Homens imprudentemente poéticos

Homens imprudentemente poéticosÉ da terra do sol nascente, das suas tradições e dos seus códigos de ética, que nos chega a narrativa do último romance de Valter Hugo Mãe. As criações manuais do artesão e do oleiro, personagens principais da história, são vistosos leques e peças de olaria muito enfeitadas – em demasia, consideram os vizinhos -, mas é no interior destes dois homens em conflito que se dá a criação maior, um novelo ao mesmo tempo terno e violento do que é viver no Japão ancestral. Aquando da passagem do autor pelo país, uma curiosíssima floresta despertou a sua atenção ao ponto de a fazer mudar de tempo e de localização e a encaixar nestas páginas. Nessa floresta entram homens e mulheres com intenções suicidas, munidos de uma longa corda, que serve de guia para o seu exterior, em caso de arrependimento, ou para se pendurarem de fruto maduro. E é sempre com vista para o tema do suicídio, visto com outros olhos no oriente, que Homens imprudentemente poéticos se desenrola.
A escrita de Valter Hugo Mãe faz jus a este título e a tudo o que lhe venho lendo e volta a ser poética, conseguindo ainda, neste caso, a notável proeza de escrever cerca de duas centenas de páginas sem recurso à palavra não. É um feito considerável em termos linguísticos e é um feito ainda maior quando se percebe que não só não prejudica a prosa como ainda se adequa à cortês tradição nipónica.
Mais um livro interessante e, sem surpresa, muito bem escrito de Valter Hugo Mãe.

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Dois mil e dezasseis

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Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo. Sentindo-lhe carinho.

Valter Hugo Mãe, Homens imprudentemente poéticos 

O medo

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É paracetamol e não afecta o estômago 

Vou escrever por extenso: este menino tem dezoito anos!

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Da paternidade #21

Enquanto pais, há temas que tentamos adiar ao máximo do conhecimento dos filhos. É uma espécie de instinto protector, que funciona inconscientemente, por mais que saibamos que chegará o dia em que teremos que os abordar.

 

Esse dia foi ontem. Ao final da tarde, hora do banho, surgiu a incómoda pergunta.
– Papá, quem é a Maria Leal?

Ninguém está preparado para isto.

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O paraíso são os outros

O paraíso são os outrosO paraíso são os outros é simples e terno na forma como aborda a questão do amor e dos casais, e cria oportunidades  para perguntas que poderão transformar-se em interessantes conversas com os mais pequenos. Os breves pensamentos de uma menina, acompanhados pelas ilustrações de Esgar Acelerado (o mr.esgar do velhinho casadeosso), resultam de forma apelativa e acessível.
Não há propriamente coisas muito novas no que o autor transmite, mas neste livro aparecem mais ao alcance das leituras infantis. As mais belas coisas do mundo, outro livro infantil de Valter Hugo Mãe, é bem mais ambicioso e desafiador na exposição dos temas e até na estrutura, mas também por isso menos adequado para os mais novos. Encheu-me as medidas, mas achei que para o meu filho era cedo. Este O paraíso são os outros não conseguiu encher-me as medidas, mas ser-lhe-á, em breve, proposto para leitura conjunta.

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Valter Hugo Mãe, O paraíso são os outros (ilustrações de Esgar Acelerado)

O problema e a solução

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Microcosmos [a maldade]

Era claro em tudo o que fazia. Não mascarava objectivos, não disfarçava finalidades. Não tinha segundas intenções. As primeiras eram suficientemente más.

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A música não tem frio

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Instórias #18

A dezoito de Dezembro, uma folha resistia na copa daquela aparentemente frágil árvore. E porque a resistência, quando realmente heróica, feita sem a dor dos outros, tem que ser vista, é bom exemplo, fazia-o no ramo mais alto. Por já vir a reparar nessa folha há alguns dias, tirou o telemóvel do bolso e fotografou-a. A dezanove de Dezembro, a copa da árvore estava já completamente despida. A folha caiu, mas o exemplo não é caduco.

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Manhã emersa

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O Pai era diferente. O Pai tinha dureza dentro de si. Os seus olhos olhavam para o mesmo mundo que os da Mãe, e apenas viam desapego. Labuta interminável. O mundo do Pai era regido pelo esforço. Nada do que fosse bom era gratuito. Nem o amor. Pagava-se por todas as coisas e, se se era pobre, o sofrimento era a moeda.

Khaled Hosseini, E as montanhas ecoaram 

Moeda dura

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Microcosmos [a vaidade]

Reparou nela porque vestia impecavelmente o corpo. Desistiu dela quando ouviu que às palavras vestia um qualquer trapo.

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A engrenagem dos dias

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Microcosmos [o tipo]

Enquanto esperava para pagar, na livraria, duas jovens insistiam em fazer-se ouvir.
– Tipo, adoro as capas da Tinta da China. São as melhores. – É. – Olha para esta! Mas, tipo, para quem já está a ler quatro livros, é capaz de ser exagero.
Só não saiu a correr sem pagar porque à porta estava, encorpado, o tipo da segurança.

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Os sete loucos

Arrancar para um livro carregado de expectativas é, quase sempre, desaconselhável. Quando entre essas expectativas se encontram comparações com Dostoiévski, ou a paternidade da literatura moderna argentina, o fardo fica pesado. Foi precisamente por essas razões que este Os sete loucos não me conseguiu surpreender. Há, de facto, alguma coisa de Crime e Castigo neste livro, na descrição dos estados de espírito das personagens, na gestão dos seus conflitos interiores. Só que o que Arlt procura fazer, Dostoiévski faz como quem respira, naturalmente e sem excessos. Há, também, alguma coisa de Viagem ao fim da noite, no retrato negro que é feito do homem. Só que Céline não esconde o que quer que seja na loucura, é impiedoso, e o seu livro resulta mais intenso, mais desafiador. Roberto Arlt escreve uma história interessante e que tem a curiosidade de quase prever a revolução argentina, mas que continua a ter o seu mérito maior em ter sido influência de autores que se lhe seguiram, como Borges ou Cortázar. Só por isso, e apesar do que ficou por provar, estava justificada à partida a leitura deste Os sete loucos.

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Microcosmos [a biblioteca]

Vi, de cá de fora, as luzes da biblioteca a apagarem-se – os segundos que antecederam esse momento pareceram-me de espera. Senti que lá dentro, nesse instante, a biblioteca se abria e as personagens de todas as histórias  conviviam entre si. Talvez isso explique que o mesmo livro, lido em diferentes alturas, possa parecer outro livro.

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Microcosmos [a barba]

Nunca soube justificar o porquê da barba, até o filho de um ano ter adormecido a puxá-la.

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