#instazulejo

Faz hoje quatro anos, a ideia do #instazulejo. Este é o número um. Entretanto, o conceito juntou adeptos e amigos que gostam de contribuir para a colecção. Vai, tranquilamente, com a paciência que a idade lhe deu, a caminho dos seiscentos registos. Já me parece um bocadinho de Portugal.

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O propósito da palavra

Resumir a palavra à semântica é tarefa de documentos, de contratos, de notícias. A literatura tem de ir mais além. Tem que carregar o seu significado, naturalmente, mas tem que ter mais qualquer coisa. Por mais qualquer coisa, podemos estar a falar de outros significados, do que pode estar para lá do óbvio, do literal, podemos estar a falar de estética, ou de sonoridade, por exemplo (e abro um parêntesis para sublinhar aqui a importância da tradução, também). Se os meios de comunicação devem reproduzir, a literatura tem que produzir. Tem que se fazer sentir, inquietar, ou aquietar. A informação deve esquivar-se de tudo o que é corpo para tocar apenas a razão, enquanto que o propósito da palavra literária é chegar à razão por abalroamento. Afonso Cruz sabe disso tudo. Sabe de muito mais. Daí que os seus livros transbordem literatura. Numa voz muito própria, uma mescla de sabedoria com inocência, o autor usa todos os artifícios sem espalhafato. Está lá tudo e parece sempre coisa pouca. Debruço-me sobre um parágrafo específico, entre intermináveis possibilidades, pelo que podia ter de exclusivamente informativo. Surge em Nem todas as baleias voam:

Acordaram Gould a meio da noite, quando se aperceberam do fogo, disseram-lhe que era na casa do seu melhor amigo. Erik correu para ajudar a apagar o incêncio, mas debalde, era tarde demais. Quando regressou a casa, sentou-se ao piano e tocou as notas do fogo a crepitar. Uma por uma.

Simples: acordaram Gould para lhe dizerem que a casa do seu melhor amigo ardia. Depois vem a literatura! Erik (Gould) correu para ajudar a apagar o incêndio e a palavra debalde, que nos indica que esse esforço foi inútil, chega carregada de segundas intenções, com a missão quase visual de levar à cabeça do leitor (à minha levou!) um personagem aflito a apagar o fogo de balde. Isto agiganta a sensação de angústia de Erik e dá ênfase à referida amizade. Uma única palavra. Debalde só ali aparece para isso. Com o propósito de informar, a frase podia muito bem ser […] Erik correu para ajudar a apagar o incêndio, mas era tarde demais. Para Afonso Cruz, para a literatura, ficava a faltar o essencial.
O que resta do parágrafo é a prosa a chegar-se à poesia, o sofrimento interior do personagem a arrastar-se na melodia vagarosa do crepitar do incêndio, estalido a estalido, nota a nota, muitas dores a comporem uma dor maior.
É esta a força da palavra. É este tipo de coisas que me faz andar de livro em livro. É este o propósito da palavra, na literatura.

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Um dia o amigo disse-lhe: Gostava de ser como tu, de ter as mesmas oportunidades. E Gould esforçou-se a vida toda por ser o melhor, para que o amigo pudesse ser como ele. Não adiantaria nada ser como ele se ele fosse medíocre, só valeria a pena se ele fosse o melhor.

Afonso Cruz, Nem todas as baleias voam

Da amizade

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Bom dia. Boa semana.

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Bartleby

Ler Bartleby foi perceber o quão estupidamente tarde cheguei a Herman Melville. Basta um livro breve como este para perceber a escrita transparente do autor, que revela uma capacidade singular de contar uma história, de descrever todos os acontecimentos com clareza. Lê-se como se se estivesse a ver e a sentir. E à história perfeitamente contada junta-se a incrível personagem que lhe dá o nome, Bartleby, personificação da inércia, da inacção. Podia alongar-me mais em considerações sobre este livro, mas podia resultar em qualquer coisa mais extensa do que a própria obra e, mesmo assim, não lhe fazer justiça: i would prefer not to.
Herman, Herman, ver-nos-emos em breve, te garanto.

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Crítica gráfica

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Heterónimos

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Talco de vidro

A leitura não foge ao exemplo dos dias e, por vezes, toma caminhos imprevisíveis. Desta vez, levou-me até uma novela gráfica de Marcello Quintanilha, Talco de vidro. O ilustrador brasileiro também se mostra hábil na construção da história, cheia de questões quotidianas, mundanas, fácil de acompanhar e com uma natureza narrativa adequada ao grafismo, intensa e veloz ao mesmo tempo.
Não sendo o meu género de eleição, Talco de vidro foi uma leitura agradável. Voltarei a Marcello Quintanilha, curioso com Tungstênio, entre um ou outro romance mais pesado.

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Lavoura arcaica

De volta a Raduan Nassar, confirmo o cuidado na escolha das palavras apontado aquando da leitura de Um copo de cólera. É novamente sobre a escrita que teimam em recair as atenções, mesmo que a história não mereça ser desvalorizada. Em Lavoura arcaica, que explora a parábola do filho pródigo, André decide abandonar a família, regida a uma voz, a do pai, com regras bem definidas, bem tradicionais e cristãs. Foge às regras e procura mergulhar em tudo o que lhes é contrário. Foge às regras e a um amor que não tem como sobreviver. Tal como na já referida parábola, o pai manda outro dos seus filhos procurar André e trazê-lo de volta a casa, onde se preparará uma festa em honra do seu regresso. E é precisamente a partir do regresso de André que o livro, que é muito bem escrito desde a primeira página, ganha outra intensidade e alcança o brilhantismo. Raduan Nassar consegue prender pela mestria da sua escrita, mas é na alteração do ritmo das narrativas que mais cativa – já assim tinha acontecido com Um copo de cólera. O que é contemplação linguística até ao capítulo final, passa a ser leitura desenfreada daí até  à última frase.
A adaptação cinematográfica de Lavoura arcaica pode ser facilmente encontrada, na íntegra, no YouTube, mas é no papel, na ordem das palavras, no que é apenas sugerido, que a história mais tem a ganhar.

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Bom dia. Boa semana.

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Microcosmos [o cemitério]

Estranho o espanto provocado pela minha recusa em ir ao cemitério, onde mora o teu corpo, esse traidor. Se ainda lá estivesses tu…

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A vegetariana

A vegetariana é um livro que não respeita o leitor: rouba-lhe horas de sono, muda-lhe as rotinas e ocupa-lhe o pensamento. Pelo menos, foi assim que aconteceu comigo. Como se não lhe bastasse o defeito, também engana: A vegetariana tem muito de carnal, nas três partes em que se divide. No centro desta vertigem escrita estão duas irmãs, Yeong-hye e In-hye, e os seus maridos, essencialmente. É na primeira parte do livro, quando Yeong-hye decide deixar de comer carne, que as vísceras de uma família espartilhada por regras rígidas se expõem. A partir daí tudo se questiona, tudo se estranha e tudo se entranha. Directa ao assunto, dura, sem eufemismos, a escrita de Han Kang consegue, ainda assim, criar imagens fortíssimas, principalmente na segunda parte do livro, Mancha mongólica, que já havia sido publicada e premiada antes de ter sido incluída neste romance. A terceira parte do livro, voltada para a sobrevivência e para a consciência, chega quando o leitor já não tem como abrandar. E é em desassossego que se alcança o final do livro, que até na extensão soube ter acerto. Ao terceiro mês de 2017, foi a melhor leitura que o ano me trouxe.

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Escura era a noite

Escura era a noite

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Um copo de cólera

Conduzido a Raduan Nassar pelo muito recomendável Mário Rufino, só posso considerar que a viagem pecou por tardia. Com este Um copo de cólera, o autor brasileiro apresenta-se como uma daquelas vozes de que gosto, que olham para a palavra, para a frase, como mais intenção do que buscar significados. É sempre uma escolha a cuidar da musicalidade da prosa, de uma certa harmonia, mais do que escrita, oral. O ritmo é lento quando tem que ser lento e vertiginoso quando manda que assim seja. A narrativa é quase um pretexto contemplativo, trata de um casal que vai de uma elegantemente escrita e tórrida cena de sexo a uma discussão desenfreada. O motivo aparente é minúsculo, mas esconde um sem fim de inseguranças. Um livro de linguagem adequadamente crua.
Já adaptado a cinema, numa curta-metragem facilmente acessível no Youtube, Um copo de cólera pede o papel. A edição da Companhia das Letras percebeu bem a importância da palavra, deu-lhe corpo, protagonismo, e não resumiu o livro às cinquenta páginas em que cabia perfeitamente. Leitura que eleva expectativas para Lavoura arcaica, a ler muito em breve.

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Bom dia. Boa semana.

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Arranha-céus

Arranha-céus Pegar neste livro de J.G. Ballard foi, confesso, quase um acaso. Numa das minhas habituais incursões à biblioteca, em busca de uns livros que levava em mente, deu-se a coincidência de estes não estarem disponíveis. Tratada a reserva dos mesmos para uns dias depois, sobrava esse intervalo de tempo para ocupar – mesmo que durante uns dias não seja possível ler, é sempre um descanso saber que há um livro à disposição. Na primeira estante lá estava este Arranha-céus, que só não foi um acaso completo porque a chancela Elsinore despertava interesse há já algum tempo.
Não sendo o meu género literário de eleição, esta foi uma leitura interessante, um exercício que comparo, no propósito, aos ensaios de Saramago. Com uma escrita directa, sem excessos, Ballard alicerça-se na ideia distópica de fechar uma comunidade num arranha-céus em que estivessem encerrados todos os serviços essenciais. Tal como nos ensaios do Nobel português, à introdução da primeira anomalia (como um inexplicável surto de cegueira, ou a interrupção da morte), os acontecimentos precipitam-se da forma que todos conhecemos, sempre a piorar e a expor, gradualmente, o que o homem tem de mais animal.
Arranha-céus, que conheceu adaptação cinematográfica relativamente recente, não é o mais original e brilhante exercício deste tipo – na minha opinião, fica a perder para Saramago, por exemplo -, mas vale bem o tempo que se lhe dispensa.

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Little waves our bodies break

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A vida secreta das palavras

Eis-me debruçado no parapeito de um livro, a espreitar com estranheza inicial as palavras que nele vivem. São palavras nascidas no outro lado do Atlântico, mais abertas, mais próximas da oralidade: palavras mais à mão de semear pela boca. Entre elas, reencontro cumbuca, palavra que o meu pai traz ao convívio frequentes vezes. Eis-me, portanto, debruçado no parapeito de um livro voltado para o Brasil, janela para um sotaque diferente, a encontrar o meu pai numa palavra escrita por Raduan Nassar.

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Ai Portugal, Portugal…

Sem querer exagerar, a polémica em torno do vencedor da mais recente edição do Festival da Canção fez-me dedicar mais tempo ao concurso do que dediquei às últimas dez edições. Todas juntas. Isto porque ando à procura de uma explicação para tanta controvérsia. Qual é, então, o problema? A interpretação? O intérprete em si? A Lady Gaga e a Sia são excêntricas. O Prince era excêntrico. Oh, o Ney Matogrosso, que figura genial. Saudoso Variações. O Salvador, esse, é só estranho, pelos vistos. Nem parece que já fomos representados pelos Homens da Luta. Nem parece que uma Conchita de barba já venceu a Eurovisão. O problema, afinal, é a música não ser “festivaleira”? Realmente, não se percebe a ideia peregrina: as anteriores escolhas tinham tido tanto sucesso. Ai Portugal, Portugal…

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I just want to love you in my own language.

Alt-J, 3WW

Problema de expressão

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