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Um copo de cólera

Conduzido a Raduan Nassar pelo muito recomendável Mário Rufino, só posso considerar que a viagem pecou por tardia. Com este Um copo de cólera, o autor brasileiro apresenta-se como uma daquelas vozes de que gosto, que olham para a palavra, para a frase, como mais intenção do que buscar significados. É sempre uma escolha a cuidar da musicalidade da prosa, de uma certa harmonia, mais do que escrita, oral. O ritmo é lento quando tem que ser lento e vertiginoso quando manda que assim seja. A narrativa é quase um pretexto contemplativo, trata de um casal que vai de uma elegantemente escrita e tórrida cena de sexo a uma discussão desenfreada. O motivo aparente é minúsculo, mas esconde um sem fim de inseguranças. Um livro de linguagem adequadamente crua.
Já adaptado a cinema, numa curta-metragem facilmente acessível no Youtube, Um copo de cólera pede o papel. A edição da Companhia das Letras percebeu bem a importância da palavra, deu-lhe corpo, protagonismo, e não resumiu o livro às cinquenta páginas em que cabia perfeitamente. Leitura que eleva expectativas para Lavoura arcaica, a ler muito em breve.

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A vida secreta das palavras

Eis-me debruçado no parapeito de um livro, a espreitar com estranheza inicial as palavras que nele vivem. São palavras nascidas no outro lado do Atlântico, mais abertas, mais próximas da oralidade: palavras mais à mão de semear pela boca. Entre elas, reencontro cumbuca, palavra que o meu pai traz ao convívio frequentes vezes. Eis-me, portanto, debruçado no parapeito de um livro voltado para o Brasil, janela para um sotaque diferente, a encontrar o meu pai numa palavra escrita por Raduan Nassar.

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