Alentejo

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Breves notas sobre as ligações 

Depois da leitura de Breves notas sobre ciência, foi sem hesitar que peguei neste Breves notas sobre as ligações. Só que o que no primeiro caso era simples e, ao mesmo tempo, estimulante, no segundo é complexo e cansativo. O livro usa como alavanca do pensamento as obras de María Zambrano, Maria Filomena Molder e Maria Gabriela Llansol, mas não conseguiu, sequer, despertar a minha curiosidade pelas mesmas. As Breves notas sobre ciência são como um passeio ligeiro, sem grande dificuldade, com destino a um lugar agradável; as Breves notas sobre as ligações são como um penoso passeio por terrenos íngremes, com destino a um lugar que pouco tem para se ver ou sentir.
Gonçalo M. Tavares já me habituou a conseguir retirar lições profundas de coisas aparentemente simples, mas desta vez embrenhou-se na complexidade para trazer pouco mais de um punhado de ideias que me interessaram e me foram possíveis de reter. O muito de dispensável que encontrei nestas notas espero encontrar de interessante, um dia destes, quando me decidir aventurar nas Breves notas sobre o medo.

 

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Os olhos tornam-se terríveis quando nada há para ver. Como a arma guardada na gaveta, perigosamente.
O perigo dos órgãos encostados pela circunstância à inutilidade. Aguardam e afirmam o ódio. Os olhos, no tédio, quando nada há para ver (quando o visível é apenas uma repetição), tornam-se diabólicos.

Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre as ligações

Ensaio sobre outra cegueira

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Quase divino

[O tempo para filmes não é o que era, mas para Wish i was here, para o qual este tema foi criado, hei-de arranjá-lo. Ou não fosse este um filme do realizador de Garden State.]

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… quem declarou que se aprende até à morte conhecia os factos da vida, não me recordo do nome desse filósofo, ou antes, nunca o soube, é provável que um grego antigo dado que as verdades mais profundas vieram em enxame de lá, o quadrado da hipotenusa igual à soma do quadrado dos catetos indesmentível depois de um grego a enunciar, da mesma forma que um corpo mergulhado num líquido sofre da parte desse líquido um impulso vertical de baixo para cima idêntico ao volume do líquido deslocado, outra evidência, não conheço analfabeto que não saiba isso de cor, é o tipo de noção que nasce automaticamente com as pessoas e, no entanto, foi um grego quem a divulgou, a cultura é feita de lugares comuns como a história das paralelas que se encontram no infinito…

… só o quadrado da hipotenusa, pelo menos a mim, impressiona-me, a majestade das palavras que esmaga e a harmonia entre hipotenusa e cateto que perfeição, reparem na maneira como as sílabas se sucedem, é por estas e por outras que merece a pena estar vivo e não necessito de recorrer à soma dos quadrados para sublinhar o que afirmo…

… um corpo mergulhado num líquido sofre da parte desse líquido é bem esgalhado e o verbo sofrer excelente, um toque de humanidade no pensamento matemático…

António Lobo Antunes, Da Natureza dos Deuses

A ciência da escrita de Lobo Antunes

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📖 2

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A cruzada das crianças

A cruzada das criançasEm mais uma incursão pela literatura infantil de Afonso Cruz, chego a este A cruzada das crianças, livro em formato de guião de teatro. Com o título “roubado” a um episódio da história muito estudado e fabulado, esta breve peça parte do princípio de que só a inocência, a pureza e a pouca acomodação das crianças colocarão, num mundo demasiado formatado pela idade adulta, as perguntas certas para podermos salvar o mundo. Duas crianças, uma de sete e outra de nove anos, lideram um exército infantil, que conduzem seguindo as indicações das suas inquietações. As respostas adultas resultarão muitas vezes em apreensão e espanto por parte dos mais novos. Questiona-se a exagerada distância entre os lugares e a existência de demasiados espelhos, por exemplo. Questiona-se o valor atribuído ao dinheiro. Questiona-se a idade para certa para intervir, para ser voz activa na sociedade. Dizer mais é desvendar em demasia o que pode ser uma agradável experiência de leitura. As ilustrações, condizentes com o registo do livro, são de André Letria. Há ainda uma série de fotografias que merece atenção.
É um livro tão engraçado e interessante que estou tentado a desafiar alguns professores que conheço a adaptarem a peça nas suas festas escolares. Pode ser que, passada a palavra, consigamos resgatar aquele bocado infantil que nunca devíamos ter perdido e que tanta falta faz por estes dias.

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… eram dois pratos na mesa, a minha mãe
– Põe aí o do teu pai sempre faz companhia
e, até hoje, o prato do meu pai ali, sem comida mas ali, uma questão de companhia, pode sempre imaginar-se que daqui a momentos chega e, além disso, há hábitos que custam a abandonar…

António Lobo Antunes, Da Natureza dos Deuses

Uma questão de companhia

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Trio admira

Os amigos são para sempre, a coreografia é para enfrentar o início da semana.

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Instórias #17


Deixa-me que te diga que a amizade é muito bonita, mas não chega. E, se não chega, a culpa é toda tua. Pensando bem, talvez não toda, mas grande parte garanto que é. A amizade é muito bonita e já houve alturas em que me bastava. Só que depois crescemos e os olhos passaram a deter-se em coisas em que antes mal reparavam, os ouvidos a entenderem as coisas que vêm escondidas nas palavras e nos silêncios e o nariz a começar a compreender o que é a saudade, a que cheiram as ausências. Sobre as mãos não te queria falar, porque as mãos ganharam vontades de que me envergonho. Mas é só contigo que isso acontece, portanto a culpa não pode ser minha, a culpa é tua. Talvez não toda, mas grande parte. Porque se as minhas mãos mudaram, eu mudei, mas mudei porque também tu mudaste. As minhas mãos mais vontades porque, ao crescer, o teu corpo mais apelos. E talvez o meu corpo reconheça a amizade que temos e apenas queira ser simpático, talvez só não queira dizer que não. Desculpa se te entendo mal, desculpa se o meu corpo não se entende com o teu, mas se isso acontece também a culpa é tua. Ou do teu corpo, que fala por meias palavras, que não termina os gestos. A amizade é muito bonita e já houve alturas em que me bastava. Só que depois crescemos e a amizade é coisa sem tamanho, não há amizade grande ou amizade pequena, é amizade e ponto, não cresce consoante nós crescemos. Portanto, deixa-me que te diga que a amizade já não chega.
Neste momento, mais do que deixares que te diga o quer que seja, falta-me ganhar coragem para o conseguir fazer. Por enquanto, o frio aperta e o teu corpo segue-lhe o exemplo, junta-se ao meu, e eu sem arriscar perguntar se essa aproximação significa só frio ou mais do que isso. Enquanto não ganho coragem para te dizer que a amizade já não chega, aceito que o teu corpo se aperte contra o meu e espero que o Inverno se demore.

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A contradição humana

A contradição humana Mais juvenil do que infantil, A contradição humana é um livro interessante para despertar o pensamento, com questões quotidianas, ligeiras e muito engraçadas. Graficamente muito apelativo, lê-se e vê-se em minutos, mas fica-se a apreciar durante mais algum tempo, num processo semelhante ao que se dá com o café, que, depois de tomado, se vai revelando numa escala de sabores e aromas diferentes até que, quando deixa de se fazer notar, já há muito esquecemos o gesto de o tomar.
Este é mais um dos livros que quererei dar a ler aos meus filhos. Para nos divertirmos e para, como já referi acima, abrirmos os horizontes do pensamento.

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O diamante mais caro do mundo

É notícia em diversos órgãos de comunicação, a compra do diamante mais caro do mundo num leilão privado da Sothebys. Dizem que foi encontrado no Botswana. Dizem que tem 813 quilates. Dizem que custou 63 milhões de dólares (mais de 50M€), mas sabendo que a empresa compradora pertence, maioritariamente, a Isabel dos Santos, é caso para dizer que custou mais do que isso. Mais do que dinheiro. Tem custado Angola. E, no entanto, tudo parece normal.

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📖 1

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#capaspossíveis

A ideia nasceu com tempo contado, já que foi pensada para o instagram stories. Só que o exercício acabou por me interessar mais do que era previsível e ficou difícil aceitar a volatilidade das vinte e quatro horas, pelo que as #capaspossíveis passarão a ser publicadas também aqui. O conceito é fotografar o que, por qualquer motivo, possa lembrar um determinado livro e preparar uma possível capa para o mesmo. Acontece tudo no telemóvel, da fotografia à edição do texto. Acontece tudo no espaço máximo de um dia, da captura da fotografia à publicação.

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Teoria geral do esquecimento


Teoria geral do esquecimentoJosé Eduardo Agualusa aborda, neste romance, a estranha história de Ludovina, uma portuguesa que foi viver para Angola e que, por episódios traumáticos por que havia passado, deixou de sair à rua, vivendo isolada no interior de um apartamento, na companhia da irmã, do cunhado e, posteriormente, de um cão. O país havia de entrar num conhecido e violento processo de independência, responsável pelo regresso de muitos portugueses e por elevado número de mortos, mas Ludovina por lá se manteve, isolada do que se vivia, a sobreviver. Agualusa tomou conhecimento da história dessa mulher e teve acesso a alguns textos seus, mas faz questão de salientar, em nota prévia, que Teroria geral do esquecimento é ficção. Talvez por ter sido inicialmente pensada e estruturada para cinema, a narrativa está muito bem ligada e segue-se com facilidade. Curioso retrato social de uma época – pela perspectiva de Ludovina – e exercício interessante sobre a resistência humana e os limites do medo. Com uma escrita simples e uma história bem contada, é livro para se ler de uma assentada e ficar com vontade de conhecer melhor a obra do autor.

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(l)ergonomia

#1 – Raquel

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Breves notas sobre Ciência

Breves notas sobre CiênciaGonçalo M. Tavares não consegue deixar de inquietar quem o lê, seja no formato de romance ou de umas breves notas. Neste pequeno livro, o autor debruça-se sobre a ciência, a metodologia e as respostas. Debruça-se ainda sobre a verdade e a mentira com particular interesse e pertinência. Por muito que cometa alguns excessos – ou precisamente por cometer esses excessos -, conduz-nos a questões ao mesmo tempo simples e fascinantes. Breves notas sobre Ciência é um livro que se lê num par de horas e que vale a pena. Por estimular o pensamento e a abertura de espírito. Por incentivar a que se questionem as mais unânimes convenções. Por tirar o leitor da posição de mero leitor.

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Rearranjo molecular

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A sétima porta

A sétima porta foi o meu primeiro contacto com a escrita de Richard Zimler, autor de sucessos de vendas como Os anagramas de Varsóvia ou O último cabalista de Lisboa. Sabia, à partida, que ia entrar num registo de ficção histórica com inclinições para algum misticismo. Tardei em entrar verdadeiramente no livro, mas quando isso aconteceu, a leitura acabou por ser agradável. A Zimler interessa a história, a acção propriamente dita, interessa que o leitor fique preso aos desenvolvimentos da trama, daí que não se note um grande trabalho na escolha das palavras, nos artifícios usados – há metáforas, com um intervalo de páginas relativamente pequeno, a fazerem referência a estradas infinitas e a becos sem saída, por exemplo – ou na sonoridade das frases. O importante, no que este A sétima porta  dá para perceber da escrita de Richard Zimler, é que o leitor tenha necessidade de saber o que vem depois. E, nesse aspecto, o autor que se naturalizou português é muito competente. Algumas personagens são exageradamente invulgares, mas até isso acaba por resultar bem numa ficção que se debruça sobre um tema tão duro e difícil de compreender como a Europa dos tempos de Hitler. As questões mais místicas, com raízes no judaísmo, foram as que menos atenção me despertaram, mas admito que possam, para quem por elas se interessar, elevar o livro a outro patamar. Resumindo, uma leitura que demorou a apanhar o ritmo, mas que se revelou interessante.

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Instórias #16

O ballet vem desde onde vêm as minhas mais longínquas lembranças de passado. Comecei a dançar tão cedo que não me recordo de nada que lhe seja anterior. Soube mais tarde que comecei por iniciativa da minha mãe, o que tem lógica, porque nem iniciativa me lembro de ter naquela altura. Na cabeça da minha mãe devia viver aquela imagem que se repete pela cabeça de muitas outras mães: a menina franzina de tutu, o mais próximo que deve haver daquelas pequenas mas vistosas caixinhas de música, dá-se corda rrrrrc, rrrrrc, rrrrc com cuidado e é desse cuidado que ganha vontade e rodopia a pequena bailarina, muito segura, plim, plim, tilim tim, sobre um minúsculo palco pintado a flores. À primeira hesitação da bailarina, anuncia-se o fim da música e do movimento. É preciso dar novamente corda. Como a que me deu a minha mãe com a sua iniciativa. Só que eu, por muito que tenha hesitado, nunca mais parei.
jeté, plié, soutenu, voleé
Ainda não dominava o português e já sonhava em francês. O corpo a exprimir-se numa língua que a cabeça não compreendia.
arrondi, glissé, lié, tendu
E foi por esta facilidade de expressão que me era inata que a paixão cresceu e do passatempo quis fazer todo o tempo, porque era a dançar que eu mais dizia de mim e melhor me conhecia. Só que foi precisamente nesse momento que a minha mãe deixou de achar piada ao ballet. Que não é futuro, que não dá de comer, que não dá estabilidade.
– E filhos?
Como se a minha vida estivesse definida antes mesmo de eu a viver. Vou para o ballet porque ela acha piada, não vivo do ballet porque ela acha que não é vida, porque até já decidiu que devo ter filhos. Que eu tinha notas boas, que podia ser o que quisesse. Ou quase, porque bailarina parece que não podia. Só que a corda que a minha mãe me deu quando achou piada ao ballet não tem como me acabar e lá lhe consigo dizer, muito segura, como a pequena boneca da caixinha de música, que não queria outra coisa.
Passaram-se muitos anos e esgotaram-se as tentativas de explicar à minha mãe que queria ser bailarina, que ia mesmo ser bailarina, que o que começou pela imagem a que ela achava piada, à menina de cabelo apanhado e engraçadas sapatilhas que acabam sem aviso antes de chegar à ponta, é agora a minha vida. Até que um dia percebo que estou a usar as palavras erradas e arranjo bilhetes e quem a arraste para a primeira fila da sala de espectáculos em que ia dançar. Chorou e sorriu-me desde o primeiro quarto de hora. Entendeu-me. No final, tudo o que me disse foi um abraço. Porque o corpo diz melhor aquilo que à boca é difícil dizer.

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