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Ficheiros pouco secretos

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Uma teia especial

Uma teia especial

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Alentejo

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#instazulejo

Faz hoje quatro anos, a ideia do #instazulejo. Este é o número um. Entretanto, o conceito juntou adeptos e amigos que gostam de contribuir para a colecção. Vai, tranquilamente, com a paciência que a idade lhe deu, a caminho dos seiscentos registos. Já me parece um bocadinho de Portugal.

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Escura era a noite

Escura era a noite

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Little waves our bodies break

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Instameet

O @igersporto convida-nos para um dia diferente, a 25 de Fevereiro, em Santo Tirso. A ideia é explorar o Museu Internacional de Escultura Contemporânea (MIEC) e a sua coleção ao ar livre – “(…) um labirinto de formas, cores, volumes imponentes ou passagens discretas, figuras desconcertantes ou frestas luminosas fazendo com que as necessidades da nossa imaginação ultrapassem o alcance dos nossos braços.” 

Conhecendo aquela equipa e tendo participado em actividades por eles desenvolvidas/programadas, só posso aconselhar. A inscrição é gratuita e ainda contempla o almoço. Não é coisa que careça de ponderação, sequer!

Regulamento disponível em https://tinyurl.com/st-regulamento

Mais detalhes no perfil do @igersporto.

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Instórias #18

A dezoito de Dezembro, uma folha resistia na copa daquela aparentemente frágil árvore. E porque a resistência, quando realmente heróica, feita sem a dor dos outros, tem que ser vista, é bom exemplo, fazia-o no ramo mais alto. Por já vir a reparar nessa folha há alguns dias, tirou o telemóvel do bolso e fotografou-a. A dezanove de Dezembro, a copa da árvore estava já completamente despida. A folha caiu, mas o exemplo não é caduco.

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Manhã emersa

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Debaixo de algum céu

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Instórias #17


Deixa-me que te diga que a amizade é muito bonita, mas não chega. E, se não chega, a culpa é toda tua. Pensando bem, talvez não toda, mas grande parte garanto que é. A amizade é muito bonita e já houve alturas em que me bastava. Só que depois crescemos e os olhos passaram a deter-se em coisas em que antes mal reparavam, os ouvidos a entenderem as coisas que vêm escondidas nas palavras e nos silêncios e o nariz a começar a compreender o que é a saudade, a que cheiram as ausências. Sobre as mãos não te queria falar, porque as mãos ganharam vontades de que me envergonho. Mas é só contigo que isso acontece, portanto a culpa não pode ser minha, a culpa é tua. Talvez não toda, mas grande parte. Porque se as minhas mãos mudaram, eu mudei, mas mudei porque também tu mudaste. As minhas mãos mais vontades porque, ao crescer, o teu corpo mais apelos. E talvez o meu corpo reconheça a amizade que temos e apenas queira ser simpático, talvez só não queira dizer que não. Desculpa se te entendo mal, desculpa se o meu corpo não se entende com o teu, mas se isso acontece também a culpa é tua. Ou do teu corpo, que fala por meias palavras, que não termina os gestos. A amizade é muito bonita e já houve alturas em que me bastava. Só que depois crescemos e a amizade é coisa sem tamanho, não há amizade grande ou amizade pequena, é amizade e ponto, não cresce consoante nós crescemos. Portanto, deixa-me que te diga que a amizade já não chega.
Neste momento, mais do que deixares que te diga o quer que seja, falta-me ganhar coragem para o conseguir fazer. Por enquanto, o frio aperta e o teu corpo segue-lhe o exemplo, junta-se ao meu, e eu sem arriscar perguntar se essa aproximação significa só frio ou mais do que isso. Enquanto não ganho coragem para te dizer que a amizade já não chega, aceito que o teu corpo se aperte contra o meu e espero que o Inverno se demore.

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Instórias #16

O ballet vem desde onde vêm as minhas mais longínquas lembranças de passado. Comecei a dançar tão cedo que não me recordo de nada que lhe seja anterior. Soube mais tarde que comecei por iniciativa da minha mãe, o que tem lógica, porque nem iniciativa me lembro de ter naquela altura. Na cabeça da minha mãe devia viver aquela imagem que se repete pela cabeça de muitas outras mães: a menina franzina de tutu, o mais próximo que deve haver daquelas pequenas mas vistosas caixinhas de música, dá-se corda rrrrrc, rrrrrc, rrrrc com cuidado e é desse cuidado que ganha vontade e rodopia a pequena bailarina, muito segura, plim, plim, tilim tim, sobre um minúsculo palco pintado a flores. À primeira hesitação da bailarina, anuncia-se o fim da música e do movimento. É preciso dar novamente corda. Como a que me deu a minha mãe com a sua iniciativa. Só que eu, por muito que tenha hesitado, nunca mais parei.
jeté, plié, soutenu, voleé
Ainda não dominava o português e já sonhava em francês. O corpo a exprimir-se numa língua que a cabeça não compreendia.
arrondi, glissé, lié, tendu
E foi por esta facilidade de expressão que me era inata que a paixão cresceu e do passatempo quis fazer todo o tempo, porque era a dançar que eu mais dizia de mim e melhor me conhecia. Só que foi precisamente nesse momento que a minha mãe deixou de achar piada ao ballet. Que não é futuro, que não dá de comer, que não dá estabilidade.
– E filhos?
Como se a minha vida estivesse definida antes mesmo de eu a viver. Vou para o ballet porque ela acha piada, não vivo do ballet porque ela acha que não é vida, porque até já decidiu que devo ter filhos. Que eu tinha notas boas, que podia ser o que quisesse. Ou quase, porque bailarina parece que não podia. Só que a corda que a minha mãe me deu quando achou piada ao ballet não tem como me acabar e lá lhe consigo dizer, muito segura, como a pequena boneca da caixinha de música, que não queria outra coisa.
Passaram-se muitos anos e esgotaram-se as tentativas de explicar à minha mãe que queria ser bailarina, que ia mesmo ser bailarina, que o que começou pela imagem a que ela achava piada, à menina de cabelo apanhado e engraçadas sapatilhas que acabam sem aviso antes de chegar à ponta, é agora a minha vida. Até que um dia percebo que estou a usar as palavras erradas e arranjo bilhetes e quem a arraste para a primeira fila da sala de espectáculos em que ia dançar. Chorou e sorriu-me desde o primeiro quarto de hora. Entendeu-me. No final, tudo o que me disse foi um abraço. Porque o corpo diz melhor aquilo que à boca é difícil dizer.

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A minha preguiça não é de hoje

Preguiça Magazine

Perdi a conta às vezes em que a minha mãe, a determinada idade, me chamou preguiçoso. Não é de hoje, portanto, a minha preguiça. Só que se nessa altura o epíteto em causa era coisa para fazer ter vergonha, hoje é com orgulho que apareço no Instagram da Preguiça, magazine nascida em Leiria e que aposta na divulgação cultural de uma forma muito original e independente. Muito obrigado à Preguiça Maganize e um obrigado especial à Carla de Sousa pelo convite, pela edição e por toda a atenção!

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Instórias #15

Encosto o dedo à tua fotografia e repito o passeio domingueiro pela marginal do teu corpo. Devagar, assim obriga o trânsito de sentimentos que me provocas. Contorno a faixa costeira a respirar a maresia tranquilizante do teu cabelo sem ondulação. A areia molhada que é a pele dos teus ombros devolve-me o brilho que reconheço como sendo o do teu olhar. Curvo à esquerda, o dedo a derrapar para o teu pescoço, e entro no percurso acidentado que é a fina cordilheira das tuas vértebras. Ainda mais devagar, assim obriga a topografia, uma subida a custo, o dedo a vencer a oposição da gravidade, uma descida cuidadosa, o dedo a fazer o que pode para demorar. Continuar a descida significa entrar no vale abrigado das tuas omoplatas e, na ausência dos sulcos vertebrais, embalado pela paisagem que se vai revelando, ganhar velocidade até perder o fio à meada das palavras. Perder-me. Mas perder-me nunca foi uma preocupação. Essa foi sempre e toda perder-te.

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Instórias #14


O olhar de David para a máquina fotográfica não expressava bem desconfiança, mas antes uma espécie de surpresa. Uma surpresa de alguém que não está habituado a ser o centro das atenções. Nem sequer a dividi-las. Em casa, pouca sobrava, gastava-se praticamente toda nas palavras invariavelmente gritadas, nas sobrancelhas franzidas e no fogo que tomava conta do rosto dos pais. Quando calhavam de reparar em David, já só tinham energia para instruções básicas como anda para a mesa, vai tomar banho ou vai-te deitar. Naquela casa, nunca se abriu a porta ao carinho, três bocas já eram muitas para alimentar e, para gritar, duas bastavam. Na rua, a atenção era um bocadinho mais democrática, verdade seja dita, mas também era solicitada em maior escala. Mais do que dividida, tinha que ser esquartejada. Havia ainda a escola, mas David não carregou essa ilusão durante muito tempo. A escola estava reduzida a mecanismo para repetir informações e avaliar se essas informações eram apreendidas. A professora não chegava para trinta e seis crianças que, antes de aprenderem português e matemática, precisavam de aprender a saber estar. À professora, restava manter-se no seu canto, defender esse espaço mínimo com o ilusório chicote de uma cada vez menos reconhecida autoridade, não fazer grandes investidas e, dali, em aparente segurança, ditar o programa a que alguém resolveu chamar de educativo. E David, como em casa e como na rua, passava pela sala de aula como um número associado a um nome.
Habituado, portanto, a uma invisibilidade que os outros meninos fantasiam como super-poder, mas que David sabia ser mais motivo de fraqueza do que de força, apeteceu-lhe ir ter com a rapariga que apontava a lente fotográfica na sua direcção e perguntar, munido do tal olhar de surpresa que não convém confundir com desconfiança:
– ‘tou mesmo na foto?

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Instórias #13

Onde Raúl vivia, todos o conheciam. Aos homens inspirava respeito e às mulheres arrancava suspiros. Vestia sem mácula, invariavelmente fato e chapéu – que levantava sempre que cumprimentava alguém, e cumprimentava toda a gente, diga-se, e retirava sempre que entrava em algum sítio. Sereno e de excelente trato, usava para com todos um registo que a oralidade tem em perigo de extinção. Excelentíssimo senhor, faça o obséquio. Permita-me o atrevimento de lhe elogiar a elegância, senhora. Abundante em cuidados, abria a porta a quem calhasse, estendia a mão às senhoras que desciam um degrau que fosse e conduzia a cadeira a quem quer que com ele se sentasse. Uma coisa unia vizinhos e vizinhas: achavam-no um verdadeiro cavalheiro.
Aos sessenta e seis anos, consciente da impressão que passava, sentiu a necessidade de se confessar. Como nunca foi muito religioso, fê-lo através de um anúncio pago à palavra ao jornal local. Abdicou do poder de síntese que tinha e estendeu a confissão a 192 palavras. Um custo mais do que justo para o alívio que sentiu.

Auto-retrato
Conheci Ernestina num bar, nos idos anos oitenta, e tive todos os pensamentos que possam imaginar. Não havia muito de grave se não ma tivesse apresentado o meu bom amigo Henrique, com notório júbilo, como sua noiva. Pensei em como faríamos tudo sem nada. Pensei nisso nesse dia e, culpo-me tardiamente por não ter conseguido evitá-lo, nos muitos dias que se seguiram. Até que cometi a fatalidade de a abordar com esta irracionalidade. Levantou a mão e virou costas sem chegar a bater-me, negando-me um castigo que, descobri recentemente, seria em todo o caso menor do que o da culpa que carrego. Ignoro se algum dia contou ao Henrique. Se nos afastámos foi porque não fui capaz de o olhar nos olhos. Conto-o agora. Desculpa. Nesse dia perdi a cabeça. Literalmente. Tive essa certeza quando cheguei a casa despido do chapéu. Chorei. Peço que não se condoam, porque muitas das lágrimas foram pelo chapéu.
Não sou quem julgam. Não sou exemplo. Falho e peco. Esta foi só uma dessas ocasiões. Pretendo que guardem de mim a imagem certa, por muito errada que seja. Sem enganos.

Raúl, 20 de Abril de 2016

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Instórias #12

Enquanto tomava atenção às pressões que o manómetro indicava e ao comportamento de linhas e mangueiras, não deixou de reparar no labor repetido a toda a hora pelas gaivotas que faziam do terminal de descargas sua casa: levantavam voo com um mexilhão preso no bico e demonstravam, em breves segundos, a compreensão de conceitos físicos e matemáticos que o homem leva trimestres a estudar. A altura a que elevam o mexilhão tem que ser suficiente para que o bivalve abra ou parta aquando do embate no solo, mas esta é a mais básica das noções que as gaivotas evidenciam ter. Num dia ventoso como o que se fazia sentir, tendo uma estreita língua de betão a estender-se sobre o mar, aquelas aves resolviam equações de várias incógnitas e sabiam perfeitamente onde deviam largar o mexilhão para que este, considerada a altura, a força da gravidade, a massa e, pelo menos, a velocidade do vento, caísse na ponte e não na água. A operação repetiu-se vezes sem conta, durante aquela manhã, sem lembrança de casos de insucesso.
E no fundo, prova de que há muita escola fora da escola, naquele terminal tínhamos um homem que passou largos anos a estudar e que olhava para um manómetro, umas linhas e mangueiras, enquanto que as gaivotas, nascidas e criadas num ninho arquitectado a fio de nylon, restos de conchas e pedaços de plástico recolhidos na praia, aplicavam conhecimentos que nunca perderam tempo a estudar.

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Das manias

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Instórias #11

A espera não é uma ciência exacta. A exactidão das coisas é uma ilusão. Uma ilusão como a que vivemos, cheia de sonhos e objectivos que inicialmente pareciam os mesmos e que afinal não eram. Uma ilusão como o amor que julgávamos sentir e que, aparentemente, foi um entusiasmo de descobrimentos, de terra nova por explorar, por conhecer. Traçado o mapa das nossas personalidades e particularidades, veio a acomodação. Apesar de tudo, com isso podia eu bem. Com o que eu não me sentia capaz de aguentar era com aquele filme clássico a várias cenas: o chegares tarde e a más horas e o cheiro do álcool e de perfumes demasiado adocicados para um homem. Eu até a indiferença estava capaz de aguentar. A sombra de outras é que me afogueava e me roubava o sono. E entretanto veio a gota de água. Sentir a tua mão em mim de outra forma que não para me acarinhares, de outra forma que não para me cobrires de desejo. Aconteceu a primeira vez e eu nem soube reagir. Assim que pude pensar – e demorei a conseguir fazê-lo -, tratei de o justificar como sendo um excesso que não se repetiria. Só que repetiu, uma e outra vez. Não há ilusão que resista ao peso da mão. E ao medo. Não podia fingir-me eternamente adormecida quando chegavas a casa. E foi então que saí.
Só que a espera não é uma ciência exacta e resiste a coisas que a razão não consegue explicar. Demora o tempo que precisares, desculpa-te pelo que fizeste e promete que vai ser diferente. Até ver que é mentira poderei sempre ser feliz.

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Instórias #10

Rodrigo trabalha como jornalista, entalado num fato à medida. Tão à medida que lhe é impossível perder a postura, a seriedade e o rigor. Só que Rodrigo cresceu menino irrequieto e essa prisão de tecido só está fechada no horário de expediente. Chega à redacção sem a formalidade do fato, desmonta da bicicleta e prende-a ao poste que fica quase em frente aos escritórios. Às costas, uma mochila. Veste o fato, cumpre o horário e volta a sair em cima da bicicleta, feito Joaquim Agostinho. Aventureiro e livre. Pelo caminho, não resiste a qualquer coisa de esteticamente aprazível e volta a descer da bicicleta. Enquadra-a de forma habilidosa e usa a câmara do telemóvel para fazer de Henri Cartier-Bresson. Original e criativo. Demora o que pode pelas ruas, enquanto há luz para fotografar e condições para pedalar. Chegado a casa, despe novamente essas duas peles, toma um banho e janta abreviadamente em frente às notícias. Arrumada a cozinha, faz-se Jorge Luis Borges e mergulha na biblioteca. Curioso, disciplinado. Gosta dos clássicos russos e de Flaubert, mas é em Pessoa que, em tudo o que faz, mais se revê e melhor se define: heterónimo.

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