Ficheiros pouco secretos

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Bom dia. Boa semana.

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Venezuela

Sou português, nascido no Porto, crescido na Aguda e a envelhecer em Matosinhos. Sou quase tudo daqui, deste rectângulo com varanda para o Atlântico, mas moram em mim mais dois países, um que nunca pisei, nas quentes terras africanas, e outro por onde gatinhei, num canto latino voltado para as Caraíbas. Do primeiro, Angola, enchi-me de memórias e paixões familiares. Histórias maravilhosas de um território tão próspero que parecia nascido do verbo dar. Do segundo, a Venezuela, trouxe na bagagem palavras que acabei por transformar e que só mais tarde percebi de onde vinham. Também daí me enchi de boas histórias familiares. Algumas que, por muito que me incluam, não consigo ter como minhas, tão cedo de lá regressei. Em todas, no entanto, mesmo nas melhores, nas mais felizes, arrastam-se palavras que não foram ditas ou escritas. Cuidado. Cautela. Atenção. Essas palavras que, no fundo, me fizeram voar para fora da asa materna. Cuidado. Cautela. Atenção. Vim ter com a abuelita e o abuelito que, deste lado, passaram a ser só balita e balito. Aportuguesei as palavras e fiz do meu fado seguinte olhar para o céu. De fralda, sentado no degrau cimeiro da casa dos meus avós, à procura do avião que traria os meus pais. Cuidado. Cautela. Atenção. Nessa altura, a Venezuela não era só um conto de misses. Nem hoje.
A atravessar uma crise política que já está marcada a sangue, o país mostra que não está maduro. O que lá se vive – e que me toca de forma algo especial – deve ser visto nas fotografias reunidas no sempre brilhante The Big Picture, do The Boston Globe. Não há melhor forma de contar as coisas. Cuidado. Cautela. Atenção. A Venezuela tem que largar estas palavras.

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Bom dia. Boa semana.

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O Papalagui

O Papalagui reúne discursos de um chefe de uma tribo de Tiavéa, na ilha samoana de Upolu, sobre o europeu ou, de forma mais genérica, a civilização. Com simplicidade indígena, são levantadas questões em que facilmente nos revemos e para as quais nem sempre temos uma resposta que possamos considerar muito boa. É assim e pronto. O chefe Tuiavii estranha os hábitos europeus em relação ao vestuário e ao que do corpo se pode revelar, questiona o tipo de habitação em que o europeu se fecha, o valor que se atribui ao dinheiro e à posse de todo o tipo de bens. Para o chefe da tribo, o meu é uma novidade. Aborda-se ainda, nos breves textos reunidos em O Papalagui, a relação difícil do homem europeu com o tempo, que prendeu em utensílios que o dividem em dias, horas e minutos.
Sem grandes pretensões literárias, até para não ferir a origem dos textos, este é um livro que se lê bem entre outros de maior fôlego, sem deixar de ter o seu interesse.

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Bom dia. Boa semana.

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Tantas mães numa mãe 

Esta era a Lena de Carmona e do Negage. Uma Lena que era menina, era Maria e era rapaz. A Lena das bicicletas e da motas, dos joelhos esfolados e das pernas cheias de nódoas negras. A Lena que subia às árvores e, sem saber, tomava banho junto aos crocodilos. A Lena que, na sala de aula, ficava na carteira em frente à do professor e que, mesmo assim, ainda arranjava tempo para orquestrar todos os outros colegas. A Lena que ia ter motorista, cozinheira e empregados, que não precisava de aprender as lides domésticas. A Lena de hoje é outra. Já foi mãe à distância, à força de lágrimas e resistência. Aproximou-se para ser mãe presente. De dois filhos. Dispensa cozinheira, dispensa motorista. Ironia do destino, a Lena de hoje é a Professora Helena, mãe de muitos filhos que não são seus. E de filhos desses filhos. A Lena também é avó, que todos sabemos que corresponde a ser mãe duas vezes. A Lena de hoje resiste como resistiu sempre e é, por estes dias, mãe da mãe.

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Os jornais são maus para o nosso espírito, não só porque relatam o que se passa, mas também porque nos dizem o que devemos pensar disto ou daquilo, dos nossos chefes de tribo ou dos chefes de tribo doutras terras, e de todos os acontecimentos e acções dos homens. Os jornais gostariam que todos os homens pensassem o mesmo. Atacam a cabeça e os pensamentos do indivíduo. Pretendem que toda a gente tenha cabeça e pensamentos iguais aos deles. E sabem como levar isso a cabo. Quem leia, pela manhã, os muitos papéis, saberá o que, ao meio-dia, o Papalagui tem na cabeça e em que pensa.

Erich Scheurmann, O Papalagui

 

Lavagem cerebral

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Yoro

Com ponto de partida na bomba de Hiroxima, Yoro arranca para umas primeiras quarenta ou cinquenta páginas de intensidade assinalável. Por uma boa meia dúzia de vezes, apetece transcrever e guardar parágrafos inteiros. Não é de estranhar, por isso, que por essa altura estivesse deslumrado com o livro, que prometia tudo. Acontece que um romance é uma prova de resistência e dificilmente um autor pode ambicionar começar e acabar a ritmo alucinante. A partir de determinada altura, o romance desdobra-se em acontecimentos pessoais que, ao sobrecarregarem as mesmas personagens, as tornam mais inverosímeis. A busca de Yoro, a personagem, é o fio condutor de uma história que ligará a bomba atómica de Hiroxima às minas de exploração de urânio da República Democrática do Congo, e é precisamente nesses dois extremos que está o melhor de Yoro, o livro. Duas realidades tão iguais e aparentemente tão distintas ao mesmo tempo. É aí que Perezagua deixa interessantes questões e respostas felizmente incompletas, que deixam espaço para os juízos do leitor. Paralelamente, dá-se nestas mesmas páginas outra busca, a da identidade sexual e do apelo maternal. Não é assunto de menor interesse ou pertinência, mas dá-se o tal caso de ser muita coisa para carregar num só livro. Ainda assim, acreditando que esta obra – que é a estreia da autora no registo de romance – tinha mais a ganhar em pretender menos, não deixa de ser um bom livro e um excelente indicador para o que podemos esperar de Marina Perezagua.

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Flâneur

É assim bem embrulhado que um escritor dominicano chega a Matosinhos, pelas mãos do simpático Arnaldo. Tudo uma maravilha. A avivar a vontade antiga de visitar o espaço físico da Flâneur.

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Era uma vez um alfabeto

Depois de Sobe e desce e de O íncrivel rapaz que comia livros, foi a contar com coisas boas que abri este Era uma vez um alfabeto. São, tal como é anunciado no subtítulo, pequenas histórias com todas as letras. O humor está quase sempre presente e as ilustrações são uma maravilha de simplicidade e de inocência que assentam lindamente no teor das histórias. Vencedor do prémio Children’s Books Ireland para o Livro do Ano 2015, este Era uma vez um alfabeto está perfeitamente adequado para idades a partir dos recomendados seis anos – o que nem sempre acontece, neste segmento literário – e é uma excelente oportunidade para desfrutar da leitura em família.

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Uma teia especial

Uma teia especial

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Bom dia. Boa semana.

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Saber de experiência feito

A 30 de Abril de 2011, há precisamente seis anos, portanto, partilhei aqui uma publicação com o título Se chover, fico bem em casa. Hoje, passado esse período de amadurecimento de seis anos, com  o acréscimo de sabedoria que a vida se encarrega de ir ministrando, ao acordar para uma manhã com tanto de chuvosa como de ventosa… decidi fazer-me aos montes e percorrer quinze quilómetros. Por sorte, o tempo acabou por melhorar e a lama não foi em excesso, mas este episódio deixou-me com dúvidas quanto ao saber de experiência feito.

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O bibliotecário

O bibliotecário é a centelha que transforma um arquivo bibliográfico numa biblioteca. Matosinhos tem uma biblioteca.

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Menina a caminho

Depois de Um copo de cólera e de Lavoura arcaica, foi com naturalidade que peguei em Menina a caminho, livro de contos escritos maioritariamente nas décadas de sessenta e setenta, e que nesta recente edição conta com um bónus de dois contos e um ensaio. A escrita de Raduan Nassar já ali está, cheia de cuidados e ornamentos, mas a verdade é que a viagem não parece levar a lado algum – volto a colocar a hipótese de esta minha sensação poder estar ligada à minha menor afeição, com as devidas excepções, aos contos. São textos que se afiguram essencialmente descritivos, talvez uma exploração inicial da linguagem nos primeiros anos de ficção do autor. E se os contos não parecem ter um destino, mais deslocado ainda aparece o ensaio que fecha este breve livro. É um ensaio que se debruça sobre temas interessantes, mas que, de tão visados, só mereceriam destaque pela originalidade da abordagem, que não se vislumbra aqui.

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Bom dia. Boa semana.

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Alentejo

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As imagens mais concretas e poderosas, que julgava serem património meu, repetiam-se em testemunhos de pessoas diferentes. Naquele momento, dei a explicação que me pareceu mais lógica. Pensei que a causa de os próprios sobreviventes emprestarem uns aos outros as expressões mais eficazes podia ser o indescritível, criando assim uma língua do horror: a língua mais recente, aquela que se aprende de repente, aquela que não se transmite de pais para filhos, e sim de testemunha para testemunha. Nessa língua, «uma figura com a cabeça tão inchada que triplica o seu tamanho» só pode ser exprimida como «uma figura com a cabeça tão inchada que triplica o seu tamanho». Não existem expressões equivalentes. É uma língua sem sinónimos.

Marina Perezagua, Yoro

Uma língua sem sinónimos

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Bom dia. Boa semana.

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