Tag Archives: Juan Marsé

Essa puta tão distinta

Andar por Barcelona pela mão de Marsé é sempre uma grande experiência. Essa puta tão distinta não foge à regra e leva-nos, com uma escrita eficaz e despretensiosa, sem excessos, aos antigos prostíbulos e aos vetustos cinemas de bairro, ao mesmo tempo que procura desenrolar o novelo de um crime que se deu, alguns anos antes, numa cabine de projecção. Um pouco a exemplo de Rabos de Lagartixa, um dos romances maiores de Marsé,  é na forma, na estrutura, que este livro mais arrisca, com o crime e as possíveis raízes do mesmo a serem explorados por um escritor, a pretexto de uma encomenda para um guião cinematográfico. Em sucessivas entrevistas ao autor do crime, com a sua peculiar condição amnésica, o escritor começa a perceber os caprichos da memória e a facilidade com que esta desvaloriza ou sobrevaloriza factos passados. É essencialmente a essa memória, apesar de toda a história se desenrolar em torno do mundo da prostituição, que se refere o título deste livro, que vale muito a pena, ainda que não chegue à poesia de Caligrafia dos sonhos (livro de que herda um personagem) e ao brilhantismo de Rabos de Lagartixa.

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Leituras de férias

Leituras de férias
Em tempo de férias, por norma, sobra tempo para ler. O que acaba quase sempre por faltar, por uma razão ou outra, é tempo para registar o devido comentário. Para me poupar a mim e a quem aqui vem dar, atiro-me de forma breve a estes três livros que até acabam por ter uma coisa em comum, pelo menos.
Teatro de Sabbath foi escolhido depois de algumas leituras de Philip Roth (Todo-o-mundo, A humilhação, O complexo de Portnoy, Pastoral Americana…) e de alguns comentários que o colocavam no patamar do melhor que este autor havia feito. Acontece que, apesar de estarem presentes neste livro muitas das qualidades que me fazem apreciar este autor, Pastoral Americana, enquanto termo de comparação, esteve sempre muito presente na minha leitura e isso acabou por prejudicá-la. Os retratos humanos de Roth são sempre muito crus e Teatro de Sabbath não foge à regra. O judaísmo e o sexo assumem um papel de destaque só comparável a O Complexo de Portnoy. Um bom livro, mas que não deve ser porta de entrada para o universo deste autor.
Jesus Cristo bebia cerveja tem todas as qualidades da escrita de Afonso Cruz. A narrativa passa-se em pleno interior alentejano (onde o autor se encontra) e espelha bem a realidade daquela interessante região. Há, tal como em O pintor debaixo do lava-loiças e Os livros que devoraram o meu pai, um quê de humor e fantasia infantil que adoçam o livro e fazem com que este se leia num ápice. É mais uma prova do talento deste autor português. Só não é a maior.
O amante bilingue é o obrigatório regresso a um autor que está, neste momento, no lote dos meus preferidos. O catalão Juan Marsé ainda não conseguiu escrever um livro que me desapontasse. O cenário (invariavelmente, Barcelona) é sempre brilhantemente descrito e acrescenta interesse às histórios, as personagens são deliciosas e as narrativas trazem sempre uma mão cheia de surpresas. Como se tudo isto não bastasse, a escrita de Marsé parece trabalhada à letra. Estes factores, todos juntos, resultam em experiências de leitura fáceis e de tremendo gozo. É mais argumento de peso na minha paixão por este autor. Só não é o maior.

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Daquelas coisas

O Amante Bilingue
Juan Marsé
D. QUIXOTE
Juan Marés vê-se enganado e abandonado pela sua mulher, pertencente à alta burguesia catalã, e pela qual está loucamente apaixonado. Mergulhado no desespero e na indigência, converte-se num solitário e num marginal, um desprezível músico de rua que ganha a vida a tocar acordeão, deambulando pelos bairros antigos de Barcelona, e que concebe um estratagema delirante: fazer-se passar por outro homem, um charnego típico e impostor chamado Faneca, e reconquistar a sua ex-mulher com essa personalidade usurpada. Tudo começa com uma brincadeira, um jogo de máscaras, um piscar de olho em frente ao espelho. Mas a falácia adquire uma dinâmica imprevista e, a partir de certo momento, a personagem fictícia começa a ganhar terreno à real, a máscara devora Marés e apodera-se da sua vontade, da sua memória e da sua língua.
Nas livrarias a 8 de Julho

O catalão Juan Marsé é, desde Rabos de Lagartixa, um dos meus autores de eleição – fascinam-me todos os aspectos e detalhes do seu universo criativo. Sabia, há já algum tempo, que iria sair um novo livro do escritor neste ano. O que não sabia era que, num acaso cheio de significado, iria sair no dia do meu aniversário. Como posso deixar de o ir buscar com urgência?

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O feitiço de Xangai

Três livros de Marsé chegam para identificar os traços principais do autor: personagens brilhantes, ternas, capazes de captar uma espécie de protecção por parte do leitor, uma sempre presente e ténue relação entre a realidade e a fantasia, a imaginação e a memória, o vivido e o sonhado, e a omnipresente Barcelona. Depois de ter sido arrebatado, com surpresa, por Rabos de lagartixa e de ter verificado que esse arrebatamento não tinha sido obra do acaso com Caligrafia dos sonhos, foi a vez de confirmar, com este O feitiço de Xangai, que em Barcelona mora mais um autor ímpar. Este livro divide-se em nove capítulos e é relatado por duas vozes: a de Daniel – mais um enternecedor menino, tal como David e Ringo, personagens centrais dos outros romances já aqui referidos-, que relata a parte mais vivida da história (mesmo aqui não está posta de lado a parte imaginada), e a de Forcat, que vai tecendo uma história mais fantasiada (ainda que baseada na realidade, não totalmente inventada).  É alternando uma e outra voz – quase como duas narrativas distintas – que se vai compondo o presente, o passado e o futuro de todas as personagens deste livro.

… porque então eu ainda não sabia que apesar de se crescer e por mais que se olhe para o futuro, uma pessoa cresce sempre para o passado…

O feitiço de Xangai é também, como as outras obras já lidas de Marsé, uma homenagem ao sítio a que pertencemos, neste caso, Barcelona. Acompanhando uma época pós-guerra e, portanto, uma conjuntura política ainda longe da estabilidade e da liberdade, a cidade catalã está muito presente nas personagens que nela vivem e igualmente presente nas personagens que dela tiveram que sair. Não haverá melhor forma de espelhar esta sensação do que com o poema La ciudad, de Cavafis, encontrado nestas páginas:

 Dizes: «Irei a outras terras, a outros mares.
Procurarei uma cidade melhor que esta
em que os meus anseios nunca se cumpriram,
frio sepulcro do meu sentimento.
Até quando errará a minha alma neste labirinto?
Olhe para onde olhar, só vejo
as negras ruínas da minha vida,
tempo já consumido que aqui desperdicei.»
Não existem para ti outras terras, outros mares.
Esta cidade irá para onde tu fores.
Percorrerás as mesmas ruas sempre. Envelhecerás
nos mesmos arrabaldes. Nascer-te-ão cabelos brancos
numa casa igual.
Nunca abandonarás esta cidade. Para ti já não há outra,
nem barcos, nem caminhos que dela te libertem.
Porque não só perdeste aqui a tua vida:
em todo o mundo a dissipaste.

Na sua infância, o escritor catalão trabalhou como joalheiro e é precisamente com um trabalho de joalheria que os seus livros podem ser comparados. Sente-se, por melhor ou pior que seja o resultado final (pessoalmente, fui arrebatado pelos três que li), que há um cuidado extremo em cada palavra, em cada detalhe, o que os torna tão preciosos. Juan Marsé precisa e, mais que isso, merece chegar a mais leitores.

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Do esquecimento

Talvez seja melhor assim; afinal de contas, o esquecimento é uma estratégia do viver.

Juan Marsé, O feitiço de Xangai

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Barcelona de trazer por casa

O universo de Juan Marsé é Barcelona. Cada livro seu é um passeio pelas ruas, gentes, tempos e histórias da cidade. Eis-me acabado de entrar no seu terceiro romance (ordem de leitura): não conheço Barcelona, mas sinto-me sempre como se chegasse a casa.

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Caligrafia dos sonhos

A história de Marsé confunde-se em alguns aspectos com a de Ringo, o jovem protagonista de Caligrafia dos sonhos. O trabalho em ourivesaria é um desses aspectos e revela-se em pleno na escrita do autor catalão. Há ali um trabalho de detalhe, de rigor, de minúcia e de estética. O resultado são livros preciosos. Neste livro, Barcelona volta a ser o cenário natural de uma narrativa terna e recheada de personagens também elas ternas. Ringo, a exemplo de David em Rabos de lagartixa, é um rapaz de grande imaginação. Estudante de música, vê o destino dar uma volta quando perde um dedo e se vê impossibilitado de tocar piano. Agarra-se aos livros e à vida dos outros (tudo o que vai ouvindo no bar) e depois acaba por se dedicar à escrita. Tal como Marsé, mais uma vez.
Caligrafia dos sonhos tem também a particularidade de ter uma inesperada reviravolta final. Inesperada, mas que justifica (e até se passa a sentir como essencial, depois de ocorrida) tudo o que anteriormente havia sido escrito. Uma reviravolta que vale mais pelo que faz das personagens e das suas relações, coisa que, nos romances de Juan Marsé, vale infinitamente mais do que a história.
Ao segundo livro lido, é a entrada do escritor espanhol para a galeria do meus favoritos. Tanto que, assim que surgiu oportunidade, troquei dois outros livros por O feitiço de Xangai, o único, dos editados em Portugal, que ainda tenho por ler.
Caligrafia dos sonhos não será um livro para agradar a massas, mas eu confesso-me rendido.

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A vida dos outros

A vida dos outros, se os outros não estão nos filmes ou nos romances, merece-lhe apenas uma olhadela por cima do ombro e uma consideração aborrecida.

Juan Marsé, Caligrafia dos sonhos
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Um abraço de Juan Marsé

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[Trouxe-mo o Mário Rufino, a quem agradeço muito.]

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Rabos de lagartixa

Conhecedor da exigência literária de António Lobo Antunes, não pude hesitar em pegar num livro que tem a sua aprovação gravada na capa – diz o autor português que Juan Marsé é «sem dúvida o maior romancista vivo de Espanha». Como se isto não bastasse, basta abrir o livro para voltar a esbarrar numa elogiosa comparação de Michael Eaude, do The Independent, que reconhece na escrita do espanhol semelhanças com a de Faulkner. Assim, foi com elevada expectativa que iniciei a leitura deste Rabos de lagartixa.
Nas mais de trezentas páginas deste romance, seguimos a vida de personagens muito bem construídas, densas e intensas. A narrativa é feita de avanços e recuos, de realidade e imaginação, mas nunca deixa de prender. Faz, de facto, lembrar qualquer coisa de Faulkner e também faz lembrar qualquer coisa de Lobo Antunes. O imaginativo David, a sua mãe grávida e o seu pai desaparecido compõem o núcleo desta história, na qual também têm papel importante um inspector da polícia e um amigo de David. Há ainda a curiosa personagem de um piloto da RAF que se encontra numa fotografia na parede do quarto do jovem protagonista de Rabos de lagartixa.
A linguagem de Marsé é riquíssima, a escrita envolvente e a história muito bem conseguida. Chegados ao final do livro, a expectativa criada pelos elogios estampados na sua capa confirma-se plenamente.

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A riqueza de uma descrição da pobreza

Grãos, lentilhas, batatas, papas de farinha.Consigo enumerar estas coisas e cheirá-las na memória com a mesma gratidão e respeito com que a mamã o faria, acariciá-las com as mãos e a voz da mamã. O bacalhau de molho. O velho moinho de café. A banha de porco a derreter-se na sertã, e tantas outras coisas com a sua estranha vocação de camuflagem, a sua teimosa propensão para estarem onde não devem: os torrões de açúcar na molheira desbeiçada, as lentilhas numa caixa de bolachas, as batatas num alguidar de zinco, os alhos num boião de cacau. A pobreza, lembra-te, irmão, a nossa fiel companheira destes anos, que a ruiva assumiu com tanta coragem e contra a qual nunca disparatou, a pobreza, que tem mil caras e se manifesta de mil maneiras também significa isso, lembra-te: que, apesar da limpeza e da ordem que ela impõe à sua volta com a maior presteza e energia, as coisas nunca parecem estar no seu lugar, andam sempre por aí a ocupar com uma porfia insidiosa o lugar que um dia coube a outras. E, no entanto, no meio do seu aparente extravio, assim dispostos no seu mundo de precárias aparências, nenhum desses objectos foi despojado da sua identidade, pelo contrário, todos parecem mais próximos e necessários e o seu trato mais cordial, como a imagem chamuscada e imprecisa do piloto, que um dia esteve onde era preciso juntamente com as recordações talvez mais íntimas e melhor guardadas da mamã, e que hoje, muito depois de ter passeado o seu sorriso impertinente pelas capas de uma revista alemã editada em espanhol, se assoma amigavelmente ao quarto de dormir de um adolescente sonhador numa remota paragem do Guinardó.

Juan Marsé, Rabos de lagartixa
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