Conquistaste-me pelas tuas qualidades. Muitas qualidades. Agora, apesar de um ou outro protesto, conquistas-me todos os dias com os teus defeitos. Poucos. Os mais pequenos e cómicos defeitos.

A vida dos outros, se os outros não estão nos filmes ou nos romances, merece-lhe apenas uma olhadela por cima do ombro e uma consideração aborrecida.

Juan Marsé, Caligrafia dos sonhos


Começar pela Barcelona de Marsé, passar pela Varsóvia de Gombrowicz e terminar por terras russas. Vai ser viagem para os próximos meses.

20120522-233232.jpgUm anúncio de jornal dá como desaparecida Dora Bruder, uma jovem de origem judaica. A partir desse momento, o narrador dá início à procura de dados que possam ir compondo a história dessa jovem. Entretanto, enquanto se vai seguindo o fio dos acontecimentos que levaram ao desaparecimento de Dora Bruder, vai sendo revelado ao leitor um tempo em que as ruas de Paris não eram para todos. O anti-semitismo, enquanto objecto literário, não é novidade. Há imensos livros e imensas perspectivas sobre o tema; Dora Bruder trata-o de forma muito superficial, diria que, em comparação com outros, quase indolor. Patrick Modiano, com uma escrita tão simples quanto a narrativa, conta uma história sem realmente conseguir envolver. Ao lado de obras como Tudo o que tenho trago comigo (o melhor exemplo de que agora me recordo), este é um livro menor. Ainda assim, para um leitor que não seja dado ao sofrimento (e a isso Herta Müller não nos poupa), Dora Bruder pode ser uma leitura agradável.


[Há malta que não se pode esquecer.]

Marca de águaJoseph Brodsky foi, essencialmente, poeta. Entre os poemas, lá foi trazendo ao papel algumas narrativas. Marca de água é um desses exemplos. O autor russo deixa bem claro o seu propósito logo nas páginas iniciais do livro.

Aquilo que se segue, por conseguinte, tem mais que ver com o olhar do que com as convicções, incluindo as respeitantes ao modo de organizar uma narrativa. O olhar precede a pena, e decidi não permitir que a minha pena minta sobre a sua posição. Se corri o risco de uma acusação de blasfémia, não é a de superficialidade que me fará estremecer. As superfícies – aquilo que o olhar regista primeiro – são muitas vezes mais reveladoras que o seu conteúdo, por definição provisório, salvo, é claro, na vida depois da morte.

E é esse olhar de poeta, carregado de preocupações estéticas, que se faz sentir ao longo de toda a obra. As palavras de Brodsky são trabalhadas e escolhidas ao detalhe, conjugando a beleza da Veneza retratada com as linhas que o fazem. Marca de água é um livro de imagens, de luz e de água. É, também, uma verdadeira homenagem a Veneza. Para quem conhece a cidade, é um livro mais que obrigatório; para quem, como eu, não a conhece, é um enorme cartão de visita, o mais perfeito dos panfletos turísticos.

Parti para este Um jantar a mais com muita expectativa. Ismail Kadaré, que já venceu alguns prémios literários importantes e acaba sempre por ser referido como candidato ao nobel, faz da sua cidade natal o ponto fulcral de uma história de guerra e pós-guerra. Da passagem de uma coluna alemã por Gjirokastër, vai desenrolar-se um misterioso jantar para o qual muitos anos depois ainda se procurarão respostas. O enredo parece prometer, as personagens têm tudo para ser bem aproveitadas, mas a verdade é que o que de melhor estas páginas trazem é o que os livros de história documentam. Kadaré perde-se (ou leva o leitor a perder-se) em sucessivos enigmas e passa pelas personagens de uma forma demasiado superficial, quando algumas delas tinham tudo para ser interessantes.
Apesar destes reparos e da ideia geral de desilusão com Um jantar a mais, é preciso salvaguardar que a escrita do autor albanês é muito precisa. Não vou descartar Ismail Kadaré sem me lançar a outra obra sua.

[Mais uma nota à edição: alguns erros, um deles um gritante "esperimentara".]

Quando decidi ler Liberdade, aproveitei uma promoção e comprei também Correcções – desde essa altura, há cerca de um ano, que o livro estava na prateleira. Começando pelo fim, a conclusão a que chego é que esperei demasiado. Correcções é, a exemplo de Liberdade, um grande livro sobre o quotidiano. Retrata outra época (e, obrigatoriamente, outros costumes, outros hábitos), mas é, tal como havia escrito sobre o seu antecessor, um exercício de encadernação da vida. Poder-se-ia dizer também que é um livro sobre a família. Toda a narrativa se desenrola em volta de um casal, Alfred e Enid Lambert, que tenta reunir em casa, para um último Natal, os seus três filhos. Numa estrutura em que cada capítulo vai dando a perspectiva de cada elemento da família na preparação dessa reunião familiar, o leitor vai acompanhando as diferenças, os conflitos e o afastamento (não só físico) que a vida e o quotidiano provocam. O facto ser diagnosticada a doença de Parkinson a Alfred acelera tudo. Assistimos a uma corrida de decadência de um homem (a gradual perda de capacidades), à luta cada vez mais difícil e só de uma mulher e às dificuldades de vida dos seus filhos. E é lá para o final que está guardado o melhor do livro: quando uma família que parece uma ruína se evidencia como o melhor porto de abrigo de todos os seus membros. O que Franzen começa a fazer crer ser uma crítica (com a evidência dada a todas as diferenças, todos os conflitos), termina, ainda que não de forma muito evidente, muito denunciada, como um rasgado elogio. Diz Lobo Antunes que “viver é escrever sem corrigir”; com este livro, Franzen diz que viver é irmo-nos corrigindo.
Nas suas mais de quinhentas páginas, há alturas em que uns quantos episódios parecem dispensáveis (e até podem ser), mas assim que o leitor se aproxima do final, isso é coisa que deixa de interessar.
Correcções é, tal como Liberdade, um grande livro. Eu, se isto dos gostos não fosse tão subjectivo, arriscava dizer que maior.

[Nota minúscula para a também minúscula fonte que a edição da D.Quixote escolheu usar.]

Leio as notícias e a realidade parece-me ficção. Leio Franzen e a ficção parece-me, mais que credível, real.

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[Trouxe-mo o Mário Rufino, a quem agradeço muito.]

Há dias, na Prova Oral, a conversa era entre Fernando Alvim, Xana Alves e Nuno Camarneiro. O tema, como e óbvio, foram os livros. A determinada altura, os apresentadores do programa mostraram alguma estranheza para com as pessoas que andam na rua com livros grandes. Diziam que, para quem anda de transportes públicos ou aproveita a hora de almoço para ler, o ideal eram os livros de bolso. Chegaram a afirmar que quem anda na rua com um “tijolo de papel” pretende apenas fazer uma espécie de statement, mostrar-se mais culto do que realmente é. Nuno Camarneiro não foi tão longe, mas também não contrariou. Ora, como generalização que se preze, esta ideia não falhará poucas vezes. Pessoalmente, não avalio um livro pelo tamanho: já li coisas brilhantes com menos de cem páginas em livro de bolso (A morte de Ivan Ilitch, por exemplo) e coisas bem menos interessantes com mais de trezentas páginas (Os predadores, também como exemplo). Acontece que, quando o livro é realmente bom, quando a escrita realmente prende, um livro grande consegue outro impacto, outra abrangência. Se a ideia de um livro é encadernar o mundo, a vida, fica mais fácil consegui-lo em muitas páginas. Não vejo como é que o número de páginas de um livro pode ser visto como uma demonstração de intelectualidade. Um livro desperta-me interesse por alguns motivos: autor, título, capa, sinopse ou crítica lida; nunca o número de páginas. Segundo a teoria de Alvim e Xana Alves, se um livro que me despertou interesse tiver mais de umas trezentas páginas, só porque vou ler fora de casa, devo dispensá-lo e procurar um mais cómodo livrinho de bolso? Que escolha redutora. Que teoria redutora.

Sentado à janela, olhava a chuva, que adivinhava fria como a superfície do vidro que tocava. Isto é cena para se repetir numa data de romances, mas aqui a história era bem real e as personagens eram de carne e osso. A chuva também era bem real e só não molhava porque estava do outro lado. Era uma chuva tão miúda que, ao invés de cair, parecia correr lateralmente, como se de um cortinado se tratasse. O vento tocava-a e revelava nela uma leveza que à partida não se pensaria associar à chuva. Sentado à janela, olhava a chuva, que já não tinha a certeza de ser fria. Uma chuva que não molhava, que era leve e que já nem sequer parecia fria. Olhava para a chuva e já não a sabia real ou ficcionada. Já não sabia se era de carne e osso ou se era o resultado de um conjunto de descrições. Já não sabia se tinha uma vida ou um enredo. Ocorreu-lhe uma frase de António Lobo Antunes, que diz que “viver é escrever sem corrigir”, e concluiu que talvez não houvesse desvantagem na segunda hipótese. Sentado à janela, continuou a olhar a chuva. Alguém haveria de virar a página.


Parece que sim, que este ano será ano de novo trabalho de Cat Power. Já ia fazendo falta.

Escrito no início da década de 1950, este é o único romance de Harold Pinter, autor que depois se viria a dedicar à escrita para teatro, área em que conseguiu grande reconhecimento. No início do livro, numa breve nota, o escritor explica que só passados cerca de quarenta anos, após uma atenta revisão e o corte de cinco capítulos que considerou supérfluos, achou que Os anões merecia publicação. O que mais sobressai deste livro é a indicação clara de que Pinter escolheu bem a vertente da escrita a que se dedicou: a construção dos diálogos e das próprias personagens, o cuidado em situá-los e descrevê-los fisicamente, revelam uma espécie de preocupação cénica e uma ideia muito teatral da história. A adaptação de Os anões a teatro chegou mesmo a acontecer, mas nessa altura Pinter resolveu omitir uma personagem central da narrativa – Virgínia – e admite que, talvez por isso, a peça tenha resultado algo abstracta. De facto, custa entender o que se pode retirar do romance (e duvido que fosse diferente com a adaptação teatral) sem a presença e influência de Virgínia. É que, centrando-se o enredo na estranha amizade entre três jovens muito diferentes, é essa personagem feminina a responsável pelo “agitar de águas” decisivo e que precipita o livro para as mais conseguidas dez ou vinte páginas finais. Pelo meio, sobra muitas vezes a sensação de que havia mais do que cinco capítulos supérfluos na narrativa e de que a tesoura de Pinter podia ter sido mais exigente, aquando da revisão da obra.
As já referidas páginas finais acabam por salvar Os anões de uma desilusão que, até esse momento, enquanto romance, prometia ser quase total.

«Rilke disse uma vez que a história de uma vida estilhaçada só podia ser contada em pequenos fragmentos…»

O museu da rendição incondicional é um romance constituído, essencialmente, por breves testemunhos, lembranças, fotografias e objectos do passado de gente que viveu o exílio. Assim, julgo que em nenhum outro momento deste livro se pode encontrar melhor justificação que a de Rilke para sua a estrutura. Por ser esse conjunto de peças soltas que funcionam como um puzzle, o livro dá uma liberdade de construção ao leitor que acaba por contribuir para uma não-narrativa (não me parecia bem chamar-lhe narrativa, pelo menos no seu sentido clássico) muito cativante.
Dubravka Ugrešić não pretendeu fazer deste O museu da rendição incondicional um fiel e rigoroso retrato das situações políticas e sociais que conduziram ao fim da Jugoslávia. Ugrešić quis ir mais longe, ao interior de quem viveu essa época e o que se lhe seguiu. É desta forma, ao olhar menos às condicionantes sociais, sem querer tomar partido de qualquer das partes envolvidas numa situação que foi de conflito e de guerra, ao centrar a sua atenção na ruína em que se transforma a vida de quem é obrigado a abandonar o seu país e na sua lenta e difícil reconstrução, que a autora consegue tocar o leitor.
A escrita de Ugrešić carrega uma sensibilidade muito própria de mulher (já tinha sentido, apesar de todas as diferenças – e são muitas -, coisa semelhante com Herta Müller, em Tudo o que eu tenho trago comigo), uma prosa tão simples e directa como poética e delicada.
As quase quatrocentas páginas de O museu da rendição incondicional lêem-se como se de cem se tratassem e conduzem a uma certeza e a uma pergunta. A certeza: livro brilhante, obrigatório. A pergunta: quanto tempo teremos de esperar para que a restante obra de Ugrešić seja traduzida e editada em Portugal (além deste livro, só Baba Yaga pôs um ovo está disponível em português, editado pela Teorema)?

[Impossível não mencionar: há, a determinada altura do livro, um breve e quente episódio passado em Lisboa. É perfeito.]


… Kiwanuka fora de portas.

Sopa de cominhos

3 colheres de sopa de banha ou manteiga
4 colheres de sopa de farinha
1 colher de chá de sementes de cominho
1,5 litros de água
Sal a gosto
Pão cortado em quadrados pequenos e frito em banha

Aquecer a banha adicionar a farinha e cozinhar até alourar.
Adicionar as sementes de cominho, cozinhar alguns instantes e adicionar a água, mexendo constantemente. Adicionar sal e continuar a cozinhar durante 15 minutos. Na mesa, colocar um pedaço de pão frito em cada tigela e servir a sopa.

A descoberta de Saul Bellow veio, no meu caso, com Ravelstein. Logo nessa altura deixei elogios ao livro e ao autor, afirmando que outros títulos seus estariam já marcados como obrigatórios. O amigo Tiago Sousa Garcia achou por bem ir aos comentários dizer que Herzog era indispensável e, quase um ano depois (mais do que o desejável, mas a ordem das leituras obedece a ordem nenhuma), eis-me chegado ao momento de dizer de minha justiça.
O personagem principal deste livro é Herzog, um professor de filosofia (tal como Ravelstein) que tem um começo de carreira fulgurante e que depois se vai desvanecendo. A história de  Moisés Herzog vai-nos sendo contada pela sua própria voz e por intermédio de inúmeras cartas que escreve (muitas apenas mentalmente) a amigos, conhecidos, figuras públicas e até mesmo a gente que nunca conheceu. E é através desta espécie de catarse que este homem espera poder entender a sua história e, assim, dar o rumo certo à sua vida.
Herzog é mais um exemplo da primorosa escrita de Saul Bellow, da sua capacidade de análise do homem e da sua enorme capacidade de, a partir dessa análise, construir personagens muito reais, cheios das pequenas particularidades que nos diferenciam uns dos outros. Como único senão, referiria alguma falta de “ritmo” da narrativa e alguma monotonia descritiva (e aqui refiro-me essencialmente a descrições de estados de espírito e de consciência). Não será o livro ideal para quem se pretende ver arrebatado pelo desenrolar dos acontecimentos, para quem precisa de ver, a cada página, o apelo à curiosidade. É um livro que convida ao mergulho interior, para um leitor paciente, um livro que precisa de tempo. A quem o tiver e disponibilizar, a recompensa acabará por chegar.

Mudou a hora. As noites passaram a anoitecer mais tarde e os dias quase que chegam a sentar-se à mesa para jantar. A temperatura subiu e a chuva só não parou porque há muito deixou de se mostrar. As nuvens mais cinzentas desaprenderam temporariamente a arte de fazer chover e, envergonhadas, resolveram desaparecer. E então veio o sol. Veio o sol e, com o sol, vieram as roupas mais leves, mais curtas. E da maior leveza da roupa e da maior exposição do corpo veio a maior facilidade – a necessidade creio que já lá estava – em expor a alma. Veio o sol e, com o sol, vieram as escadas mornas e o convite para sentar. E do conforto de um lugar destes é certo e sabido que vem a descontracção suficiente para ir estendendo nos degraus, como se de roupa a corar se tratasse, que o marido isto, que os filhos aquilo, que não sobra tempo para nada, que a novela anda a engonhar, que o dinheiro não estica e que à máquina de lavar, imagine-se que logo agora, lhe deu para avariar. Veio o sol e, com o sol, vieram as escadas mornas , a possibilidade de nelas se sentarem depois de almoço e a possibilidade de lá darem corpo à estranha aritmética da partilha, multiplicando as alegrias e dividindo as preocupações.

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