Tag Archives: Literatura

O propósito da palavra

Resumir a palavra à semântica é tarefa de documentos, de contratos, de notícias. A literatura tem de ir mais além. Tem que carregar o seu significado, naturalmente, mas tem que ter mais qualquer coisa. Por mais qualquer coisa, podemos estar a falar de outros significados, do que pode estar para lá do óbvio, do literal, podemos estar a falar de estética, ou de sonoridade, por exemplo (e abro um parêntesis para sublinhar aqui a importância da tradução, também). Se os meios de comunicação devem reproduzir, a literatura tem que produzir. Tem que se fazer sentir, inquietar, ou aquietar. A informação deve esquivar-se de tudo o que é corpo para tocar apenas a razão, enquanto que o propósito da palavra literária é chegar à razão por abalroamento. Afonso Cruz sabe disso tudo. Sabe de muito mais. Daí que os seus livros transbordem literatura. Numa voz muito própria, uma mescla de sabedoria com inocência, o autor usa todos os artifícios sem espalhafato. Está lá tudo e parece sempre coisa pouca. Debruço-me sobre um parágrafo específico, entre intermináveis possibilidades, pelo que podia ter de exclusivamente informativo. Surge em Nem todas as baleias voam:

Acordaram Gould a meio da noite, quando se aperceberam do fogo, disseram-lhe que era na casa do seu melhor amigo. Erik correu para ajudar a apagar o incêncio, mas debalde, era tarde demais. Quando regressou a casa, sentou-se ao piano e tocou as notas do fogo a crepitar. Uma por uma.

Simples: acordaram Gould para lhe dizerem que a casa do seu melhor amigo ardia. Depois vem a literatura! Erik (Gould) correu para ajudar a apagar o incêndio e a palavra debalde, que nos indica que esse esforço foi inútil, chega carregada de segundas intenções, com a missão quase visual de levar à cabeça do leitor (à minha levou!) um personagem aflito a apagar o fogo de balde. Isto agiganta a sensação de angústia de Erik e dá ênfase à referida amizade. Uma única palavra. Debalde só ali aparece para isso. Com o propósito de informar, a frase podia muito bem ser […] Erik correu para ajudar a apagar o incêndio, mas era tarde demais. Para Afonso Cruz, para a literatura, ficava a faltar o essencial.
O que resta do parágrafo é a prosa a chegar-se à poesia, o sofrimento interior do personagem a arrastar-se na melodia vagarosa do crepitar do incêndio, estalido a estalido, nota a nota, muitas dores a comporem uma dor maior.
É esta a força da palavra. É este tipo de coisas que me faz andar de livro em livro. É este o propósito da palavra, na literatura.

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A impossibilidade de me situar

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[Novamente via Delicatessen]

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O sexo na literatura

Há umas semanas, este era um dos temas do Ípsilon. Em linhas gerais, considerava-se que se anda a escrever mais sobre sexo, mas nem sempre da melhor forma. O artigo de Luís Francisco apontava ainda uma superioridade dos brasileiros em relação aos portugueses e dos poetas sobre os romancistas. De bons exemplos nacionais, referiam-se Agustina Bessa-Luís, José Cardoso Pires, Eugénio de Andrade e Eça de Queirós, por exemplo. O tema é difícil, todos concordam. Rui Zink considerava ainda que os portugueses têm mais jeito para expressar a frustração do que o desejo. Num artigo sobre o sexo escrito, não podia faltar uma referência à surreal passagem de O Codex 632.
Não escondo que considero que o sexo na literatura é, na maior parte das vezes, escusado. A sugestão funciona sempre melhor que a descrição. Não me lembro de encontrar em alguma das obras que já li de António Lobo Antunes, um dos meus autores preferidos, uma cena de sexo. É o próprio quem o diz e explica: não é por uma questão de pudor. É que não é necessário.
Chegado ao fim de um livro, nunca me aconteceu reter uma passagem que seja de sexo. Chegado ao fim de um livro, nunca considerei que essas cenas o tornavam melhor ou pior.
Bolaño, autor que tenho lido ultimamente, não foge ao tema. Em 2666, as descrições sexuais estavam bem presentes. Delas, ficou-me a consciência de terem feito parte de um livro maior, nada mais. No recentemente editado O Terceiro Reich, que agora leio, tropecei nestas linhas:

Senti vontade de desligar e fazer amor ali mesmo. Imaginei-me, ou talvez imagine agora e é pior, a arrastá-la para o seu escritório particular, deitando-a em cima da mesa, rasgando-lhe a roupa e beijando-a, subindo para cima dela e beijando-a, apagando todas as luzes outra vez e beijando-a…

Sugestão pura. Ainda assim, sexo. O suficiente.

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A posta nas apostas

Depois de muitas e muitas apostas, o Nobel da literatura acabou por ser entregue a Herta Müller, escritora que não me lembro de ver incluída por ninguém na lista de favoritos ao prémio. Se na edição passada ainda houve quem apostasse em Le Clézio, julgo que desta vez a academia conseguiu a surpresa, aquele que parece ser o objectivo dos últimos anos – pode ser exagero meu, mas até consigo imaginar os loirinhos membros da academia a rirem de contentamento com isso. Não me admirava que a estratégia dos candidatos às próximas edições do Nobel passasse por atirar com todos os nomes possíveis para as casas de apostas, deixando de fora o seu. Tivesse eu meia dúzia de linhas publicadas e era o que fazia.

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