a tornar num clássico.

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Coração de mãe

Coração de mãe

Pensar na saudade como uma espécie de ferrugem no coração. Uma pequena maravilha sobre a maternidade, este livro. Texto de Isabel Milhós Martins, ilustrações de Bernardo P. Carvalho e as sempre cuidadas edições da Planeta Tangerina.

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O meu problema com Gonçalo M. Tavares

A terminar Uma menina está perdida no seu século à procura do pai sem grande entusiasmo, já depois de ter experimentado sensação idêntica com Matteo perdeu o emprego, acabei de perceber o meu problema com Gonçalo M. Tavares: é que estou sempre à espera de livros do calibre dos da série O Reino. E é injusto, eu sei.

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Sshhhh…

… aprendendo à minha custa o que achava impossível existir ou seja que não há nenhuma parte do corpo que não tenha bicos de pés e que até em bicos de pés se conseguem relações a que um primo da minha mãe, amigo de palavras trabalhadas, chamava frutuosas…

António Lobo Antunes, Até que as pedras se tornem mais leves que a água

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História com princípio, meio e fim

História com princípio, meio e fim

(Via Mário Rufino)

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Sete homens racionais num barco

O que são sete homens racionais num barco? Isto: sete razões num barco, sete potenciais conflitos, sete armas, sete argumentos, sete tensões, sete arcos e sete flechas, sete formas de ameaçar o que está em redor, sete modos de defesa; enfim, sete mortes, sete assassinos em potência.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego

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Nem sempre Aaronson esteve morto.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego

A arte de começar um livro

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O século XX livrou-nos de Deus e pôs-nos a mãe no lugar dele.

Laurent Binet, A sétima função da linguagem

Hierarquias divinas

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Prefácio breve e não autorizado

Belmiro Poente nasceu em 1974. O autor destas páginas também. A história de Belmiro Poente é contada aos avanços e recuos, de memórias em memórias. A do autor deste monólogo é escrita a direito, sobre as linhas de um qualquer caderno pautado. Belmiro Poente nasceu para estar entre as mulheres e para afastar a bola em direcção à baliza. O criador de Belmiro Poente nasceu para escrever histórias muito verdadeiras com personagens um tanto fictícias. Em 2042, Belmiro Poente encontra-se no Hospital do Esquecimento, a braços com um diagnóstico de demência. Em 2042, o autor deste livro tem que ter conseguido escapar ao esquecimento. A prosa que aqui se encontra tem muitos sonhos e pouco sono. Acorde também quem puder trazer este autor à luz do dia.

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Contei-lhe sobre o pai de uma amiga, que regressou da guerra e morreu poucos dias depois. Morreu de doença do coração. Eu não conseguia perceber como era possível morrer depois da guerra, quando toda a gente estava feliz.

Svetlana Alexievich, As últimas testemunhas

Da ironia da guerra

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Disseram-te que as árvores sobrevivem respirando apenas uma vez por dia. Quando o sol nasce, sorvem os seus raios numa golada longa e luxuriante e, quando se põe, expiram uma enxurrada de dióxido de carbono.

Han Kang, Atos humanos

Respirar fundo

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O caso Morel

O caso MorelHá uns anos, depois de ler O seminarista, de Rubem Fonseca, avaliei aquela leitura como nada mais do que agradável, mas não deixei de considerar um regresso à obra do autor brasileiro. Hoje, terminada a leitura de O caso Morel, consigo ter Rubem Fonseca em melhor conta. Com uma escrita muito directa, sem grandes figuras de estilo, consegue fazer deste livro, pela estrutura, pela composição das personagens e pelo ritmo imposto, mais do que um simples policial. Além do crime que se vai revelando, entre histórias quase todas muito sexuais, vai-se percebendo – e também confundindo – uma outra camada narrativa, paralela, que corresponde à escrita de um livro que relata a vida de Paul Morel, a interessante personagem central do romance. Rubem Fonseca aproveita ainda para, a espaços, satirizar alguma arte contemporânea. Em resumo, se O seminarista foi só uma leitura agradável, O caso Morel já foi uma leitura interessante. Porta aberta para Rubem Fonseca, portanto.

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“O meu advogado é uma besta”, diz Morel. “Você também foi advogado, não foi?”
“Fui.”
“Foi polícia, também?”
“Fui.”
“Que vida sórdida a sua. Polícia, advogado, escritor. As mãos sempre sujas.

Rubem Fonseca, O caso Morel

Trabalho sujo

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Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam o olhar da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro de uma prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora.

Afonso Cruz, A boneca de Kokoschka

Gaiolas interiores

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Afonso Cruz. Outra vez.

Regresso a Afonso Cruz e confirmo que não o consigo fazer a um ritmo lento. E a questão nem tem tanto a ver com rapidez, mas sim com avidez. Custa parar. Custa aproveitar o que se acabou de ler sem estar a pensar no que vem a seguir. Afonso Cruz é uma espécie de água salgada, que sacia por um brevíssimo momento e dá sede imediatamente a seguir. É tudo para quem procura repetida satisfação. Deve ser evitado por quem não quer ter sede.

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Estou cansada, diz.
São só três quilómetros, diz Elisabeth.
Não me refiro a isso, diz a mãe. Estou cansada do noticiário. Estou cansada do modo como torna espetacularss coisas que não o são e da maneira simplista como aborda o que é verdadeiramente aterrador. Estou cansada do azedume. Estou cansada da raiva. Estou cansada da mesquinhez. Estou cansada do egoísmo. Estou cansada de nada fazermos para lhe pôr fim. Estou cansada do modo cono o encorajamos. Estou cansada da violência que existe e estou cansada da violência que está a caminho, que aí vem, que ainda não aconteceu. Estou cansada de mentirosos. Estou cansada de mentirosos santificados. Estou cansada de como esses mentirosos permitiram que isso acontecesse. Estou cansada de ter de me perguntar se o fizeram por estupidez ou se o fizeram de propósito. Estou cansada de governos mentirosos. Estou cansada de as pessoas não quererem saber se lhes continuam a mentir. Estou cansada de me ver obrigada a sentir-me tão apavorada. Estou cansada da animosidade. Estou cansada da pusilanimosidade.
Não creio que essa palavra exista, diz Elisabeth.
Estou cansada de não saber as palavras certas, diz a mãe.

Ali Smith, Outono

As palavras certas 

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Nada disso, garanto, é pessoal
Não tem uma pitada de má-fé,
Mas ninguém faz amor em Portugal
Sem antes passar horas num café.

Se quiseres transar em terra lusa,
Jamais alcançarás algum sucesso
Em levantar, de um português, a blusa
Se não tomarem baldes de expresso.

Bebe-se mais café que se ouve o fado.
Nesse país viciado em cafeína
Jamais sequer beijei uma menina

Que não tivesse, antes, se dopado.
Não importa o trabalho que dedicas,
Não farás (nem terás) bicos sem bicas.

Gregorio Duvivier, Sonetos
(Via Comunidade Cultura e Arte)

Sai um café 

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