Tag Archives: Junot Díaz

É assim que a perdes

O meu primeiro contacto com Junot Díaz deu-se com A breve e assombrosa vida de Oscar Wao e, na altura, foi uma agradável surpresa. Voltar à sua escrita era uma questão de tempo. Neste É assim que a perdes, o autor dominicano não desilude, apresentando um conjunto de narrativas que não consigo catalogar como contos, porque, mais do que ligadas entre si, me parecem resultar num todo que é maior do que a soma das partes. Os personagens são alguns, mas o essencial volta a ser a exploração da identidade dominicana, das suas ligações à terra natal, dos estereótipos, da inserção numa cultura nova, num país diferente em tudo, como bastam as temperaturas para o provar. É sobre isto e sobre as muitas formas de amor. Tudo narrado de forma simples, muito directa e honesta, sem “embelezamentos” demasiado artificiais. Já não surpreende, porque conhecer Oscar Wao elevou expectativas, mas volta cativar. Vale a pena a leitura e vale a pena continuar atento a Junot Díaz.

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A grande guerra mundial

Separo pilhas de roupa com as mãos enluvadas. A roupa suja é trazida por enfermeiras, quase todas negras. Nunca vejo os doentes; só os conheço pelas manchas e marcas que deixam nos lençóis, o alfabeto de doentes e moribundos. Muitas vezes as nódoas são demasiado profundas, e esses lençóis vão para um cesto à parte. Uma das raparigas de Baitoa diz que ouviu dizer que tudo o que está nesse cesto vai para a incineradora. Por causa da sida, sussurra. Às vezes as manchas são velhas e cor de ferrugem, outras vezes o sangue tem um cheiro cortante como a chuva. Quem visse todo o sangue que a gente vê, pensaria que há uma guerra no mundo lá fora. Há uma guerra, mas é apenas dentro dos corpos, diz uma das raparigas.

Junot Díaz, É assim que a perdes

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A breve e assombrosa vida de Oscar Wao

A breve e assombrosa vida de Oscar WaoJunot Díaz é mais um dos nomes que um dia integraram a lista 20 under 40 da revista The New Yorker. Esta lista já contou com nomes como David Foster Wallace e, na mais recente edição, Safran Foer, Joshua Ferris e Philipp Meyer, por exemplo. Entre os que conheço (tenho grande curiosidade em Ferrugem Americana, de Meyer, mas ainda não lhe consegui chegar), posso dizer que Díaz foi o que mais me agradou. Sem destino, de Ferris, foi uma perfeita desilusão; A piada infinita, de Wallace, foi uma verdadeira tormenta; Extremamente alto e incrivelmente perto foi o mais cativante; este A breve e assombrosa vida de Oscar Wao foi o mais interessante. Interessante porque o autor, dominicano, ao mesmo tempo que conta as aventuras de um invulgar (nem que fosse pelo tamanho) jovem com paixão pelas letras, vai desfiando o rolo da história do seu país e de uma das suas épocas mais marcantes, a ditadura de Trujillo. É ficção, portanto, e é documentário sempre que pode. Para além da caracterização política de uma época, Junot Díaz faz também um belíssimo retrato de um povo, pela forma como este lida com os seus problemas e dificuldades e pela cultura. É aqui que aparece o sempre presente fukú, uma maldição dominicana que é usada para explicar os maiores azares. O único senão deste livro será o título apontar para um grande centralismo em Oscar e este, sem deixar de ser a personagem principal e fio de prumo da narrativa, passar um quarto de romance sem qualquer referência. Detalhes.
Ler A breve e assombrosa vida de Oscar Wao é, assim, uma viagem à República Dominicana que não aparece nos panfletos turísticos, mas que não é menos interessante. O leitor não vai precisar de toalha porque não vai a banhos, mas também não precisará de lenços porque Junot Díaz relata uma história violenta com o humor possível e necessário. O livro traz o Pulitzer a reboque e não lhe fica nada mal. Autor a acompanhar.

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Da necessidade de testemunhas

O sucesso, apesar de tudo, adora ter testemunhas, mas o fracasso não consegue existir sem que haja uma.

Junot Díaz, A breve e assombrosa vida de Oscar Wao

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