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Nem todas as baleias voam

Nem todas as baleias voam é Afonso Cruz. Está dito o essencial.
A história tem como ponto de partida uma iniciativa tida em tempos pela CIA, o programa Jazz Ambassadors, que pretendia melhorar a imagem dos Estados Unidos da América na Europa e assim influenciar o decorrer da guerra fria. É o ponto de partida e o ponto final. Tudo o resto nasce do génio do escritor português. Um pianista capaz de expressar tudo em notas musicais, que sofre pelo desaparecimento repentino da mulher, um filho que vê sentimentos e que procura chegar ao pai, e um escritor que tortura mulheres numa cave para lhes extrair literatura, são apenas alguns exemplos de personagens singulares e tocantes que este livro encerra.
Nem todas as baleias voam volta a apresentar uma escrita, que já conhecemos do maravilhoso Para onde vão os guarda-chuvas, cheia de bons paradoxos: sábia e infantil, inocente; acutilante e terna; crua e fantasiosa. Afonso Cruz tem um cuidado estético de ilustrador nas metáforas que elabora e nas personagens que cria, sempre tão bonitas, mesmo que cruéis. Tem cuidado de poeta na escolha das palavras, que procuram mais do que um significado. Tem cuidado de músico na construção de frases, feitas para decorar e repetir. Não se deve adiar Afonso Cruz!

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O propósito da palavra

Resumir a palavra à semântica é tarefa de documentos, de contratos, de notícias. A literatura tem de ir mais além. Tem que carregar o seu significado, naturalmente, mas tem que ter mais qualquer coisa. Por mais qualquer coisa, podemos estar a falar de outros significados, do que pode estar para lá do óbvio, do literal, podemos estar a falar de estética, ou de sonoridade, por exemplo (e abro um parêntesis para sublinhar aqui a importância da tradução, também). Se os meios de comunicação devem reproduzir, a literatura tem que produzir. Tem que se fazer sentir, inquietar, ou aquietar. A informação deve esquivar-se de tudo o que é corpo para tocar apenas a razão, enquanto que o propósito da palavra literária é chegar à razão por abalroamento. Afonso Cruz sabe disso tudo. Sabe de muito mais. Daí que os seus livros transbordem literatura. Numa voz muito própria, uma mescla de sabedoria com inocência, o autor usa todos os artifícios sem espalhafato. Está lá tudo e parece sempre coisa pouca. Debruço-me sobre um parágrafo específico, entre intermináveis possibilidades, pelo que podia ter de exclusivamente informativo. Surge em Nem todas as baleias voam:

Acordaram Gould a meio da noite, quando se aperceberam do fogo, disseram-lhe que era na casa do seu melhor amigo. Erik correu para ajudar a apagar o incêncio, mas debalde, era tarde demais. Quando regressou a casa, sentou-se ao piano e tocou as notas do fogo a crepitar. Uma por uma.

Simples: acordaram Gould para lhe dizerem que a casa do seu melhor amigo ardia. Depois vem a literatura! Erik (Gould) correu para ajudar a apagar o incêndio e a palavra debalde, que nos indica que esse esforço foi inútil, chega carregada de segundas intenções, com a missão quase visual de levar à cabeça do leitor (à minha levou!) um personagem aflito a apagar o fogo de balde. Isto agiganta a sensação de angústia de Erik e dá ênfase à referida amizade. Uma única palavra. Debalde só ali aparece para isso. Com o propósito de informar, a frase podia muito bem ser […] Erik correu para ajudar a apagar o incêndio, mas era tarde demais. Para Afonso Cruz, para a literatura, ficava a faltar o essencial.
O que resta do parágrafo é a prosa a chegar-se à poesia, o sofrimento interior do personagem a arrastar-se na melodia vagarosa do crepitar do incêndio, estalido a estalido, nota a nota, muitas dores a comporem uma dor maior.
É esta a força da palavra. É este tipo de coisas que me faz andar de livro em livro. É este o propósito da palavra, na literatura.

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Um dia o amigo disse-lhe: Gostava de ser como tu, de ter as mesmas oportunidades. E Gould esforçou-se a vida toda por ser o melhor, para que o amigo pudesse ser como ele. Não adiantaria nada ser como ele se ele fosse medíocre, só valeria a pena se ele fosse o melhor.

Afonso Cruz, Nem todas as baleias voam

Da amizade

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A cruzada das crianças

A cruzada das criançasEm mais uma incursão pela literatura infantil de Afonso Cruz, chego a este A cruzada das crianças, livro em formato de guião de teatro. Com o título “roubado” a um episódio da história muito estudado e fabulado, esta breve peça parte do princípio de que só a inocência, a pureza e a pouca acomodação das crianças colocarão, num mundo demasiado formatado pela idade adulta, as perguntas certas para podermos salvar o mundo. Duas crianças, uma de sete e outra de nove anos, lideram um exército infantil, que conduzem seguindo as indicações das suas inquietações. As respostas adultas resultarão muitas vezes em apreensão e espanto por parte dos mais novos. Questiona-se a exagerada distância entre os lugares e a existência de demasiados espelhos, por exemplo. Questiona-se o valor atribuído ao dinheiro. Questiona-se a idade para certa para intervir, para ser voz activa na sociedade. Dizer mais é desvendar em demasia o que pode ser uma agradável experiência de leitura. As ilustrações, condizentes com o registo do livro, são de André Letria. Há ainda uma série de fotografias que merece atenção.
É um livro tão engraçado e interessante que estou tentado a desafiar alguns professores que conheço a adaptarem a peça nas suas festas escolares. Pode ser que, passada a palavra, consigamos resgatar aquele bocado infantil que nunca devíamos ter perdido e que tanta falta faz por estes dias.

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A contradição humana

A contradição humana Mais juvenil do que infantil, A contradição humana é um livro interessante para despertar o pensamento, com questões quotidianas, ligeiras e muito engraçadas. Graficamente muito apelativo, lê-se e vê-se em minutos, mas fica-se a apreciar durante mais algum tempo, num processo semelhante ao que se dá com o café, que, depois de tomado, se vai revelando numa escala de sabores e aromas diferentes até que, quando deixa de se fazer notar, já há muito esquecemos o gesto de o tomar.
Este é mais um dos livros que quererei dar a ler aos meus filhos. Para nos divertirmos e para, como já referi acima, abrirmos os horizontes do pensamento.

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Flores

FloresA leitura de Para onde vão os guarda-chuvas, concluída há já algum tempo, foi uma experiência eucalíptica: espalhou raízes e secou tudo à minha volta. Estive muito tempo sem vontade de ler o que quer que fosse, a pegar e a abandonar rapidamente leituras que deviam, em qualquer outra altura, prender a minha atenção. Tardei a recuperar e, avisado por essa experiência, quando peguei neste Flores, fi-lo com naturais precauções. Ainda assim, por muitos cuidados que possamos ter, é impossível ler Afonso Cruz de forma superficial.
(Entremos mais dentro na espessura.)
Poucas páginas depois de se ter iniciado o romance torna-se difícil não estar mergulhado naquele universo tão típico do autor, de seres curiosos na forma de ser – e de pensar – e de aforismos raras vezes mal conseguidos.
(Entremos mais dentro na espessura.)
Por muito que estejamos a ler histórias de alguém a quem é atribuído um nome próprio, a quem é dada uma personalidade cativante, as personagens principais de Flores são o amor e a memória. O que resta de um sem o outro. O que pode um pelo outro. Não é um livro resplandecente como Para onde vão os guarda-chuvas, mas é, uma vez mais, um livro bem plantado no crescente canteiro de gente que olha para Afonso Cruz como uma das vozes maiores da actual literatura portuguesa.

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Está na cara

Parei no quiosque para comprar o jornal. As notícias não eram boas, como quase nunca são, os atuns extinguem-se, a fome continua a matar, os índios desaparecem, os dentes caem, a malária, a tuberculose, o cancro, o desemprego, a gripe das aves, o nervosismo dos mercados. De resto, não é preciso ler o jornal, as notícias estão marcadas na cara das pessoas.

Afonso Cruz, Flores

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O papagaio que dizia poemas de Petar Stamboliski

“Disse o meu avô este ditado:/ Em Novembro/ toda a madeira pega./ E eu enterrei/ (ligeiramente, muito ligeiramente)/ os pés da mesa do jardim/ (de madeira velha, muito velha)/ à espera que,/ na Primavera,/ a mesa viesse a ter/ uma toalha de flores.”

Afonso Cruz, Enciclopédia da Estória Universal

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Para onde vão os guarda-chuvas

Para onde vão os guarda-chuvas Estimado Afonso Cruz,

Terminei ontem a leitura de Para onde vão os guarda-chuvas e, por esta altura, já seria normal estar entusiasmado com o próximo livro. Acontece que ainda estou com a cabeça nos fragmentos persas, nos gestos do mudo e nas caudas dos cães. Estou à procura das perguntas certas. Tenho a impressão que apanhei este livro como quem apanha uma doença e não quero tomar nada para melhorar.

Muito obrigado!

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A desordem natural das coisas

Tinha-me lançado há pouco em mais um livro de Delillo. Acontece que, ainda ia eu muito no início da leitura, me chega pelo correio o tão aguardado Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz. Foi-me impossível manter a ordem das coisas e terminar o livro que tinha em mãos. Delillo é um homem de setenta e seis anos e já terá pouco a aprender sobre paciência. Saberá esperar. Afonso Cruz é um jovem e está cheio de pressa. Traz livros carregados de maravilhas. Este tem uma capa linda, um título curioso, uma excelente encadernação, ilustrações fantásticas e umas centenas de páginas de uma das mais originais vozes portuguesas da actualidade. Ninguém pode aguardar assim carregado.

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Leituras de férias

Leituras de férias
Em tempo de férias, por norma, sobra tempo para ler. O que acaba quase sempre por faltar, por uma razão ou outra, é tempo para registar o devido comentário. Para me poupar a mim e a quem aqui vem dar, atiro-me de forma breve a estes três livros que até acabam por ter uma coisa em comum, pelo menos.
Teatro de Sabbath foi escolhido depois de algumas leituras de Philip Roth (Todo-o-mundo, A humilhação, O complexo de Portnoy, Pastoral Americana…) e de alguns comentários que o colocavam no patamar do melhor que este autor havia feito. Acontece que, apesar de estarem presentes neste livro muitas das qualidades que me fazem apreciar este autor, Pastoral Americana, enquanto termo de comparação, esteve sempre muito presente na minha leitura e isso acabou por prejudicá-la. Os retratos humanos de Roth são sempre muito crus e Teatro de Sabbath não foge à regra. O judaísmo e o sexo assumem um papel de destaque só comparável a O Complexo de Portnoy. Um bom livro, mas que não deve ser porta de entrada para o universo deste autor.
Jesus Cristo bebia cerveja tem todas as qualidades da escrita de Afonso Cruz. A narrativa passa-se em pleno interior alentejano (onde o autor se encontra) e espelha bem a realidade daquela interessante região. Há, tal como em O pintor debaixo do lava-loiças e Os livros que devoraram o meu pai, um quê de humor e fantasia infantil que adoçam o livro e fazem com que este se leia num ápice. É mais uma prova do talento deste autor português. Só não é a maior.
O amante bilingue é o obrigatório regresso a um autor que está, neste momento, no lote dos meus preferidos. O catalão Juan Marsé ainda não conseguiu escrever um livro que me desapontasse. O cenário (invariavelmente, Barcelona) é sempre brilhantemente descrito e acrescenta interesse às histórios, as personagens são deliciosas e as narrativas trazem sempre uma mão cheia de surpresas. Como se tudo isto não bastasse, a escrita de Marsé parece trabalhada à letra. Estes factores, todos juntos, resultam em experiências de leitura fáceis e de tremendo gozo. É mais argumento de peso na minha paixão por este autor. Só não é o maior.

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O pintor debaixo do lava-loiças

O pintor debaixo do lava-loiçasAo segundo livro lido, arrisco já uma promessa de fidelidade para com a obra de Afonso Cruz. Sem prazos, sem imposições, ao ritmo que os dias ditarem, hei-de ir palmilhando a bibliografia deste autor. A surpresa começou por dar-se com Os livros que devoraram o meu pai, um pequeno grande livro sobre o qual já aqui se escreveram umas linhas. Precisamente por essa primeira experiência, foi com alguma cautela e sem expectativas muito elevadas que decidi abordar O pintor debaixo do lava-loiças – cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal. O livro é semelhante em muita coisa: tamanho, simplicidade de linguagem, narrativa linear, metáforas e aforismos brilhantes. Difere na história e no propósito. O essencial, para não se repetir. Afonso Cruz volta a apresentar uma personagem fantástica (em abono da verdade, mais do que uma, já que o mordomo, por exemplo, ainda que secundário para a história, é brilhante), ingénua e ávida de sabedoria, traços que já se percebiam em Elias Bomfim, o jovem de Os livros que devoraram o meu pai. O livro acompanha a aventura do crescimento de Jozef Sors, as suas escolhas e as suas descobertas. É uma viagem empolgante e sempre interessante. No epílogo, Afonso Cruz desvenda que a personagem central do livro é baseada na vida de Ivan Sors, um pintor que os seus avós acolheram (esconderam?) em casa nos tempos da PIDE. A partir disto e de dois quadros que conheceu, o autor parte para a construção de um belíssimo livro, um livro que merece toda a atenção. Simples e imaginativo. Recomendo sem reservas e sem restrições. É livro para todos.

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Portugalidade

– Para que fique claro, a portugalidade define-se assim: o nosso sucesso é uma ponte entre dois fracassos. Para ver a quantidade de pessimismo que existe em cada português: uma ponte entre dois fracassos. Nós somos um povo fatal, caro senhor, fatal: para nós, o destino está escrito. Ah, se ao menos soubéssemos ler!

Afonso Cruz, O pintor debaixo do lava-loiças

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Os livros que devoraram o meu pai

Os livros que devoraram o meu paiNão adianta adiar, este Os livros que devoraram o meu pai foi uma surpresa muito agradável. Com uma escrita simples (afinal, o narrador e protagonista da história é um jovem), Afonso Cruz consegue entreter e, ao mesmo tempo, tocar em aspectos interessantes. É um livro carregado de outros livros, de histórias dentro de histórias e de personagens mais ou menos reconhecidas e que se cruzam no caminho do jovem Bonfim na procura pelo seu pai. Como, à literatura, o entretenimento não basta, o autor vai deixando considerações sobre a vida, a consciência e a condição humana.

O rés-do-chão não serve à literatura. Está muito bem para a construção civíl, é cómodo para quem não gosta de subir escadas, útil para quem não pode subir escadas, mas para a literatura há que haver andares empilhados uns em cima dos outros. Escadas e escadarias, letras abaixo, letras acima.

O leitor descobrirá rapidamente o maior problema deste livro. Tão rapidamente quanto se aproximar do seu final. Com este livro, com esta surpresa, Afonso Cruz consegue despertar o interesse para o que resta da sua obra.
Leitura divertida e aconselhadíssima.

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