Tag Archives: valter hugo mãe

Homens imprudentemente poéticos

Homens imprudentemente poéticosÉ da terra do sol nascente, das suas tradições e dos seus códigos de ética, que nos chega a narrativa do último romance de Valter Hugo Mãe. As criações manuais do artesão e do oleiro, personagens principais da história, são vistosos leques e peças de olaria muito enfeitadas – em demasia, consideram os vizinhos -, mas é no interior destes dois homens em conflito que se dá a criação maior, um novelo ao mesmo tempo terno e violento do que é viver no Japão ancestral. Aquando da passagem do autor pelo país, uma curiosíssima floresta despertou a sua atenção ao ponto de a fazer mudar de tempo e de localização e a encaixar nestas páginas. Nessa floresta entram homens e mulheres com intenções suicidas, munidos de uma longa corda, que serve de guia para o seu exterior, em caso de arrependimento, ou para se pendurarem de fruto maduro. E é sempre com vista para o tema do suicídio, visto com outros olhos no oriente, que Homens imprudentemente poéticos se desenrola.
A escrita de Valter Hugo Mãe faz jus a este título e a tudo o que lhe venho lendo e volta a ser poética, conseguindo ainda, neste caso, a notável proeza de escrever cerca de duas centenas de páginas sem recurso à palavra não. É um feito considerável em termos linguísticos e é um feito ainda maior quando se percebe que não só não prejudica a prosa como ainda se adequa à cortês tradição nipónica.
Mais um livro interessante e, sem surpresa, muito bem escrito de Valter Hugo Mãe.

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Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo. Sentindo-lhe carinho.

Valter Hugo Mãe, Homens imprudentemente poéticos 

O medo

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O paraíso são os outros

O paraíso são os outrosO paraíso são os outros é simples e terno na forma como aborda a questão do amor e dos casais, e cria oportunidades  para perguntas que poderão transformar-se em interessantes conversas com os mais pequenos. Os breves pensamentos de uma menina, acompanhados pelas ilustrações de Esgar Acelerado (o mr.esgar do velhinho casadeosso), resultam de forma apelativa e acessível.
Não há propriamente coisas muito novas no que o autor transmite, mas neste livro aparecem mais ao alcance das leituras infantis. As mais belas coisas do mundo, outro livro infantil de Valter Hugo Mãe, é bem mais ambicioso e desafiador na exposição dos temas e até na estrutura, mas também por isso menos adequado para os mais novos. Encheu-me as medidas, mas achei que para o meu filho era cedo. Este O paraíso são os outros não conseguiu encher-me as medidas, mas ser-lhe-á, em breve, proposto para leitura conjunta.

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Valter Hugo Mãe, O paraíso são os outros (ilustrações de Esgar Acelerado)

O problema e a solução

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As mais belas coisas do mundo

As mais belas coisas do mundoTer um filho a iniciar-se na leitura tem sido uma fonte de coisas boas. Desde peripécias com escritos encontrados em locais públicos – daqueles que um pai agradece não ter que explicar – a lições de literatura:
– Então, já acabaram A Floresta?
– Estamos quase. E depois vamos fazer um intervalo e não vamos ler Sophia de Mello Breyner. Sabes, é que o filho dela também escreve e vamos ler um livro dele.
As minhas visitas à biblioteca também têm sido, por isso, menos umbiguistas. Em vez de livros para um, passei a entrar com o intuito de encontrar livros para dois. E a impressão que tinha sobre os livros infantis tem-se confirmado: há muita e original oferta.
Das escolhas recentes, destacaria O meu avô, pela premiada ilustração de Catarina Sobral, e Os sapatos – Histórias do Senhor Valéry, do livro de Gonçalo M. Tavares, com ilustrações de Rachel Caiano, pela simplicidade com que convida as cabeças mais jovens ao confronto de ideias.
Escolha nem por isso acertada para o filho, pela tenra idade, mas que muito agradou ao pai foi As mais belas coisas do mundo, de Valter Hugo Mãe, com ilustrações de Paulo Sérgio BEJu. Centrado num menino e no seu avô, o livro é uma pequena maravilha de cerca de trinta páginas. As ilustrações são tão bonitas quanto enigmáticas e as palavras de Valter Hugo Mãe carregam uma sensibilidade notável. São palavras escolhidas a dedo para tirarem o proveito máximo de publicações que não se querem extensas, ao contrário de outros terrenos em que o autor tão bem se move, como o romance, e são palavras que aliam à sensibilidade a sonoridade, colhendo também os frutos da experiência do escritor na poesia. Nessa economia de palavras, ainda assim, abundam significados que devem fazer parte do crescimento de qualquer criança, como família, valores e natureza, só como exemplo. É por isso que, um dia, quando a idade do meu filho mais se adequar, este livro voltará a ser convidado a entrar lá em casa.

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a máquina de fazer espanhóis

a máquina de fazer espanhóiscom a máquina de fazer espanhóis estive prestes a esgotar a prosa de valter hugo mãe – uma infelicidade que se remediou quase de imediato com a publicação do mais recente livro do autor, pela Porto Editora.
As cerca de trezentas páginas deste romance são como um manual de envelhecimento e, ao mesmo tempo, uma homenagem à terceira idade, uma idade que, mais do que de certezas, pode ser de grandes descobertas. Uma meia dúzia de personagens bem escolhidos e “desenhados” junta-se num lar e dá-nos a conhecer um mundo. As dores da perda, a mágoa do abandono, o medo do tempo galopante, está tudo minuciosamente trabalhado pelas palavras de valter. A escrita tem a qualidade de sempre e o livro é, até agora, o que mais se aproxima da genialidade de o remorso e baltazar serapião.
Não podia passar sem recomendar a leitura desta obra. O leitor perceberá que está a preparar-se para a vida. Que mais se pode pedir a um livro?

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A bíblia do desporto

se a bola não percebe de livre e espontânea vontade que o benfica não está à altura dos seus sonhos, tem de ser obrigada a isso. tem de haver uma lei que a obrigue a falar apenas do porto e a glorificar o porto, até que sejamos todos portistas e regozijemos com as suas vitórias e comecemos a trabalhar alegremente a cada vitória do clube do norte, porque os seus jogadores assim o merecem e porque assim estaremos novamente a investir no país. não entendem. tem de ser. não faz sentido uma nação de gente que sofre por um perdedor obrigado a ganhar. é masoquismo. há que desistir de utopias parvas, dessas que facilmente são substituídas por outras hipóteses, como sucedâneos perfeitos. perfeitos, até melhores.

valter humo mãe, a máquina de fazer espanhóis

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Estupidez universal

O amor é uma estupidez intermitente mas universal.

valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis

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Relembrar. Só para que não percam um grama. Hoje escreveu-se um pouco da história de valter hugo mãe. É espreitar.

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O filho de mil homens

O mais recente livro de Valter Hugo Mãe conta a história de Crisóstomo, um pescador que, aos quarenta anos, assume a tristeza de não ter um filho. Mas não só. Conta também a história de uma anã que engravida e tem um filho, a de um menino que se vê órfão por duas vezes, a de um velho que toma conta de um menino para preencher um vazio do passado, a de uma mulher que se vai esvaziando de amor, a de um maricas e da sua mãe, incapaz de, como lhe aconselhavam as vizinhas, matar o filho. Do cruzamento destas histórias, surge O filho de mil homens, um livro que não se esgota na mais evidente temática do ser pai e que também lança um olhar sobre outros tipos de amor. Composto por uma galeria de personagens muito singulares, com histórias não menos invulgares, este O filho de mil homens é, também pelo registo de escrita de Valter Hugo Mãe, uma espécie de tragicomédia. Em o remorso de baltazar serapião e o apocalipse dos trabalhadores (estão ainda por ler o nosso reino e a máquina de fazer espanhóis, do mesmo ciclo) está sempre presente uma certa angústia, uma tristeza; nestas mais de duzentas páginas, pelo contrário, parece espreitar sempre a esperança, como foi vontade do escritor assim que decidiu criar uma personagem que fosse feliz.
Neste O filho de mil homens, o autor prova que a originalidade que se aponta à sua escrita não se resume à opção de não utilização de maiúsculas e atribui-lhes o lugar que a gramática lhes reserva. Não tendo o impacto de o remorso de baltazar serapião, este é um livro que contribui para um Valter Hugo Mãe também ele maiúsculo.

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Paternidade

[Ilustração de Luís Silva]

Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho.

Valter Hugo Mãe, O filho de mil homens
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o remorso de baltazar serapião

o remorso de baltazar serapiãobaltazar, aldegundes, brunilde, teodolindo, ermesinda, dom afonso e teresa diaba são algumas das personagens de uma história medieval. as crenças desse tempo em que deus e o diabo eram resposta para tudo juntam-se a uma história de amor, traição e violência. em o remorso de baltazar serapião estão ainda evidentes as dificuldades que uma mulher sentia numa época em que apenas lhe cabiam obrigações. esta regressão no tempo tem grande parte do seu sucesso explicado pelo cuidado com que valter hugo mãe escolheu cada palavra, cada expressão utilizada. tendo conhecido e tecido os primeiros elogios a este autor aquando da leitura de o apocalipse dos trabalhadores, é também recuando na sua bibliografia que encontro forma de lhe multiplicar os louvores. de tão original história e tão cuidada edição, esta obra não merece que se lhe falte em atenção.

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morrer de amor

e ela já sabia que não penaria ali nunca mais, não penaria viva, esfregando o coração no chão, limpando cada nódoa que, mesmo depois de tirada, continuaria escurecendo o seu interior. ela não ficaria mais tempo na praça, não ela, uma mulher que fazia o seu próprio juízo e queria morrer de amor.

o apocalipse dos trabalhadores, valter hugo mãe

[com este livro, valter hugo mãe “obriga-me” a, mais dia menos dia, ler o seu anterior e premiado o remorso de baltazar serapião.]

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