Microcosmos [a vaidade]

Reparou nela porque vestia impecavelmente o corpo. Desistiu dela quando ouviu que às palavras vestia um qualquer trapo.

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A engrenagem dos dias

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Microcosmos [o tipo]

Enquanto esperava para pagar, na livraria, duas jovens insistiam em fazer-se ouvir.
– Tipo, adoro as capas da Tinta da China. São as melhores. – É. – Olha para esta! Mas, tipo, para quem já está a ler quatro livros, é capaz de ser exagero.
Só não saiu a correr sem pagar porque à porta estava, encorpado, o tipo da segurança.

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Os sete loucos

Arrancar para um livro carregado de expectativas é, quase sempre, desaconselhável. Quando entre essas expectativas se encontram comparações com Dostoiévski, ou a paternidade da literatura moderna argentina, o fardo fica pesado. Foi precisamente por essas razões que este Os sete loucos não me conseguiu surpreender. Há, de facto, alguma coisa de Crime e Castigo neste livro, na descrição dos estados de espírito das personagens, na gestão dos seus conflitos interiores. Só que o que Arlt procura fazer, Dostoiévski faz como quem respira, naturalmente e sem excessos. Há, também, alguma coisa de Viagem ao fim da noite, no retrato negro que é feito do homem. Só que Céline não esconde o que quer que seja na loucura, é impiedoso, e o seu livro resulta mais intenso, mais desafiador. Roberto Arlt escreve uma história interessante e que tem a curiosidade de quase prever a revolução argentina, mas que continua a ter o seu mérito maior em ter sido influência de autores que se lhe seguiram, como Borges ou Cortázar. Só por isso, e apesar do que ficou por provar, estava justificada à partida a leitura deste Os sete loucos.

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Microcosmos [a biblioteca]

Vi, de cá de fora, as luzes da biblioteca a apagarem-se – os segundos que antecederam esse momento pareceram-me de espera. Senti que lá dentro, nesse instante, a biblioteca se abria e as personagens de todas as histórias  conviviam entre si. Talvez isso explique que o mesmo livro, lido em diferentes alturas, possa parecer outro livro.

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Microcosmos [a barba]

Nunca soube justificar o porquê da barba, até o filho de um ano ter adormecido a puxá-la.

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Microcosmos [o fim-de-semana]

O fim-de-semana chega como o jovem jogador que se estreia na equipa principal aos oitenta minutos, uma perna a tropeçar na outra de ansiedade, vontade de fazer tudo naqueles escassos minutos. O jogo acaba e pode até ter feito dois golos, ficará sempre com a sensação de que podia ter feito mais.

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Microcosmos [o vocabulário]

Foi ao consultar o dicionário, para procurar o significado de uma palavra, que percebeu a maravilha infantil da procura das palavras para o que há de mais insignificante.

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O Homem, que já inventou tudo, não foi capaz de criar uma forma de governo que supere os princípios de um Cristo, de um Buda. Não. Naturalmente, não discutirei o direito ao cepticismo, mas o cepticismo é um luxo de minoria… aos outros será servida a felicidade bem cozinhada, e a Humanidade engolirá, satisfeita, a divina bazófia.

Roberto Arlt, Os sete loucos

Uma espécie de felicidade

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Jeff Buckley

Dos que precisaram de pouco tempo para alcançarem o para sempre.

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Microcosmos [a madrugada]

As gaivotas acordam cedo, mas permitem às asas um sono maior, enquanto, no chão, se alimentam do descanso dos homens.

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Microcosmos [a fé]

À força de tantas vezes erguer os braços ao céu para nada colher, lançou-os à terra para semear.

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Têm nome de homem, são três irmãs, duas delas gémeas e uma delas gira

No título, faltou acrescentar que são melhores do que os Hanson.

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Escrever um clássico

Acordou cedo, com a ideia antiga de escrever um livro, como acontecera tantas outras manhãs. Era, portanto, uma ideia repetida. Que um dia este se tornasse num clássico já não era bem uma ideia, mas um sonho que às vezes não ficava na almofada. Não sei se fruto da vontade com que acordou, dormiu já com um pé fora da cama. Assim que arrancou o outro pé à noite subterrânea dos lençóis, dirigiu-se à secretária para apontar meia dúzia de tópicos. A primeira forma de um rascunho. Durante esse dia, acabou por passar algumas horas sentado à janela branca que era cada folha em que escrevia. O livro já era mais do que apenas uma ideia, era um começo. No dia seguinte, esteve meia hora à secretária e achou que melhores dias viriam. Durante essa semana, voltou a pegar na esferográfica duas vezes, nunca por mais de dez minutos. Daí ao esquecimento passou aproximadamente outra semana. Um clássico.

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Arlt e pára o baile!

Resgato um livro há algum tempo esquecido nas prateleiras. Numa daquelas típicas promessas de contracapa, diz-se que o livro é uma “viagem ao fim da noite” em tons sul-americanos, mas vinte e cinco páginas não chegam para  estabelecer um paralelismo com essa grande obra de Céline. Chegam, isso sim, para descortinar um quê de Dostoiévski. Prometer, promete. Resta que se cumpra.

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O barulho das coisas ao cair

O barulho das coisas ao cair Na televisão de um salão de bilhares passa a notícia do abate de um hipopótamo que escapou do jardim zoológico da Hacienda Nápoles, que havia sido propriedade de Pablo Escobar. E é a partir daqui que o livro arranca. Antonio, protagonista deste O barulho das coisas ao cair, conhece Ricardo e a narrativa avança durante um breve período de tempo, até que os acontecimentos se precipitam de forma incompreensível e, na procura de respostas, o livro passa a debruçar-se sobre o passado e as memórias, criando, ao mesmo tempo, a imagem de uma Colômbia a viver os dias mais intensos do narcotráfico. Acompanhamos, portanto, um país em construção – como refere uma das personagens, chegada dos Estados Unidos da América -, acompanhamos a transformação que esse país opera em cada uma das personagens e acompanhamos ainda a evolução de outra figura omnipresente neste livro: o medo.
O barulho das coisas ao cair, Prémio Alfaguara, revela, sem excessos criativos, Juan Gabriel Vásquez como um escritor que valerá a pena acompanhar.

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