Bom dia. Boa semana.

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Ler devagar

Acontece de vez em quando. Umas vezes por causa do estado de espírito, por causa do livro em si ou da leitura anterior, que teima em não se deixar arquivar na memória. Ultimamente, tem acontecido por culpa exclusiva da agenda, dos afazeres. Ler devagar. Mesmo quando as primeiras páginas do livro gritam urgência, como é o caso de Yoro. Que promessa de livro!

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Isto não é pura comédia

Pure Comedy – Father John Misty

Que ninguém se iluda com o título do novo álbum de Father John Misty. Isto não é pura comédia, é uma espécie de livro de crónicas cantadas, muito actuais e irónicas, sobre a vivência e a sobrevivência.

The only thing that seems to make them feel alive is the struggle to survive

A varrer temas que vão da religião à política, à enganosa liberdade de seguir uma série de normas, à alienação tecnológica e até ao poder do entretenimento.

When the historians find us we’ll be in our homes
Plugged into our hubs
Skin and bones
A frozen smile on every face
As the stories replay
This must have been a wonderful place

Josh Tillman não se esconde e, nos treze minutos de Leaving LA, por exemplo, é várias vezes introspectivo, questiona-se e avalia-se.
Pure comedy é, isso sim, coisa séria. E pode ser ouvido, na íntegra, aqui.

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Défice de atenção

O futebol em Portugal são duas equipas a jogar para ganhar e mil olhos numa terceira equipa.

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Bom dia. Boa semana.

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A última noite e outras histórias

Todos os contos reunidos neste livro, com maiores ou menores méritos, evidenciam uma escrita muito competente. Não é por aí, portanto, que Salter deixa de convencer. Nestes contos, encontramos histórias mundanas e personagens bem exploradas, muito credíveis, muito reais – com maior evidência nas femininas, curiosamente. O conto que faz honras de título, A última noite, é dos mais inquietantes, pela temática, pelos contornos, mas perde algum fulgor por ser mais do que uma vez previsível. Pelo meio, há mais um ou outro que se destaca, mas o livro não resulta em mais do que agradável. O problema, neste caso, é mais uma questão de gosto pessoal. Conto pelos dedos das mãos os contos que me causaram espanto e, depois, há que levar em conta que, mesmo esses, tiveram sempre a companhia de um ou outro menos conseguido. A escrita de James Salter não merece sair beliscada desta experiência, mas voltemos aos romances.

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Bom dia. Boa semana.

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O que é proibido alimenta o desejo de tudo o resto.

James Salter, A última noite e outras histórias

Fruto proibido 

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Alta infidelidade 

Tenho que te confessar uma coisa. Esta semana conheci duas mulheres e temo-nos encontrado em segredo. Desculpa. Antes de me pedires nomes, deixa-me explicar. Aconteceu. Espera, deixa-me explicar. Conheci-as e fiquei com curiosidade, quis conhecer melhor. Desculpa. Desculpa. Tinha que te contar isto. Não ficava bem se não o fizesse. Temo-nos encontrado em segredo. Têm-me dito coisas bonitas e tu sabes como isso funciona. Desculpa. Temo-nos encontrado em segredo: telemóvel no bolso e auricular no ouvido. Chamam-se Aldous Harding e Molly Burch. Precisava de te contar isto. Desculpa não o ter feito mais cedo.

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Nem todas as baleias voam

Nem todas as baleias voam é Afonso Cruz. Está dito o essencial.
A história tem como ponto de partida uma iniciativa tida em tempos pela CIA, o programa Jazz Ambassadors, que pretendia melhorar a imagem dos Estados Unidos da América na Europa e assim influenciar o decorrer da guerra fria. É o ponto de partida e o ponto final. Tudo o resto nasce do génio do escritor português. Um pianista capaz de expressar tudo em notas musicais, que sofre pelo desaparecimento repentino da mulher, um filho que vê sentimentos e que procura chegar ao pai, e um escritor que tortura mulheres numa cave para lhes extrair literatura, são apenas alguns exemplos de personagens singulares e tocantes que este livro encerra.
Nem todas as baleias voam volta a apresentar uma escrita, que já conhecemos do maravilhoso Para onde vão os guarda-chuvas, cheia de bons paradoxos: sábia e infantil, inocente; acutilante e terna; crua e fantasiosa. Afonso Cruz tem um cuidado estético de ilustrador nas metáforas que elabora e nas personagens que cria, sempre tão bonitas, mesmo que cruéis. Tem cuidado de poeta na escolha das palavras, que procuram mais do que um significado. Tem cuidado de músico na construção de frases, feitas para decorar e repetir. Não se deve adiar Afonso Cruz!

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Microcosmos [a pontuação]

Atrapalhado por um desejo desmedido de se afirmar, comportava-se de uma maneira que só colhia pontos de interrogação.

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#instazulejo

Faz hoje quatro anos, a ideia do #instazulejo. Este é o número um. Entretanto, o conceito juntou adeptos e amigos que gostam de contribuir para a colecção. Vai, tranquilamente, com a paciência que a idade lhe deu, a caminho dos seiscentos registos. Já me parece um bocadinho de Portugal.

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O propósito da palavra

Resumir a palavra à semântica é tarefa de documentos, de contratos, de notícias. A literatura tem de ir mais além. Tem que carregar o seu significado, naturalmente, mas tem que ter mais qualquer coisa. Por mais qualquer coisa, podemos estar a falar de outros significados, do que pode estar para lá do óbvio, do literal, podemos estar a falar de estética, ou de sonoridade, por exemplo (e abro um parêntesis para sublinhar aqui a importância da tradução, também). Se os meios de comunicação devem reproduzir, a literatura tem que produzir. Tem que se fazer sentir, inquietar, ou aquietar. A informação deve esquivar-se de tudo o que é corpo para tocar apenas a razão, enquanto que o propósito da palavra literária é chegar à razão por abalroamento. Afonso Cruz sabe disso tudo. Sabe de muito mais. Daí que os seus livros transbordem literatura. Numa voz muito própria, uma mescla de sabedoria com inocência, o autor usa todos os artifícios sem espalhafato. Está lá tudo e parece sempre coisa pouca. Debruço-me sobre um parágrafo específico, entre intermináveis possibilidades, pelo que podia ter de exclusivamente informativo. Surge em Nem todas as baleias voam:

Acordaram Gould a meio da noite, quando se aperceberam do fogo, disseram-lhe que era na casa do seu melhor amigo. Erik correu para ajudar a apagar o incêncio, mas debalde, era tarde demais. Quando regressou a casa, sentou-se ao piano e tocou as notas do fogo a crepitar. Uma por uma.

Simples: acordaram Gould para lhe dizerem que a casa do seu melhor amigo ardia. Depois vem a literatura! Erik (Gould) correu para ajudar a apagar o incêndio e a palavra debalde, que nos indica que esse esforço foi inútil, chega carregada de segundas intenções, com a missão quase visual de levar à cabeça do leitor (à minha levou!) um personagem aflito a apagar o fogo de balde. Isto agiganta a sensação de angústia de Erik e dá ênfase à referida amizade. Uma única palavra. Debalde só ali aparece para isso. Com o propósito de informar, a frase podia muito bem ser […] Erik correu para ajudar a apagar o incêndio, mas era tarde demais. Para Afonso Cruz, para a literatura, ficava a faltar o essencial.
O que resta do parágrafo é a prosa a chegar-se à poesia, o sofrimento interior do personagem a arrastar-se na melodia vagarosa do crepitar do incêndio, estalido a estalido, nota a nota, muitas dores a comporem uma dor maior.
É esta a força da palavra. É este tipo de coisas que me faz andar de livro em livro. É este o propósito da palavra, na literatura.

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Um dia o amigo disse-lhe: Gostava de ser como tu, de ter as mesmas oportunidades. E Gould esforçou-se a vida toda por ser o melhor, para que o amigo pudesse ser como ele. Não adiantaria nada ser como ele se ele fosse medíocre, só valeria a pena se ele fosse o melhor.

Afonso Cruz, Nem todas as baleias voam

Da amizade

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Bom dia. Boa semana.

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Bartleby

Ler Bartleby foi perceber o quão estupidamente tarde cheguei a Herman Melville. Basta um livro breve como este para perceber a escrita transparente do autor, que revela uma capacidade singular de contar uma história, de descrever todos os acontecimentos com clareza. Lê-se como se se estivesse a ver e a sentir. E à história perfeitamente contada junta-se a incrível personagem que lhe dá o nome, Bartleby, personificação da inércia, da inacção. Podia alongar-me mais em considerações sobre este livro, mas podia resultar em qualquer coisa mais extensa do que a própria obra e, mesmo assim, não lhe fazer justiça: i would prefer not to.
Herman, Herman, ver-nos-emos em breve, te garanto.

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Crítica gráfica

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Heterónimos

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Talco de vidro

A leitura não foge ao exemplo dos dias e, por vezes, toma caminhos imprevisíveis. Desta vez, levou-me até uma novela gráfica de Marcello Quintanilha, Talco de vidro. O ilustrador brasileiro também se mostra hábil na construção da história, cheia de questões quotidianas, mundanas, fácil de acompanhar e com uma natureza narrativa adequada ao grafismo, intensa e veloz ao mesmo tempo.
Não sendo o meu género de eleição, Talco de vidro foi uma leitura agradável. Voltarei a Marcello Quintanilha, curioso com Tungstênio, entre um ou outro romance mais pesado.

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Lavoura arcaica

De volta a Raduan Nassar, confirmo o cuidado na escolha das palavras apontado aquando da leitura de Um copo de cólera. É novamente sobre a escrita que teimam em recair as atenções, mesmo que a história não mereça ser desvalorizada. Em Lavoura arcaica, que explora a parábola do filho pródigo, André decide abandonar a família, regida a uma voz, a do pai, com regras bem definidas, bem tradicionais e cristãs. Foge às regras e procura mergulhar em tudo o que lhes é contrário. Foge às regras e a um amor que não tem como sobreviver. Tal como na já referida parábola, o pai manda outro dos seus filhos procurar André e trazê-lo de volta a casa, onde se preparará uma festa em honra do seu regresso. E é precisamente a partir do regresso de André que o livro, que é muito bem escrito desde a primeira página, ganha outra intensidade e alcança o brilhantismo. Raduan Nassar consegue prender pela mestria da sua escrita, mas é na alteração do ritmo das narrativas que mais cativa – já assim tinha acontecido com Um copo de cólera. O que é contemplação linguística até ao capítulo final, passa a ser leitura desenfreada daí até  à última frase.
A adaptação cinematográfica de Lavoura arcaica pode ser facilmente encontrada, na íntegra, no YouTube, mas é no papel, na ordem das palavras, no que é apenas sugerido, que a história mais tem a ganhar.

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