Qual o melhor golo que vi? Pus-me a pensar neste assunto depois de a mesma pergunta ter sido feita a Carlos Queiroz. O futebol já me deu a ver imensas coisas fantásticas, mas não me lembro de um momento de maior classe que este. Como se não bastasse, este holandês que tinha medo de voar tem mais uma dezena de golos de grande nível.
Numa recente entrevista, Erlend Øye dizia para não se esperarem grandes produções nos concertos de Kings of Convenience. Estes seriam seriam sempre pouco mais que duas pessoas honestas em palco. Na noite de dia dois, no Theatro Circo, tal como já tinha acontecido no ano passado, na Casa da Música, isso sentiu-se. O alinhamento misturou temas anteriores – por exemplo, os obrigatórios Homesick, Misread e I’d Rather dance with you – com temas do novo álbum, Declaration of Dependence, como Power of not knowing, Me in you e Boat Behind. Na recta final do espectáculo, tal como em Julho passado, Erlend convidou o público a levantar-se e chegar-se ao palco, o que resulta sempre num final mais intenso. No encore, Eirik voltou a começar pela prática do português, atirando-se a um Corcovado ainda com mais sotaque. Tobias Hett e Davide Bartolini foram excelente companhia deste duo que contrasta em personalidade – com Eirik sempre reservado e contido e com Erlend a protagonizar os momentos de maior loucura -, mas combina na perfeição em termos musicais.
Com o final do concerto chegou também a certeza de que lá esteve a prometida honestidade. E isso, por mais meios de que disponham, não há produção ou logística que possam garantir.
Esta noite cabe a Lisboa a sorte de receber os Kings of Convenience, no Coliseu.
Second To Numb – Declaration of Dependence
[Antes de subirem ao palco os rapazes de Bergen - cidade que Eirik Glambek chegou a comparar com Braga pelo tipo de ruas, edifícios e pela chuva -, Erlend veio anunciar e partilhar uma sua desboberta musical, pedindo a maior atenção para a chilena Javiera Mena. Menos de meia dúzia de temas confirmaram a minha pouca predisposição para a música na língua de nuestros hermanos.]
Foi na pista dez e com uma espécie de bandeira italiana calçada em cada um dos pés que se decobriu mais um passatempo. Pela primeira vez uma bola furada não implicou substituição. O que se derrubou não teve que se arrumar. As pontuações foram fraquíssimas, mas disso não rezará a história. Até porque, antes de um regresso à pista, há aula teórica.
Por saber da sua grande paixão por cavalos, precipitou-se num longo monólogo em que lhe falou de tudo o que sabia sobre estes animais. Referiu o cavalo de Tróia, não deixando de fazer um rigoroso enquadramento histórico; achou interessante falar nos cavalos de Napoleão e nos seus feitos; ainda conseguiu abordar os mitológicos cavalos alados. Não teve tempo para mais. Percebendo onde aquela conversa pretendia chegar, ela atalhou: - Tira o cavalinho da chuva.
Esta receita chama-se: couves-de-bruxelas com limão. Tomem nota, por favor. Ingredientes para quatro pessoas: 800 gramas de couves-de-bruxelas, o sumo e a casca de um limão, uma cebola, um ramo de salsa, 40 gramas de manteiga, pimenta-preta e sal. Prepara-se da seguinte maneira. Um: limpar bem as couves e retirar as folhas exteriores. Picar finamente a cebola e a salsa. Dois: numa panela com água a ferver e sal cozer as couves durante vinte minutos ou até estarem tenras. Depois escorrer bem e tapar. Três: numa frigideira untada com manteiga refogar ligeiramente a cebola, acrescentar a casca ralada e o sumo do limão e temperar com sal e pimenta a gosto. Quatro: juntar as couves, misturar com o molho, refogar uns minutos, salpicar com a salsa e servir enfeitadas com rodelinhas de limão.
Basta um parágrafo de Caim, o primeiro, para adivinhar que Saramago regressa com uma narrativa poderosa. O Bibliotecário de Babel fez o favor de o apresentar e, dessa forma, agravar a minha já desequilibrada equação livrosporler/tempo.
O badalado, mas não recente, episódio de Maitê Proença já teve mais linhas do que merecia. Ainda assim, não resisto a acrescentar mais algumas. É que, bem vistas as coisas, a verdadeira anedota do tal vídeo acaba por ser a própria Maitê: na era da informação global, a actriz e escritora não foi capaz de adivinhar que os mesmos meios que tão bem divulgam as suas novelas e livros iriam, mais ano menos ano, trazer até este lado do Atlântico os seus dislates. Só isso.
[Termino com "só isso" porque muitas respostas ao vídeo, com insultos baseados na generalização, são mais ridículas que o pretensioso humor inteligente da Maitê.]
De que é que trata a experiência?, perguntou Rosa. Qual experiência?, disse Amalfitano. A do livro pendurado, respondeu Rosa. Não é nenhuma experiência, no sentido literal da palavra, disse Amalfitano, a ideia é de Duchamp, deixar um livro de geometria pendurado à intempérie para ver se ele aprende umas quantas coisas da vida real.
Escreveu-se algures – garanto que li, apesar de já não recordar onde – que The First Days of Spring é um dos melhores discos dor de corno do ano. A explicação começa na separação de Laura Marling e Charlie Fink. O resto vem agarrado às canções, em forma de sofrimento, de saudade e de perdão (you have only let me down, but my door is always open, em My door is always open). João Bonifácio, na sua habitual crítica no Ípsilon, consegue descobrir no álbum qualquer coisa de Micah P Hinson e de The National. Um ouvido atento é obrigado a concordar. Por aqui, vou deixar Our window, mas este trabalho merece que se lhe dispense uma atenção maior.
Depois de muitas e muitas apostas, o Nobel da literatura acabou por ser entregue a Herta Müller, escritora que não me lembro de ver incluída por ninguém na lista de favoritos ao prémio. Se na edição passada ainda houve quem apostasse em Le Clézio, julgo que desta vez a academia conseguiu a surpresa, aquele que parece ser o objectivo dos últimos anos – pode ser exagero meu, mas até consigo imaginar os loirinhos membros da academia a rirem de contentamento com isso. Não me admirava que a estratégia dos candidatos às próximas edições do Nobel passasse por atirar com todos os nomes possíveis para as casas de apostas, deixando de fora o seu. Tivesse eu meia dúzia de linhas publicadas e era o que fazia.