Bom dia. Boa semana.

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Uma espera sem propósito 

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Amor natural

Lamento, poesia, ainda não foi desta. Lamento, Drummond. Voltei a esbarrar com estrondo num género que nunca me foi fácil. Há, neste Amor natural, umas quantas linhas de que gosto, mas pouco mais. O erotismo dos poemas aqui reunidos também não ajuda – muito pelo contrário. Não consigo dizer muito mais: por um lado, não entendo o suficiente para dizer que é bom ou mau; por outro lado, não gostei o suficiente para dizer sequer “experimentem”.
A poesia que me desculpe. Carlos Drummond de Andrade que me desculpe. A culpa é só minha. Estranhamente, gosto de uma prosa poética, com preocupações rítmicas e sonoras, mas quase nunca alcanço a satisfação na poesia pura e dura.

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Meios de exploração social

Não sacudamos a água do capote: a culpa é muito – se não toda – nossa.

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Bom dia. Boa semana.

Tem que ser. Os portugueses sabem ajudar quem precisa e sabem respeitar a memória dos que motivam este luto. Sempre solidários. Hoje, é isto que importa. Depois, quando alguma calma puder pousar sobre o país, sejamos determinados e realmente interessados em preparar o futuro para situações como a que agora vivemos e que, com maior ou menor gravidade, se vão repetindo anualmente. A floresta precisa de ser repensada e ordenada. Os meios de combate aos incêndios têm que ser reforçados e, mais do que isso, devidamente valorizados e incentivados. Não podemos viver de heróis pontuais.

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É assim que a perdes

O meu primeiro contacto com Junot Díaz deu-se com A breve e assombrosa vida de Oscar Wao e, na altura, foi uma agradável surpresa. Voltar à sua escrita era uma questão de tempo. Neste É assim que a perdes, o autor dominicano não desilude, apresentando um conjunto de narrativas que não consigo catalogar como contos, porque, mais do que ligadas entre si, me parecem resultar num todo que é maior do que a soma das partes. Os personagens são alguns, mas o essencial volta a ser a exploração da identidade dominicana, das suas ligações à terra natal, dos estereótipos, da inserção numa cultura nova, num país diferente em tudo, como bastam as temperaturas para o provar. É sobre isto e sobre as muitas formas de amor. Tudo narrado de forma simples, muito directa e honesta, sem “embelezamentos” demasiado artificiais. Já não surpreende, porque conhecer Oscar Wao elevou expectativas, mas volta cativar. Vale a pena a leitura e vale a pena continuar atento a Junot Díaz.

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Bom dia. Boa semana.

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Anatomia de um soldado

Harry Parker esteve no Afeganistão como soldado, pisou o que todos fazem por evitar e trouxe uma história dura de contar. Passar de uma vivência deste calibre, desta intensidade, para a escrita de um romance não é tarefa fácil. Parker pega na sua experiência com pinças e, num exercício de originalidade, faz dos objectos que o rodearam narradores. Talvez seja por essa razão, pela natureza exclusivamente material desses objectos, que o relato sai algo frio e nunca chega ao excesso de sentimentalismo, conseguindo, ainda assim, transportar o leitor para as incertezas do campo de batalha e para as angústias hospitalares. Temos então uma história de guerra, de aceitação e de recuperação contada por uma mochila, um capacete, um saco de soro ou uma prótese, por exemplo. Por esta particularidade, pode demorar-se um pouco a entrar no registo narrativo, mas acaba por ser uma abordagem original e que serve relativamente bem o propósito da obra. Anatomia de um soldado acaba por ser uma leitura interessante e uma boa estreia de Harry Parker no romance.

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Bom dia. Boa semana.

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A grande guerra mundial

Separo pilhas de roupa com as mãos enluvadas. A roupa suja é trazida por enfermeiras, quase todas negras. Nunca vejo os doentes; só os conheço pelas manchas e marcas que deixam nos lençóis, o alfabeto de doentes e moribundos. Muitas vezes as nódoas são demasiado profundas, e esses lençóis vão para um cesto à parte. Uma das raparigas de Baitoa diz que ouviu dizer que tudo o que está nesse cesto vai para a incineradora. Por causa da sida, sussurra. Às vezes as manchas são velhas e cor de ferrugem, outras vezes o sangue tem um cheiro cortante como a chuva. Quem visse todo o sangue que a gente vê, pensaria que há uma guerra no mundo lá fora. Há uma guerra, mas é apenas dentro dos corpos, diz uma das raparigas.

Junot Díaz, É assim que a perdes

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Prato do dia

Prato do dia. Acabado de sair. Fala em risoto – e em outros assuntos de importância semelhante – e deixa água na boca para o que pode aí vir.

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SG Gigante

A história do Sr. José mistura-se um bocadinho com a história de muita gente da minha geração. Gente que cresceu à volta de um bar de praia que quase nunca precisou de nome próprio. Emprestava-o o Sr. José. Entre a praia, a esplanada e as redes de vólei, vivia-se por ali – a minha mãe não devia ser a única a dizer que só lá me faltava dormir. Era assim no Verão, essencialmente, mas também era assim quando as outras estações do ano faziam uma graça. O Sr. José fazia tanta falta que, no Inverno, mesmo em dias pouco convidativos, alguns de nós aproveitávamos o dia de receber fornecedores para irmos matar um vício que não era de cafeína. Nesses dias, só a porta se abria. Fazíamos por caber no interior do bar, encostados à arca de gelados, a ler o jornal desportivo e a conversar sobre tudo, quando sobrava tempo entre os assuntos da bola. O Sr. José sabia receber. Sabia ouvir. Sabia aconselhar. Sabia brincar. Sabia cativar. O Sr. José desviou-nos de coisas que andavam ali ao lado. O Sr. José foi um bom amigo dos nossos pais. Ninguém pense que não pintámos a manta, que nunca nos excedemos, mas foram daqueles excessos da idade, daqueles que qualquer pai está pronto para aceitar, com maior ou menor rispidez, como experiência de crescimento. Crescemos ali. E o Sr. José puxava de um SG e fazia-nos sentir gigantes. Não vamos saber agradecer o suficiente. “Obrigados”.

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Bom dia. Boa semana.

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Ficheiros pouco secretos

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Venezuela

Sou português, nascido no Porto, crescido na Aguda e a envelhecer em Matosinhos. Sou quase tudo daqui, deste rectângulo com varanda para o Atlântico, mas moram em mim mais dois países, um que nunca pisei, nas quentes terras africanas, e outro por onde gatinhei, num canto latino voltado para as Caraíbas. Do primeiro, Angola, enchi-me de memórias e paixões familiares. Histórias maravilhosas de um território tão próspero que parecia nascido do verbo dar. Do segundo, a Venezuela, trouxe na bagagem palavras que acabei por transformar e que só mais tarde percebi de onde vinham. Também daí me enchi de boas histórias familiares. Algumas que, por muito que me incluam, não consigo ter como minhas, tão cedo de lá regressei. Em todas, no entanto, mesmo nas melhores, nas mais felizes, arrastam-se palavras que não foram ditas ou escritas. Cuidado. Cautela. Atenção. Essas palavras que, no fundo, me fizeram voar para fora da asa materna. Cuidado. Cautela. Atenção. Vim ter com a abuelita e o abuelito que, deste lado, passaram a ser só balita e balito. Aportuguesei as palavras e fiz do meu fado seguinte olhar para o céu. De fralda, sentado no degrau cimeiro da casa dos meus avós, à procura do avião que traria os meus pais. Cuidado. Cautela. Atenção. Nessa altura, a Venezuela não era só um conto de misses. Nem hoje.
A atravessar uma crise política que já está marcada a sangue, o país mostra que não está maduro. O que lá se vive – e que me toca de forma algo especial – deve ser visto nas fotografias reunidas no sempre brilhante The Big Picture, do The Boston Globe. Não há melhor forma de contar as coisas. Cuidado. Cautela. Atenção. A Venezuela tem que largar estas palavras.

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O Papalagui

O Papalagui reúne discursos de um chefe de uma tribo de Tiavéa, na ilha samoana de Upolu, sobre o europeu ou, de forma mais genérica, a civilização. Com simplicidade indígena, são levantadas questões em que facilmente nos revemos e para as quais nem sempre temos uma resposta que possamos considerar muito boa. É assim e pronto. O chefe Tuiavii estranha os hábitos europeus em relação ao vestuário e ao que do corpo se pode revelar, questiona o tipo de habitação em que o europeu se fecha, o valor que se atribui ao dinheiro e à posse de todo o tipo de bens. Para o chefe da tribo, o meu é uma novidade. Aborda-se ainda, nos breves textos reunidos em O Papalagui, a relação difícil do homem europeu com o tempo, que prendeu em utensílios que o dividem em dias, horas e minutos.
Sem grandes pretensões literárias, até para não ferir a origem dos textos, este é um livro que se lê bem entre outros de maior fôlego, sem deixar de ter o seu interesse.

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Bom dia. Boa semana.

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Tantas mães numa mãe 

Esta era a Lena de Carmona e do Negage. Uma Lena que era menina, era Maria e era rapaz. A Lena das bicicletas e da motas, dos joelhos esfolados e das pernas cheias de nódoas negras. A Lena que subia às árvores e, sem saber, tomava banho junto aos crocodilos. A Lena que, na sala de aula, ficava na carteira em frente à do professor e que, mesmo assim, ainda arranjava tempo para orquestrar todos os outros colegas. A Lena que ia ter motorista, cozinheira e empregados, que não precisava de aprender as lides domésticas. A Lena de hoje é outra. Já foi mãe à distância, à força de lágrimas e resistência. Aproximou-se para ser mãe presente. De dois filhos. Dispensa cozinheira, dispensa motorista. Ironia do destino, a Lena de hoje é a Professora Helena, mãe de muitos filhos que não são seus. E de filhos desses filhos. A Lena também é avó, que todos sabemos que corresponde a ser mãe duas vezes. A Lena de hoje resiste como resistiu sempre e é, por estes dias, mãe da mãe.

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