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Essa puta tão distinta

Andar por Barcelona pela mão de Marsé é sempre uma grande experiência. Essa puta tão distinta não foge à regra e leva-nos, com uma escrita eficaz e despretensiosa, sem excessos, aos antigos prostíbulos e aos vetustos cinemas de bairro, ao mesmo tempo que procura desenrolar o novelo de um crime que se deu, alguns anos antes, numa cabine de projecção. Um pouco a exemplo de Rabos de Lagartixa, um dos romances maiores de Marsé,  é na forma, na estrutura, que este livro mais arrisca, com o crime e as possíveis raízes do mesmo a serem explorados por um escritor, a pretexto de uma encomenda para um guião cinematográfico. Em sucessivas entrevistas ao autor do crime, com a sua peculiar condição amnésica, o escritor começa a perceber os caprichos da memória e a facilidade com que esta desvaloriza ou sobrevaloriza factos passados. É essencialmente a essa memória, apesar de toda a história se desenrolar em torno do mundo da prostituição, que se refere o título deste livro, que vale muito a pena, ainda que não chegue à poesia de Caligrafia dos sonhos (livro de que herda um personagem) e ao brilhantismo de Rabos de Lagartixa.

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