Tag Archives: Roberto Bolaño

Noturno chileno

Noturno chileno Não, Bolaño, desta vez não. A culpa até pode ser minha, do momento que escolhi para te ler, mas desta vez não. Já te li coisas maravilhosas, como Os detectives selvagens, e coisas menos conseguidas, como Estrela distante, mas só desta vez me faltou por completo o entusiasmo.
O sôfrego exercício de memória feito pelo protagonista desta história – num parágrafo, ou pouco mais do que isso – é entediante na forma e errante no objectivo. Nunca se sabe bem a que nos conduzem as recordações do padre, crítico literário e poeta que, febril, julga estar prestes a morrer. Salvam-se umas poucas páginas em torno da figura de Pinochet e a curiosidade pelo que se passa na cave de uma mansão em que se reúnem importantes figuras da cultura chilena. Foi pouco livro até para se fazer uma apreciação. Noturno chileno foi uma leitura inócua, deixou poucas marcas. O que Bolaño nunca tinha sido, para mim.

Com as etiquetas ,

Amuleto

AmuletoBolaño pesa muito na hora de avaliar Bolaño. 2666 e Os detectives selvagens são daqueles livros que elevam a fasquia do que se pode esperar de determinado autor. Em Amuleto, há a mesma escrita acutilante e poética, há frases de grande efeito e personagens interessantes, mas o essencial do livro parece perder-se em círculos, sem rumo definido. Neste breve livro, o escritor chileno volta a ler-se com prazer, mas falha no essencial.
Quem leu Os detectives selvagens apreciará as referências às conhecidas e estimadas personagens de Arturo Belano e Ulisses Lima, e quem leu 2666 irá apreciar o esclarecimento acerca do título desse pesado livro.

… parece-se sobretudo com um cemitério, mas não com um cemitério de 1974, nem com um cemitério de 1968, nem com um cemitério de 1975, mas com um cemitério de 2666, um cemitério esquecido sob uma pálpebra morta ou nascida morta, as aquosidades desapaixonadas de um olho que por querer esquecer uma coisa acabou por esquecer tudo.

Quem leu um e outro, irá sentir que Roberto Bolaño podia fazer melhor. Amuleto entra directamente para o lado de Estrela distante, no fundo da tabela de preferências de livros do chileno.
Não é tempo perdido, mas podia ser tempo melhor aproveitado.

Com as etiquetas ,

Da solidão

O amor é assim, o calão é assim, as ruas são assim, os sonetos são assim, o céu das cinco da manhã é assim. A amizade, em compensação, não é assim. Na amizade nunca estamos sozinhos.

Roberto Bolaño, Amuleto

Com as etiquetas ,

Estrela distante

A acção de Estrela distante passa-se durante os últimos anos de governação de Salvador Allende e o golpe militar que conduziu à ditadura de Pinochet. Como acrescento histórico, no entanto, o livro faz pouco mais do que outros (recordo A sombra do que fomos, de Luis Sepúlveda). Enquanto romance, reconhece-se o traço de Bolaño, a sua capacidade narrativa e a forma de nos prender a personagens sempre interessantes e enigmáticas. Nesta obra, encontramos uma fórmula já habitual no autor chileno, consistindo a maior parte da história na procura do poeta Ruiz-Tagle (ou Carlos Wieder?). Esse já tinha sido o ponto de partida de 2666, com o alvo a ser o romancista Archimboldi, e de Os detectives selvagens, este centrado na poetisa Cesárea Tinajero. Talvez por ter estes dois últimos títulos como termo de comparação, é difícil não confessar que Estrela distante deixa a desejar. Se a ordem de leitura tivesse sido outra, talvez não houvesse motivo para este desabafo, mas a excelência das obras já citadas a isso obriga. Ainda assim, não deixa de ser um livro interessante e de leitura agradável.
O que mais incomoda neste Estrela distante é a edição pouco cuidadosa (e já não falo da capa, que descai para o piroso), que chega a desgastar com a quantidade de pequenas gralhas. Nota não brilhante, mas positiva, para Bolaño; nota negativa para a Teorema.

Com as etiquetas ,

Para não deixar passar em branco o dia mundial da poesia [III]

Poema de Cesárea Tinajero, personagem de Os detectives selvagens, de Roberto Bolaño
Com as etiquetas , , , ,

Os detectives selvagens

Arturo Belano e Ulisses Lima são os personagens principais deste romance (que, como já aqui referi com espanto, tem largas dezenas deles) e os fundadores de um movimento poético – o real visceralismo. O grupo de poetas alarga-se, mas de fora do movimento são poucos a atribuir-lhe importância. No início de 1976, com o pretexto de encontrar uma poeta esquecida, Lima e Belano partem numa viagem pelo México, ao volante de um Impala. A eles, juntam-se García Madero, real visceralista de 17 anos, e Lupe, uma jovem prostituta que pretende fugir da vida que levava. É esta viagem que precipita toda a história de Os detectives selvagens. Depois de, em 2666, ter posto críticos literários em busca do escritor Archimboldi (aqui também referido, mas como Arcimboldi), Bolaño repete a fórmula, sem repetir a obra.
A estrutura das mais de quinhentas páginas do romance está dividida em três partes: a primeira relatada em forma de diário, a segunda composta por depoimentos de quem se cruzou com Arturo Belano e Ulisses Lima e a terceira novamente em registo de diário.
Lidos o excelente 2666 e o menos ousado O terceiro reich, esta foi a melhor forma de regressar à escrita deste autor. Roberto Bolaño tem neste livro mais uma (arriscaria dizer que a maior) prova da sua brilhante capacidade narrativa.

Com as etiquetas ,

Escrever gente

Arturo Belano, Ulisses Lima, Amadeo Salvatierra, Perla Avilés, Quim Font, Maria Font, Angélica Font, Luis Sebástian, Carlos Monsiváis, Alberto Moore, Laura áuregui, Manuel Maples Arce, Pele Divina, Bárbara Patterson, Jacinto Requena, Auxílio Lacoutoure, Lisandro Morales, Rafael Barrios, Felipe Müller, Alain Lebert, Norman Bolzman, Heimito Künst, Simone Darrieux, Hipólito Garcés, Roberto Rosas, Sofia Pellegrini, Michel Bulteau, Mary Watson, Xóchitl García. Vinte e nove nomes, vinte e nove personagens de Os detectives selvagens. Todos com voz própria, todos com personalidade própria. A estes vinte e nove ainda se podiam juntar outros tantos que esqueci ou a que ainda não cheguei (a leitura vai a meio). Incrível.

Com as etiquetas ,

As possibilidades da poesia

Pode-se conquistar uma mulher com um poema, mas não se pode retê-la com um poema.

Roberto Bolaño, Os detectives selvagens
Com as etiquetas ,

O Terceiro Reich

Udo Berger, campeão alemão de wargames, parte para umas férias em Espanha, com a sua namorada. O pretexto é aproveitar o tempo para se treinar para um novo jogo, O Terceiro Reich. O hotel em que se hospedam é o mesmo em que Udo passou férias com os pais e o irmão, dez anos antes. Durante os dias passados em território espanhol, conhecem outro casal alemão, Hanna e Charly, que desaparece misteriosamente. Juntam-se à história personagens de nome tão curioso como o Lobo, o Cordeiro e o Queimado.
Os wargames acabam por se revelar uma metáfora conseguida. O campeão destes jogos de estratégia e cálculo, com todas as regras e modelos de jogo bem presentes, vê-se bem mais desorientado nuns simples dias de férias.
Bolaño volta a provar, com menos umas largas centenas de páginas do que em 2666, que é um autor primoroso. O Terceiro Reich é um livro que pede para ser lido de uma assentada. Há uma inquietação permanente que vem das atmosferas criadas pelo escritor chileno, das personagens misteriosas e retorcidas e dos acontecimentos que se vão sucedendo sem explicação.
É um descanso e uma não menor satisfação saber que a Quetzal se prepara para publicar outros títulos de Roberto Bolaño.

Com as etiquetas , ,

O sexo na literatura

Há umas semanas, este era um dos temas do Ípsilon. Em linhas gerais, considerava-se que se anda a escrever mais sobre sexo, mas nem sempre da melhor forma. O artigo de Luís Francisco apontava ainda uma superioridade dos brasileiros em relação aos portugueses e dos poetas sobre os romancistas. De bons exemplos nacionais, referiam-se Agustina Bessa-Luís, José Cardoso Pires, Eugénio de Andrade e Eça de Queirós, por exemplo. O tema é difícil, todos concordam. Rui Zink considerava ainda que os portugueses têm mais jeito para expressar a frustração do que o desejo. Num artigo sobre o sexo escrito, não podia faltar uma referência à surreal passagem de O Codex 632.
Não escondo que considero que o sexo na literatura é, na maior parte das vezes, escusado. A sugestão funciona sempre melhor que a descrição. Não me lembro de encontrar em alguma das obras que já li de António Lobo Antunes, um dos meus autores preferidos, uma cena de sexo. É o próprio quem o diz e explica: não é por uma questão de pudor. É que não é necessário.
Chegado ao fim de um livro, nunca me aconteceu reter uma passagem que seja de sexo. Chegado ao fim de um livro, nunca considerei que essas cenas o tornavam melhor ou pior.
Bolaño, autor que tenho lido ultimamente, não foge ao tema. Em 2666, as descrições sexuais estavam bem presentes. Delas, ficou-me a consciência de terem feito parte de um livro maior, nada mais. No recentemente editado O Terceiro Reich, que agora leio, tropecei nestas linhas:

Senti vontade de desligar e fazer amor ali mesmo. Imaginei-me, ou talvez imagine agora e é pior, a arrastá-la para o seu escritório particular, deitando-a em cima da mesa, rasgando-lhe a roupa e beijando-a, subindo para cima dela e beijando-a, apagando todas as luzes outra vez e beijando-a…

Sugestão pura. Ainda assim, sexo. O suficiente.

Com as etiquetas , , , ,

A tal aposta

Como já aqui tinha feito referência, uma aposta deu-me direito a um crédito em livros. A espera pela edição de O Terceiro Reich deu-me tempo para escolher os outros, daí que a passagem pelas prateleiras tenha sido feita em tempo record.
Sem sair da América do Sul e ultrapassando em trinta e dois cêntimos o valor da aposta, acrescentei hoje três títulos às prateleiras cá de casa.

Atendendo a que Nostromo caminha a passos largos para o final, não tardarei em pegar numa destas obras.

Com as etiquetas , , , , ,

O Terceiro Reich

O primeiro capítulo e o início do terceiro já se podem encontrar por aí. O livro poderá ser encontrado nas livrarias a partir de amanhã e nas prateleiras de cá de casa a partir de sábado, espero.

Com as etiquetas ,

2666

Bolaño e o seu 2666 têm andado nas bocas do mundo. O hype criado em torno deste livro serviu para dar a conhecer o autor a muitos – grupo no qual me incluo – e deixar outros de pé atrás. Terminadas as mais de mil páginas do romance, é caso para garantir que não há razões para a reacção dos últimos. Almafitano, professor de filosofia e uma das personagens de 2666, diz a certa altura que já ninguém se atreve com as grandes obras, imperfeitas, torrenciais, as que abrem caminho no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres. Ou, o que é a mesma coisa, querem ver os grandes mestres em sessões de treino de esgrima, mas nada querem saber dos combates a sério, nos quais os grandes mestres lutam contra aquilo, esse aquilo que nos acobarda e verga, e há sangue, feridas mortais e fetidez (p.267). E é isto que acontece com este romance de Bolaño, uma obra que, ao querer chegar a tudo, se torna obrigatoriamente imperfeita. Mas não há dúvida que entre as capas de 2666 se encontra muito do que somos.
O livro divide-se em cinco partes – que, a pedido de Bolaño e contra aquilo que sempre pretendeu, estiveram para ser editadas separadamente, a fim de tentar rentabilizar mais a obra e deixar a família em melhor situação financeira – que acabam por ter um qualquer ponto comum. A parte dos críticos, a parte de Almafitano, a parte de Fate, a parte dos crimes e a parte de Archimboldi. Os primeiros iniciam uma busca desenfreada pelo último, o jornalista norte-americano Fate desloca-se ao México para cobrir um combate de boxe e acaba por se interessar pelos crimes – talvez a parte que se torna mais repetitiva, levando a julgar algumas páginas dispensáveis – e também Almafitano fará parte desta teia que une as cinco partes aparentemente independentes do romance.
Não sendo um livro fácil, é claramente um livro recomendável.

Com as etiquetas ,

A culinária na literatura

Esta receita chama-se: couves-de-bruxelas com limão. Tomem nota, por favor. Ingredientes para quatro pessoas: 800 gramas de couves-de-bruxelas, o sumo e a casca de um limão, uma cebola, um ramo de salsa, 40 gramas de manteiga, pimenta-preta e sal. Prepara-se da seguinte maneira. Um: limpar bem as couves e retirar as folhas exteriores. Picar finamente a cebola e a salsa. Dois: numa panela com água a ferver e sal cozer as couves durante vinte minutos ou até estarem tenras. Depois escorrer bem e tapar. Três: numa frigideira untada com manteiga refogar ligeiramente a cebola, acrescentar a casca ralada e o sumo do limão e temperar com sal e pimenta a gosto. Quatro: juntar as couves, misturar com o molho, refogar uns minutos, salpicar com a salsa e servir enfeitadas com rodelinhas de limão.

2666, Roberto Bolaño
Com as etiquetas ,

Da vida real

De que é que trata a experiência?, perguntou Rosa. Qual experiência?, disse Amalfitano. A do livro pendurado, respondeu Rosa. Não é nenhuma experiência, no sentido literal da palavra, disse Amalfitano, a ideia é de Duchamp, deixar um livro de geometria pendurado à intempérie para ver se ele aprende umas quantas coisas da vida real.

2666, Roberto Bolaño
Com as etiquetas ,
%d bloggers like this: