Tag Archives: Charles Bukowski

Mulheres

Nesta obra de Charles Bukowski, o protagonista (e narrador) volta a ser Henry Chinaski. Em Correios, este relatava as suas dificuldades em encaixar na sociedade, a sua pouca predisposição para o trabalho e a sua queda para a bebida, o jogo e as mulheres. No final do livro, conhece-se o seu abandono da carreira de funcionário público e adivinha-se a sua iniciação enquanto escritor. Em Mulheres, acompanhamos o Henry Chinaski já poeta (poeta menor, como o próprio se intitulava), com direito a algum reconhecimento e com todo o tipo de facilidades, apesar da idade e do alcoolismo, com as mulheres.
Percebe-se rapidamente que Bukowski volta a servir-se de Henry Chinaski para um misto de romance e autobiografia, uma vez que não podemos dissociar os principais acontecimentos da vida de personagem e autor, desde as origens, à semelhança do nome (Henry Charles Bukowski), passando pelo alcoolismo, à década vivida como funcionário dos correios, à carreira literária iniciada tardiamente, até às mulheres que o acompanharam – Tanya e Sara, por exemplo, são personagens de Mulheres que se reconhecem de relacionamentos do autor.
Nas mais de trezentas páginas em que se registam episódios da vida do personagem, abundam – e sobram, diria mesmo – referências a sexo. A leitura pode tornar-se algo repetitiva (cerveja, sexo, cerveja, sexo, shots, sexo, whisky…) e as descrições detalhadas podem ferir o leitor mais susceptível. No entanto, é nas entrelinhas que se pode ler o essencial, um debruçar sobre as dificuldades dos relacionamentos, o amor e a solidão.

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A ficção, por Henry Chinaski, poeta menor

«Eu escrevo ficção.»
«O que é ficção?»
«Ficção é um aperfeiçoamento da vida.»

Charles Bukowski, Mulheres
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Correios

No seu primeiro romance, Bukowski dá o protagonismo a Henry Chinaski, personagem que se convence de que encontrou a vocação ao segundo dia de trabalho. À medida que se vai avançando na leitura de Correios, a história de um vai-se confundindo com a do outro, até que nos apercebemos de que Chinaski é uma espécie de alter ego de Bukowski, que assim vai fazendo o auto-retrato do tempo em que viveu como funcionários dos correios. Não são de estranhar, portanto, as constantes referências ao excesso de álcool, ao jogo e às mulheres. Seguimos, em pouco mais de duzentas páginas, as frustrações de um homem que, entre as décadas de cinquenta e setenta, tem dificuldade em seguir uma vida condizente com os padrões sociais de então. Apesar disso, Bukowski consegue oferecer-nos uma leitura leve e divertida, recorrendo muitas vezes ao humor. O livro termina onde um dia começou:

De manhã, era manhã e eu ainda estava vivo.
Talvez escreva um romance.
E foi o que fiz.

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A vocação segundo Bukowski

Começou por engano.
Estávamos na época de Natal e o bêbedo lá de cima, que costumava fazer sempre essa jogada no Natal, disse-me que eles se estavam nas tintas e que contratavam quem quer que fosse; então, lá fui eu e, quase sem dar por isso, já andava com um saco de cabedal às costas, de um lado para o outro, nas calmas. Que belo trabalho, pensei. Leve! Davam-nos apenas um ou dois quarteirões e, se conseguíssemos acabar, o carteiro dava-nos mais um, ou então regressávamos ao posto e o chefe dava-nos outro; mas a única coisa que se fazia era enfiar aqueles postais de Natal nas ranhuras, sem pressa.
Julgo que foi no meu segundo dia como trabalhador temporário de Natal que aquela mulher grande saiu e me acompanhou enquanto eu entregava as cartas. Quando digo que ela era grande, refiro-me ao facto de ter um grande cu e umas grandes mamas e de ser avantajada em todos os sítios certos. Não parecia bater muito bem, mas eu ia olhando para o corpo dela sem me preocupar com isso.
Ela falava, falava, falava. Até que chegou ao cerne da questão. O seu marido era um oficial, destacado numa ilha longínqua, e ela sentia-se só, estão a ver, e vivia naquela casinha ao fundo, completamente sozinha.
– Que casinha? – perguntei.
Ela escreveu a morada num bocado de papel.
– Também me sinto só. Apareço hoje à noite para conversarmos – disse eu.
Eu vivia com uma tipa, mas ela passava a maior parte do tempo fora, sabe-se lá onde, e eu realmente sentia-me só. Sentia-me só quando olhava para aquele grande cu, mesmo ali ao meu lado.
– Muito bem, encontramo-nos hoje à noite – disse ela.
Ela era mesmo das boas, uma boa queca; mas como acontece sempre com as boas quecas, comecei a perder o interesse a partir da terceira ou da quarta noite e já não voltei mais.
No entanto, não conseguia deixar de pensar que a única coisa que aqueles carteiros faziam era entregar cartas e dar quecas, caraças. Este é o trabalho certo para mim, sem dúvida.

Correios, Charles Bukowski
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Style is the answer to everything

Enquanto a leitura de um extenso clássico de Thomas Mann se arrasta e continua sem fim à vista, há sempre tempo para umas breves leituras paralelas. É o espaço que, enquanto interessado pela prosa, encontro para a poesia. Por estes dias, dei de caras com um poema de Charles Bukowski (relembrou-me que tenho Correios em lista de espera) dito por Ben Gazarra, numa cena de um filme também baseado numa história do autor. Mais que o filme (Tales of Ordinary Madness, de Marco Ferreri, do qual se diz que Bukowski não gostou), mais do que a interpretação de Gazarra, prendem as palavras de Style.

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