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Yoro

Com ponto de partida na bomba de Hiroxima, Yoro arranca para umas primeiras quarenta ou cinquenta páginas de intensidade assinalável. Por uma boa meia dúzia de vezes, apetece transcrever e guardar parágrafos inteiros. Não é de estranhar, por isso, que por essa altura estivesse deslumrado com o livro, que prometia tudo. Acontece que um romance é uma prova de resistência e dificilmente um autor pode ambicionar começar e acabar a ritmo alucinante. A partir de determinada altura, o romance desdobra-se em acontecimentos pessoais que, ao sobrecarregarem as mesmas personagens, as tornam mais inverosímeis. A busca de Yoro, a personagem, é o fio condutor de uma história que ligará a bomba atómica de Hiroxima às minas de exploração de urânio da República Democrática do Congo, e é precisamente nesses dois extremos que está o melhor de Yoro, o livro. Duas realidades tão iguais e aparentemente tão distintas ao mesmo tempo. É aí que Perezagua deixa interessantes questões e respostas felizmente incompletas, que deixam espaço para os juízos do leitor. Paralelamente, dá-se nestas mesmas páginas outra busca, a da identidade sexual e do apelo maternal. Não é assunto de menor interesse ou pertinência, mas dá-se o tal caso de ser muita coisa para carregar num só livro. Ainda assim, acreditando que esta obra – que é a estreia da autora no registo de romance – tinha mais a ganhar em pretender menos, não deixa de ser um bom livro e um excelente indicador para o que podemos esperar de Marina Perezagua.

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As imagens mais concretas e poderosas, que julgava serem património meu, repetiam-se em testemunhos de pessoas diferentes. Naquele momento, dei a explicação que me pareceu mais lógica. Pensei que a causa de os próprios sobreviventes emprestarem uns aos outros as expressões mais eficazes podia ser o indescritível, criando assim uma língua do horror: a língua mais recente, aquela que se aprende de repente, aquela que não se transmite de pais para filhos, e sim de testemunha para testemunha. Nessa língua, «uma figura com a cabeça tão inchada que triplica o seu tamanho» só pode ser exprimida como «uma figura com a cabeça tão inchada que triplica o seu tamanho». Não existem expressões equivalentes. É uma língua sem sinónimos.

Marina Perezagua, Yoro

Uma língua sem sinónimos

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Ler devagar

Acontece de vez em quando. Umas vezes por causa do estado de espírito, por causa do livro em si ou da leitura anterior, que teima em não se deixar arquivar na memória. Ultimamente, tem acontecido por culpa exclusiva da agenda, dos afazeres. Ler devagar. Mesmo quando as primeiras páginas do livro gritam urgência, como é o caso de Yoro. Que promessa de livro!

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