📖 5

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Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal
comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas. Traje de passeio».
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos
todos assistir à despedida.
Apertos de mão quentes. Ternura de calafrio.
«Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes… (primeiro, os olhos…
em seguida, os lábios… depois, os cabelos…) a carne,
em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além (vêem?) – nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…

José Gomes Ferreira 
(via Cristina Padrão)

Devia morrer-se de outra maneira

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E trazer isto até ao Porto?

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Bom dia. Boa semana.

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É assim que a natureza funciona. Pensa nos amantes. Se os amantes estivessem todo o tempo agarradinhos um ao outro já não precisariam de se amar. Seriam um só. Já não haveria nada para desejarem. É por isso que a natureza tem intervalos.

J. M. Coetzee, A infância de Jesus

Dos intervalos

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📖 4

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Bom dia. Boa semana.

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Uma vontade quase secreta

A evidenciar o ritmo da leitura do Coetzee a que agora me lancei, trazido da biblioteca, está um marcador que aponta para o Diário Volúvel, do muito estimado Enrique Vila-Matas. Porque, ainda na biblioteca, não consegui resistir a um Bolaño mais recente que por lá repousava, reparei que também entre as suas páginas trouxe um marcador que nada tinha a ver com a obra do escritor chileno. Desta feita, evidenciava um meu desconhecido – e agora alvo de curiosidade – Alessandro Baricco. Estas duas situações lá acabaram por plantar na minha cabeça uma muito romântica ideia, responsável por algumas dúvidas: 1) haverá, entre a comunidade de leitores da biblioteca, alguém a querer traçar o rumo das leituras dos outros? 2) que tal aceitar estas indicações e verificar se têm seguimento? 3) na muito provável eventualidade de isto ter sido apenas uma coincidência, como fugir à vontade de vestir esta secreta personagem?

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Bom dia. Boa semana.

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Os mesmos problemas, problemas tão diferentes

Final do dia de trabalho. Tiro o calçado de segurança que usei e volto a calçar as sapatilhas, as mesmas que calcei de manhã, distraidamente, e que agora sinto quase como recompensa. Tenho vontade de pedir-lhes desculpa e de lhes dizer o quanto as estimo. No dia  seguinte, acordo e calço as sapatilhas com os mesmos gestos mecânicos e a mesma abstração.
Tenho consciência de que isto já me aconteceu com as pessoas que me fazem sentir bem.
Os problemas de calçado são tão simples.

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Falar da História
é abandonar momentaneamente o nosso compulsivo silêncio e dizer (sem esquecer as datas) o que então não puderam dizer aqueles a quem foi imposto igual silêncio.
Para denunciar tudo hoje, quando nenhuma diferença faz.

Reinaldo Arenas, O engenho

Da História

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Não há nada a dizer; resta-nos derrear o corpo e fuçar.
Não há nada a dizer da liberdade: aqui, ou nos calamos ou morremos com um tiro.
Não há nada a dizer da humanidade: aqui, ou aplaudimos ou morremos com um tiro.
Não há nada a dizer dos sagrados princípios da justiça: aqui, ou prostramos o nosso corpo de escravos ou morremos naturalmente com um tiro.
Assim se resumem os nossos direitos.
(É tudo muito, muito claro: nem frases grandiosas, nem complexas teses filosóficas, nem poemas herméticos. Ao terror basta a simplicidade deste verbo épico: dizer.)
E é preciso dizer.
É preciso dizer.
Aqui, onde nada se pode dizer, é exactamente onde mais há a dizer.
É preciso dizer.
É preciso dizer tudo.

Reinaldo Arenas, O engenho

Do verbo dizer

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Bom dia. Boa semana.

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🔵⚪️

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Para onde vamos quando desaparecemos?

A literatura infantil tem conseguido surpreender-me com regularidade e este é só mais um desses casos. Um livro que traz alguma alegria à ideia de fim, a forma possível de explicá-la às crianças. Enquanto pensamos no que consiste o desaparecimento de coisas simples e banais como as meias sem par ou o sol, vamos aceitando de forma menos penosa o desaparecimento de quem realmente  nos faz falta. Como se o cuidadoso texto de Isabel Minhós Martins e as coloridas ilustrações de Madalena Matoso não fossem consolo suficiente, a editora Planeta Tangerina ainda avança com umas interessantes propostas de exploração do tema para pais e professores. Para onde vamos quando desaparecemos? é, por todos estes motivos, uma pequena maravilha sobre a perda!

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Bom dia. Boa semana.

[Depois de reparar nos comentários ao vídeo, ocorreu-me deixar este aviso: meninas, não se esqueçam do som!]

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Para que alguma coisa desapareça são precisos sempre dois.
(Um que fica e um que desaparece.)

Isabel Minhós Martins, Para onde vamos quando desaparecemos?

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Bom dia. Boa semana.

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Morning blues

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Literadura

Ouvir, num documentário que passa na RTP3, um velho pescador dizer que as marés são o mar a respirar e outro a descrever a tundra ártica como um branco imaculado sob um céu que é um abismo. Vidas duras. Literaturas.

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