Nesta breve obra de Yasunari Kawabata, a cerimónia do chá serve como pano de fundo a todas as sequências narrativas. A chanoyu -maneira estilizada de preparar chá com água aquecida num braseiro de carvão (nota da edição, p.9) – concentra muita atenção nos pormenores, desde os recipientes usados para a água, a concha, as tigelas, aos gestos utilizados. Em toda a cerimónia há uma ideia de delicadeza e sensibilidade que se estendem à escrita de Kawabata. Dessa forma, uma história que envolve um jovem, duas amantes do seu falecido pai, a filha de uma destas mulheres e uma aprendiz da outra, consegue ser mais emocional que física. Os espaços e as acções são apenas meios para atingir o que mais parece interessar ao autor, os sentimentos. Da relação entre as cinco personagens já referidas surgirá este Mil grous.
A ave que dá nome a este livro, o grou (tsuru, em japonês), é símbolo de longevidade, felicidade, fidelidade e boa sorte por terras nipónicas. Esta simbologia, a personagem da bonita rapariga que transportava um lenço com o padrão dos mil grous e o final da história revelam que talvez até esses pequenos pormenores tenham sido levados em conta por Kawabata aquando da escrita deste livro.
Sem deslumbrar pela escrita, esta obra acaba por ser uma interessante viagem aos costumes e à cultura do Japão.
Bolaño e o seu 2666 têm andado nas bocas do mundo. O hype criado em torno deste livro serviu para dar a conhecer o autor a muitos – grupo no qual me incluo - e deixar outros de pé atrás. Terminadas as mais de mil páginas do romance, é caso para garantir que não há razões para a reacção dos últimos. Almafitano, professor de filosofia e uma das personagens de 2666, diz a certa altura que já ninguém se atreve com as grandes obras, imperfeitas, torrenciais, as que abrem caminho no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres. Ou, o que é a mesma coisa, querem ver os grandes mestres em sessões de treino de esgrima, mas nada querem saber dos combates a sério, nos quais os grandes mestres lutam contra aquilo, esse aquilo que nos acobarda e verga, e há sangue, feridas mortais e fetidez (p.267). E é isto que acontece com este romance de Bolaño, uma obra que, ao querer chegar a tudo, se torna obrigatoriamente imperfeita. Mas não há dúvida que entre as capas de 2666 se encontra muito do que somos.
O livro divide-se em cinco partes – que, a pedido de Bolaño e contra aquilo que sempre pretendeu, estiveram para ser editadas separadamente, a fim de tentar rentabilizar mais a obra e deixar a família em melhor situação financeira – que acabam por ter um qualquer ponto comum. A parte dos críticos, a parte de Almafitano, a parte de Fate, a parte dos crimes e a parte de Archimboldi. Os primeiros iniciam uma busca desenfreada pelo último, o jornalista norte-americano Fate desloca-se ao México para cobrir um combate de boxe e acaba por se interessar pelos crimes – talvez a parte que se torna mais repetitiva, levando a julgar algumas páginas dispensáveis – e também Almafitano fará parte desta teia que une as cinco partes aparentemente independentes do romance.
Não sendo um livro fácil, é claramente um livro recomendável.
Aos seus mais de noventa anos, atirou-os para trás das costas. O amor, esse, carrega-o ainda em sonhos. Sonhei com o teu avô. Tinha casado com outra mulher.
O amor e o ciúme. Para lá da idade.
Houvesse uma música para o abandono e The Leaving Song, de Chris Garneau, seria uma forte candidata. O tema faz parte do segundo e mais recente álbum do músico americano, El Radio, e não é aconselhável a quem tiver tendências depressivas. Nada de estranhar, quando se sabe que o abandono – no sentido de partida, não de desleixo – anda de braço dado com a tristeza, a melancolia e a depressão, no pior dos casos.
Engana-se, no entanto, quem julgar que o álbum mantém este registo. Há uma pop ligeira em temas como Dirty Night Clowns, há qualquer coisa de Beirut, de folclórico, em No More Pirates e há o natural seguimento de Music For Tourists em muitos outros.
Um homem solitário caminha a passos largos para a saudade. Na ausência da companhia de todos os dias, volta sempre aos mesmos lugares, para fazer as mesmíssimas coisas. Nesta repetição, procura o que não tem naquele momento. Agasalha-se e desce à praia. Esquece-se por momentos do vento que o despenteia e encontra nos barcos do costume motivos para mais umas fotografias. Antes de lá chegar já sabia que ia encontrar o Os Dragões, em óbvios tons de azul e branco, o Irmãos Unidos, o Herança de Deus e o Estrela da Noite. Enquanto o frio não chega aos ossos, por ali anda de máquina em punho. (fossem as fotografias como os antigos cromos de futebol, e teria centenas delas para trocar. repetidas)
Imagina as histórias que cada um daqueles barcos já deve ter para contar, dias de mar cão, noites de rezas e lágrimas. Também noites de faina grande, de praia cheia ao amanhecer. Hoje são pouco mais que uma dezena na areia e uma meia dúzia a fazer-se às vagas. Respeita aquele espaço mesmo sem ter experimentado essa difícil existência salgada.
A saudade pode ser coisa crónica, mas naquele lugar é Aguda.
Liguei a televisão e apanhei uma overdose de Eduardo Sá. Não sei de que falava, uma vez que levei cerca de trinta segundos a encontrar o comando e mudar de canal. Uma overdose não é uma dose grande, mas sim uma dose excessiva. Neste caso, foram trinta segundos.
Depois de aqui ter deixado Andrew Bird com uma versão de um tema do famoso sapo Cocas (Kermit), deixo agora uma versão de um tema dos Queen na voz dos marretas (The Muppet Show).
Há um blogue que poucas vezes me falha nas sugestões musicais que faz. ~Smansmith (assim mesmo, com o ~) é um canadiano que partilha com os seus leitores a música de que gosta. Slowcoustic diz quase tudo da sonoridade que por lá se pode encontrar.
Desta vez, destaco aqui Matthew Ryan com o tema Some streets lead nowhere, do seu mais recente álbum Dear Lover.
Que é praticamente o mesmo que Kermit, o sapo, cantava no original It’s not easy being green. O marreta deste tema é presença constante nesta página. O sempre genial Andrew Bird.
[O original pode ser encontrado facilmente no youtube.]
Raul Meireles está para muitos adeptos do FC Porto como o aluno de nota cinco está para muitos professores. Quando se ficam pelo quatro, são chamados à atenção. Ainda que ao companheiro de carteira, aluno de nota dois, nada se diga.