Rearranjo molecular

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A sétima porta

A sétima porta foi o meu primeiro contacto com a escrita de Richard Zimler, autor de sucessos de vendas como Os anagramas de Varsóvia ou O último cabalista de Lisboa. Sabia, à partida, que ia entrar num registo de ficção histórica com inclinições para algum misticismo. Tardei em entrar verdadeiramente no livro, mas quando isso aconteceu, a leitura acabou por ser agradável. A Zimler interessa a história, a acção propriamente dita, interessa que o leitor fique preso aos desenvolvimentos da trama, daí que não se note um grande trabalho na escolha das palavras, nos artifícios usados – há metáforas, com um intervalo de páginas relativamente pequeno, a fazerem referência a estradas infinitas e a becos sem saída, por exemplo – ou na sonoridade das frases. O importante, no que este A sétima porta  dá para perceber da escrita de Richard Zimler, é que o leitor tenha necessidade de saber o que vem depois. E, nesse aspecto, o autor que se naturalizou português é muito competente. Algumas personagens são exageradamente invulgares, mas até isso acaba por resultar bem numa ficção que se debruça sobre um tema tão duro e difícil de compreender como a Europa dos tempos de Hitler. As questões mais místicas, com raízes no judaísmo, foram as que menos atenção me despertaram, mas admito que possam, para quem por elas se interessar, elevar o livro a outro patamar. Resumindo, uma leitura que demorou a apanhar o ritmo, mas que se revelou interessante.

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Instórias #16

O ballet vem desde onde vêm as minhas mais longínquas lembranças de passado. Comecei a dançar tão cedo que não me recordo de nada que lhe seja anterior. Soube mais tarde que comecei por iniciativa da minha mãe, o que tem lógica, porque nem iniciativa me lembro de ter naquela altura. Na cabeça da minha mãe devia viver aquela imagem que se repete pela cabeça de muitas outras mães: a menina franzina de tutu, o mais próximo que deve haver daquelas pequenas mas vistosas caixinhas de música, dá-se corda rrrrrc, rrrrrc, rrrrc com cuidado e é desse cuidado que ganha vontade e rodopia a pequena bailarina, muito segura, plim, plim, tilim tim, sobre um minúsculo palco pintado a flores. À primeira hesitação da bailarina, anuncia-se o fim da música e do movimento. É preciso dar novamente corda. Como a que me deu a minha mãe com a sua iniciativa. Só que eu, por muito que tenha hesitado, nunca mais parei.
jeté, plié, soutenu, voleé
Ainda não dominava o português e já sonhava em francês. O corpo a exprimir-se numa língua que a cabeça não compreendia.
arrondi, glissé, lié, tendu
E foi por esta facilidade de expressão que me era inata que a paixão cresceu e do passatempo quis fazer todo o tempo, porque era a dançar que eu mais dizia de mim e melhor me conhecia. Só que foi precisamente nesse momento que a minha mãe deixou de achar piada ao ballet. Que não é futuro, que não dá de comer, que não dá estabilidade.
– E filhos?
Como se a minha vida estivesse definida antes mesmo de eu a viver. Vou para o ballet porque ela acha piada, não vivo do ballet porque ela acha que não é vida, porque até já decidiu que devo ter filhos. Que eu tinha notas boas, que podia ser o que quisesse. Ou quase, porque bailarina parece que não podia. Só que a corda que a minha mãe me deu quando achou piada ao ballet não tem como me acabar e lá lhe consigo dizer, muito segura, como a pequena boneca da caixinha de música, que não queria outra coisa.
Passaram-se muitos anos e esgotaram-se as tentativas de explicar à minha mãe que queria ser bailarina, que ia mesmo ser bailarina, que o que começou pela imagem a que ela achava piada, à menina de cabelo apanhado e engraçadas sapatilhas que acabam sem aviso antes de chegar à ponta, é agora a minha vida. Até que um dia percebo que estou a usar as palavras erradas e arranjo bilhetes e quem a arraste para a primeira fila da sala de espectáculos em que ia dançar. Chorou e sorriu-me desde o primeiro quarto de hora. Entendeu-me. No final, tudo o que me disse foi um abraço. Porque o corpo diz melhor aquilo que à boca é difícil dizer.

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A vida simples e feliz de uma mulher é um beco sem saída para a outra.

Richard Zimler, A sétima porta

Código de estrada

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A minha preguiça não é de hoje

Preguiça Magazine

Perdi a conta às vezes em que a minha mãe, a determinada idade, me chamou preguiçoso. Não é de hoje, portanto, a minha preguiça. Só que se nessa altura o epíteto em causa era coisa para fazer ter vergonha, hoje é com orgulho que apareço no Instagram da Preguiça, magazine nascida em Leiria e que aposta na divulgação cultural de uma forma muito original e independente. Muito obrigado à Preguiça Maganize e um obrigado especial à Carla de Sousa pelo convite, pela edição e por toda a atenção!

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Arquitectura do voo

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Conta-me como foi…

Em banda desenhada, como merecem os heróis, numa história que também pareceu saída de um almanaque. Eis a vitória de Portugal no Euro 2016: união, esforço, crença e, é preciso dizê-lo, competência. Um colectivo em que as individualidades surgiram apenas quando foi necessário – até os mais improváveis! Tudo isto e sorte, que não é fácil lembrar de um campeão sem sorte.

Se podíamos ter jogado um futebol mais bonito? Podíamos, mas não conseguimos. E para esse peditório já demos muitas vezes. Faltava ganhar!

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Bonsai

No final ela morre e ele fica sozinho, embora na realidade tivesse ficado sozinho vários anos antes da morte dela, de Emília. Digamos que ela chama-se ou chamava-se Emília e que ele chama-se, chamava-se e continua a chamar-se Júlio. Júlio e Emília. No final Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura:

Este é o primeiro e muito promissor parágrafo de Bonsai, do chileno Alejandro Zambra. Já não me recordo bem como dei com este autor, mas lembro-me de ter ficado preso a dois outros títulos seus, A vida privada das árvores e Formas de voltar para casa. Entre a infrutífera pesquisa destes livros na biblioteca e a descoberta deste pequeno livro numa conhecida plataforma de vendas, passou um par de meses. E se o livro não tardou muito em chegar, menos tardou em ficar lido. Embalado pelo já elogiado primeiro parágrafo, mergulhei numa história que mistura literatura, relacionamentos e, naturalmente, sexo. O livro, que tende mais para o conto do que para o romance, apresenta-se um tanto disperso e pouco aprofundado. Chega a parecer um esboço de livro, uma série de ideias  a desenvolver, uma estrutura a preparar-se e a tomar forma. Por conhecer os outros títulos de Zambra e acometido por uma curiosidade fácil de entender, fui consultar a ordem de publicação das obras do autor e verifiquei que A vida privada das árvores foi publicado uma ano após este Bonsai. Este é motivo mais do que suficiente para manter viva a minha ideia de que este pequeno livro foi só um esquisso de coisa maior e para continuar  busca de mais prosa de Alejandro Zambra.

De Bonsai, resta-me apenas o elogio à ideia e a parágrafos soltos – tudo o resto é demasiado superficial.

Se tem Justin Vernon, tem que aqui estar

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O retorno

O retornoNasci no Porto, tripeiro como manda a lei, mas cresci a ouvir mil e uma histórias de Angola. Dos meus avós, dos meus pais e dos meus tios. Histórias de uma terra que, ou parecia feita para dar, ou toldava as memórias de todos os que por ela passaram apenas com o que havia de bom para recordar. Cresci a comer funge, moamba e jindungo. Ainda hoje são pretexto para juntar a família à mesa. Não cresci a ouvir Waldemar Bastos, mas a primeira vez que o ouvi foi como se o ouvisse desde sempre. Cresci em Luanda, no Negage, em Carmona e em Malanje sem alguma vez lhes ter pisado a terra. As raízes de um homem têm pouco a ver com os pés e tudo a ver com a cabeça. E, na cabeça, Angola esteve quase sempre presente. Daí que o que este livro significou para mim pode não ter o que quer que seja a ver como o que significará para quem Angola é só o nome de um país africano.
Não se procure, neste O retorno, rigor histórico e enquadramento político-social – ainda que os tenha, aqui e ali. A Dulce Maria Cardoso interessou mais o relato pessoal e sentimental, a memória. Narrada por um adolescente, a história surge-nos muito crua, por vezes até dura, mas a realidade foi mesmo assim, não há como fugir-lhe. A escrita despida de floreados e acelerada – a ausência de parágrafos para os diálogos é um dos factores que contribuem para essa velocidade narrativa – assenta bem na idade do narrador, uma idade tendencialmente ávida. E Rui, o adolescente que nos vai revelando, com a história da sua família, a história de muitas famílias, manifesta bem essa avidez quando percebemos que todas as esperas lhe são penosas. Há em Rui a avidez por perceber o passado, por resolver o presente e por preparar o futuro.
A terra não tem dono, as coisas mudam facilmente de dono e o passado, prova-nos muita literatura, tem mais do que um dono. O retorno será sempre um belíssimo livro, mas acredito que se transcenda para quem tem na história histórias semelhantes. Aconselhável para todos, obrigatório para muitos.

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Paralelas, perpendiculares e oblíquas

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Da procura

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Instórias #15

Encosto o dedo à tua fotografia e repito o passeio domingueiro pela marginal do teu corpo. Devagar, assim obriga o trânsito de sentimentos que me provocas. Contorno a faixa costeira a respirar a maresia tranquilizante do teu cabelo sem ondulação. A areia molhada que é a pele dos teus ombros devolve-me o brilho que reconheço como sendo o do teu olhar. Curvo à esquerda, o dedo a derrapar para o teu pescoço, e entro no percurso acidentado que é a fina cordilheira das tuas vértebras. Ainda mais devagar, assim obriga a topografia, uma subida a custo, o dedo a vencer a oposição da gravidade, uma descida cuidadosa, o dedo a fazer o que pode para demorar. Continuar a descida significa entrar no vale abrigado das tuas omoplatas e, na ausência dos sulcos vertebrais, embalado pela paisagem que se vai revelando, ganhar velocidade até perder o fio à meada das palavras. Perder-me. Mas perder-me nunca foi uma preocupação. Essa foi sempre e toda perder-te.

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O pai diz-me, estes homens precisam de mais bebida, vai buscar outra grade, o soldado que está de pé diz, dá corda aos sapatos, rapaz, imitando o que o pai disse há pouco, os outros soldados riem-se e o pai também, pode parecer que está tudo bem, que são homens que se divertem, mas não, se o pai tivesse tido escolha, se pudesse ter escolhido rir-se era diferente, o pai tem de se rir. Dantes era o pai que decidia quando se ria, como te chamas, Málátia, patrão, que matumbo, nem o nome sabes dizer, o Malaquias também tinha de se rir quando o pai se ria, agora é a vez de o pai ser o último a rir, e não é verdade que quem ri por último ri melhor, quase nada do que se dizia é verdade, Angola já não é nossa, foi na manhã de quatro de fevereiro que os heróis cortaram as algemas para vencer o colonialismo e criar uma Angola renovada.

Dulce Maria Cardoso, O retorno

O último a rir

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Um Homem: Klaus Klump

Um homem: Klaus KlumpFecho finalmente a tetralogia O Reino com o livro que a inicia. Não sei se foi o melhor percurso, o escolhido, mas foi certamente um percurso injusto para este Um Homem: Klaus Klump. Não que o considere um mau livro, mas porque se nota nos livros que o seguem um apuramento da técnica e da subtileza de Gonçalo M. Tavares na abordagem à temática do mal. O que começa por ser, neste primeiro volume de O Reino, uma abordagem crua e bruta, chega-nos de forma refinada nos volumes seguintes, especialmente em Jerusalém e Aprender a Rezar na Era da Técnica. Neste arranque de tetralogia já se consegue perceber, ainda que de forma menos evidente, a preocupação do autor em relação à questão da acção, à dualidade entre fazer e esperar. Um Homem: Klaus Klump, ao mergulhar na loucura, acaba por ser o menos coerente desta série de livros, mas não é por isso que deve ser deixado de parte. Do meu breve contacto com Gonçalo M. Tavares, aliás, ainda não li uma obra dispensável.

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A brutalidade é de uma delicadeza exuberante face às pessoas ricas; nada de novo.

Gonçalo M. Tavares,  Um homem: Klaus Klump

Do dinheiro

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Vida de estrada

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Ontem, hoje e amanhã

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O Torcicologologista, Excelência

O Torcicologologista ExcelênciaPorque as estantes das bibliotecas não são, apesar de tudo, iguais às de casa, não foi desta que me foi possível trazer para casa o livro que falta para fechar a tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares. Veio, em vez desse, o mais recente O Torcicologologista, Excelência. Se os livros de O Reino são livros negros no conteúdo e na apresentação, este está quase no extremo oposto, com um registo algo cómico e a sua capa amarela. O que nele se mantém, é a tendência do autor para a filosofia, para as questões da existência e para a experimentação. O livro divide-se em duas partes desiguais em tamanho, forma e conteúdo: Diálogos e Cidade. A primeira parte reúne conversas entre duas personagens não identificadas que se tratam por excelência, conversas que atravessam muitas vezes a fronteira da lógica e tocam o absurdo, mas que não deixam de cativar e inquietar. Coisas mundanas como a questão do sair para dentro, ou ideias como a de explorar cidades com o mapa de outras cidades, para assim descobrir sítios que dificilmente visitaríamos de outra forma, fazem desta leitura um passeio interessante e, pela sua estrutura, nada cansativo. A segunda parte do livro, Cidade, mantém o anonimato das personagens, aqui identificadas de forma numérica, e funciona como uma descrição catártica do que é o viver urbano. Nesta metade – que, em rigor, é mais um terço do que uma metade – final de O Torcicologologista, Excelência, Gonçalo M. Tavares despe momentaneamente a filosofia que o caracteriza, deixa de procurar respostas, abandona experiências e relata cruamente.

O número 37 está a pensar casar.
O número 38 está a pensar divorciar-se.
O número 39 está a pensar em enganar a mulher.
O número 40 está a pensar que está a ser enganado pela mulher.
O número 41 está a pensar que o marido o engana.
O número 42 está a dormir com a amante.
O número 43 partiu outra vez um copo.
O número 44 foi ao hospital visitar o pai e quando voltou disse à mulher: mais um mês.

E é deste contraste entre o pensamento filosófico – de Diálogos – e o acto mecânico de viver – de Cidade -que O Torcicologologista, Excelência retira o seu melhor trunfo. Uma leitura que se faz bem. E que faz bem.

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