Tag Archives: Don DeLillo

A desordem natural das coisas

Tinha-me lançado há pouco em mais um livro de Delillo. Acontece que, ainda ia eu muito no início da leitura, me chega pelo correio o tão aguardado Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz. Foi-me impossível manter a ordem das coisas e terminar o livro que tinha em mãos. Delillo é um homem de setenta e seis anos e já terá pouco a aprender sobre paciência. Saberá esperar. Afonso Cruz é um jovem e está cheio de pressa. Traz livros carregados de maravilhas. Este tem uma capa linda, um título curioso, uma excelente encadernação, ilustrações fantásticas e umas centenas de páginas de uma das mais originais vozes portuguesas da actualidade. Ninguém pode aguardar assim carregado.

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Ponto Ómega

Don DeLillo foi um daqueles casos que me prendeu ao primeiro livro. Foi com o magistral Submundo que fiquei a conhecer a escrita deste prolífico autor norte-americano – Ponto Ómega é o seu 16º romance e o 11º a ser editado em Portugal. Essa primeira leitura foi suficiente para querer conhecer um pouco mais da obra de DeLillo. Ruído branco, O homem em queda e Os nomes foram os títulos que logo me saltaram à vista. Quis o destino que este recém-editado Ponto Ómega, por força da ideia presente na sua sinopse, tivesse prioridade sobre estes últimos.

No deserto do Arizona. Um jovem realizador obcecado com uma ideia para um filme: um único plano-sequência, uma única personagem. Frente à câmara e encostado à parede (“como num assalto ou num fuzilamento”), está Richard Elster, um intelectual que, ao serviço do Pentágono, traçou a cartografia conceptual da Guerra do Iraque (“eu queria uma guerra em haiku… uma guerra em três versos”). Quando a filha de Elster entra em cena, o fio da conversa filosófica dos dois homens é abruptamente cortado e a dinâmica da história conhece uma dramática inflexão.

O livro começa por nos transportar para uma sala do MoMA. Aí, um homem contempla 24 Hour Psycho, uma vídeo-instalação de Douglas Gordon, que consiste em nada mais do que a projecção do original Psycho de Hitchcock a uma velocidade de dois fotogramas por segundo, fazendo-o durar umas exactas vinte e quatro horas. Nesta fase, a capacidade descritiva de DeLillo é levada ao expoente máximo. Segue-se a visita do jovem realizador a Elster. Entre o convite para a participação num filme invulgar – um único plano-sequência, uma única personagem -, entre o aparecimento e o desaparecimento da filha de Elster, é da consciência, do tempo e da percepção que dele temos que se fala. O romance termina da forma como começa, na sala do MoMA em que se projecta 24 Hour Psycho.
Ponto Ómega está na rota oposta de Submundo. O primeiro é uma reflexivo, introspectivo; o segundo é activo e reactivo. O primeiro é voltado para dentro; o segundo quer abarcar toda uma época norte-americana.
Em Ponto Ómega a escrita de Don DeLillo não apresenta mácula, mas depois de Submundo é difícil dizer que entusiasmou. A sua leitura, ainda assim, é uma empreitada que vale bem a pena.

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Literatura do sono

Falo durante o sono, sempre falei, a minha mãe dizia-mo em pequeno e não preciso de que ninguém mo diga agora, eu sei-o, ouço-me, e isto é o mais significativo, alguém devia fazer um estudo do que as pessoas dizem enquanto dormem, e provavelmente alguém já o fez, um paralinguista qualquer, porque é mais relevante do que as milhentas cartas particulares que um homem escreve ao longo da sua vida e é também literatura.

Don DeLillo, Ponto Ómega
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Submundo

Começamos por seguir a entrada de um jovem num estádio onde se disputaria uma final de basebol. As primeiras páginas de Submundo bastam para evidenciar a excelência de DeLillo, numa incrível descrição de toda a atmosfera desse encontro, no Polo Grounds. Nessa noite, com a tacada que se ouviu em todo o mundo (vídeo), Bobby Thomson deu aos Giants a vitória sobre os Dodgers. A bola perdeu-se nas bancadas, mas na obra de Don DeLillo é o jovem Cotter Martin a levá-la para casa. A partir daí, o destino da bola vai-se confundindo com as vidas dos vários personagens que vão surgindo. Durante a leitura das mais de oitocentas páginas de Submundo, vamos percebendo que a bola é um pretexto para descrever toda uma época. O desenvolvimento, a ameaça nuclear e a cultura vão moldando personalidades e condicionando relações. É pela acção do homem que o mundo se vai alterando e é pela acção desse mundo que o homem se vai moldando.
Numa obra extensa como esta, são normais as oscilações entre momentos de leitura empolgante e outros de menor interesse. Em Submundo, no entanto, estes últimos nunca se alongam em demasia.
Depois desta leitura, a restante obra de DeLillo revestiu-se de um interesse acrescido. Já editados em Portugal, também pela Sextante, podemos encontrar Ruído Branco e O Homem em Queda. Qualquer deles obrigatório. Qualquer deles questão de tempo.

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Novela gráfica

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A culinária na literatura II

Erica estava na cozinha, a fazer mousse de frango com gelatina para o jantar. Três chávenas de caldo natural de galinha ou três cubos de caldo de galinha dissolvidos em três chávenas de água a ferver. Duas embalagens de gelatina de limão. Uma colher de chá de sal. Um oitavo de colher de chá de pimenta-de-caiena. Três colheres de sopa de vinagre. Uma chávena e mais um terço de sucedâneo de natas batidas. Dois terços de uma chávena de maionese. Duas chávenas de frango cozido, cortado em pedacinhos pequenos. Duas chávenas de aipo, cortado bem fino. Duas colheres de sopa de pimento picado.
Depois coze-se e verte-se e mexe-se e mistura-se bem. Verte-se a gelatina devidamente temperada, já fria, sobre a pasta de frango. Com uma colher, despeja-se numa forma de pão com 25×12 cm. Põe-se no frigorífico até ficar bem firme. Desenforma-se. Enfeita-se com alface estaladiça e azeitonas recheadas (caso assim se deseje). Serve-se como entrada para seis pessoas.

Submundo, Don DeLillo

[Recordo que já aqui tinha ficado uma receita encontrada em 2666, de Bolaño.]

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Nota de culpa

Se esta página não tem sido actualizada com a regularidade habitual é porque os intervalos entre os afazeres (que agora incluem uma nova categoria de bricolage) não chegam para passar pelas ruas do Harlem, pelo Texas, ou pelo Bronx. Não literalmente, mas literariamente. A culpa é de um admirável Submundo.

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Do fingimento

Eu notava como as pessoas fingiam que eram executivos, quando, na realidade, detinham mesmo cargos executivos. Será que eu próprio também o fazia? Mantemos uma distância flutuante entre nós próprios e o nosso emprego. Há um espaço constrangido, uma consciência da encenação cerimoniosa que é uma espécie de pânico suspenso, e talvez o revelemos num gesto forçado ou no pigarrear ritual. Qualquer coisa saída da infância sibila neste espaço, uma percepção dos jogos e das personalidades ainda incompletas, mas não é que estejamos a fingir ser alguém que não somos. Estamos a fingir que somos exactamente quem somos. Eis o que é mais curioso.

Don DeLillo, Submundo
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23 de Abril

No mesmo dia, dois tão esperados lançamentos: Escrever, escrever, viver e Submundo. O primeiro, um documentário sobre António Lobo Antunes e a sua escrita; o segundo, um premiado livro de Don DeLillo. 23 de Abril foi dia feito para gastar dinheiro.

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