Partidarismo

Enquanto olharmos para a política como quem vê futebol, como adepto de um clube, estaremos a perder tempo. Só que no futebol perder tempo é só anti-jogo, na política é anti-futuro.

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Big Brother

Um bocado assustador perceber o que, sem qualquer referência, o Facebook sabe.

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Fia-te nessa…

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Nada disso, garanto, é pessoal
Não tem uma pitada de má-fé,
Mas ninguém faz amor em Portugal
Sem antes passar horas num café.

Se quiseres transar em terra lusa,
Jamais alcançarás algum sucesso
Em levantar, de um português, a blusa
Se não tomarem baldes de expresso.

Bebe-se mais café que se ouve o fado.
Nesse país viciado em cafeína
Jamais sequer beijei uma menina

Que não tivesse, antes, se dopado.
Não importa o trabalho que dedicas,
Não farás (nem terás) bicos sem bicas.

Gregorio Duvivier, Sonetos
(Via Comunidade Cultura e Arte)

Sai um café 

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Bolaño sem espírito

Em O espírito da ficção científica encontram-se, efectivamente, algumas passagens à Bolaño. Só fica a faltar o resto, o que agiganta Os detectives selvagens e 2666. É um livro que se recomenda, essencialmente, a fãs e curiosos do escritor chileno: podem-se encontrar, nesta obra, os embriões de algumas personagens e acontecimentos de outros livros seus e podem-se encontrar, na parte final, imagens de rascunhos do autor, onde se vislumbram métodos e abordagens. Essencialmente por isto. Enquanto história, enquanto livro por si próprio, é pouco. Bolaño é muito mais.

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Bom dia. Boa semana.


A chuva é um bom início. Que apague o que há para apagar e que acelere o crescimento do muito que há a refazer, seja na terra ou no peito.

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📖 5

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Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal
comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas. Traje de passeio».
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos
todos assistir à despedida.
Apertos de mão quentes. Ternura de calafrio.
«Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes… (primeiro, os olhos…
em seguida, os lábios… depois, os cabelos…) a carne,
em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além (vêem?) – nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…

José Gomes Ferreira 
(via Cristina Padrão)

Devia morrer-se de outra maneira

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E trazer isto até ao Porto?

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Bom dia. Boa semana.

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É assim que a natureza funciona. Pensa nos amantes. Se os amantes estivessem todo o tempo agarradinhos um ao outro já não precisariam de se amar. Seriam um só. Já não haveria nada para desejarem. É por isso que a natureza tem intervalos.

J. M. Coetzee, A infância de Jesus

Dos intervalos

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📖 4

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Bom dia. Boa semana.

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Uma vontade quase secreta

A evidenciar o ritmo da leitura do Coetzee a que agora me lancei, trazido da biblioteca, está um marcador que aponta para o Diário Volúvel, do muito estimado Enrique Vila-Matas. Porque, ainda na biblioteca, não consegui resistir a um Bolaño mais recente que por lá repousava, reparei que também entre as suas páginas trouxe um marcador que nada tinha a ver com a obra do escritor chileno. Desta feita, evidenciava um meu desconhecido – e agora alvo de curiosidade – Alessandro Baricco. Estas duas situações lá acabaram por plantar na minha cabeça uma muito romântica ideia, responsável por algumas dúvidas: 1) haverá, entre a comunidade de leitores da biblioteca, alguém a querer traçar o rumo das leituras dos outros? 2) que tal aceitar estas indicações e verificar se têm seguimento? 3) na muito provável eventualidade de isto ter sido apenas uma coincidência, como fugir à vontade de vestir esta secreta personagem?

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Bom dia. Boa semana.

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Os mesmos problemas, problemas tão diferentes

Final do dia de trabalho. Tiro o calçado de segurança que usei e volto a calçar as sapatilhas, as mesmas que calcei de manhã, distraidamente, e que agora sinto quase como recompensa. Tenho vontade de pedir-lhes desculpa e de lhes dizer o quanto as estimo. No dia  seguinte, acordo e calço as sapatilhas com os mesmos gestos mecânicos e a mesma abstração.
Tenho consciência de que isto já me aconteceu com as pessoas que me fazem sentir bem.
Os problemas de calçado são tão simples.

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Falar da História
é abandonar momentaneamente o nosso compulsivo silêncio e dizer (sem esquecer as datas) o que então não puderam dizer aqueles a quem foi imposto igual silêncio.
Para denunciar tudo hoje, quando nenhuma diferença faz.

Reinaldo Arenas, O engenho

Da História

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Não há nada a dizer; resta-nos derrear o corpo e fuçar.
Não há nada a dizer da liberdade: aqui, ou nos calamos ou morremos com um tiro.
Não há nada a dizer da humanidade: aqui, ou aplaudimos ou morremos com um tiro.
Não há nada a dizer dos sagrados princípios da justiça: aqui, ou prostramos o nosso corpo de escravos ou morremos naturalmente com um tiro.
Assim se resumem os nossos direitos.
(É tudo muito, muito claro: nem frases grandiosas, nem complexas teses filosóficas, nem poemas herméticos. Ao terror basta a simplicidade deste verbo épico: dizer.)
E é preciso dizer.
É preciso dizer.
Aqui, onde nada se pode dizer, é exactamente onde mais há a dizer.
É preciso dizer.
É preciso dizer tudo.

Reinaldo Arenas, O engenho

Do verbo dizer

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Bom dia. Boa semana.

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