Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói só era preciso ser bravo por um momento – quando puxávamos da pistola, lançávamos a bomba, carregávamos no detonador, eliminávamos o tirano e a nós também. Mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar.

Julian Barnes, O ruído do tempo

Emprego de longa duração

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Bom dia. Boa semana.

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História sem fim

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Microcosmos [a joelhada]

Ainda não eram seis da manhã quando o joelho, batedor do caminhar humano, embateu violentamente contra o banco corrido dos balneários. A imobilidade dos móveis será sempre um perigo para a mobilidade inerte de um homem ensonado.

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Revista de imprensa

No sábado, ao fazer a revista de imprensa, espreito mas evito megulhar, o lago está demasiado poluído. Entre várias indecências noticiosas, encontro Gentil Martins a nadar contra a sua própria inteligência, um homem incapaz de compreender o seu molde, a afundar-se pela tardinha na intolerância.

António Reis, em portográfico.

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Bom dia. Boa semana.

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Instórias #19

Nascida das preocupações do membro do parlamento britânico que lhe deu o nome, a linha de Plimsoll permanecia esquecida para Alfredo, que, silenciosamente, pintava as marcações do calado do navio. Samuel Plimsoll, o tal membro do parlamento britânico, preocupava-se com o possível excesso de carga dos navios e com a forma de identificar facilmente essa situação. Alfredo, por sua vez, carregava um excesso de escassez. Ordenado mínimo. Um emprego numa casa de quatro. Um quarto. Uma mesa com avisos de corte de luz e de água. Meia dose feita dose familiar. Os livros escolares a chegarem atrasados à sala de aulas, apesar da pontualidade dos miúdos. Contar o que falta para o final do mês assim que o mês começa. Samuel Plimsoll nunca terá tido as preocupações de Alfredo, que, bem vistas as coisas, tinha que fazer mais do que o navio para se manter acima da linha de água.

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Microcosmos [o nascimento]

Naquela noite, na mesma sala de parto, da mesmíssima barriga, nasceram, sem que fossem gémeos, o João, a Sandra e o Ricardo.

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Manhã submersa (mais uma)

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Bom dia. Boa semana.

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Um absurdo cheio de graça

A primeira vez que ouvi falar de Grace VanderWaal (obrigado, Mariana), já ela tinha vencido o America’s Got Talent. Até aqui, tudo bem. O que realmente me surpreendeu foi perceber que essa vencedora era uma menina de doze anos… a cantar originais seus. Aquilo que ouvi deu-me a certeza de estar perante um daqueles raros casos de genialidade. Tudo me impressionou: as letras, as composições, a postura e o domínio de uma voz imperfeita. De ukulele, todas as actuações que lhe vi – e vi-as todas de seguida – foram dignas de espanto. Nessa altura, percebi que havia uma menina que, aos doze anos, podia fazer daqueles álbuns que eu era capaz de querer comprar. Recentemente, dei com a pequena Grace numa adorável sessão da Paste Magazine e, desde então, as palavras dela não me têm saído da cabeça. É, realmente, uma menina que não joga pelas regras do jogo, como nos canta numa viciante e já tornada viral I don’t know my name. É um talento de uma precocidade absurda. Que o futuro não a molde a ideias que não são dela, como nos parece garantir em Clay. Grace VanderWaal tem um canal de Youtube com vídeos muito adequados à sua sonoridade e já tem o seu primeiro EP, Perfectly Imperfect, à venda, mas vou deixar que procurem tudo isso depois. Por agora, recuemos um ano, à raíz do que aqui me trouxe:

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Microcosmos [o bibliófilo]

Em conversa, à mesa, todos iam enumerando o que já tinham lido. Já li isto, já li aquilo, já li fulano e sicrano. Todos, menos o bibliófilo, que dizia sempre o muito que lhe faltava ler.

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Todos os nomes

Na hora de largar um livro a meio, não dá para olhar a nomes. Comigo, já aconteceu a Thomas Pynchon, a Saramago, a Don DeLillo e até ao meu tão estimado António Lobo Antunes, por exemplo. Isso não diz mal deles ou dos seus livros. Dirá mais dos meus momentos. A Cuba de Cabrera Infante, em Mapa desenhado por um espião, não estava a alhear-me dos dias verdadeiros, como eu gosto que aconteça com a literatura. Mais tarde ou mais cedo, é possível que lá volte. Por enquanto, confio os próximos dias a Julian Barnes. O ruído do tempo se encarregará de dizer se foi uma escolha acertada.

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Bom dia. Boa semana.

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#nuncamaiséversão

Ainda o Verão estava a alguma distância, iniciei uma brincadeira que consistia em ir partilhando, sem qualquer tipo de agenda, uma versão de uma música. Aconteceu no facebook e juntou abordagens muito variadas – das mais fiéis ao original às mais inventivas. O registo fazia-se com a hashtag #nuncamaiséversão e foi interrompido precisamente com o início do Verão. Ficou nas trinta e seis entradas, mas o feedback foi tão engraçado e surpreendente que me deixou com vontade de retomar a brincadeira lá por altura da próxima Primavera.
Enquanto tal não acontece, fica o resumo da primeira temporada:
.1 Chet Faker – I want someone badly (Jeff Buckley)
.2 Devendra Banhart – Don’t look back in anger (Oasis)
.3 Sampha – Nothing compares (Sinéad O’Connor)
.4 Lianne La Havas – Say a little prayer (Aretha Franklin)
.5 Daughter – Perth/Ready for the floor (Bon Iver/Hot Chip)
.6 Aloe Blacc – Billie Jean (Michael Jackson)
.7 Ben Harper – Purple Rain (Prince)
.8 Slow J – Menina estás à janela (Vitorino)
.9 Cat Power – Remember me (Otis Redding)
.10 Prince – Creep (Radiohead)
.11 Father John Misty – Heart shaped box (Nirvana)
.12 Lizbet Sempa – Seasons (Future Islands)
.13 Minta & The Brook Trout – Walk like an Egyptian (The Bangles)
.14 Antony and The Johnsons – Crazy in love (Beyoncé)
.15 James Vincent McMorrow – West coast (Lana Del Rey)
.16 Andrew Bird – Stand by me (Otis Redding)
.17 Birdy – Bird Gehrl (Antony and The Johnsons)
.18 Samuel Úria – Setembro (José Alberto Reis)
.19 Piers Faccini – Who by fire (Leonard Cohen)
.20 Nina Simone – Ne me quitte pas (Jacques Brel)
.21 Marcus Mumford & Justin Hayward – Like a Hurricane (Neil Young)
.22 Slow J – Não me mintas (Rui Veloso)
.23 Gregory Alan Isakov – The trapeze swinger (Iron & Wine)
.24 José González – This is how we walk on the moon (Arthur Russel)
.25 Idyl – Lost on you (LP)
.26 Glenn Hansard (Eddie Vedder/Jake Clemons) – Drive all night (Bruce Springsteen)
.27 The Staves & Justin Vernon – Jolene (Ray LaMontagne)
.28 Paolo Nutini – Don’t let me down (The Beatles)
.29 Johnny Cash – Rusty Cage (Soundgarden)
.30 M. Ward – Let’s dance (David Bowie)
.31 Ray LaMontagne – Crazy (Gnarls Barkley)
.32 Mac Demarco – It’s gonna be lonely (Prince)
.33 Devendra Banhart – Fistful of love (Antony and The Johnsons)
.34 St. Paul & The Broken Bones – I’ve been loving you too long (Otis Redding)
.35 Tiago Bettencourt – Canção de engate (António Variações)
.36 Willie Nelson – Summertime (Ella Fitzgerald)
Para o ano, queira a memória e a disponibilidade, terei este resumo para saber onde retomar o exercício. Novamente sem agenda definida e novamente até ao Verão.

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Bom dia. Boa semana.

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Uma espera sem propósito 

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Amor natural

Lamento, poesia, ainda não foi desta. Lamento, Drummond. Voltei a esbarrar com estrondo num género que nunca me foi fácil. Há, neste Amor natural, umas quantas linhas de que gosto, mas pouco mais. O erotismo dos poemas aqui reunidos também não ajuda – muito pelo contrário. Não consigo dizer muito mais: por um lado, não entendo o suficiente para dizer que é bom ou mau; por outro lado, não gostei o suficiente para dizer sequer “experimentem”.
A poesia que me desculpe. Carlos Drummond de Andrade que me desculpe. A culpa é só minha. Estranhamente, gosto de uma prosa poética, com preocupações rítmicas e sonoras, mas quase nunca alcanço a satisfação na poesia pura e dura.

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Meios de exploração social

Não sacudamos a água do capote: a culpa é muito – se não toda – nossa.

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Bom dia. Boa semana.

Tem que ser. Os portugueses sabem ajudar quem precisa e sabem respeitar a memória dos que motivam este luto. Sempre solidários. Hoje, é isto que importa. Depois, quando alguma calma puder pousar sobre o país, sejamos determinados e realmente interessados em preparar o futuro para situações como a que agora vivemos e que, com maior ou menor gravidade, se vão repetindo anualmente. A floresta precisa de ser repensada e ordenada. Os meios de combate aos incêndios têm que ser reforçados e, mais do que isso, devidamente valorizados e incentivados. Não podemos viver de heróis pontuais.

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