Category Archives: Livros

O Papalagui

O Papalagui reúne discursos de um chefe de uma tribo de Tiavéa, na ilha samoana de Upolu, sobre o europeu ou, de forma mais genérica, a civilização. Com simplicidade indígena, são levantadas questões em que facilmente nos revemos e para as quais nem sempre temos uma resposta que possamos considerar muito boa. É assim e pronto. O chefe Tuiavii estranha os hábitos europeus em relação ao vestuário e ao que do corpo se pode revelar, questiona o tipo de habitação em que o europeu se fecha, o valor que se atribui ao dinheiro e à posse de todo o tipo de bens. Para o chefe da tribo, o meu é uma novidade. Aborda-se ainda, nos breves textos reunidos em O Papalagui, a relação difícil do homem europeu com o tempo, que prendeu em utensílios que o dividem em dias, horas e minutos.
Sem grandes pretensões literárias, até para não ferir a origem dos textos, este é um livro que se lê bem entre outros de maior fôlego, sem deixar de ter o seu interesse.

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Os jornais são maus para o nosso espírito, não só porque relatam o que se passa, mas também porque nos dizem o que devemos pensar disto ou daquilo, dos nossos chefes de tribo ou dos chefes de tribo doutras terras, e de todos os acontecimentos e acções dos homens. Os jornais gostariam que todos os homens pensassem o mesmo. Atacam a cabeça e os pensamentos do indivíduo. Pretendem que toda a gente tenha cabeça e pensamentos iguais aos deles. E sabem como levar isso a cabo. Quem leia, pela manhã, os muitos papéis, saberá o que, ao meio-dia, o Papalagui tem na cabeça e em que pensa.

Erich Scheurmann, O Papalagui

 

Lavagem cerebral

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Yoro

Com ponto de partida na bomba de Hiroxima, Yoro arranca para umas primeiras quarenta ou cinquenta páginas de intensidade assinalável. Por uma boa meia dúzia de vezes, apetece transcrever e guardar parágrafos inteiros. Não é de estranhar, por isso, que por essa altura estivesse deslumrado com o livro, que prometia tudo. Acontece que um romance é uma prova de resistência e dificilmente um autor pode ambicionar começar e acabar a ritmo alucinante. A partir de determinada altura, o romance desdobra-se em acontecimentos pessoais que, ao sobrecarregarem as mesmas personagens, as tornam mais inverosímeis. A busca de Yoro, a personagem, é o fio condutor de uma história que ligará a bomba atómica de Hiroxima às minas de exploração de urânio da República Democrática do Congo, e é precisamente nesses dois extremos que está o melhor de Yoro, o livro. Duas realidades tão iguais e aparentemente tão distintas ao mesmo tempo. É aí que Perezagua deixa interessantes questões e respostas felizmente incompletas, que deixam espaço para os juízos do leitor. Paralelamente, dá-se nestas mesmas páginas outra busca, a da identidade sexual e do apelo maternal. Não é assunto de menor interesse ou pertinência, mas dá-se o tal caso de ser muita coisa para carregar num só livro. Ainda assim, acreditando que esta obra – que é a estreia da autora no registo de romance – tinha mais a ganhar em pretender menos, não deixa de ser um bom livro e um excelente indicador para o que podemos esperar de Marina Perezagua.

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Flâneur

É assim bem embrulhado que um escritor dominicano chega a Matosinhos, pelas mãos do simpático Arnaldo. Tudo uma maravilha. A avivar a vontade antiga de visitar o espaço físico da Flâneur.

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Era uma vez um alfabeto

Depois de Sobe e desce e de O íncrivel rapaz que comia livros, foi a contar com coisas boas que abri este Era uma vez um alfabeto. São, tal como é anunciado no subtítulo, pequenas histórias com todas as letras. O humor está quase sempre presente e as ilustrações são uma maravilha de simplicidade e de inocência que assentam lindamente no teor das histórias. Vencedor do prémio Children’s Books Ireland para o Livro do Ano 2015, este Era uma vez um alfabeto está perfeitamente adequado para idades a partir dos recomendados seis anos – o que nem sempre acontece, neste segmento literário – e é uma excelente oportunidade para desfrutar da leitura em família.

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Menina a caminho

Depois de Um copo de cólera e de Lavoura arcaica, foi com naturalidade que peguei em Menina a caminho, livro de contos escritos maioritariamente nas décadas de sessenta e setenta, e que nesta recente edição conta com um bónus de dois contos e um ensaio. A escrita de Raduan Nassar já ali está, cheia de cuidados e ornamentos, mas a verdade é que a viagem não parece levar a lado algum – volto a colocar a hipótese de esta minha sensação poder estar ligada à minha menor afeição, com as devidas excepções, aos contos. São textos que se afiguram essencialmente descritivos, talvez uma exploração inicial da linguagem nos primeiros anos de ficção do autor. E se os contos não parecem ter um destino, mais deslocado ainda aparece o ensaio que fecha este breve livro. É um ensaio que se debruça sobre temas interessantes, mas que, de tão visados, só mereceriam destaque pela originalidade da abordagem, que não se vislumbra aqui.

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As imagens mais concretas e poderosas, que julgava serem património meu, repetiam-se em testemunhos de pessoas diferentes. Naquele momento, dei a explicação que me pareceu mais lógica. Pensei que a causa de os próprios sobreviventes emprestarem uns aos outros as expressões mais eficazes podia ser o indescritível, criando assim uma língua do horror: a língua mais recente, aquela que se aprende de repente, aquela que não se transmite de pais para filhos, e sim de testemunha para testemunha. Nessa língua, «uma figura com a cabeça tão inchada que triplica o seu tamanho» só pode ser exprimida como «uma figura com a cabeça tão inchada que triplica o seu tamanho». Não existem expressões equivalentes. É uma língua sem sinónimos.

Marina Perezagua, Yoro

Uma língua sem sinónimos

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Ler devagar

Acontece de vez em quando. Umas vezes por causa do estado de espírito, por causa do livro em si ou da leitura anterior, que teima em não se deixar arquivar na memória. Ultimamente, tem acontecido por culpa exclusiva da agenda, dos afazeres. Ler devagar. Mesmo quando as primeiras páginas do livro gritam urgência, como é o caso de Yoro. Que promessa de livro!

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A última noite e outras histórias

Todos os contos reunidos neste livro, com maiores ou menores méritos, evidenciam uma escrita muito competente. Não é por aí, portanto, que Salter deixa de convencer. Nestes contos, encontramos histórias mundanas e personagens bem exploradas, muito credíveis, muito reais – com maior evidência nas femininas, curiosamente. O conto que faz honras de título, A última noite, é dos mais inquietantes, pela temática, pelos contornos, mas perde algum fulgor por ser mais do que uma vez previsível. Pelo meio, há mais um ou outro que se destaca, mas o livro não resulta em mais do que agradável. O problema, neste caso, é mais uma questão de gosto pessoal. Conto pelos dedos das mãos os contos que me causaram espanto e, depois, há que levar em conta que, mesmo esses, tiveram sempre a companhia de um ou outro menos conseguido. A escrita de James Salter não merece sair beliscada desta experiência, mas voltemos aos romances.

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O que é proibido alimenta o desejo de tudo o resto.

James Salter, A última noite e outras histórias

Fruto proibido 

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Nem todas as baleias voam

Nem todas as baleias voam é Afonso Cruz. Está dito o essencial.
A história tem como ponto de partida uma iniciativa tida em tempos pela CIA, o programa Jazz Ambassadors, que pretendia melhorar a imagem dos Estados Unidos da América na Europa e assim influenciar o decorrer da guerra fria. É o ponto de partida e o ponto final. Tudo o resto nasce do génio do escritor português. Um pianista capaz de expressar tudo em notas musicais, que sofre pelo desaparecimento repentino da mulher, um filho que vê sentimentos e que procura chegar ao pai, e um escritor que tortura mulheres numa cave para lhes extrair literatura, são apenas alguns exemplos de personagens singulares e tocantes que este livro encerra.
Nem todas as baleias voam volta a apresentar uma escrita, que já conhecemos do maravilhoso Para onde vão os guarda-chuvas, cheia de bons paradoxos: sábia e infantil, inocente; acutilante e terna; crua e fantasiosa. Afonso Cruz tem um cuidado estético de ilustrador nas metáforas que elabora e nas personagens que cria, sempre tão bonitas, mesmo que cruéis. Tem cuidado de poeta na escolha das palavras, que procuram mais do que um significado. Tem cuidado de músico na construção de frases, feitas para decorar e repetir. Não se deve adiar Afonso Cruz!

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Um dia o amigo disse-lhe: Gostava de ser como tu, de ter as mesmas oportunidades. E Gould esforçou-se a vida toda por ser o melhor, para que o amigo pudesse ser como ele. Não adiantaria nada ser como ele se ele fosse medíocre, só valeria a pena se ele fosse o melhor.

Afonso Cruz, Nem todas as baleias voam

Da amizade

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Bartleby

Ler Bartleby foi perceber o quão estupidamente tarde cheguei a Herman Melville. Basta um livro breve como este para perceber a escrita transparente do autor, que revela uma capacidade singular de contar uma história, de descrever todos os acontecimentos com clareza. Lê-se como se se estivesse a ver e a sentir. E à história perfeitamente contada junta-se a incrível personagem que lhe dá o nome, Bartleby, personificação da inércia, da inacção. Podia alongar-me mais em considerações sobre este livro, mas podia resultar em qualquer coisa mais extensa do que a própria obra e, mesmo assim, não lhe fazer justiça: i would prefer not to.
Herman, Herman, ver-nos-emos em breve, te garanto.

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Talco de vidro

A leitura não foge ao exemplo dos dias e, por vezes, toma caminhos imprevisíveis. Desta vez, levou-me até uma novela gráfica de Marcello Quintanilha, Talco de vidro. O ilustrador brasileiro também se mostra hábil na construção da história, cheia de questões quotidianas, mundanas, fácil de acompanhar e com uma natureza narrativa adequada ao grafismo, intensa e veloz ao mesmo tempo.
Não sendo o meu género de eleição, Talco de vidro foi uma leitura agradável. Voltarei a Marcello Quintanilha, curioso com Tungstênio, entre um ou outro romance mais pesado.

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Lavoura arcaica

De volta a Raduan Nassar, confirmo o cuidado na escolha das palavras apontado aquando da leitura de Um copo de cólera. É novamente sobre a escrita que teimam em recair as atenções, mesmo que a história não mereça ser desvalorizada. Em Lavoura arcaica, que explora a parábola do filho pródigo, André decide abandonar a família, regida a uma voz, a do pai, com regras bem definidas, bem tradicionais e cristãs. Foge às regras e procura mergulhar em tudo o que lhes é contrário. Foge às regras e a um amor que não tem como sobreviver. Tal como na já referida parábola, o pai manda outro dos seus filhos procurar André e trazê-lo de volta a casa, onde se preparará uma festa em honra do seu regresso. E é precisamente a partir do regresso de André que o livro, que é muito bem escrito desde a primeira página, ganha outra intensidade e alcança o brilhantismo. Raduan Nassar consegue prender pela mestria da sua escrita, mas é na alteração do ritmo das narrativas que mais cativa – já assim tinha acontecido com Um copo de cólera. O que é contemplação linguística até ao capítulo final, passa a ser leitura desenfreada daí até  à última frase.
A adaptação cinematográfica de Lavoura arcaica pode ser facilmente encontrada, na íntegra, no YouTube, mas é no papel, na ordem das palavras, no que é apenas sugerido, que a história mais tem a ganhar.

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A vegetariana

A vegetariana é um livro que não respeita o leitor: rouba-lhe horas de sono, muda-lhe as rotinas e ocupa-lhe o pensamento. Pelo menos, foi assim que aconteceu comigo. Como se não lhe bastasse o defeito, também engana: A vegetariana tem muito de carnal, nas três partes em que se divide. No centro desta vertigem escrita estão duas irmãs, Yeong-hye e In-hye, e os seus maridos, essencialmente. É na primeira parte do livro, quando Yeong-hye decide deixar de comer carne, que as vísceras de uma família espartilhada por regras rígidas se expõem. A partir daí tudo se questiona, tudo se estranha e tudo se entranha. Directa ao assunto, dura, sem eufemismos, a escrita de Han Kang consegue, ainda assim, criar imagens fortíssimas, principalmente na segunda parte do livro, Mancha mongólica, que já havia sido publicada e premiada antes de ter sido incluída neste romance. A terceira parte do livro, voltada para a sobrevivência e para a consciência, chega quando o leitor já não tem como abrandar. E é em desassossego que se alcança o final do livro, que até na extensão soube ter acerto. Ao terceiro mês de 2017, foi a melhor leitura que o ano me trouxe.

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Um copo de cólera

Conduzido a Raduan Nassar pelo muito recomendável Mário Rufino, só posso considerar que a viagem pecou por tardia. Com este Um copo de cólera, o autor brasileiro apresenta-se como uma daquelas vozes de que gosto, que olham para a palavra, para a frase, como mais intenção do que buscar significados. É sempre uma escolha a cuidar da musicalidade da prosa, de uma certa harmonia, mais do que escrita, oral. O ritmo é lento quando tem que ser lento e vertiginoso quando manda que assim seja. A narrativa é quase um pretexto contemplativo, trata de um casal que vai de uma elegantemente escrita e tórrida cena de sexo a uma discussão desenfreada. O motivo aparente é minúsculo, mas esconde um sem fim de inseguranças. Um livro de linguagem adequadamente crua.
Já adaptado a cinema, numa curta-metragem facilmente acessível no Youtube, Um copo de cólera pede o papel. A edição da Companhia das Letras percebeu bem a importância da palavra, deu-lhe corpo, protagonismo, e não resumiu o livro às cinquenta páginas em que cabia perfeitamente. Leitura que eleva expectativas para Lavoura arcaica, a ler muito em breve.

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Arranha-céus

Arranha-céus Pegar neste livro de J.G. Ballard foi, confesso, quase um acaso. Numa das minhas habituais incursões à biblioteca, em busca de uns livros que levava em mente, deu-se a coincidência de estes não estarem disponíveis. Tratada a reserva dos mesmos para uns dias depois, sobrava esse intervalo de tempo para ocupar – mesmo que durante uns dias não seja possível ler, é sempre um descanso saber que há um livro à disposição. Na primeira estante lá estava este Arranha-céus, que só não foi um acaso completo porque a chancela Elsinore despertava interesse há já algum tempo.
Não sendo o meu género literário de eleição, esta foi uma leitura interessante, um exercício que comparo, no propósito, aos ensaios de Saramago. Com uma escrita directa, sem excessos, Ballard alicerça-se na ideia distópica de fechar uma comunidade num arranha-céus em que estivessem encerrados todos os serviços essenciais. Tal como nos ensaios do Nobel português, à introdução da primeira anomalia (como um inexplicável surto de cegueira, ou a interrupção da morte), os acontecimentos precipitam-se da forma que todos conhecemos, sempre a piorar e a expor, gradualmente, o que o homem tem de mais animal.
Arranha-céus, que conheceu adaptação cinematográfica relativamente recente, não é o mais original e brilhante exercício deste tipo – na minha opinião, fica a perder para Saramago, por exemplo -, mas vale bem o tempo que se lhe dispensa.

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A vida secreta das palavras

Eis-me debruçado no parapeito de um livro, a espreitar com estranheza inicial as palavras que nele vivem. São palavras nascidas no outro lado do Atlântico, mais abertas, mais próximas da oralidade: palavras mais à mão de semear pela boca. Entre elas, reencontro cumbuca, palavra que o meu pai traz ao convívio frequentes vezes. Eis-me, portanto, debruçado no parapeito de um livro voltado para o Brasil, janela para um sotaque diferente, a encontrar o meu pai numa palavra escrita por Raduan Nassar.

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Noturno chileno

Noturno chileno Não, Bolaño, desta vez não. A culpa até pode ser minha, do momento que escolhi para te ler, mas desta vez não. Já te li coisas maravilhosas, como Os detectives selvagens, e coisas menos conseguidas, como Estrela distante, mas só desta vez me faltou por completo o entusiasmo.
O sôfrego exercício de memória feito pelo protagonista desta história – num parágrafo, ou pouco mais do que isso – é entediante na forma e errante no objectivo. Nunca se sabe bem a que nos conduzem as recordações do padre, crítico literário e poeta que, febril, julga estar prestes a morrer. Salvam-se umas poucas páginas em torno da figura de Pinochet e a curiosidade pelo que se passa na cave de uma mansão em que se reúnem importantes figuras da cultura chilena. Foi pouco livro até para se fazer uma apreciação. Noturno chileno foi uma leitura inócua, deixou poucas marcas. O que Bolaño nunca tinha sido, para mim.

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