Heterónimos

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Talco de vidro

A leitura não foge ao exemplo dos dias e, por vezes, toma caminhos imprevisíveis. Desta vez, levou-me até uma novela gráfica de Marcello Quintanilha, Talco de vidro. O ilustrador brasileiro também se mostra hábil na construção da história, cheia de questões quotidianas, mundanas, fácil de acompanhar e com uma natureza narrativa adequada ao grafismo, intensa e veloz ao mesmo tempo.
Não sendo o meu género de eleição, Talco de vidro foi uma leitura agradável. Voltarei a Marcello Quintanilha, curioso com Tungstênio, entre um ou outro romance mais pesado.

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Lavoura arcaica

De volta a Raduan Nassar, confirmo o cuidado na escolha das palavras apontado aquando da leitura de Um copo de cólera. É novamente sobre a escrita que teimam em recair as atenções, mesmo que a história não mereça ser desvalorizada. Em Lavoura arcaica, que explora a parábola do filho pródigo, André decide abandonar a família, regida a uma voz, a do pai, com regras bem definidas, bem tradicionais e cristãs. Foge às regras e procura mergulhar em tudo o que lhes é contrário. Foge às regras e a um amor que não tem como sobreviver. Tal como na já referida parábola, o pai manda outro dos seus filhos procurar André e trazê-lo de volta a casa, onde se preparará uma festa em honra do seu regresso. E é precisamente a partir do regresso de André que o livro, que é muito bem escrito desde a primeira página, ganha outra intensidade e alcança o brilhantismo. Raduan Nassar consegue prender pela mestria da sua escrita, mas é na alteração do ritmo das narrativas que mais cativa – já assim tinha acontecido com Um copo de cólera. O que é contemplação linguística até ao capítulo final, passa a ser leitura desenfreada daí até  à última frase.
A adaptação cinematográfica de Lavoura arcaica pode ser facilmente encontrada, na íntegra, no YouTube, mas é no papel, na ordem das palavras, no que é apenas sugerido, que a história mais tem a ganhar.

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Bom dia. Boa semana.

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Microcosmos [o cemitério]

Estranho o espanto provocado pela minha recusa em ir ao cemitério, onde mora o teu corpo, esse traidor. Se ainda lá estivesses tu…

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A vegetariana

A vegetariana é um livro que não respeita o leitor: rouba-lhe horas de sono, muda-lhe as rotinas e ocupa-lhe o pensamento. Pelo menos, foi assim que aconteceu comigo. Como se não lhe bastasse o defeito, também engana: A vegetariana tem muito de carnal, nas três partes em que se divide. No centro desta vertigem escrita estão duas irmãs, Yeong-hye e In-hye, e os seus maridos, essencialmente. É na primeira parte do livro, quando Yeong-hye decide deixar de comer carne, que as vísceras de uma família espartilhada por regras rígidas se expõem. A partir daí tudo se questiona, tudo se estranha e tudo se entranha. Directa ao assunto, dura, sem eufemismos, a escrita de Han Kang consegue, ainda assim, criar imagens fortíssimas, principalmente na segunda parte do livro, Mancha mongólica, que já havia sido publicada e premiada antes de ter sido incluída neste romance. A terceira parte do livro, voltada para a sobrevivência e para a consciência, chega quando o leitor já não tem como abrandar. E é em desassossego que se alcança o final do livro, que até na extensão soube ter acerto. Ao terceiro mês de 2017, foi a melhor leitura que o ano me trouxe.

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Escura era a noite

Escura era a noite

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Um copo de cólera

Conduzido a Raduan Nassar pelo muito recomendável Mário Rufino, só posso considerar que a viagem pecou por tardia. Com este Um copo de cólera, o autor brasileiro apresenta-se como uma daquelas vozes de que gosto, que olham para a palavra, para a frase, como mais intenção do que buscar significados. É sempre uma escolha a cuidar da musicalidade da prosa, de uma certa harmonia, mais do que escrita, oral. O ritmo é lento quando tem que ser lento e vertiginoso quando manda que assim seja. A narrativa é quase um pretexto contemplativo, trata de um casal que vai de uma elegantemente escrita e tórrida cena de sexo a uma discussão desenfreada. O motivo aparente é minúsculo, mas esconde um sem fim de inseguranças. Um livro de linguagem adequadamente crua.
Já adaptado a cinema, numa curta-metragem facilmente acessível no Youtube, Um copo de cólera pede o papel. A edição da Companhia das Letras percebeu bem a importância da palavra, deu-lhe corpo, protagonismo, e não resumiu o livro às cinquenta páginas em que cabia perfeitamente. Leitura que eleva expectativas para Lavoura arcaica, a ler muito em breve.

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Bom dia. Boa semana.

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Arranha-céus

Arranha-céus Pegar neste livro de J.G. Ballard foi, confesso, quase um acaso. Numa das minhas habituais incursões à biblioteca, em busca de uns livros que levava em mente, deu-se a coincidência de estes não estarem disponíveis. Tratada a reserva dos mesmos para uns dias depois, sobrava esse intervalo de tempo para ocupar – mesmo que durante uns dias não seja possível ler, é sempre um descanso saber que há um livro à disposição. Na primeira estante lá estava este Arranha-céus, que só não foi um acaso completo porque a chancela Elsinore despertava interesse há já algum tempo.
Não sendo o meu género literário de eleição, esta foi uma leitura interessante, um exercício que comparo, no propósito, aos ensaios de Saramago. Com uma escrita directa, sem excessos, Ballard alicerça-se na ideia distópica de fechar uma comunidade num arranha-céus em que estivessem encerrados todos os serviços essenciais. Tal como nos ensaios do Nobel português, à introdução da primeira anomalia (como um inexplicável surto de cegueira, ou a interrupção da morte), os acontecimentos precipitam-se da forma que todos conhecemos, sempre a piorar e a expor, gradualmente, o que o homem tem de mais animal.
Arranha-céus, que conheceu adaptação cinematográfica relativamente recente, não é o mais original e brilhante exercício deste tipo – na minha opinião, fica a perder para Saramago, por exemplo -, mas vale bem o tempo que se lhe dispensa.

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Little waves our bodies break

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A vida secreta das palavras

Eis-me debruçado no parapeito de um livro, a espreitar com estranheza inicial as palavras que nele vivem. São palavras nascidas no outro lado do Atlântico, mais abertas, mais próximas da oralidade: palavras mais à mão de semear pela boca. Entre elas, reencontro cumbuca, palavra que o meu pai traz ao convívio frequentes vezes. Eis-me, portanto, debruçado no parapeito de um livro voltado para o Brasil, janela para um sotaque diferente, a encontrar o meu pai numa palavra escrita por Raduan Nassar.

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Ai Portugal, Portugal…

Sem querer exagerar, a polémica em torno do vencedor da mais recente edição do Festival da Canção fez-me dedicar mais tempo ao concurso do que dediquei às últimas dez edições. Todas juntas. Isto porque ando à procura de uma explicação para tanta controvérsia. Qual é, então, o problema? A interpretação? O intérprete em si? A Lady Gaga e a Sia são excêntricas. O Prince era excêntrico. Oh, o Ney Matogrosso, que figura genial. Saudoso Variações. O Salvador, esse, é só estranho, pelos vistos. Nem parece que já fomos representados pelos Homens da Luta. Nem parece que uma Conchita de barba já venceu a Eurovisão. O problema, afinal, é a música não ser “festivaleira”? Realmente, não se percebe a ideia peregrina: as anteriores escolhas tinham tido tanto sucesso. Ai Portugal, Portugal…

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I just want to love you in my own language.

Alt-J, 3WW

Problema de expressão

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Crítica gráfica

Crítica gráfica

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Bom dia. Boa semana.

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Microcosmos [a separação]

Quando uma relação forte chega ao fim, temos que estar preparados para enfrentar a língua, que teima em agarrar-se ao nós.

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Noturno chileno

Noturno chileno Não, Bolaño, desta vez não. A culpa até pode ser minha, do momento que escolhi para te ler, mas desta vez não. Já te li coisas maravilhosas, como Os detectives selvagens, e coisas menos conseguidas, como Estrela distante, mas só desta vez me faltou por completo o entusiasmo.
O sôfrego exercício de memória feito pelo protagonista desta história – num parágrafo, ou pouco mais do que isso – é entediante na forma e errante no objectivo. Nunca se sabe bem a que nos conduzem as recordações do padre, crítico literário e poeta que, febril, julga estar prestes a morrer. Salvam-se umas poucas páginas em torno da figura de Pinochet e a curiosidade pelo que se passa na cave de uma mansão em que se reúnem importantes figuras da cultura chilena. Foi pouco livro até para se fazer uma apreciação. Noturno chileno foi uma leitura inócua, deixou poucas marcas. O que Bolaño nunca tinha sido, para mim.

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Bom dia. Boa semana.

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Saudade Aguda

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